Introdução
Entre as
inúmeras questões que surgem quando começamos a compreender a lei da
reencarnação, poucas são tão frequentes quanto esta: se já vivemos outras
existências, por que não nos lembramos delas?
À
primeira vista, parece razoável imaginar que a recordação integral do passado
facilitaria a reparação dos erros cometidos, o reencontro com antigos desafetos
e a continuidade do aprendizado interrompido pela morte do corpo físico.
Entretanto, a análise da questão à luz da Doutrina Espírita conduz a uma
conclusão diferente: o esquecimento temporário do passado constitui uma das
mais sábias expressões da justiça e da misericórdia divinas.
Longe de
representar uma limitação imposta ao Espírito, esse esquecimento funciona como
instrumento educativo, mecanismo de proteção psicológica e oportunidade
renovada de progresso moral.
O esquecimento do passado na lógica da reencarnação
A
Doutrina Espírita ensina que o Espírito é imortal e progride através de
múltiplas existências corporais, adquirindo gradativamente conhecimentos
intelectuais e virtudes morais.
Cada
encarnação representa uma etapa desse processo educativo.
Entretanto,
para que esse aprendizado ocorra de maneira equilibrada, Deus não permite que o
Espírito conserve, durante a vida corporal, a lembrança completa das
existências anteriores.
Em O
Livro dos Espíritos, ao tratar dessa questão, os Espíritos esclarecem que a
recordação integral do passado frequentemente produziria inconvenientes maiores
que os benefícios aparentes.
Aquilo
que hoje nos parece solução poderia transformar-se em grave obstáculo ao
progresso individual e coletivo.
A preservação da paz nas relações humanas
Uma das
primeiras consequências da lembrança integral das vidas passadas seria a
perturbação das relações sociais.
A
reencarnação frequentemente reúne novamente Espíritos que já conviveram em
outras épocas, seja em relações de amizade e afeto, seja em experiências
marcadas por conflitos, abusos de poder, injustiças e desentendimentos.
Muitos
retornam ao mesmo círculo familiar ou social justamente para reconstruir
vínculos rompidos e reparar prejuízos anteriormente causados.
Se duas
pessoas que hoje precisam aprender a amar-se e compreender-se recordassem
claramente as agressões e humilhações do passado, quantas conseguiriam vencer o
ressentimento?
O orgulho
talvez reacendesse antigas disputas.
O desejo
de vingança poderia renascer.
A
vergonha poderia impedir a aproximação reparadora.
O
esquecimento temporário permite que o reencontro aconteça sob novas condições,
oferecendo ao Espírito a oportunidade de reconstruir relações sem o peso
emocional das experiências anteriores.
A
Providência Divina não elimina as consequências dos atos praticados, mas
suaviza os mecanismos de reparação para que o progresso se torne possível.
A consciência como patrimônio moral do Espírito
Embora os
fatos específicos sejam esquecidos, suas consequências morais permanecem
incorporadas ao Espírito.
Nada se
perde.
As
experiências vividas transformam-se em tendências, aptidões, facilidades,
dificuldades, inclinações e valores adquiridos ao longo da jornada evolutiva.
A
inteligência conquistada permanece.
As
virtudes desenvolvidas acompanham o Espírito.
Da mesma
forma, imperfeições ainda não superadas reaparecem como desafios interiores a
serem vencidos.
Por essa
razão, a Doutrina Espírita ensina que não precisamos saber exatamente quem
fomos, mas compreender quem somos atualmente.
Nossas
tendências revelam com relativa clareza os pontos que ainda exigem esforço e
transformação.
A
impaciência indica campo de trabalho para a tolerância.
O egoísmo
revela necessidade de desenvolvimento da fraternidade.
O orgulho
convida ao exercício da humildade.
A
consciência moral, inscrita nas profundezas do ser, funciona como bússola
segura no processo evolutivo.
É ela que
nos alerta quanto ao bem e ao mal e nos estimula à escolha mais adequada diante
das circunstâncias da vida.
O passado permanece, mas não nos aprisiona
O
esquecimento das existências anteriores não significa apagamento da história
espiritual.
O passado
continua presente em nossa individualidade.
Ele
participa da construção da personalidade, influencia inclinações e contribui
para a formação do caráter.
Todavia,
não possui o direito de determinar definitivamente o futuro.
A lei de
progresso, ensinada pela Doutrina Espírita, repousa justamente sobre a
possibilidade permanente de renovação.
Nenhum
erro é eterno.
Nenhuma
queda é irreversível.
Nenhuma
imperfeição constitui condenação perpétua.
Cada
existência oferece ao Espírito novos cenários, novas experiências e novas
oportunidades de aprendizado.
Sob esse
aspecto, a reencarnação representa um dos mais elevados testemunhos da justiça
divina associada à misericórdia.
A justiça
garante que colheremos os resultados de nossas escolhas.
A
misericórdia assegura que jamais estaremos privados da oportunidade de
recomeçar.
As exceções à regra
A própria
Doutrina Espírita reconhece que existem exceções ao esquecimento do passado.
Durante o
sono, quando ocorre relativo desprendimento do Espírito em relação ao corpo
físico, algumas recordações podem emergir sob a forma de sonhos particularmente
significativos.
Em certos
casos, especialmente na infância, algumas crianças apresentam lembranças
espontâneas de existências anteriores.
Há ainda
situações excepcionais em que determinadas recordações podem contribuir para a
solução de problemas atuais ou para o cumprimento de tarefas específicas.
Todavia,
tais ocorrências constituem exceções e não a regra geral da vida corporal.
A norma
permanece sendo o esquecimento temporário, exatamente porque ele atende às
necessidades educativas da maioria dos Espíritos encarnados.
O recém-nascido e a esperança do recomeço
Talvez
poucas imagens expressem tão bem a grandeza da reencarnação quanto a de um
recém-nascido.
Aos olhos
humanos, vemos apenas um bebê iniciando a vida.
Sob a
perspectiva espiritual, porém, encontramos um Espírito antigo, portador de
longa trajetória, retornando ao mundo para continuar sua própria construção
moral e intelectual.
Ele não
chega vazio.
Traz
consigo experiências acumuladas ao longo dos séculos.
Carrega
conquistas, desafios, potencialidades e compromissos assumidos perante a
própria consciência.
Recebe,
contudo, um novo corpo, um novo nome, uma nova família e um novo conjunto de
circunstâncias que lhe permitirão continuar avançando.
A
existência corporal torna-se, assim, uma nova oportunidade oferecida pela
Providência Divina.
Conclusão
A questão
fundamental talvez não seja descobrir quem fomos, mas definir quem desejamos
ser.
O
conhecimento detalhado das existências anteriores pouco acrescentaria ao
trabalho moral que nos compete realizar no presente.
Nossas
dificuldades atuais já revelam os aspectos que necessitam de aperfeiçoamento.
Nossas
aspirações mais nobres indicam o caminho do progresso.
A
sabedoria divina não nos retirou a memória do passado por acaso.
Conservou
em nós tudo aquilo que é útil ao progresso — a experiência, a consciência e as
aquisições morais — e ocultou temporariamente aquilo que poderia alimentar o
orgulho, a culpa, o ressentimento ou o desânimo.
A cada
reencarnação, a vida nos oferece algo semelhante a um novo começo.
Não uma
página totalmente em branco, pois o escritor continua sendo o mesmo Espírito de
ontem, mas um novo capítulo onde permanece aberta a possibilidade de
escrevermos uma história melhor do que a anterior.
Talvez
resida aí uma das mais belas expressões da bondade divina: conceder ao Espírito
quantas oportunidades forem necessárias para que aprenda, amadureça e se
aproxime, gradualmente, da plenitude para a qual foi criado.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Especialmente questões 132, 167, 168, 218, 243, 258,
392 a 399 e 920.
- KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulos IV, V e XVII.
- KARDEC, Allan. O Céu e o
Inferno. Primeira Parte, capítulos VII e VIII.
- KARDEC, Allan. A Gênese.
Capítulo XI.
2. Obras Complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. Obras
Póstumas. Primeira Parte, "A Natureza dos Espíritos" e
"Manifestações dos Espíritos".
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869). Diversos artigos sobre lembranças de existências
anteriores, emancipação da alma durante o sono e pluralidade das
existências.
3. Obras Complementares Históricas
- DENIS, Léon. Depois da
Morte.
- DENIS, Léon. O Problema
do Ser e do Destino.
- DELANNE, Gabriel. A
Reencarnação.
4. Obras Subsidiárias
- XAVIER, Francisco Cândido,
pelo Espírito Emmanuel. A Caminho da Luz.
- XAVIER, Francisco Cândido,
pelo Espírito André Luiz. Evolução em Dois Mundos.
5. Passagens bíblicas, capítulos e versículos
- Evangelho de João, capítulo
3, versículos 1 a 12.
- Livro de Jeremias, capítulo
1, versículo 5.
- Epístola aos Gálatas,
capítulo 6, versículos 7 e 8.
- Evangelho de Mateus,
capítulo 26, versículo 52.
6. Fontes Externas Utilizadas
- Momento Espírita.
"Melhor esquecer",
momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=7667&stat=0 (texto base