Introdução
O perispírito ocupa lugar fundamental na compreensão espírita do ser
humano, da encarnação, da desencarnação e de diversos fenômenos estudados pelo
Espiritismo.
Entretanto, para compreendê-lo adequadamente, é necessário evitar dois
extremos: reduzi-lo a uma simples hipótese destinada a explicar fenômenos ainda
não compreendidos ou, ao contrário, atribuir-lhe características que as obras
fundamentais não estabelecem.
A proposta deste estudo é examinar o perispírito a partir daquilo que a
Doutrina Espírita apresenta em O Livro dos Espíritos, O Livro dos
Médiuns, A Gênese, nas obras complementares de Allan Kardec e na Revista
Espírita, procurando acompanhar o desenvolvimento do conceito sem preencher
com conjecturas aquilo que permanece desconhecido.
Uma questão fundamental acompanha todo esse estudo: o que sabemos
sobre o perispírito e quais são os limites desse conhecimento?
PARTE I
— DEFINIÇÃO, NATUREZA E ORIGEM
1. Espírito, matéria e o ser humano
Antes de examinar diretamente o perispírito, é necessário considerar a
relação estabelecida pela Doutrina Espírita entre espírito e matéria.
Em O Livro dos Espíritos, questão 25, os Espíritos esclarecem que
espírito e matéria são distintos, embora a união de ambos seja necessária à
manifestação da inteligência na matéria. Na questão 25-a, a explicação é ainda
mais significativa: essa união é necessária para nós, porque nossos sentidos
não estão organizados para perceber o espírito sem a matéria. A questão 26
acrescenta que espírito e matéria podem ser concebidos separadamente pelo
pensamento.
Esses esclarecimentos ajudam a evitar uma interpretação materialista da
alma. A existência da relação entre espírito e matéria não significa que o
princípio inteligente seja uma propriedade da matéria nem que a alma seja
simplesmente um produto do corpo.
A questão 82 aprofunda essa distinção ao perguntar se é correto dizer
que os Espíritos são imateriais. A resposta observa que “imaterial” não é um
termo inteiramente adequado, preferindo “incorpóreo”, e reconhece a limitação
humana para conhecer a essência dos seres espirituais. A própria linguagem
disponível não seria suficiente para definir aquilo que não possui analogia com
as coisas que conhecemos.
Portanto, desde esses primeiros esclarecimentos, encontramos duas ideias
que serão importantes para o estudo do perispírito: espírito e matéria não
são a mesma coisa; e aquilo que ainda não conhecemos não deve ser preenchido
por hipóteses apresentadas como certezas.
É nesse contexto que surge a necessidade de compreender o envoltório que
estabelece a relação entre o Espírito e o corpo.
2. O envoltório semimaterial
Na questão 93 de O Livro dos Espíritos, o Espírito é apresentado
como revestido por uma substância vaporosa, à qual, por comparação, Allan
Kardec dá o nome de perispírito. A questão 94 esclarece que esse
envoltório semimaterial é retirado do fluido universal de cada globo e, por
isso, não é idêntico em todos os mundos. A questão 94-a acrescenta que
Espíritos de mundos superiores, ao virem ao nosso meio, precisam revestir-se da
matéria correspondente às condições do mundo em que se encontram.
Assim, o perispírito não é apresentado como a própria alma nem como o
princípio inteligente. É o envoltório semimaterial do Espírito.
A questão 135 esclarece ainda que há no homem três elementos: o corpo, a
alma e o laço que prende a alma ao corpo, de natureza semimaterial. Na nota
correspondente, esse princípio intermediário é identificado como o perispírito.
Essa estrutura permite compreender a condição humana sem confundir seus
elementos. O corpo é o envoltório material; a alma é o Espírito encarnado; e o
perispírito é o princípio intermediário que estabelece a ligação entre a alma e
o corpo.
3. O que se conhece e o que permanece
desconhecido
O Livro dos Médiuns aprofunda essa concepção ao rejeitar o
chamado “sistema da alma material”. Esse sistema identificava a alma e o
perispírito, considerando este último como a própria alma em processo de
depuração. A Doutrina Espírita, ao contrário, considera o perispírito como envoltório
fluídico da alma ou do Espírito.
A distinção é importante: o perispírito não pensa. Ele é
instrumento ou agente do Espírito. A inteligência e a consciência não pertencem
ao perispírito.
Ao mesmo tempo, a própria obra estabelece um limite para o conhecimento
humano: a natureza íntima da alma é desconhecida. Mesmo Espíritos considerados
esclarecidos não apresentam uma explicação definitiva sobre a essência do
princípio inteligente. O essencial, segundo o próprio texto, não é satisfazer
uma curiosidade especulativa, mas aplicar o conhecimento espiritual ao
aperfeiçoamento moral.
Essa prudência é fundamental.
Podemos conhecer a existência, a função, a origem relativa e algumas
propriedades do perispírito, sem afirmar que conhecemos sua natureza íntima
em todos os seus aspectos.
Conhecer seus efeitos não equivale a conhecer integralmente aquilo que
ele é em sua essência.
4. Origem e natureza
Em A Gênese, o perispírito é apresentado como um dos produtos
importantes do Fluido Cósmico Universal: uma condensação desse fluido em torno
de um foco de inteligência ou alma. A mesma obra esclarece que o corpo carnal
também tem sua origem nesse elemento primitivo, embora mediante transformação
diferente. No perispírito, o fluido conserva sua imponderabilidade e suas
qualidades etéreas; corpo carnal e corpo perispirítico têm, portanto, origem no
mesmo elemento primitivo, mas em dois estados diferentes.
É nesse contexto que podemos compreender a formulação que melhor
sintetiza nosso estudo: o Fluido Cósmico Universal é apresentado como
elemento primitivo que constitui a matéria em seus diferentes estados e graus
de condensação, tanto na formação do corpo quanto na constituição do próprio
perispírito.
A própria A Gênese explica que o Fluido Cósmico Universal
constitui a matéria elementar primitiva e que suas modificações e
transformações produzem a variedade dos corpos da natureza, apresentando
estados de eterização ou imponderabilidade e de materialização ou
ponderabilidade.
Isso não autoriza, contudo, uma identificação direta entre o Fluido
Cósmico Universal da Codificação e qualquer conceito específico da física
contemporânea. São construções conceituais pertencentes a contextos históricos
e epistemológicos distintos.
O que podemos afirmar, dentro da Doutrina Espírita, é que o perispírito
pertence à matéria em estado diferente daquele que caracteriza o corpo
tangível.
5. O perispírito e os diferentes mundos
A Gênese, no capítulo XIV, itens 8 e 9, esclarece que
o Espírito extrai do meio em que se encontra os elementos constitutivos do seu
perispírito. Por isso, esses elementos variam conforme os mundos.
A consequência é significativa: o perispírito não possui necessariamente
a mesma constituição em todos os ambientes espirituais. Sua natureza
relaciona-se às condições do mundo em que o Espírito se encontra e ao seu grau
de adiantamento moral.
A questão 94 de O Livro dos Espíritos apresenta a mesma ideia de
maneira simples: passando de um mundo a outro, o Espírito muda de envoltório,
como mudamos de roupa.
Isso também ajuda a compreender por que O Livro dos Médiuns
afirma que o perispírito é mais ou menos condensado conforme os mundos. Não se
trata de uma propriedade fixa e universalmente idêntica, mas de um envoltório
cuja constituição está relacionada às condições do meio.
PARTE II
— FUNÇÕES, SENSAÇÕES E MANIFESTAÇÕES
6. O elo entre o Espírito e o corpo
Em A Gênese, o perispírito é apresentado como o intermediário
necessário entre o Espírito e a matéria. Por sua essência espiritual, o
Espírito não poderia agir diretamente sobre a matéria tangível; o envoltório
fluídico exerce essa função intermediária.
Durante a encarnação, o perispírito estabelece a ligação entre o
Espírito e o corpo e serve de veículo à transmissão do pensamento, do movimento
e das sensações.
Em O Livro dos Médiuns, essa mesma função é descrita ao afirmar
que o perispírito serve de ligação entre a alma e o corpo, sendo intermediário
das sensações percebidas pelo Espírito e da transmissão de sua vontade aos
órgãos corporais.
Desse modo, o perispírito não deve ser confundido com o agente
inteligente. Ele é o instrumento intermediário pelo qual o Espírito se
relaciona com o organismo e, por meio dele, com a matéria.
7. O perispírito e as sensações
A questão 257 de O Livro dos Espíritos, intitulada “Ensaio
Teórico sobre a sensação nos Espíritos”, oferece um dos estudos mais extensos
da Codificação sobre o tema.
O corpo é apresentado como instrumento da dor. A alma percebe a dor, mas
o perispírito participa da transmissão das sensações entre o corpo e o
Espírito. Após a morte corporal, porém, as sensações já não possuem a mesma
característica das sensações físicas experimentadas durante a encarnação.
A questão também explica que, depois da morte, o perispírito se
desprende progressivamente do corpo e que a situação espiritual pode variar
conforme o grau de desligamento e de depuração.
É importante, contudo, não confundir dor física com sofrimento
espiritual.
A dor física pertence à experiência do organismo. O Espírito pode
conservar percepções ou sofrimentos após a morte, mas isso não significa que
continue sentindo uma dor física exatamente igual àquela produzida pelo corpo.
A análise apresentada na questão 257 procura justamente distinguir esses
fenômenos.
8. O perispírito depois da morte corporal
A morte não representa a destruição do perispírito.
O corpo material é o envoltório mais grosseiro, enquanto o perispírito
permanece como envoltório do Espírito. O Livro dos Médiuns esclarece
que, ao morrer, a alma se separa do corpo, mas conserva seu envoltório
fluídico.
Essa permanência explica, dentro da concepção espírita, a continuidade
da individualidade depois da morte corporal.
A Gênese relaciona o perispírito ao chamado “corpo
espiritual” mencionado por Paulo, entendendo-o como o corpo fluídico da alma
depois da destruição do corpo tangível. Essa identificação pertence à
interpretação espírita da passagem paulina e deve ser apresentada como tal, sem
atribuir ao apóstolo a terminologia posterior da Codificação.
9. O perispírito e o progresso espiritual
A natureza do perispírito guarda relação com o grau de adiantamento do
Espírito.
Quanto mais depurado o Espírito, mais sutil é apresentado o seu
envoltório. Em sentido inverso, Espíritos ainda muito ligados à matéria podem
apresentar um perispírito mais grosseiro.
A Gênese utiliza esse princípio para explicar, entre
outros fenômenos, por que determinados Espíritos permanecem fortemente
vinculados às condições terrestres depois da morte e por que alguns chegam a
acreditar que ainda estão vivos.
A questão 257 também relaciona a influência da matéria ao estado de
depuração do Espírito. À medida que o Espírito progride, a influência material
diminui e o perispírito se torna menos grosseiro.
Há, portanto, uma consequência moral importante: o estudo do perispírito
não deve conduzir apenas à curiosidade sobre sua constituição. Na própria
Codificação, o conhecimento do mecanismo espiritual está ligado à necessidade
de transformação moral.
10. Visibilidade, tangibilidade e
manifestações
Em condições normais, o perispírito é invisível e impalpável para os
nossos sentidos. Entretanto, as obras espíritas registram situações em que ele
pode tornar-se perceptível e até tangível.
A questão 95 de O Livro dos Espíritos afirma que o envoltório
semimaterial pode assumir forma perceptível.
O Livro dos Médiuns examina posteriormente essas manifestações e
esclarece que a chamada “condensação” é empregada como comparação, não devendo
ser tomada literalmente como se o fenômeno obedecesse exatamente aos processos
físicos conhecidos. A obra também menciona a combinação do perispírito com
fluidos próprios do médium e reconhece que existem condições que ainda não
conhecemos.
A Gênese segue a mesma cautela ao explicar que o
perispírito pode sofrer modificações que o tornam momentaneamente visível ou
tangível. A comparação com o vapor serve apenas para tornar compreensível a
mudança de perceptibilidade, sem estabelecer identidade entre os fenômenos.
A Revista Espírita, desde 1858, registra observações semelhantes,
descrevendo a invisibilidade habitual do perispírito e sua possibilidade de
adquirir, em certas circunstâncias, propriedades perceptíveis aos sentidos.
11. O perispírito não é a alma nem o Espírito
Essa distinção merece ser reafirmada.
O perispírito é o envoltório do Espírito. Não é a alma, não é o
princípio inteligente e não pensa por si mesmo.
A Revista Espírita de dezembro de 1862 é particularmente clara ao
responder à acusação de que a Doutrina Espírita materializaria a alma. O texto
afirma que a natureza da alma não foi definida e que o perispírito não
constitui a alma. Ele é um envoltório que acompanha a alma durante a encarnação
e depois da morte.
Em março de 1866, a Revista Espírita volta ao assunto e afirma
que a natureza simples da alma, princípio inteligente e fonte do pensamento,
escapa às nossas investigações. O perispírito, por sua vez, não pensa: é uma
vestimenta, um envoltório. Sem a alma, seria matéria privada de vida e de
sensação.
Essa distinção é essencial para que não se atribua ao perispírito aquilo
que pertence ao Espírito.
12. O que ainda não sabemos
O conjunto das obras examinadas permite afirmar muito sobre o
perispírito, mas também estabelece limites claros.
Sabemos que é o envoltório semimaterial do Espírito; que permanece
depois da morte corporal; que durante a encarnação estabelece a ligação entre o
Espírito e o corpo; que participa da transmissão das sensações; que é formado a
partir dos fluidos do meio em que o Espírito se encontra; que sua constituição
varia conforme os mundos e que pode apresentar diferentes graus de sutileza.
Sabemos também que pode tornar-se perceptível em determinadas
circunstâncias.
Mas a própria Codificação e a Revista Espírita reconhecem que sua
natureza íntima não é plenamente conhecida. Instruções Práticas sobre as
Manifestações Físicas já registrava essa limitação, e O Livro dos
Médiuns advertia contra especulações prematuras.
Esse reconhecimento da ignorância não diminui o conhecimento adquirido.
Ao contrário, demonstra uma característica importante do método espírita: afirmar
aquilo que a observação, a comparação e o raciocínio permitem estabelecer, sem
transformar o desconhecido em certeza.
REFLEXÃO
FINAL
O perispírito é apresentado pela Doutrina Espírita como realidade
intermediária entre a condição espiritual e a corporal. Ele acompanha o
Espírito, participa de sua relação com o corpo, transmite sensações e vontade
durante a encarnação e permanece depois da morte corporal.
Sua origem é relacionada ao Fluido Cósmico Universal, do qual também
procede a matéria corporal, embora em estados diferentes. Sua constituição
varia conforme os mundos e guarda relação com o grau de adiantamento do
Espírito.
Mas talvez uma das maiores lições do estudo do perispírito esteja
justamente naquilo que ainda não sabemos.
A Doutrina Espírita não perde sua força por reconhecer limites ao
conhecimento. Pelo contrário, demonstra prudência ao distinguir entre o que foi
observado, o que pode ser racionalmente deduzido e aquilo que ainda permanece
além das nossas possibilidades de compreensão.
O estudo do perispírito, portanto, não deve transformar-se em exercício
de imaginação sobre aquilo que desconhecemos. Seu verdadeiro valor está em
ampliar nossa compreensão sobre a relação entre o Espírito, o corpo e a vida
espiritual, ao mesmo tempo em que nos lembra que conhecimento e
transformação moral devem caminhar juntos.
Se o perispírito acompanha o Espírito e se sua condição guarda relação
com o grau de adiantamento espiritual, compreender sua função também nos
convida a compreender a responsabilidade de nossa própria existência.
A questão essencial deixa, então, de ser apenas “como é o
perispírito?” e passa a incluir outra, mais profunda:
o que estamos fazendo, enquanto Espíritos encarnados, para que nossa
existência espiritual se torne progressivamente mais livre da influência da
matéria e mais afinada com o bem?
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte primeira, cap. II; Parte segunda, cap. I — questões 25-a, 26, 82, 93, 94, 94-a, 95 e 135; questão 257.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Primeira parte, cap. I, item 3; cap. IV, itens 50 e 51. Segunda parte, cap. I, itens 54, 55 e 57; cap. IV, item 74; cap. VI, item 105.
- KARDEC, Allan. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Cap. I, item 39; cap. XI, item 17; cap. XIV, itens 2, 7, 8, 9, 35 e 38.
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas. Vocabulário Espírita — verbete “Perispírito”.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Ano I, julho e dezembro de 1858; Ano V, dezembro de 1862; Ano IX, março de 1866.
3. Passagens bíblicas
- Paulo. Primeira Epístola aos Coríntios, 15:44 — referência ao “corpo espiritual”, considerada em sua interpretação à luz da Doutrina Espírita.