Introdução
O dia 8 de setembro, associado à celebração de Nossa Senhora da Luz dos
Pinhais, oferece uma oportunidade para refletirmos sobre Maria de Nazaré, a
maternidade, o sofrimento e a capacidade humana de transformar o amor em
responsabilidade e auxílio.
Ao longo dos séculos, Maria recebeu diferentes títulos e passou a ocupar
lugar de destaque na tradição cristã. Nossa Senhora da Luz dos Pinhais é uma
dessas expressões de devoção, particularmente relacionada à história religiosa
de Curitiba e à formação cultural de seu povo.
As tradições religiosas, entretanto, pertencem a diferentes níveis de
conhecimento. Uma coisa é o fato histórico que pode ser investigado; outra é a
tradição transmitida pelas gerações; outra, ainda, é a interpretação religiosa
que determinada comunidade atribui a acontecimentos e personagens.
A Doutrina Espírita nos convida justamente ao discernimento. Não é
necessário desrespeitar uma tradição para examiná-la racionalmente, nem aceitar
como fato doutrinário aquilo que não encontra fundamento nas fontes
fundamentais do Espiritismo.
Por isso, mais do que investigar os elementos extraordinários associados
a determinados títulos marianos, podemos perguntar:
O que a figura de Maria pode nos ensinar sobre o amor, a maternidade, o
sofrimento e a responsabilidade diante da vida?
Essa pergunta nos conduz a uma reflexão que ultrapassa qualquer título
religioso.
PARTE I
- MARIA, A MATERNIDADE E O SOFRIMENTO
Entre a tradição e o exemplo
Maria de Nazaré ocupa lugar singular na tradição cristã por sua condição
de mãe de Jesus.
O Evangelho apresenta Maria participando de acontecimentos importantes
da vida de Jesus, desde seu nascimento até os momentos que antecedem e
acompanham sua crucificação. A tradição cristã, ao longo do tempo, desenvolveu
numerosas formas de veneração à sua figura.
A Doutrina Espírita, contudo, não estabelece uma teologia mariana nem
apresenta Maria como objeto de culto. Seu propósito não é criar novas devoções,
mas estudar a natureza, a origem e o destino dos Espíritos, bem como suas
relações com a vida corporal e espiritual.
Isso não impede que Maria seja admirada pelo significado moral de sua
existência.
Ao contrário.
Se Jesus é apresentado pela Doutrina Espírita como o guia e modelo
oferecido por Deus à humanidade, conforme encontramos em O Livro dos
Espíritos, questão 625, a figura de sua mãe pode ser contemplada sob o
aspecto humano e moral de sua missão.
Não é necessário atribuir-lhe poderes sobrenaturais para reconhecer a
grandeza de uma mãe que acompanhou o desenvolvimento de um filho destinado a
exercer profunda influência moral sobre a humanidade.
A maternidade é uma missão
A maternidade costuma ser associada principalmente ao afeto. Mas o
vínculo entre mãe e filho envolve também responsabilidade.
A Doutrina Espírita trata expressamente da missão dos pais. Em O
Livro dos Espíritos, questão 582, encontramos a compreensão de que a
paternidade e a maternidade constituem importantes encargos perante Deus,
especialmente no que diz respeito à educação dos filhos.
Educar, entretanto, não significa determinar o destino de outro
Espírito.
Cada ser humano possui individualidade, livre-arbítrio e
responsabilidade própria. Os pais podem orientar, proteger, aconselhar e
oferecer condições para o desenvolvimento dos filhos, mas não podem viver por
eles.
Essa é uma das dificuldades mais profundas do amor materno.
A mãe deseja proteger o filho, mas sabe que não poderá afastá-lo de
todas as experiências da existência.
Deseja evitar seus erros, mas não poderá escolher em seu lugar.
Deseja poupá-lo das dificuldades, mas não poderá impedir que ele
enfrente as consequências de suas próprias decisões.
Amar, portanto, não significa dominar.
O amor verdadeiro procura proteger sem aprisionar, orientar sem
substituir a consciência do outro e oferecer presença sem impedir seu
desenvolvimento.
Nesse sentido, a maternidade pode ser compreendida como uma das
experiências humanas que melhor revelam a relação entre amor e
responsabilidade.
Quando o amor não consegue afastar a dor
A tradição cristã apresenta Maria junto à cruz de Jesus.
A passagem registrada no Evangelho de João apresenta Maria entre aqueles
que permanecem próximos de Jesus durante a crucificação (João 19:25-27).
Independentemente das interpretações religiosas atribuídas ao episódio,
a imagem possui extraordinária força humana.
Uma mãe diante do sofrimento do filho.
Não há necessidade de recorrer ao extraordinário para compreender sua
profundidade.
Quantas mães, em diferentes épocas, não experimentaram situações
semelhantes?
Há mães que acompanham filhos enfermos durante anos. Há aquelas que
enfrentam a dependência química, a violência, a criminalidade ou o afastamento
familiar. Há as que sofrem diante de transtornos que desconhecem como
enfrentar, as que passam por dificuldades econômicas e aquelas que precisam
suportar a perda de um filho.
Em todas essas situações existe uma realidade que não pode ser reduzida
a uma explicação simplista.
A Doutrina Espírita apresenta a existência corporal como oportunidade de
desenvolvimento e progresso do Espírito, conforme encontramos nas questões 132
e 133 de O Livro dos Espíritos. Isso, porém, não significa que possamos
identificar a causa espiritual de cada sofrimento particular.
É preciso prudência.
Diante de uma mãe que sofre, não temos fundamento para afirmar que
determinada tragédia aconteceu porque ela ou seu filho praticou determinada
falta em existência anterior. Também não podemos afirmar, sem conhecimento
específico, que determinada experiência foi previamente escolhida antes da
encarnação.
A Doutrina Espírita não autoriza a fabricação de explicações para aquilo
que ignoramos.
O sofrimento pode contribuir para o aprendizado e o progresso, mas isso
não transforma a dor em algo que deva ser procurado ou romantizado.
Diante de quem sofre, a primeira resposta moral não deveria ser o
julgamento.
Deveria ser o auxílio.
PARTE II
- DA ORAÇÃO À AÇÃO: A LUZ QUE SE ACENDE NO BEM
A oração não dispensa a ação
A tradição religiosa frequentemente recorre à oração como forma de
buscar amparo diante das dificuldades.
A Doutrina Espírita reconhece a importância da prece, mas apresenta uma
compreensão que evita transformá-la em fórmula destinada a modificar
arbitrariamente os acontecimentos.
Em O Livro dos Espíritos, questões 658 e 659, a prece é
relacionada à adoração, ao pedido e ao agradecimento, desde que realizada com
sinceridade.
Assim compreendida, a oração pode modificar aquele que ora.
Pode fortalecer a disposição para enfrentar uma dificuldade.
Pode estimular a confiança.
Pode favorecer a reflexão.
Pode despertar sentimentos que conduzam à prática do bem.
Uma mãe que ora pelo filho enfermo pode, ao mesmo tempo, procurar
tratamento, seguir as orientações profissionais, buscar apoio familiar e
oferecer ao filho a presença de que ele necessita.
Uma mãe que ora pelo filho envolvido com dependência química pode
encontrar na prece forças para continuar procurando recursos adequados, sem
abandonar o amor e sem confundir amor com condescendência.
A oração, nesse sentido, não substitui a ação.
Pode inspirá-la.
Caridade é transformar o sentimento em atitude
A Doutrina Espírita apresenta a caridade em sentido muito mais amplo do
que a simples doação material.
Na questão 886 de O Livro dos Espíritos, a caridade é definida
pela benevolência para com todos, pela indulgência para com as imperfeições
alheias e pelo perdão das ofensas.
Essa definição possui profunda relação com a maternidade e com o
sofrimento.
Quando uma mãe sofre, não precisa apenas de palavras religiosas.
Pode precisar de companhia.
De orientação.
De tratamento.
De recursos materiais.
De compreensão.
De alguém que a escute sem julgá-la.
Quando um filho enfrenta dificuldades, a família pode necessitar de
auxílio que ultrapasse a dimensão espiritual.
Por isso, uma oração sincera pode conduzir a uma pergunta muito simples:
O que posso fazer para ajudar?
Essa pergunta transforma a oração em compromisso.
Não basta pedir amparo para quem sofre se permanecemos indiferentes
diante de seu sofrimento.
Não basta falar de amor se não somos capazes de exercer paciência,
compreensão e solidariedade.
Não basta admirar exemplos de dedicação se não procuramos reproduzir,
dentro das nossas possibilidades, o bem que admiramos.
A caridade começa justamente quando o sentimento deixa de permanecer
apenas dentro de nós e se transforma em benefício para alguém.
A luz como símbolo de esclarecimento
O título Nossa Senhora da Luz dos Pinhais permite uma associação
simbólica particularmente significativa.
A luz pode representar aquilo que esclarece, orienta e ajuda a encontrar
um caminho.
Mas existe uma diferença importante entre conhecimento intelectual e
esclarecimento moral.
Uma pessoa pode acumular informações e continuar dominada pelo egoísmo.
Pode conhecer profundamente determinada ciência e, ainda assim, tratar
os semelhantes com indiferença.
Pode possuir cultura, inteligência e recursos e não saber utilizá-los
para o bem.
Por isso, o progresso espiritual não consiste apenas em saber mais.
É necessário tornar-se melhor.
Em O Livro dos Espíritos, a questão 918 relaciona o verdadeiro
bom Espírito à transformação moral e ao esforço para dominar suas más
inclinações. A questão 919, por sua vez, destaca o conhecimento de si mesmo
como caminho para o progresso.
A luz moral, portanto, não é simplesmente algo que recebemos.
É também algo que construímos em nós mesmos.
Cada vez que vencemos uma reação de violência, aprendemos a ouvir,
reconhecemos um erro, perdoamos uma ofensa, auxiliamos alguém sem humilhá-lo ou
respeitamos uma consciência diferente da nossa, alguma coisa se modifica em
nós.
É uma pequena luz.
E pequenas luzes também iluminam.
Maria e o respeito à consciência
Maria é venerada por milhões de pessoas sob diferentes títulos.
Nossa Senhora da Luz, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de
Guadalupe e tantas outras denominações expressam experiências históricas,
culturais e religiosas diversas.
A Doutrina Espírita não estabelece uma hierarquia desses títulos nem
determina como Maria deve ser venerada.
Isso não significa que o Espiritismo deva combater a devoção alheia.
A liberdade de consciência é um princípio que merece respeito.
A questão 838 de O Livro dos Espíritos trata da liberdade de
consciência, reconhecendo o direito de cada pessoa às suas convicções.
Uma pessoa pode dirigir sua oração a Maria porque encontra nessa devoção
consolo e inspiração.
Outra pode simplesmente admirá-la como mãe de Jesus e exemplo de
dedicação.
Outra pode não compartilhar da devoção mariana e, ainda assim, respeitar
profundamente aqueles que a possuem.
O problema não está na diversidade das convicções.
Está na intolerância.
Uma fé que precisa humilhar a crença alheia para afirmar-se demonstra
mais apego à disputa do que ao próprio sentimento religioso.
O respeito à consciência é também uma forma de caridade.
O que realmente homenageamos?
Ao recordar Maria, talvez seja menos importante discutir a quantidade de
títulos que recebeu e mais importante perguntar o que fazemos com o exemplo que
associamos à sua memória.
Se admiramos uma mãe dedicada, somos dedicados aos nossos próprios
familiares?
Se nos sensibilizamos com o sofrimento materno, percebemos as mães que
sofrem ao nosso redor?
Se pedimos amparo para aqueles que enfrentam dificuldades, estamos
dispostos a colaborar para que encontrem esse amparo?
Se falamos em luz, procuramos esclarecer nossa própria maneira de pensar
e agir?
Essas perguntas transformam a homenagem em oportunidade de crescimento.
O valor de um exemplo moral não está somente na veneração que desperta.
Está também no bem que consegue produzir em quem o contempla.
Reflexão final
Neste 8 de setembro, a celebração de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais
pode ser compreendida como uma oportunidade de reflexão sobre Maria de Nazaré
e, sobretudo, sobre aquilo que sua figura representa para a tradição cristã:
maternidade, dedicação, amor e presença diante das dificuldades.
A Doutrina Espírita permite-nos olhar para essa tradição sem necessidade
de transformar seus elementos religiosos em princípios doutrinários.
Podemos respeitar a fé sem abandonar o discernimento.
Podemos admirar uma figura religiosa sem atribuir-lhe aquilo que não
conhecemos.
Podemos orar sem esperar que a oração substitua nossas
responsabilidades.
Podemos reconhecer o sofrimento sem transformar toda dor em explicação
espiritual.
E podemos falar de amor sem esquecer que o amor verdadeiro se manifesta
também pela caridade.
Talvez seja essa a maior lição que a imagem da luz pode nos oferecer.
A luz não precisa ser extraordinária.
Pode estar em uma palavra de consolo.
Em uma escuta paciente.
Em uma ajuda oferecida discretamente.
No respeito à consciência de quem pensa diferente.
No cuidado de uma mãe.
Na responsabilidade de um filho.
No perdão de uma ofensa.
Na coragem de reconhecer um erro.
Na disposição de fazer o bem quando ninguém está olhando.
A verdadeira homenagem aos grandes exemplos da humanidade não está
apenas naquilo que dizemos sobre eles.
Está naquilo que fazemos depois de contemplá-los.
Se a lembrança de Maria nos fizer compreender melhor a maternidade,
respeitar mais profundamente o sofrimento alheio e transformar a oração em
disposição para o bem, então a luz terá encontrado uma finalidade maior do que
a simples tradição.
Terá começado a iluminar nossas próprias consciências.
E talvez seja justamente aí que o verdadeiro sentido da luz possa ser encontrado: não apenas naquilo que ilumina o caminho diante de nós, mas naquilo que nos ajuda a tornar mais luminoso o caminho daqueles que caminham conosco.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 132, 133, 582, 625, 658, 659, 838, 886, 918 e 919.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulos XI — “Amar o próximo como a si mesmo”; XVII — “Sede perfeitos”; XXV — “Buscai e achareis”.
2. Passagens bíblicas
- Evangelho segundo João, capítulo 19, versículos 25 a 27 — Maria junto à cruz de Jesus.
- Evangelho segundo Lucas, capítulo 1, versículo 38 — manifestação de Maria diante do anúncio recebido.
- Evangelho segundo Lucas, capítulo 1, versículos 46 a 55 — cântico de Maria, tradicionalmente conhecido como Magnificat.