O progresso
espiritual, os limites do conhecimento e a investigação racional do Universo
Se Deus é a perfeição absoluta, até onde pode
chegar o conhecimento de um Espírito puro? Atingir a mais elevada condição
espiritual significa esgotar todas as possibilidades de conhecimento ou ainda
podemos investigar a hipótese de um progresso que se prolongue indefinidamente?
Entre o que a Doutrina Espírita afirma, o que podemos deduzir e o que permanece
desconhecido, há um campo importante para o exercício da razão.
Introdução
Há perguntas que acompanham a Humanidade desde os primeiros esforços
para compreender a existência: quem somos, de onde viemos, como se organiza o
Universo e quais são os princípios que regem a criação? À medida que o
conhecimento se amplia, algumas questões encontram respostas, outras precisam
ser reformuladas e muitas permanecem abertas à investigação.
Essas perguntas também nos conduzem a refletir sobre a condição dos
Espíritos. Se eles progridem intelectualmente e moralmente, será que esse
progresso possui um limite definitivo? Os Espíritos puros, que representam o
grau mais elevado da escala espírita, conhecem integralmente os mecanismos do
Universo? Ou pode haver aspectos da realidade cuja compreensão ultrapasse até
mesmo a capacidade de Espíritos de elevada condição?
Uma expressão aparentemente simples ajuda a formular o problema: “Isto
só Deus sabe.”
Imagine-se, por exemplo, um encontro de Espíritos muito elevados, no
qual um deles, diante de determinada questão, reconheça que não dispõe de
conhecimentos suficientes para respondê-la. A afirmação seria compatível com
sua elevada condição espiritual? E, se fosse, deveríamos entender que o assunto
permaneceria eternamente inacessível a todas as criaturas ou apenas que não
podemos determinar o alcance de seus conhecimentos?
Para examinar essas questões, precisamos distinguir três conceitos: o
progresso do Espírito, a perfeição relativa à condição de criatura e a
perfeição absoluta atribuída a Deus. Precisamos, igualmente, separar as
afirmações expressas nas obras da Codificação Espírita das interpretações e
deduções que podemos construir a partir delas.
O objetivo deste estudo não é encerrar a discussão com uma resposta
definitiva. É investigar o problema com racionalidade, respeitando os
fundamentos da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e mantendo aberta
a possibilidade de ampliar nossa compreensão.
PARTE I
— A PERFEIÇÃO DA CRIATURA E A PERFEIÇÃO DO CRIADOR
1. O conhecimento dos Espíritos é progressivo?
Uma das primeiras dificuldades dessa investigação está em compreender
que a existência espiritual não elimina, por si só, os limites do conhecimento.
Em O Livro dos Espíritos, questão 17, encontramos a explicação de
que os Espíritos, à medida que se depuram, compreendem aquilo que antes não
compreendiam, embora nem todas as coisas lhes sejam dadas a conhecer
indistintamente.
Essa orientação estabelece uma relação entre o desenvolvimento
espiritual e a ampliação do conhecimento. O Espírito não nasce dotado de todo o
saber, nem a desencarnação lhe proporciona automaticamente a compreensão de
tudo aquilo que desconhecia durante a existência corporal.
O progresso intelectual exige desenvolvimento das faculdades, aquisição
de conhecimentos e ampliação da capacidade de compreender. O progresso moral,
por sua vez, envolve a superação das imperfeições, o desenvolvimento dos bons
sentimentos e a maneira de empregar as próprias capacidades.
Essas dimensões estão relacionadas, mas não são idênticas. Alguém pode
ampliar seus conhecimentos sem desenvolver na mesma proporção suas qualidades
morais. Da mesma forma, a elevação moral não deve ser confundida, sem exame,
com a posse instantânea de todo conhecimento possível.
A escala espírita apresentada em O Livro dos Espíritos, questões
100 a 113, permite compreender que os Espíritos se distinguem por seu
desenvolvimento moral e intelectual. Essa diversidade impede que atribuamos a
todos os Espíritos o mesmo grau de compreensão ou que consideremos infalível
qualquer informação apenas porque sua origem é atribuída ao mundo espiritual.
A autoridade moral de um Espírito merece consideração, mas não dispensa
o exame racional do conteúdo de suas comunicações. Uma afirmação precisa ser
analisada segundo sua coerência, seu fundamento e sua concordância com os
princípios estabelecidos.
Surge, então, uma primeira distinção: não saber tudo em determinado
momento não significa que o conhecimento jamais possa ser ampliado; mas a
possibilidade de aprender mais também não demonstra, por si só, que toda
criatura esteja destinada a progredir indefinidamente em todos os aspectos.
Essa segunda questão exige investigação própria.
2. Deus, a Inteligência Suprema e a Causa
Primária
Na questão 1 de O Livro dos Espíritos, Deus é definido como a
inteligência suprema e causa primária de todas as coisas.
Essa definição estabelece o ponto de partida da investigação espírita.
Deus não é apresentado como um Espírito que percorreu os graus da escala até
alcançar a posição mais elevada. A distinção fundamental é entre a Inteligência
Suprema, causa primária, e os Espíritos, individualidades que percorrem um
processo de desenvolvimento.
A questão 13 examina os atributos da Divindade, relacionando-os à
eternidade, à imutabilidade, à imaterialidade, à unicidade, à onipotência e à
soberana justiça e bondade. Em A Gênese, capítulo II, a reflexão sobre
esses atributos aprofunda o esforço de compreender racionalmente a ideia de
Deus.
Atribuir a Deus a perfeição absoluta significa não lhe atribuir as
limitações e imperfeições próprias das criaturas. Isso, entretanto, não nos
autoriza a imaginar que conhecemos integralmente a natureza divina ou todos os
modos pelos quais se manifesta a ação das leis universais.
Há, portanto, uma distinção importante entre reconhecer Deus como a
Inteligência Suprema e pretender explicar exaustivamente seu conhecimento ou
sua atuação.
Quando comparamos a perfeição divina à condição dos Espíritos, não
estamos diante de uma escala numérica que possamos medir. Não dispomos de uma
unidade de medida para calcular a diferença entre o conhecimento de um Espírito
puro e o conhecimento atribuído a Deus.
A distinção é conceitual: por mais elevada que seja a condição de um
Espírito, ele continua sendo uma criatura e não se confunde com a Causa
Primária.
Podemos, assim, empregar a expressão perfeição relativa para
designar a perfeição própria da condição de criatura, em contraste com a
perfeição absoluta atribuída a Deus. É importante, contudo, esclarecer que essa
expressão constitui uma formulação interpretativa utilizada neste estudo, e não
uma citação literal das questões examinadas.
Essa distinção não diminui a elevação dos Espíritos puros. Apenas impede
que a perfeição alcançada pela criatura seja confundida com a totalidade dos
atributos divinos.
3. O que significa alcançar a condição de
Espírito puro?
As questões 112 e 113 de O Livro dos Espíritos são fundamentais
para o aprofundamento do problema.
A questão 112 caracteriza os Espíritos puros pela ausência de influência
da matéria e por sua superioridade intelectual e moral em relação aos Espíritos
das demais ordens.
A questão 113 acrescenta que eles alcançaram a soma de perfeição de que
é suscetível a criatura. Não precisam mais sofrer provas ou expiações,
desfrutam de felicidade inalterável e não permanecem inativos. São apresentados
como mensageiros e ministros de Deus, executando suas ordens para a manutenção
da harmonia universal e auxiliando outros Espíritos em seu aperfeiçoamento.
Essa descrição exige atenção. A Codificação não apresenta os Espíritos
puros como seres moralmente inferiores que ainda precisariam superar as
imperfeições características das etapas anteriores. Pelo contrário, descreve
uma condição de elevada perfeição espiritual.
Por isso, precisamos evitar uma dedução precipitada: a de que, por não
se confundirem com Deus, os Espíritos puros necessariamente continuam
moralmente imperfeitos.
A diferença entre criatura e Criador não demonstra, por si só, a
existência de uma imperfeição moral na criatura. São questões distintas.
Entretanto, a descrição dos Espíritos puros também não oferece um
inventário completo de tudo o que conhecem, nem determina expressamente a
extensão de seus conhecimentos sobre cada aspecto da criação.
É nesse ponto que nossa investigação pode avançar. Podemos reconhecer
que a Codificação caracteriza os Espíritos puros como o grau máximo de
aperfeiçoamento da criatura dentro da escala apresentada e, ao mesmo tempo,
examinar se essa condição encerra todas as possibilidades de ampliação do
conhecimento.
Para isso, precisamos investigar o significado e o alcance da expressão
“soma de perfeição de que é suscetível a criatura”, sem decidir antecipadamente
que ela resolve todas as questões relativas ao progresso intelectual.
4. Jesus como guia e modelo: o alcance da
perfeição
O tema também nos remete ao ensinamento de Jesus:
“Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial.” — Mateus
5:48.
O que significa essa recomendação? Estaria Jesus propondo que a criatura
alcance todos os atributos de Deus ou apresentando a perfeição divina como
referência para seu próprio aperfeiçoamento?
O contexto da passagem é importante. O ensinamento trata do amor que
ultrapassa os limites da reciprocidade e alcança também aqueles que não nos
favorecem ou que se colocam como adversários. A referência à perfeição do Pai
orienta a ampliação do amor e da benevolência.
Assim, podemos compreender essa recomendação como um convite à busca
contínua de aperfeiçoamento, tendo Deus como referência suprema, sem concluir
que o ser humano possa adquirir a onisciência ou tornar-se igual ao Criador.
Essa interpretação é coerente com a questão 625 de O Livro dos
Espíritos, que apresenta Jesus como o tipo mais perfeito oferecido à
Humanidade para servir de guia e modelo.
Também é necessário distinguir a posição espiritual de Jesus da
descrição de suas missões. A ideia de que Jesus exerce a direção espiritual da
Terra aparece em obras espíritas complementares, como A Caminho da Luz,
atribuída ao Espírito Emmanuel e psicografada por Francisco Cândido Xavier. A
questão 625 da Codificação, entretanto, estabelece sua condição de modelo
moral, sem descrever diretamente uma estrutura de governo espiritual do
planeta.
Essa distinção documental não exige rejeitar a concepção apresentada na
literatura complementar. Exige apenas identificar a origem das afirmações e não
atribuir a uma obra aquilo que outra desenvolveu.
Se consideramos a elevada missão espiritual de Jesus, podemos
compreendê-la como expressão de sua condição e de sua atuação em favor do
progresso da Humanidade, sem concluir que uma missão de grande alcance
transforme seu executor em detentor dos atributos absolutos de Deus.
O exemplo ajuda a esclarecer o problema central: a grandeza de uma
missão não determina, por si só, a extensão integral do conhecimento de quem a
executa.
PARTE II
— O PROGRESSO DO CONHECIMENTO E OS LIMITES DO QUE PODEMOS AFIRMAR
5. A perfeição moral implica conhecimento
absoluto?
Precisamos agora examinar uma distinção que pode enriquecer a discussão:
o progresso moral, o progresso intelectual e a atividade espiritual não devem
ser tratados como se fossem uma única coisa.
O progresso moral diz respeito ao aperfeiçoamento dos sentimentos e da
conduta, à superação das imperfeições e à capacidade de agir em harmonia com as
leis divinas.
O progresso intelectual relaciona-se à ampliação do conhecimento, ao
desenvolvimento das faculdades de compreensão e à capacidade de estabelecer
relações entre os fenômenos.
A atividade espiritual, por sua vez, compreende as ações e missões que
os Espíritos desempenham, inclusive o auxílio ao progresso de outros seres e a
participação na harmonia universal.
Essas dimensões podem se relacionar de diferentes maneiras. Uma elevada
condição moral pode favorecer o emprego mais consciente do conhecimento e das
capacidades conquistadas. Isso, porém, não demonstra que a perfeição moral seja
equivalente à onisciência.
A questão 113 de O Livro dos Espíritos apresenta os Espíritos
puros como ativos na manutenção da harmonia universal e no aperfeiçoamento de
outros Espíritos. Sua condição não é de inatividade, mas de atuação em
conformidade com a posição espiritual alcançada.
Podemos, portanto, formular uma pergunta legítima: será que o
conhecimento de um Espírito puro está necessariamente esgotado em todos os
sentidos, ou a ausência de imperfeições morais pode coexistir com outras
possibilidades de ampliação da compreensão?
A Codificação, nas passagens aqui examinadas, não responde expressamente
a todas as implicações dessa pergunta. Isso não impede a investigação; apenas
exige que identifiquemos com clareza o que é afirmação textual e o que é
dedução.
Uma hipótese possível é que a ampliação do conhecimento possa ser
examinada separadamente da superação das imperfeições morais. Outra
interpretação possível é que a expressão relativa à perfeição própria da
criatura estabeleça um limite mais amplo, abrangendo todas as dimensões de seu
desenvolvimento.
Não seria correto escolher uma dessas interpretações apenas porque
parece mais atraente. Precisamos confrontar os argumentos, examinar o conjunto
doutrinário e verificar o alcance das expressões utilizadas.
O ponto fundamental é que não devemos deduzir a continuidade
ilimitada do progresso intelectual apenas do fato de Deus ser infinitamente
superior à criatura; mas também não devemos considerar a questão
definitivamente resolvida sem examinar o que a Codificação permite compreender
sobre os diferentes sentidos do progresso.
6. A questão 540 e a harmonia universal
A questão 540 de O Livro dos Espíritos oferece elementos
importantes para refletirmos sobre a complexidade da criação.
Ao tratar da ação dos Espíritos nos fenômenos da Natureza, a resposta
apresenta um encadeamento de processos e graus de desenvolvimento que
ultrapassa a percepção imediata do ser humano. A passagem convida a considerar
a harmonia universal como um conjunto de relações mais amplo do que aquilo que
conseguimos observar isoladamente.
Habitualmente, examinamos os fenômenos a partir de suas causas mais
próximas. Identificamos um acontecimento, procuramos compreender o mecanismo
que o produziu e estabelecemos relações com outros fatos. Entretanto,
compreender um processo particular não significa conhecer todas as relações em
que ele está inserido.
A própria experiência humana demonstra essa diferença. Podemos conhecer
uma lei natural e suas aplicações mais conhecidas sem dominar todas as suas
consequências. Podemos compreender parte de um sistema sem conhecer
integralmente seu funcionamento.
É importante observar, contudo, que a limitação mencionada no contexto
da questão 540 se refere diretamente à compreensão humana. Não seria correto
utilizar essa passagem, isoladamente, para afirmar que os Espíritos puros
desconhecem o conjunto da harmonia universal. Tampouco seria correto utilizá-la
para demonstrar que eles o conhecem em sua totalidade absoluta.
A questão nos oferece uma orientação para investigar, não uma resposta
expressa a todas as dúvidas que podemos formular.
Podemos admitir que os Espíritos puros possuam uma compreensão muito
mais ampla das leis e das relações da criação do que aquela acessível aos seres
humanos. Essa consideração é coerente com sua elevada condição espiritual.
Entretanto, determinar precisamente o alcance desse conhecimento exige
elementos adicionais.
Da mesma maneira, o fato de os Espíritos participarem de processos
relacionados à harmonia universal não significa que conheçam necessariamente
todas as causas primeiras ou todos os desdobramentos possíveis desses
processos.
A função exercida por uma criatura e a extensão de seu conhecimento são
questões relacionadas, mas distintas. Um agente pode desempenhar perfeitamente
uma tarefa de grande responsabilidade sem que isso demonstre que conheça
absolutamente tudo o que existe.
Essa distinção ajuda a compreender por que não devemos confundir a
participação dos Espíritos na organização universal com uma igualdade de
atributos entre eles e Deus.
7. O progresso do Espiritismo e a continuidade
da investigação
A questão que estamos examinando não diz respeito apenas aos limites do
conhecimento dos Espíritos. Ela também envolve a maneira como nós próprios
investigamos e desenvolvemos o conhecimento doutrinário.
Em A Gênese, capítulo I, item 55, encontramos uma orientação
fundamental para compreender o caráter progressivo do Espiritismo. A obra
apresenta a Doutrina como capaz de acompanhar o progresso e de assimilar as
novas verdades demonstradas, sem abandonar seus princípios fundamentais.
Essa orientação não significa que qualquer novidade ou interpretação
deva ser incorporada sem exame. Significa que a investigação não deve ser
encerrada artificialmente quando existem questões que podem ser esclarecidas
por novas observações, análises e deduções consistentes.
Precisamos, portanto, distinguir três níveis de conhecimento.
Afirmação doutrinária: aquilo que as obras efetivamente apresentam.
Dedução racional: aquilo que podemos inferir das afirmações,
mediante raciocínio lógico e coerente com os fundamentos doutrinários.
Hipótese investigativa: uma possibilidade explicativa que merece
exame, mas cuja sustentação ainda precisa ser desenvolvida.
Esses três níveis não são inimigos. Pelo contrário, podem integrar um
processo de investigação no qual cada um desempenha uma função específica.
A afirmação doutrinária fornece os fundamentos. A dedução procura
explicitar consequências que não estão necessariamente formuladas de maneira
literal. A hipótese permite propor explicações que ainda precisam ser
confrontadas com os demais conhecimentos disponíveis.
O cuidado metodológico consiste em não confundir essas categorias. Uma
dedução bem construída pode ampliar a compreensão, mas deve apresentar seus
pressupostos e demonstrar sua coerência. Uma hipótese pode ser promissora, mas
não se transforma em princípio doutrinário apenas por parecer lógica.
É dessa maneira que podemos investigar a possibilidade de um progresso
espiritual que não se esgote na aquisição da perfeição moral. Precisamos
examinar o significado da perfeição própria da criatura, a relação entre as
diferentes dimensões do progresso e o alcance das afirmações sobre os Espíritos
puros.
Se uma interpretação apresentar dificuldades, devemos enfrentá-las. Se
uma dedução encontrar apoio no conjunto dos princípios, poderemos
desenvolvê-la. Se surgirem novas questões, elas devem permanecer abertas à
investigação.
A fidelidade à Doutrina Espírita não exige que interrompamos o
raciocínio diante de tudo aquilo que não esteja formulado literalmente nas
obras. Exige que nossas deduções respeitem seus fundamentos e que não
apresentemos como demonstrado aquilo que ainda não conseguimos sustentar
suficientemente.
8. “Isto só Deus sabe”: reconhecimento de um
limite ou renúncia à investigação?
Chegamos, assim, ao sentido filosófico da expressão que dá título a este
artigo.
Quando alguém afirma “Isto só Deus sabe”, pode estar reconhecendo que
não dispõe de elementos suficientes para responder a determinada pergunta. A
expressão também pode ser utilizada informalmente, sem que seu sentido
filosófico tenha sido examinado. Seu significado depende, portanto, do
contexto.
Consideremos novamente a hipótese de um encontro de Espíritos muito
elevados. Se um deles declarasse não saber a resposta a determinada questão,
essa afirmação seria incompatível com sua condição?
Não necessariamente. Reconhecer que não se conhece uma resposta não
significa possuir uma condição moral inferior. Significa apenas que, naquele
contexto, não se dispõe dos conhecimentos necessários para responder.
Mas precisamos avançar um pouco mais.
Se um Espírito afirma desconhecer determinado assunto, sua declaração
não demonstra, isoladamente, que nenhum outro Espírito possa compreendê-lo.
Também não demonstra que o assunto seja eternamente inacessível a todas as
criaturas.
Por outro lado, não podemos afirmar que o Espírito necessariamente
aprenderá tudo o que hoje desconhece. Essa possibilidade precisa ser examinada
à luz do problema mais amplo do progresso espiritual e do alcance da perfeição
própria da criatura.
Assim, devemos distinguir três situações:
- Limite
atual: não dispomos, neste momento, dos conhecimentos necessários para
responder.
- Limite
individual: determinada criatura pode não possuir as
condições ou faculdades necessárias para compreender um assunto.
- Limite
definitivo: afirmação de que uma questão jamais
poderá ser compreendida por qualquer criatura.
As duas primeiras situações não demonstram automaticamente a terceira.
Para afirmar um limite definitivo, precisamos de fundamentos que sustentem essa
conclusão.
Essa distinção vale tanto para o conhecimento humano quanto para nossa
reflexão sobre os Espíritos. Não devemos transformar aquilo que ignoramos em
algo necessariamente impossível de conhecer. Tampouco devemos supor que tudo
será obrigatoriamente conhecido por todas as criaturas.
A expressão “Isto só Deus sabe” pode, portanto, ser uma forma legítima
de reconhecer os limites do conhecimento disponível. Ela não precisa significar
abandono da investigação, assim como não autoriza, por si só, a afirmar que
determinado assunto jamais poderá ser compreendido por qualquer Espírito.
Reconhecer a superioridade absoluta de Deus não exige que inventemos os
limites específicos do conhecimento das criaturas. Basta manter a distinção
entre a Inteligência Suprema e os seres que progridem.
9. Como investigar sem transformar hipóteses
em certezas?
Para que a reflexão não se torne uma repetição indefinida das mesmas
perguntas, precisamos esclarecer os problemas, examinar os argumentos e
identificar o que cada interpretação efetivamente explica.
No tema deste artigo, podemos seguir quatro procedimentos.
Primeiro, identificar as afirmações expressas nas obras. As questões 1,
13 e 17 de O Livro dos Espíritos oferecem fundamentos para examinar a
natureza de Deus e a progressividade do conhecimento. As questões 100 a 113
apresentam a escala espírita e caracterizam os Espíritos puros. A questão 540
oferece elementos para refletir sobre a harmonia universal. O capítulo I, item
55, de A Gênese contribui para a compreensão do caráter progressivo da
investigação espírita.
Segundo, distinguir as afirmações das interpretações. A Codificação
caracteriza os Espíritos puros como o grau máximo de aperfeiçoamento da
criatura dentro da escala apresentada. Interpretar essa condição como distinta
da perfeição absoluta de Deus é coerente com os fundamentos examinados.
Determinar se o conhecimento desses Espíritos pode continuar se ampliando
indefinidamente, entretanto, exige uma análise específica.
Terceiro, confrontar as deduções com o conjunto doutrinário. Não basta
que uma ideia pareça lógica quando examinada isoladamente. É necessário
verificar se ela permanece coerente com os demais princípios e se não depende
de premissas que ainda não foram demonstradas.
Quarto, manter aberta a investigação sobre aquilo que não foi
suficientemente esclarecido. Uma hipótese plausível pode orientar novas
perguntas e análises, mas não deve ser apresentada como uma certeza apenas
porque harmoniza com nossas expectativas.
Esse procedimento não representa indecisão. Representa o compromisso com
a honestidade intelectual e com o desenvolvimento do conhecimento.
O reconhecimento de uma questão em aberto pode constituir um avanço real
quando conseguimos formular melhor o problema, identificar os pressupostos
envolvidos e delimitar o que precisamos investigar.
Não é necessário encontrar uma resposta absoluta para que o pensamento
progrida. Às vezes, o avanço consiste em perceber que duas questões antes
confundidas são diferentes. Em outras ocasiões, consiste em abandonar uma
interpretação inadequada ou reconhecer que determinada conclusão ultrapassa os
elementos disponíveis.
A investigação continua precisamente porque o conhecimento adquirido
pode abrir novas possibilidades de compreensão.
REFLEXÃO
FINAL
A relação entre perfeição absoluta, perfeição relativa e conhecimento
nos coloca diante de uma questão profunda: até onde pode chegar o
desenvolvimento de uma criatura sem que ela se confunda com o Criador?
A Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec apresenta Deus como a
Inteligência Suprema, causa primária de todas as coisas, e os Espíritos como
individualidades que progridem. A escala espírita caracteriza os Espíritos
puros como o grau máximo de aperfeiçoamento da criatura dentro dessa
classificação e os apresenta como mensageiros e ministros de Deus, ativos na
manutenção da harmonia universal.
Essa condição não os identifica com a Divindade. Entretanto, a distinção
entre criatura e Criador não resolve, por si só, todas as questões sobre o
alcance do conhecimento dos Espíritos puros ou sobre as possibilidades de
progresso intelectual depois de alcançada a condição descrita na questão 113 de
O Livro dos Espíritos.
Precisamos investigar essas questões sem presumir que a ausência de
onisciência implique imperfeição moral, mas também sem afirmar,
antecipadamente, que todas as possibilidades de conhecimento necessariamente
continuam se ampliando de maneira ilimitada.
O ensinamento de Jesus sobre a perfeição do Pai oferece uma referência
suprema para o aperfeiçoamento humano. Não exige que confundamos a condição da
criatura com os atributos absolutos do Criador. Do mesmo modo, o reconhecimento
da perfeição própria dos Espíritos puros não nos obriga a encerrar a
investigação sobre o significado e o alcance do progresso.
Nesse contexto, “Isto só Deus sabe” pode expressar o reconhecimento de
que ainda não dispomos de elementos suficientes para responder a uma pergunta.
Essa atitude não precisa interromper a busca pelo conhecimento. Pode, ao
contrário, indicar com honestidade o ponto a partir do qual a investigação deve
prosseguir.
O essencial é distinguir o que as obras afirmam, o que podemos deduzir
racionalmente e o que permanece no campo das hipóteses. Assim, não
transformamos dúvidas em certezas artificiais, nem convertemos os limites
atuais do conhecimento em barreiras definitivas sem fundamentação suficiente.
O progresso do conhecimento exige curiosidade, método, coerência e
disposição para rever nossas interpretações. Exige também humildade para
reconhecer que uma questão ainda não está esclarecida.
Reconhecer o infinito não significa renunciar à busca pelo conhecimento.
Significa compreender a dimensão dessa busca e prosseguir sem presunção, sem
imobilismo e sem abandonar a razão.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução; questões 1, 13, 17, 100 a
113, 540 e 625.
- KARDEC,
Allan. A Gênese — Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo.
Capítulo I, item 55 — “Caracteres da Revelação Espírita”; capítulo II — “A
Existência de Deus”.
2. Obras Subsidiárias
- XAVIER,
Francisco Cândido. A Caminho da Luz. Pelo Espírito Emmanuel.
Referência complementar à concepção de Jesus como dirigente espiritual da
Terra.
3. Passagens bíblicas
- Mateus
5:48 — “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai
celestial.”