Introdução
Há frases que atravessam gerações.
Uma delas costuma surgir quando alguém contempla os costumes do presente
com os olhos voltados para o passado:
— No meu tempo era diferente.
Era mesmo.
Cada época possui seus costumes, suas dificuldades, seus valores
predominantes e suas maneiras próprias de estabelecer relações. O problema
começa quando transformamos a diferença em prova de decadência.
No campo dos relacionamentos afetivos, essa comparação aparece com
frequência. Recordam-se os namoros mais demorados, o cortejo, as cartas, o
recato, a expectativa pelo encontro e a importância atribuída ao casamento. Em
contraste, observam-se as novas gerações, que utilizam outras formas de
comunicação, conhecem pessoas pelas redes sociais e, muitas vezes, adiam o
casamento e experimentam diferentes formas de relacionamento.
Seria correto concluir que o amor perdeu seu valor?
Os fatos não autorizam uma conclusão tão simples. Em 2024, o Brasil
registrou 948.925 casamentos e 428.301 divórcios. A idade média ao casamento
também aumentou ao longo das últimas décadas. Entre pessoas solteiras de sexos
distintos, os homens casaram-se, em média, aos 31,5 anos e as mulheres aos 29,3
anos em 2024. Em 2004, essas médias eram aproximadamente 29,3 e 27,8 anos,
respectivamente.
Esses números mostram transformação social, mas não demonstram o
desaparecimento do desejo de amar, constituir vínculos ou compartilhar a
existência.
A questão talvez seja outra:
O que permanece essencial quando as formas de amar se transformam?
É nesse ponto que a Doutrina Espírita pode contribuir para a reflexão.
Não para condenar costumes nem para idealizar épocas passadas, mas para
ajudar-nos a distinguir aquilo que pertence às convenções humanas daquilo que
diz respeito ao desenvolvimento moral do Espírito.
PARTE I — O
PASSADO, O PRESENTE E AS FORMAS DE AMAR
1. Quando a saudade transforma-se em
julgamento
A memória possui uma característica curiosa: frequentemente conserva
aquilo que foi belo e deixa na sombra aquilo que foi difícil.
Recordamos os bailes, as cartas, os encontros, as flores, a música e os
primeiros olhares.
Mas raramente a nostalgia começa lembrando que também existiam
casamentos infelizes, dependência econômica, preconceitos, violência doméstica,
desigualdade entre homens e mulheres e uniões mantidas apenas pela pressão
social.
Isso não significa negar a beleza existente no passado.
O cortejo paciente podia ensinar expectativa.
As cartas podiam ensinar cuidado.
A distância entre os encontros podia aumentar o significado de cada
conversa.
O compromisso matrimonial podia representar uma decisão profunda.
Havia valores que merecem ser preservados.
Mas não devemos confundir o que havia de bom em determinada época com
tudo aquilo que existia naquela época.
O passado merece ser estudado, não idealizado.
O presente merece ser observado, não condenado.
E o futuro precisa ser construído com discernimento.
2. A velocidade das relações
Uma das maiores mudanças do nosso tempo não está simplesmente na
liberdade das relações, mas na velocidade.
A tecnologia tornou possível conhecer alguém que vive a milhares de
quilômetros, conversar imediatamente, acompanhar sua rotina e desenvolver
intimidade antes mesmo de um encontro presencial.
As pesquisas sobre relacionamentos digitais confirmam essa
transformação. Entre adolescentes norte-americanos com experiência de
relacionamento, uma parcela significativa já havia se relacionado com alguém
conhecido inicialmente pela internet. O próprio Pew Research Center observa que
as tecnologias digitais participam hoje da maneira como os jovens iniciam,
mantêm e encerram relacionamentos.
Mas a tecnologia não criou o amor.
Também não o destruiu.
Ela apenas ampliou os meios pelos quais o ser humano procura
relacionar-se.
Uma mensagem pode aproximar.
Também pode substituir uma conversa necessária.
Uma fotografia pode expressar carinho.
Também pode transformar a intimidade em exposição.
Uma rede social pode aproximar pessoas.
Também pode estimular comparação, ciúme e insegurança.
A questão moral, portanto, não está essencialmente na ferramenta.
Está no uso que fazemos dela.
3. O casamento também está mudando
O aumento da idade ao casamento não deve ser interpretado
automaticamente como rejeição ao compromisso.
Pode envolver estudos mais prolongados, inserção profissional,
dificuldades econômicas, mudanças culturais, maior autonomia individual e
outras circunstâncias sociais.
Também é importante observar que o casamento continua sendo uma
realidade expressiva. Em 2024, quase 950 mil casamentos foram registrados no
país.
Talvez, portanto, seja inadequado perguntar:
— Por que os jovens não querem mais compromisso?
Uma pergunta mais prudente seria:
— Por que o compromisso está sendo assumido mais tarde e em condições
diferentes?
Perguntas diferentes produzem respostas diferentes.
4. A forma social não é a essência moral
A Doutrina Espírita apresenta o casamento como uma conquista do
progresso humano, relacionada à solidariedade e à organização social, ao mesmo
tempo em que distingue as leis naturais das convenções estabelecidas pelos
homens.
Essa distinção é fundamental.
Não devemos confundir a essência moral de uma relação com a forma
histórica que ela assume.
As instituições sociais podem modificar-se.
Os costumes podem modificar-se.
As maneiras de conhecer alguém podem modificar-se.
Mas permanecem atuais questões muito mais profundas:
Há respeito?
Há sinceridade?
Há responsabilidade?
Há consideração pelo outro?
Há fidelidade aos compromissos assumidos?
Há capacidade de combater o egoísmo?
Há disposição para auxiliar?
Há esforço para corrigir os próprios erros?
Essas perguntas atravessam séculos.
PARTE II —
O QUE REALMENTE PERMANECE
5. O romantismo pode mudar de linguagem
Talvez o romantismo que alguns acreditam ter desaparecido esteja apenas
utilizando outras linguagens.
A carta transformou-se em mensagem.
O encontro marcado na praça pode transformar-se em uma conversa por
vídeo.
A fotografia guardada no álbum familiar pode aparecer na tela do
telefone.
A serenata pode ser substituída por uma música enviada inesperadamente.
As formas mudaram.
A necessidade humana de estabelecer vínculos, entretanto, permanece.
Pesquisas sobre aplicativos de relacionamento mostram que, mesmo entre
usuários dessas plataformas, encontrar um parceiro para uma relação duradoura
continua sendo uma das principais razões declaradas para sua utilização. Em
levantamento do Pew Research Center, 44% dos usuários atuais ou recentes
disseram que encontrar um parceiro de longo prazo era uma razão importante para
utilizar esses serviços; entre adultos parceiros com menos de 30 anos, 20%
afirmaram ter conhecido o atual companheiro por meio de aplicativo ou site de
relacionamento.
O instrumento é moderno.
A aspiração humana não necessariamente o é.
A tela mudou.
O coração, nem tanto.
6. O amor não pode transformar o outro em
objeto
Existe, entretanto, uma questão moral que atravessa todas as gerações.
Quando o relacionamento deixa de ser encontro entre duas pessoas e passa
a ser utilização de uma pela outra, alguma coisa essencial se perde.
Isso acontecia no passado.
Acontece no presente.
E continuará acontecendo enquanto o egoísmo fizer parte da experiência
humana.
Uma pessoa pode procurar outra apenas para obter prazer, segurança,
status, dinheiro, aprovação ou para fugir da solidão.
Pode também exigir que o companheiro preencha todos os seus vazios.
Nenhuma dessas atitudes corresponde ao amor em sua expressão mais
elevada.
Amar não significa encontrar alguém que resolva todos os nossos
problemas.
Significa aprender a compartilhar a existência sem transformar o outro
em instrumento.
Por isso permanece atual o ensinamento de Jesus sobre o amor ao próximo:
amar implica reconhecer no outro um ser digno de respeito e consideração.
7. Liberdade e responsabilidade
Uma das mudanças importantes da sociedade contemporânea foi a ampliação
da liberdade individual.
Isso trouxe conquistas importantes.
Ninguém deve aceitar violência, humilhação ou desrespeito em nome do
amor.
Não é virtude permanecer em uma situação destrutiva apenas para
preservar aparências.
Mas liberdade não significa ausência de responsabilidade.
Quanto maior a possibilidade de escolher, maior é a responsabilidade
pelas consequências da escolha.
O compromisso livremente assumido possui valor justamente porque poderia
não ter sido assumido.
A pessoa permanece porque deseja permanecer.
É fiel porque reconhece o valor da fidelidade.
Cuida porque compreende a importância do cuidado.
Respeita porque reconhece a dignidade do outro.
Assim, liberdade e responsabilidade não são adversárias.
Uma completa a outra.
8. Amor-próprio não é egoísmo
Também merece atenção a valorização contemporânea do chamado
amor-próprio.
Há mérito nisso quando significa respeito pela própria dignidade.
Mas cuidar de si não significa colocar-se acima dos demais.
Estabelecer limites não significa incapacidade de amar.
Ter autonomia não significa rejeitar compromissos.
A Doutrina Espírita oferece, na questão 919 de O Livro dos Espíritos,
uma orientação particularmente importante: o exame da própria consciência como
instrumento de autoconhecimento e aperfeiçoamento.
Aplicada à vida afetiva, essa orientação modifica a pergunta.
Em vez de:
— Por que o outro não me faz feliz?
podemos perguntar:
— Que espécie de pessoa estou sendo nessa relação?
Antes de exigir compreensão:
— Tenho procurado compreender?
Antes de reclamar de carinho:
— Tenho oferecido carinho?
Antes de acusar:
— Tenho examinado minhas próprias atitudes?
O relacionamento pode tornar-se, assim, oportunidade de conhecimento de
nós mesmos.
PARTE III —
RELACIONAMENTOS COMO EXPERIÊNCIA DE APRENDIZADO
9. A juventude precisa de orientação, não de
condenação
É natural que pais e avós se preocupem com os jovens.
A preocupação pode nascer do amor.
Mas ela perde sua finalidade quando se transforma em condenação.
O jovem precisa aprender que liberdade não significa ausência de
consequências.
Precisa compreender que o corpo merece respeito, que o sentimento alheio
não é brinquedo, que o consentimento é indispensável, que promessas não devem
ser feitas levianamente e que a intimidade não deve transformar-se em
espetáculo.
Mas também precisa ouvir dos mais experientes:
— Eu confio em você.
A experiência dos mais velhos é valiosa quando se transforma em
orientação.
Perde valor quando se transforma em nostalgia acusatória.
O objetivo da educação moral não deve ser produzir cópias das gerações
anteriores.
Deve ser ajudar cada geração a fazer melhor.
10. Cada relação pode ensinar alguma coisa
A visão espírita amplia essa reflexão.
O ser humano não é compreendido apenas como organismo submetido às
circunstâncias materiais. O Espírito encontra-se em processo de desenvolvimento
e, nas experiências da existência, encontra oportunidades de aprendizado.
Os relacionamentos, portanto, podem constituir experiências educativas.
Uma relação pode ensinar paciência.
Outra pode revelar nossa dificuldade de perdoar.
Outra pode mostrar o quanto ainda somos possessivos.
Outra pode exigir renúncia.
Outra pode revelar nossa tendência ao egoísmo.
Isso não significa transformar toda relação em obrigação de permanência.
Há situações em que a separação pode ser necessária.
O que importa é compreender que a duração do vínculo não é, por si
só, medida de seu valor moral.
Também uma separação pode ser conduzida com respeito.
Duas pessoas podem reconhecer que já não conseguem caminhar juntas sem
destruir a própria dignidade.
Podem evitar a transformação do antigo companheiro em inimigo.
Podem reconhecer os erros cometidos, agradecer o aprendizado e seguir
adiante.
O importante é aquilo que fazemos com a experiência.
11. Nem toda novidade é progresso
A Doutrina Espírita apresenta o progresso como lei da natureza e a
humanidade como em processo de desenvolvimento intelectual e moral.
Essa concepção oferece uma orientação equilibrada.
Não devemos conservar um costume simplesmente porque é antigo.
Tampouco devemos aceitar uma novidade simplesmente porque é nova.
Precisamos examinar.
Comparar.
Raciocinar.
Observar as consequências.
Separar o essencial do acessório.
Aquilo que o passado possuía de justo e humano merece ser preservado.
Aquilo que nele havia de injusto precisa ser superado.
O que o presente apresenta de positivo deve ser aproveitado.
O que favorece o egoísmo, a exploração, a irresponsabilidade ou a
desconsideração pelo próximo precisa ser questionado.
Nem tudo que é antigo é bom.
Nem tudo que é novo é progresso.
O progresso verdadeiro está naquilo que aproxima o ser humano da
justiça, da solidariedade, da liberdade responsável e do bem.
12. O amor como construção moral
Talvez esteja aqui o ponto central desta reflexão.
O amor não deveria ser avaliado somente pelo que sentimos.
Também precisa ser observado pelo que fazemos.
Sentir carinho é importante.
Cuidar é mais.
Sentir desejo é natural.
Respeitar é indispensável.
Querer companhia é legítimo.
Ser companheiro é uma conquista.
Desejar ser amado é humano.
Aprender a amar é trabalho de toda a existência.
Nesse sentido, o romantismo não morreu.
Talvez apenas precise amadurecer.
Podem continuar existindo a flor, a carta, o jantar, a música, a
fotografia, a mensagem inesperada e o olhar demorado.
Tudo isso pode ser belo.
Mas o romantismo alcança sua expressão mais profunda quando passa da
emoção para a responsabilidade.
Quando o encanto transforma-se em cuidado.
Quando a paixão aprende a respeitar.
Quando a liberdade encontra a responsabilidade.
Quando o desejo de receber amor transforma-se também na disposição de
oferecê-lo.
Conclusão
Talvez Dona Helena tivesse razão quando dizia:
— No meu tempo era diferente.
Era mesmo.
Mas isso não significa que o seu tempo tenha sido melhor em tudo.
Lucas também poderia estar certo:
— Talvez o problema não seja o nosso tempo.
Cada época apresenta suas dificuldades.
Cada geração comete seus erros.
Cada geração também produz pessoas generosas, responsáveis e capazes de
amar profundamente.
Não precisamos idealizar o passado nem demonizar o presente.
Precisamos aprender a enxergar.
Ao olhar para os jovens, talvez devêssemos procurar menos aquilo que nos
decepciona e mais aquilo que podemos ajudar a desenvolver.
Há jovens que sonham.
Há jovens que desejam construir uma família.
Há jovens que procuram relações sinceras.
Há jovens que querem ser respeitados e também aprender a respeitar.
Há jovens que desejam um mundo melhor.
Talvez ainda não saibam como construí-lo.
É aí que entram os mais experientes.
Não para dizer:
— Faça como eu fiz.
Mas para perguntar:
— Como posso ajudá-lo a fazer melhor?
Essa mudança de postura pode aproximar gerações.
O passado oferece experiência.
O presente oferece novas possibilidades.
O futuro dependerá daquilo que conseguirmos unir entre ambos.
E, no centro de tudo, permanece uma necessidade humana que nenhuma
tecnologia conseguiu substituir: amar, ser amado e aprender, através da
convivência, a amar com mais consciência.
O romantismo não morreu.
Talvez apenas esteja esperando que deixemos de confundi-lo com
aparências.
Sua expressão mais duradoura não está necessariamente na flor, na carta,
na serenata ou na declaração apaixonada.
Está no respeito que permanece quando a emoção passa.
Na responsabilidade que permanece quando o encanto diminui.
Na consideração pelo outro quando desaparece a novidade.
E, sobretudo, na disposição de fazer o bem mesmo quando ninguém está
olhando.
É possível que seja justamente aí que o amor deixe de ser apenas
sentimento e comece a tornar-se conquista moral do Espírito.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Especialmente questões 625, 695-699, 886, 893, 906 e 919. Paris, 1857; 2. ed. revista e ampliada, 1860.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulos XI — Amar o próximo como a si mesmo; XVII — Sede perfeitos. Paris, 1864.
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Paris, 1859.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Segunda parte — Constituição do Espiritismo e textos relacionados ao desenvolvimento moral e social.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC, Allan (org.). Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Coleção de 1858 a 1869. Estudos relacionados à família, às relações humanas, à educação moral e ao progresso da humanidade.
4. Obras Subsidiárias
- XAVIER, Francisco Cândido. Vida e Sexo. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.
- XAVIER, Francisco Cândido. Sexo e Destino. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB.
5. Passagens bíblicas
- Mateus, 22:37-40 — O amor a Deus e ao próximo.
- João, 13:34-35 — O amor como princípio de reconhecimento entre os discípulos.
- 1 Coríntios, 13:4-7 — Características do amor paciente, benigno e desinteressado.
6. Fontes Externas
- IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estatísticas do Registro Civil 2024. Dados sobre casamentos, divórcios e idade dos cônjuges.
- PEW RESEARCH CENTER. Teen Voices: Dating in the Digital Age. Dados sobre tecnologia e relacionamentos entre adolescentes.
- PEW RESEARCH CENTER. For Valentine’s Day, facts about marriage and dating in the U.S. Dados sobre casamento e utilização de aplicativos de relacionamento.
- PEW RESEARCH CENTER. The Who, Where and Why of Online Dating in the U.S. Dados sobre relacionamentos iniciados por meio de aplicativos e sites de relacionamento.
- MOMENTO ESPÍRITA. “O romantismo não morreu”. Texto utilizado como referência temática para a elaboração inicial da presente reflexão.