Uma reflexão sobre a esperança ativa, a fé
raciocinada e a responsabilidade do Espírito na construção do futuro.
Introdução
Em sua obra A Revolução da Esperança, o psicanalista e filósofo
humanista Erich Fromm apresenta uma reflexão que permanece atual: a esperança
não deve ser confundida com simples desejo, espera passiva ou confiança ingênua
em um futuro que se realizará independentemente de nossas ações.
Para ele, ter esperança significa manter-se interiormente preparado para
aquilo que ainda não nasceu, reconhecendo as possibilidades da vida e
dispondo-se a colaborar para que elas se concretizem. A esperança, portanto,
não é inércia, mas uma atitude ativa diante da existência.
Essa compreensão encontra pontos de contato significativos com a
Doutrina Espírita, que apresenta o ser humano como Espírito em processo de
desenvolvimento, dotado de livre-arbítrio e responsável pelo próprio
aperfeiçoamento.
Sob essa perspectiva, esperar não significa simplesmente aguardar.
Significa aprender, trabalhar, perseverar, transformar-se e confiar no
progresso, mesmo quando os resultados ainda não podem ser percebidos.
A esperança genuína não nos afasta da realidade: ajuda-nos a reconhecer
o que pode ser transformado e nos encoraja a participar dessa transformação.
PARTE I
— A ESPERANÇA ENTRE O DESEJO E A AÇÃO
1. O que realmente significa ter esperança?
É comum associarmos a esperança ao desejo de que algo aconteça: superar
uma dificuldade, alcançar um objetivo, encontrar melhores condições de vida ou
assistir ao nascimento de um mundo mais justo.
Esses desejos fazem parte da experiência humana. Entretanto, desejar
alguma coisa não significa, necessariamente, ter esperança.
Fromm estabelece uma distinção importante: a pessoa pode desejar
intensamente bens materiais, conforto ou reconhecimento sem que isso represente
uma disposição verdadeiramente esperançosa. Da mesma forma, alguém pode
alimentar grandes expectativas sobre o futuro e permanecer completamente
inativo no presente.
A Doutrina Espírita oferece elementos para aprofundar essa reflexão.
Em O Livro dos Espíritos, ao tratar da felicidade relativa que o
ser humano pode alcançar na Terra, os Espíritos Superiores esclarecem que a
verdadeira felicidade não está condicionada à posse de riquezas, mas à
satisfação de necessidades reais e ao equilíbrio moral.
A questão 922 apresenta uma distinção entre o necessário e o supérfluo,
mostrando que a felicidade pode ser comprometida quando o indivíduo transforma
desejos materiais em finalidade essencial da existência.
Podemos, então, estabelecer:
- Desejo:
manifestação de uma aspiração, que pode ser legítima ou egoísta.
- Expectativa:
antecipação de um acontecimento que se deseja.
- Esperança:
disposição interior que reconhece uma possibilidade e se prepara para
colaborar com sua realização.
A esperança, nesse sentido, não depende da quantidade de coisas que
desejamos, mas da qualidade de nossa relação com a vida.
O perigo de
confundir esperança com consumo
Uma sociedade orientada predominantemente pelo
consumo pode estimular a ideia de que a felicidade será alcançada quando
adquirirmos determinado produto, atingirmos certa posição ou conquistarmos uma
condição material específica.
Entretanto, a satisfação de um desejo
frequentemente dá lugar a outro.
Isso não significa que os recursos materiais
sejam desprezíveis. Eles são necessários à existência corporal e podem
contribuir para o bem-estar. O problema surge quando passam a ocupar o lugar
dos valores que realmente favorecem o progresso do Espírito.
A esperança que se limita à aquisição de
coisas permanece dependente de circunstâncias externas.
A esperança que se fundamenta no
desenvolvimento interior encontra possibilidades de crescimento mesmo quando as
condições materiais são adversas.
2. A esperança passiva: quando esperar se
transforma em desistência
Fromm utiliza uma narrativa de Franz Kafka, presente em O Processo,
para ilustrar a situação de alguém que permanece diante de uma porta aberta,
aguardando indefinidamente a autorização de um porteiro para atravessá-la.
O homem poderia tentar entrar, mas prefere esperar. Os anos passam, a
vida se aproxima do fim e ele permanece submetido à expectativa de uma
permissão que nunca chega.
A narrativa simboliza uma forma de esperança que, na realidade, esconde
impotência e renúncia à própria capacidade de agir.
A espera
que paralisa
Na experiência cotidiana, essa atitude pode
manifestar-se de diferentes maneiras:
·
Esperar que outras pessoas resolvam problemas
que também nos competem.
·
Adiar indefinidamente uma mudança necessária.
·
Aguardar condições perfeitas para iniciar um
trabalho.
·
Depositar no futuro aquilo que já poderia ser
realizado no presente.
·
Acreditar que o simples passar do tempo
produzirá transformação.
A Doutrina Espírita, ao valorizar o
livre-arbítrio e a responsabilidade individual, oferece uma perspectiva
incompatível com a acomodação sistemática.
O Espírito dispõe de oportunidades de
aprendizado e progresso, mas precisa utilizar seus recursos e exercer suas
escolhas.
“Ajuda-te,
que o céu te ajudará”
O capítulo XXV de O Evangelho segundo o
Espiritismo apresenta essa orientação no item 1, ao comentar a passagem
evangélica:
“Pedi e se vos dará; buscai e achareis; batei
e se vos abrirá.”
A interpretação espírita não transforma essa
promessa em garantia de satisfação automática de qualquer desejo. O ensinamento
estimula a iniciativa, a perseverança e a confiança na assistência divina, sem
dispensar o esforço pessoal.
A prece pode fortalecer-nos.
A inspiração pode orientar-nos.
O auxílio espiritual pode amparar-nos.
Mas a ação consciente continua sendo
responsabilidade nossa.
A esperança que espera sem agir pode tornar-se
uma maneira confortável de desistir.
3. O futuro não substitui o presente
Outra crítica apresentada por Fromm dirige-se à idolatria do futuro: a
crença de que o tempo, a história ou as gerações futuras realizarão, por si
mesmos, aquilo que não estamos dispostos a construir.
Essa postura pode aparecer tanto na vida individual quanto na coletiva.
Alguém pode esperar que um dia se torne mais paciente sem exercitar a
paciência hoje. Uma sociedade pode desejar justiça sem modificar práticas que
perpetuam desigualdades. Uma pessoa pode sonhar com um mundo melhor sem
contribuir para melhorar o ambiente em que vive.
Em todos esses casos, o futuro é utilizado como desculpa para a inação.
A
perspectiva espírita sobre o progresso
A Doutrina Espírita ensina que o progresso é
uma lei da Natureza. Os Espíritos avançam gradualmente, por meio de
experiências, escolhas, aprendizados e esforços sucessivos.
Contudo, reconhecer a existência da Lei do
Progresso não significa imaginar que o indivíduo possa permanecer imóvel sem
consequências.
O progresso é uma possibilidade assegurada
pela Lei Divina, mas o ritmo e os caminhos de nosso aperfeiçoamento
relacionam-se ao uso que fazemos do livre-arbítrio.
O futuro não é um presente que recebemos sem
participação.
É, em grande medida, o resultado daquilo que
estamos construindo.
O tempo
como oportunidade
O tempo não possui, por si só, a capacidade de
transformar moralmente alguém.
Ele oferece oportunidades.
Podemos utilizá-lo para:
·
Desenvolver conhecimentos.
·
Corrigir hábitos.
·
Reparar equívocos.
·
Cultivar relacionamentos mais equilibrados.
·
Ampliar nossa capacidade de servir.
·
Substituir gradualmente o egoísmo pela
solidariedade.
Ou podemos desperdiçá-lo, repetindo
indefinidamente os mesmos comportamentos.
A esperança espírita não despreza o futuro,
mas compreende que cada instante presente pode representar uma oportunidade de
preparação.
4. O outro extremo: quando a esperança se
disfarça de imprudência
Fromm também identifica uma forma oposta de falsa esperança: o impulso
aventureiro que pretende forçar acontecimentos, despreza a realidade e busca
mudanças imediatas a qualquer custo.
Essa atitude pode parecer corajosa, mas frequentemente esconde
impaciência, desespero ou incapacidade de lidar com limites.
A pessoa deseja tanto uma transformação que deixa de avaliar os meios
necessários para alcançá-la.
Esperança
não é precipitação
Na perspectiva espírita, a prudência não
representa covardia. Ela constitui uma qualidade necessária ao discernimento.
A Lei de Causa e Efeito nos convida a
compreender que nossas ações produzem consequências, tanto para nós quanto para
aqueles que participam de nossa existência.
Por isso, uma iniciativa pode ser
bem-intencionada e, ainda assim, produzir resultados prejudiciais quando
conduzida sem preparo, reflexão ou respeito às circunstâncias.
A esperança equilibrada não se confunde com:
·
Impulsividade.
·
Fanatismo.
·
Desprezo pelos fatos.
·
Expectativa de resultados imediatos.
·
Sacrifício irresponsável de pessoas e
recursos.
Nem a acomodação nem a precipitação expressam
a verdadeira esperança.
Uma espera que jamais se transforma em ação é
estéril.
Uma ação que ignora a realidade pode ser
destrutiva.
Entre ambas encontra-se o caminho da
iniciativa consciente.
PARTE II
— A ESPERANÇA COMO ATITUDE ESPIRITUAL
5. A esperança autêntica: estar preparado para
o que ainda não nasceu
Fromm apresenta a esperança como uma disposição semelhante à de um tigre
agachado, pronto para saltar quando chega o momento adequado.
A imagem sugere concentração, vigilância e disponibilidade.
Não se trata de permanecer imóvel por incapacidade, mas de conservar
energia, atenção e preparo para agir quando as circunstâncias permitirem.
Essa compreensão pode ser aproximada do ensinamento de Jesus:
“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação.” — Mateus,
26:41.
A vigilância, no sentido espiritual, não é medo constante nem
expectativa de acontecimentos extraordinários. É atenção sobre nós mesmos e
sobre as oportunidades de fazer o bem.
O que
significa estar espiritualmente preparado?
Podemos considerar algumas atitudes:
·
Cultivar o conhecimento: compreender melhor a
vida e suas leis.
·
Desenvolver o discernimento: distinguir
possibilidades reais de ilusões.
·
Trabalhar as imperfeições: não esperar que o
futuro nos transforme sem esforço.
·
Manter o ânimo: não abandonar o bem diante das
dificuldades.
·
Reconhecer oportunidades: perceber quando uma
ação útil se apresenta.
·
Agir com prudência: escolher os meios
adequados para cada finalidade.
A esperança não exige que saibamos exatamente
quando ou como determinado acontecimento ocorrerá.
Exige que estejamos preparados para contribuir
quando uma possibilidade favorável surgir.
6. A fé raciocinada: fundamento da esperança
consciente
Fromm afirma que a esperança está intimamente ligada à fé. Entretanto,
sua concepção de fé não corresponde à aceitação passiva de uma crença imposta.
Para ele, a fé pode ser compreendida como convicção acerca de uma
possibilidade real, fundamentada na compreensão e na experiência de
transformação.
Essa abordagem apresenta afinidade com o conceito espírita de fé
raciocinada.
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XIX, item 7,
encontramos:
“A fé inabalável só é aquela que pode encarar a razão face a face, em
todas as épocas da Humanidade.”
A fé espírita não precisa afastar-se da razão para preservar sua força.
Ao contrário, quanto mais compreendemos os fundamentos de uma convicção,
mais condições possuímos de sustentá-la conscientemente.
Fé racional
e fé irracional
A distinção proposta por Fromm permite compreender duas maneiras
bastante diferentes de lidar com aquilo que acreditamos.
Fé racional
É aquela que se desenvolve por meio da
atividade interior, da reflexão e da compreensão. Suas principais
características são:
·
Fundamenta-se na compreensão e no
discernimento: procura examinar as razões que sustentam uma convicção.
·
Estimula a autonomia: favorece a capacidade de
pensar, escolher e assumir responsabilidade pelas próprias decisões.
·
Reconhece limites e possibilidades: não
confunde confiança com certeza absoluta nem ignora as condições da realidade.
·
Favorece a ação consciente: transforma
convicções em iniciativas orientadas pelo bom senso e pela responsabilidade.
·
Permanece aberta ao aprendizado: aceita rever
compreensões diante de novos conhecimentos e argumentos consistentes.
Fé irracional
Não se refere simplesmente àquilo que ainda
não compreendemos, mas à aceitação passiva de algo como verdadeiro,
independentemente de sua fundamentação. Pode apresentar as seguintes
características:
·
Apoia-se na submissão e na aceitação sem
exame: acolhe afirmações sem questionar seus fundamentos.
·
Pode gerar dependência: transfere a outros a
responsabilidade de pensar e decidir.
·
Pode alimentar ilusões e certezas infundadas:
substitui a análise por expectativas sem base suficiente.
·
Pode justificar a passividade ou o fanatismo:
utiliza a crença como motivo para não agir ou para rejeitar opiniões
divergentes.
·
Resiste ao questionamento: interpreta a dúvida
como ameaça, em vez de reconhecê-la como oportunidade de aprendizado.
No Espiritismo, a fé raciocinada não significa possuir respostas
definitivas para todas as questões, tampouco exigir que a razão se limite ao
que já foi demonstrado.
Significa buscar compreender, examinar e avançar sem abandonar a
honestidade intelectual, mantendo a disposição para aprender e aperfeiçoar
nossas convicções.
Essa postura permite que a fé e a esperança caminhem juntas, não como
fuga da realidade, mas como confiança consciente nas possibilidades de
progresso.
A fé não é
previsão infalível do futuro
Um ponto particularmente interessante na
reflexão de Fromm é que a fé não representa certeza absoluta quanto ao
resultado de um acontecimento.
Podemos reconhecer uma possibilidade real sem
garantir que ela se concretizará exatamente como imaginamos.
Essa distinção é importante.
A esperança de uma recuperação não elimina a
necessidade de tratamento.
A esperança de reconciliação não dispensa o
diálogo.
A esperança de progresso social não substitui
o trabalho coletivo.
A esperança de transformação íntima não
elimina a necessidade de esforço diário.
Confiar na possibilidade do bem não significa
conhecer antecipadamente todos os resultados.
7. A esperança e a Lei do Progresso
A Doutrina Espírita apresenta o progresso como uma lei universal,
relacionada ao desenvolvimento dos seres e à finalidade da existência.
Em O Livro dos Espíritos, questões 114 a 127, encontramos
esclarecimentos sobre o estado dos Espíritos, sua responsabilidade e a
possibilidade de aperfeiçoamento.
O Espírito não é criado perfeito. Seu desenvolvimento ocorre
gradualmente, por meio de experiências e escolhas.
Essa compreensão oferece fundamento para uma esperança que não depende
de resultados imediatos.
Se o progresso é possível, então nossas limitações atuais não precisam
ser consideradas condições definitivas.
O valor das
pequenas conquistas
Muitas transformações importantes não
acontecem de maneira repentina.
Uma pessoa que antes reagia com violência pode
aprender a controlar gradualmente seus impulsos.
Alguém habituado ao egoísmo pode começar a
perceber as necessidades alheias.
Quem vivia dominado pelo desânimo pode
recuperar, pouco a pouco, a confiança na própria capacidade de reconstrução.
Essas mudanças talvez pareçam pequenas quando
observadas isoladamente.
Entretanto, representam movimentos reais de
aperfeiçoamento.
A esperança espírita reconhece o valor desses
esforços porque compreende que o progresso moral não depende de gestos
grandiosos, mas da perseverança na prática do bem.
A
reencarnação como oportunidade
A reencarnação amplia essa perspectiva.
Ela oferece ao Espírito novas oportunidades de
aprendizado, reparação e desenvolvimento, sem transformar a existência terrena
em uma experiência sem finalidade.
Dificuldades, limitações e experiências dolorosas
podem integrar processos educativos complexos, embora não devamos interpretar
automaticamente todo sofrimento como consequência de uma falta específica ou
justificar a dor alheia com explicações simplistas.
A esperança espírita não pede que amemos o
sofrimento.
Ela nos convida a reconhecer que, mesmo diante
de circunstâncias difíceis, podem existir possibilidades de aprendizado,
auxílio e transformação.
8. A esperança diante das dificuldades da vida
A esperança é especialmente necessária quando a realidade parece
contrariar nossos planos.
Enfrentamos perdas, enfermidades, conflitos, frustrações, dificuldades
econômicas e situações cuja solução não depende exclusivamente de nossa
vontade.
Nesses momentos, a esperança não deve ser apresentada como obrigação de
permanecer alegre ou como negação da dor.
O sofrimento precisa ser reconhecido.
O auxílio deve ser buscado.
As providências possíveis precisam ser tomadas.
A fé pode oferecer sustentação moral para atravessar a experiência sem
perder completamente a confiança na vida.
Esperança
não é negar a realidade
Uma compreensão madura da esperança permite
reconhecer simultaneamente:
·
A existência de uma dificuldade real.
·
A necessidade de providências concretas.
·
A possibilidade de auxílio humano e
espiritual.
·
A incerteza quanto aos resultados.
·
A capacidade de continuar aprendendo e agindo.
A Doutrina Espírita oferece consolo ao
apresentar a existência como processo mais amplo que a experiência corporal
presente.
Mas esse consolo não deve ser utilizado para
minimizar a dor de quem sofre ou desencorajar a busca por cuidados médicos,
psicológicos, sociais e materiais.
A esperança pode coexistir com lágrimas.
Pode acompanhar o tratamento.
Pode permanecer viva durante períodos de
incerteza.
E pode manifestar-se simplesmente na decisão
de continuar um dia de cada vez.
9. Esperança e responsabilidade na construção
de um mundo melhor
Fromm relaciona a esperança à possibilidade de transformação social.
Para ele, uma sociedade mais humana exige pessoas dispostas a participar
ativamente de sua construção.
Essa reflexão também encontra correspondência na Doutrina Espírita.
O progresso moral individual e o progresso social estão relacionados. A
melhoria das instituições, das relações humanas e das condições coletivas
depende, em parte, da transformação dos indivíduos que as constituem.
Entretanto, não devemos esperar que todos se tornem perfeitos para
começar a trabalhar pelo bem.
A construção de um mundo melhor começa nas possibilidades que já estão
ao nosso alcance.
Como
transformar esperança em contribuição?
Podemos começar por atitudes simples:
·
Tratar as pessoas com respeito, inclusive
quando discordamos delas.
·
Combater a indiferença diante do sofrimento
alheio.
·
Utilizar o conhecimento para esclarecer, não
para humilhar.
·
Desenvolver responsabilidade nas relações
familiares e profissionais.
·
Participar de iniciativas que favoreçam a
dignidade humana.
·
Evitar a propagação de informações falsas ou
alarmistas.
·
Incentivar a educação, a solidariedade e o
diálogo.
A esperança deixa de ser apenas uma
expectativa quando se converte em comportamento.
Não precisamos realizar grandes feitos para
colaborar com o progresso.
Precisamos utilizar, com responsabilidade, os
recursos que possuímos.
10. A esperança como expressão da caridade
A máxima espírita “Fora da caridade não há salvação”, apresentada
em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XV, item 5, amplia a
reflexão sobre a esperança.
Se a esperança nos prepara para colaborar com o nascimento do bem, a
caridade oferece uma das formas mais concretas dessa colaboração.
A pessoa esperançosa não se limita a desejar que os outros sejam
felizes.
Ela procura contribuir, dentro de suas possibilidades, para que essa
felicidade se torne mais acessível.
Isso pode ocorrer por meio:
- De uma
palavra de consolo.
- De uma
orientação útil.
- De um
gesto de solidariedade.
- Da
disposição para ouvir.
- Do
trabalho voluntário.
- Do
conhecimento compartilhado.
- Da
paciência com quem está em processo de aprendizado.
A caridade não exige que resolvamos todos os problemas do mundo.
Ela nos convida a não acrescentar sofrimento desnecessário à existência
dos outros e a fazer o bem quando tivermos oportunidade.
Esperança
que se transforma em serviço
Quando a esperança se associa à caridade,
deixa de ser uma experiência exclusivamente individual.
Ela passa a participar da construção de um
ambiente mais favorável ao desenvolvimento humano.
A esperança de um mundo melhor manifesta-se,
então, não apenas em discursos sobre o futuro, mas nas relações que
estabelecemos hoje.
11. A esperança e a transformação íntima
A reflexão de Fromm também nos conduz ao interior do ser.
Não basta desejar uma vida diferente. É necessário desenvolver as
condições pessoais para vivê-la.
Na perspectiva espírita, essa transformação está relacionada ao esforço
de superar imperfeições e desenvolver qualidades morais.
Não se trata de exigir perfeição imediata, mas de reconhecer que cada
pessoa pode trabalhar sobre si mesma.
Algumas
perguntas para o autoconhecimento
·
Que mudanças desejo realizar, mas continuo
adiando?
·
Minha esperança está acompanhada de alguma
iniciativa concreta?
·
Tenho confundido confiança com acomodação?
·
Estou tentando forçar resultados para os quais
ainda não me preparei?
·
Quais recursos pessoais posso desenvolver?
·
De que maneira posso contribuir para o bem de
alguém hoje?
Essas perguntas não devem ser utilizadas como
instrumentos de culpa.
Seu objetivo é favorecer a consciência e a
responsabilidade.
A esperança verdadeira não nos acusa por ainda
não sermos aquilo que desejamos ser.
Ela nos encoraja a começar a construção.
REFLEXÃO
FINAL
Ter esperança é participar do nascimento do
novo
Erich Fromm oferece uma contribuição valiosa ao mostrar que a esperança
não é mera expectativa de que o futuro resolva nossas dificuldades.
Ela é uma disposição interior que reconhece possibilidades, conserva o
ânimo e permanece preparada para agir.
A Doutrina Espírita, por sua vez, amplia essa compreensão ao apresentar
o ser humano como Espírito em desenvolvimento, responsável por suas escolhas e
participante ativo do próprio progresso.
A fé raciocinada nos ajuda a confiar sem abandonar o discernimento.
O livre-arbítrio nos recorda que nossas decisões possuem importância.
A Lei do Progresso demonstra que as limitações atuais não precisam ser
encaradas como condições definitivas.
A caridade nos convida a transformar esperança individual em
contribuição para o bem coletivo.
Assim, podemos compreender que:
Esperar não é simplesmente aguardar. É preparar-se.
Confiar não é abandonar o esforço. É perseverar com equilíbrio.
Acreditar no futuro não é esquecer o presente. É utilizá-lo como
oportunidade de construção.
E quando o futuro desejado ainda não se apresenta, a esperança nos
permite continuar trabalhando, aprendendo e servindo, sem desespero e sem
imprudência.
Como expressa o poema Ter Esperança:
Ter esperança não significa simplesmente esperar. Há necessidade de
buscar, de continuar, lutar e trabalhar.
Essa é a esperança que merece ser cultivada: aquela que não se acomoda
diante da vida, não força o impossível e não abandona o bem diante das
dificuldades.
É a esperança que prepara o nascimento do novo.
E que, ao mesmo tempo, nos transforma enquanto colaboramos para que ele
aconteça.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 114–127, 922 e 941.
- KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulos XV, XIX e XXV. .
2. Obras Subsidiárias
- FROMM,
Erich. A Revolução da Esperança. Zahar Editores.
- KAFKA,
Franz. O Processo. Referência à narrativa da porta da Lei, conforme
apresentada e comentada por Erich Fromm em A Revolução da Esperança.
3. Passagens bíblicas
- Mateus, 26:41.