Introdução
No primeiro estudo desta série examinamos a definição, a origem e a
natureza do perispírito. Vimos que, segundo a Doutrina Espírita, ele é o
envoltório semimaterial do Espírito e o elemento intermediário que estabelece a
ligação entre o princípio inteligente e o corpo.
Neste segundo estudo, avançamos para suas propriedades.
A questão é particularmente importante porque o perispírito não é
apresentado pela Doutrina Espírita como simples revestimento passivo. Ele
participa ativamente da relação do Espírito com a matéria, serve de
intermediário às sensações, transmite a vontade aos órgãos, pode expandir-se
para além dos limites do corpo e, em determinadas circunstâncias, tornar-se
perceptível aos sentidos físicos.
A investigação exige, entretanto, uma distinção necessária. A ciência
humana estuda o organismo material segundo os métodos próprios da fisiologia,
da neurologia, da medicina e de outras áreas do conhecimento. A ciência
espírita, por sua vez, parte da existência do Espírito e investiga fenômenos
que ultrapassam o domínio exclusivo da matéria tangível.
Não se trata de escolher uma ciência contra a outra. Trata-se de
reconhecer os respectivos campos e, quando houver pontos de contato,
examiná-los sem forçar concordâncias.
É nesse contexto que as propriedades do perispírito ganham significado.
PARTE I
- A NATUREZA FLUÍDICA E A EXPANSÃO DO PERISPÍRITO
1. O perispírito não está confinado ao corpo
Uma das propriedades mais importantes do perispírito é justamente não
estar limitado à superfície corporal.
Em O Livro dos Espíritos, a Doutrina Espírita estabelece que o
perispírito é o laço semimaterial que liga a alma ao corpo e permite a ação
recíproca entre ambos. Em O Livro dos Médiuns, encontra-se a mesma
concepção: o perispírito acompanha o Espírito durante a encarnação e constitui
o intermediário pelo qual este transmite sua vontade ao exterior e atua sobre
os órgãos.
Portanto, o corpo físico não encerra o perispírito como se este fosse
uma estrutura confinada dentro dele.
A Gênese é ainda mais explícita ao afirmar que o
perispírito não é circunscrito ao corpo. Ele o envolve e se irradia
exteriormente, formando em torno dele uma espécie de atmosfera fluídica.
Essa característica permite compreender por que a relação entre
Espírito, perispírito e corpo não deve ser imaginada como uma simples relação
mecânica entre três elementos isolados.
Há interação permanente.
2. Expansão e irradiação
A expansão do perispírito é, portanto, uma propriedade fundamental.
Durante a vida corporal, o Espírito não se encontra absolutamente
limitado ao espaço ocupado pelo organismo. Seu envoltório perispiritual pode
irradiar-se exteriormente, estabelecendo condições para relações mais amplas
com o meio espiritual.
Em Obras Póstumas, no estudo sobre o perispírito como princípio
das manifestações, encontra-se igualmente a ideia de que esse envoltório se
expande e forma uma atmosfera fluídica em torno do corpo, podendo a ação do
pensamento e da vontade ampliar essa expansão.
Essa propriedade também ajuda a compreender determinados fenômenos de
emancipação da alma durante o sono e outros estados em que a relação do
Espírito com o corpo se modifica.
Não significa, contudo, que o Espírito deixe de estar ligado ao
organismo enquanto encarnado. Significa que o seu envoltório semimaterial
possui uma extensão que ultrapassa os limites físicos do corpo.
3. O perispírito, os fluidos e o organismo
É neste ponto que o estudo ganha maior profundidade.
Segundo A Gênese, o perispírito tem sua origem no Fluido Cósmico
Universal. O corpo físico também tem origem no mesmo elemento primitivo, embora
mediante transformações diferentes. Assim, corpo e perispírito pertencem à
matéria em estados distintos.
Essa concepção permite compreender a relação fluídica existente entre o
Espírito, seu perispírito e o organismo.
A Gênese descreve uma sequência que merece ser
examinada cuidadosamente: o pensamento atua sobre os fluidos espirituais; o
perispírito recebe a impressão desses fluidos e os assimila; os fluidos, por
sua vez, atuam sobre o perispírito, que reage sobre o organismo com o qual
mantém contato molecular.
Não se trata apenas de uma imagem simbólica.
A Doutrina Espírita afirma que pensamentos e qualidades morais deixam no
perispírito uma impressão direta e permanente. Como o perispírito é da mesma
natureza dos fluidos espirituais, ele os assimila com relativa facilidade.
Daí resulta uma relação dinâmica:
pensamento → fluidos espirituais → perispírito
→ organismo.
Quando os fluidos são favoráveis, podem produzir uma impressão salutar.
Quando são de natureza inferior e a ação é persistente e intensa, podem
ocasionar repercussões físicas, chegando A Gênese a afirmar que essa é a
causa de certas enfermidades.
Esse ensinamento deve ser compreendido em seu próprio campo.
A ciência humana procura identificar as causas orgânicas das doenças por
meio da observação, da experimentação e dos conhecimentos acumulados pela
fisiologia, pela patologia, pela microbiologia, pela neurologia e por outras
especialidades. A Doutrina Espírita não substitui esses conhecimentos.
Mas a existência de explicações orgânicas não elimina, por si só, a
possibilidade de investigação da dimensão espiritual proposta pela Doutrina.
São planos de investigação diferentes.
O ponto essencial é não transformar uma afirmação espírita em explicação
universal para todas as enfermidades, mas também não reduzi-la a uma hipótese
irrelevante quando a própria Codificação lhe atribui importância.
A pergunta espírita passa a ser legítima e profunda: de que maneira o
pensamento atua sobre os fluidos, como estes são assimilados pelo perispírito e
de que modo o perispírito reage sobre o organismo?
A Codificação oferece princípios para essa investigação, mas não fornece
uma fisiologia perispiritual completa. Ela mesma reconhece limites para o
conhecimento da natureza íntima dos fluidos.
É justamente nesse espaço que o estudo deve prosseguir com razão e
prudência.
4. O pensamento como elemento de ação
O pensamento, na Doutrina Espírita, não é considerado fenômeno
exclusivamente cerebral.
Em O Livro dos Médiuns, o pensamento é apresentado como atributo
do Espírito, e a possibilidade de sua ação sobre a matéria está relacionada às
propriedades do envoltório perispiritual.
Isso ajuda a compreender a posição intermediária do perispírito: ele não
pensa, mas recebe a ação do pensamento e participa da transmissão dessa ação ao
organismo.
Por isso, não devemos confundir o perispírito com o princípio
inteligente.
O perispírito é instrumento e intermediário; a inteligência pertence ao
Espírito.
Essa distinção será fundamental nos próximos estudos da série.
PARTE II
- FLEXIBILIDADE, TRANSFORMAÇÃO E MANIFESTAÇÃO
5. Forma e plasticidade
O perispírito apresenta forma.
A questão 95 de O Livro dos Espíritos admite que ele possui forma
e pode tornar-se perceptível e palpável em determinadas circunstâncias.
Em O Livro dos Médiuns, é explicado que o perispírito conserva a
forma humana, mas sua matéria é muito mais sutil, flexível e expansível que a
do corpo físico.
Essa flexibilidade é uma de suas propriedades mais características.
O perispírito pode modificar sua aparência segundo a vontade do Espírito
e, nas manifestações, pode reproduzir aspectos relacionados à sua existência
corporal.
Não devemos, entretanto, transformar essa propriedade em uma teoria
anatômica que as fontes não apresentam. A Codificação afirma a plasticidade do
perispírito e descreve suas manifestações, mas deixa em aberto vários aspectos
de sua natureza íntima.
6. Transformação da aparência
A Gênese, ao tratar das propriedades dos fluidos,
apresenta outro aspecto significativo: o Espírito pode modificar a textura do
seu envoltório perispiritual, alterando-lhe a aparência.
Essa transformação pode refletir as qualidades e os sentimentos
predominantes no Espírito.
Nos Espíritos elevados, a aparência pode apresentar beleza, harmonia e
luminosidade; nos dominados por paixões inferiores, pode assumir aspecto
desagradável ou repulsivo.
A transfiguração, nesse contexto, não seria uma transformação do
Espírito propriamente dito, mas uma transformação fluídica do seu envoltório.
O fenômeno revela novamente a estreita relação entre pensamento, estado
moral e perispírito.
7. Visibilidade e tangibilidade
Normalmente, o perispírito é invisível aos nossos sentidos.
Entretanto, essa invisibilidade não é absoluta.
O Livro dos Médiuns explica que determinadas modificações podem
torná-lo visível e até tangível. Em certas manifestações, o perispírito pode
adquirir propriedades que permitem sua percepção pelos sentidos físicos.
A Doutrina Espírita relaciona esse fenômeno à modificação de sua
constituição fluídica e à combinação com os fluidos fornecidos pelo médium.
Assim, a vontade do Espírito é necessária, mas pode não ser suficiente.
É preciso que determinadas condições fluídicas sejam satisfeitas.
Esse aspecto é importante porque demonstra que a invisibilidade do
perispírito não decorre de uma suposta inexistência material, mas de suas
propriedades particulares.
8. O perispírito como intermediário da ação
A propriedade talvez mais abrangente seja sua função intermediária.
A Gênese afirma que o Espírito, por sua essência
espiritual, não pode atuar diretamente sobre a matéria tangível. Para isso
necessita do envoltório fluídico.
O perispírito constitui, assim, o traço de união entre Espírito e
matéria.
Durante a encarnação, ele serve de veículo ao pensamento: transmite o
movimento às diversas partes do organismo sob a impulsão da vontade e faz
repercutir no Espírito as sensações produzidas pelos agentes exteriores.
Temos, portanto, uma dupla direção:
Espírito → perispírito → organismo
e
organismo → perispírito → Espírito.
Essa concepção fornece uma base para compreender a unidade funcional
entre o ser espiritual e o corpo físico sem confundir suas respectivas
naturezas.
9. A mesma propriedade em diferentes estados
de existência
As propriedades do perispírito não desaparecem com a morte do corpo.
O que se modifica é a relação com o organismo físico.
Após a desencarnação, o Espírito conserva o perispírito. Por isso pode
continuar apresentando forma, perceber, comunicar-se e, em determinadas
condições, manifestar-se aos encarnados.
Durante a existência corporal, o perispírito serve de intermediário
entre o Espírito e o organismo. Depois da morte, permanece como envoltório do
Espírito e instrumento de suas relações com o mundo espiritual e,
eventualmente, com o mundo corporal.
Essa continuidade ajuda a compreender por que muitos fenômenos
atribuídos aos Espíritos desencarnados apresentam propriedades semelhantes às
observadas durante a encarnação.
10. O que a
Doutrina afirma, o que permanece em investigação e por quê
O estudo do perispírito conduz inevitavelmente a uma questão de método:
até onde podemos afirmar e onde começa aquilo que ainda precisamos investigar?
A Doutrina Espírita apresenta um conjunto consistente de conhecimentos
sobre o perispírito. Define sua existência, sua origem fluídica, sua natureza
semimaterial, sua função de intermediário entre o Espírito e a matéria, suas
propriedades de expansão e plasticidade e sua participação nos fenômenos de
manifestação.
Entretanto, isso não significa que sua natureza íntima esteja
completamente desvendada.
Há uma razão para essa limitação. A própria natureza do perispírito
ultrapassa a capacidade de percepção direta dos sentidos humanos ordinários. Em
O Livro dos Espíritos, ele é descrito como uma substância vaporosa para
nós e bastante grosseira para Espíritos mais adiantados. A questão 94
acrescenta que esse envoltório é formado a partir do fluido universal de cada
mundo, apresentando características correspondentes ao meio em que o Espírito
se encontra.
Em O Livro dos Médiuns, ao tratar especificamente da essência do
perispírito, os Espíritos distinguem aquilo que já pode ser estudado por suas
propriedades daquilo que ainda pertence a uma ordem mais profunda de
investigação.
A Revista Espírita de março de 1866 esclarece ainda um princípio
fundamental do método espírita: os Espíritos não entregam à humanidade uma
ciência inteiramente pronta. Fornecem elementos, observações, explicações e
indicações que precisam ser estudados, comparados, analisados e coordenados.
Assim, a existência de questões ainda não resolvidas não representa uma
falha da Doutrina. Representa, em parte, a própria condição progressiva do
conhecimento.
É importante, porém, compreender a razão daquilo que permanece em
aberto.
Não saber ainda não significa que nada possa ser conhecido. Podemos
conhecer os efeitos sem conhecer inteiramente a essência; podemos identificar
propriedades sem dominar sua causa última; podemos estabelecer relações entre
fenômenos sem possuir ainda uma explicação completa de todos os mecanismos
envolvidos. Esses limites, porém, não precisam ser considerados definitivos:
permanecem enquanto nossos conhecimentos, nossos sentidos e os recursos de
investigação não nos oferecerem condições para avançar além deles.
É justamente isso que encontramos no estudo do perispírito.
A Codificação permite afirmar muitas de suas propriedades e funções,
enquanto deixa em aberto aspectos de sua natureza íntima. Essa abertura não
deve ser preenchida arbitrariamente por teorias pessoais, analogias tomadas
como identidade ou conceitos posteriores apresentados como se fossem
ensinamentos originais da Codificação.
Também não significa que o estudo deva ser interrompido.
Ao contrário: quando uma questão permanece aberta, ela se transforma em
objeto de investigação.
O método espírita exige observação, comparação, raciocínio e análise.
Exige igualmente reconhecer os limites do conhecimento disponível e distinguir
aquilo que foi constatado daquilo que foi deduzido, interpretado ou apenas
proposto como hipótese.
Desse modo, o “ainda não sabemos” não encerra a investigação. Ele indica
por que ainda não sabemos e o que precisamos continuar estudando para saber
mais.
Essa atitude é particularmente importante no estudo do perispírito.
Quanto mais conhecemos suas propriedades, mais podemos compreender sua função
na relação entre Espírito e matéria; e quanto mais compreendemos essa relação,
mais claramente percebemos quais questões já encontram resposta na Doutrina e
quais permanecem abertas à investigação.
A prudência, nesse caso, não significa superficialidade.
Significa saber até onde os fatos e os ensinamentos permitem avançar — e
ter disposição para continuar avançando quando novos elementos forem
encontrados.
REFLEXÃO
FINAL
O perispírito aparece, na Doutrina Espírita, como elemento essencial
para compreender a relação entre o Espírito e a matéria.
Ele não pensa, mas participa da ação do pensamento.
Não é o corpo, mas estabelece ligação com o corpo.
Não está confinado aos limites físicos do organismo, pois pode
expandir-se e irradiar-se.
Não é normalmente perceptível aos sentidos, mas pode tornar-se visível e
até tangível em determinadas circunstâncias.
Não constitui a essência do Espírito, mas acompanha-o na encarnação e na
erraticidade.
E, sobretudo, não é apresentado como elemento meramente passivo.
Participa da transmissão das sensações, da ação da vontade sobre o organismo e
dos fenômenos pelos quais o Espírito manifesta sua influência sobre a matéria.
O estudo de suas propriedades também revela uma consequência importante:
a compreensão do Homem não se esgota na dimensão corporal.
A ciência humana possui legítimo campo de investigação sobre o
organismo. A Doutrina Espírita acrescenta a esse estudo a consideração do
Espírito e do perispírito.
Não se trata de substituir uma ciência pela outra, mas de reconhecer que
são campos diferentes que podem encontrar pontos de contato.
Quanto mais avançamos no estudo do perispírito, mais percebemos que ele
constitui uma verdadeira zona de ligação entre dois mundos que, segundo a
Doutrina Espírita, não estão isolados, mas mantêm relações constantes.
E é justamente essa condição intermediária que torna suas propriedades
tão importantes para a compreensão dos fenômenos espíritas.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos, questões 141 e 420, ao tratar
da expansão e da não circunscrição do Espírito/perispírito.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns, Primeira Parte, capítulo II, item 7,
sobre o pensamento como atributo do Espírito e sua ação sobre a matéria.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns, Segunda Parte, capítulo I, item 56,
sobre forma, flexibilidade, expansão e transformação do perispírito.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns, Segunda Parte, capítulo VI, itens
100 e 109 e capítulo VII, item 114.
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC,
Allan. Obras Póstumas. “Perispírito, princípio das manifestações.”
- KARDEC,
Allan. Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas.
Vocabulário Espírita — verbete “Perispírito”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita,
março de 1866,