Introdução
A
narrativa do pesquisador que, ao subir e descer uma montanha, encontra duas
cidades radicalmente diferentes — uma marcada pelo progresso harmonioso e outra
pelo adoecimento coletivo — oferece uma metáfora atual e profundamente alinhada
à Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec. Em um contexto global marcado
pelo avanço tecnológico, pelos desafios socioambientais e pela busca crescente
por qualidade de vida, refletir sobre a lei do trabalho torna-se indispensável.
A Doutrina Espírita, ao iluminar a relação entre esforço, progresso e
responsabilidade, permite compreender que o trabalho, em suas múltiplas formas,
é fundamento da saúde física, emocional e espiritual de indivíduos e
sociedades.
A Cidade que Progrediu: o Trabalho como Harmonia
Social
A
primeira cidade observada pelo pesquisador revela o que ocorre quando uma
comunidade se organiza em torno do esforço construtivo.
O
ambiente limpo, as praças arborizadas, as escolas cheias de estudantes e as
famílias desfrutando do lazer refletem o equilíbrio entre labor e descanso —
equilíbrio esse amplamente defendido na Revista Espírita e nos
ensinamentos dos Espíritos Superiores.
Os
dados atuais reforçam esse quadro: estudos demonstram que cidades que investem
em educação, saneamento básico, cultura de participação e responsabilidade
coletiva apresentam menores índices de doenças, maior bem-estar e maior
longevidade. Não é por acaso que comunidades que mantêm hábitos de cooperação e
disciplina social alcançam índices mais altos de desenvolvimento humano.
A Doutrina Espírita esclarece que o trabalho é meio de aperfeiçoamento intelectual e moral. Ele não se restringe à atividade profissional, mas abrange toda ação útil, seja manter um jardim, educar uma criança, zelar por espaços comuns ou ampliar o conhecimento.
Nesse sentido, a cidade do alto da montanha demonstra o resultado prático da
vivência da lei do trabalho: progresso, saúde e harmonia.
A Cidade que Adoeceu: os Efeitos da Ociosidade e do
Descaso
Ao
descer a montanha, o pesquisador encontra a cidade do vale. Ali, a ausência de
cuidado transforma-se em desordem. Não há flores, jardins ou escolas cheias;
há, ao contrário, ruas abandonadas, lixo acumulado, alimentação precária e
filas intermináveis nos hospitais.
O
cenário descrito é coerente com realidades contemporâneas em diversas regiões
do mundo, onde a falta de educação, de políticas públicas estruturadas e de
engajamento social favorece doenças evitáveis, degradação ambiental e
insegurança.
Para a
Doutrina Espírita, não se trata apenas de um problema material. A ociosidade —
entendida como recusa ao esforço útil — gera desequilíbrio interior. Como
ensinam os Espíritos superiores em O Livro dos Espíritos, a inatividade
favorece perturbações emocionais, vícios, depressão e conflitos, pois o
Espírito se afasta da lei do progresso, que o impulsiona à ação, à superação e
ao aprendizado contínuo.
A
cidade do vale, portanto, materializa as consequências da negação do trabalho
como dever moral e social.
Trabalho: Lei Divina e Caminho para o Progresso
Espiritual
Allan
Kardec esclarece que “o trabalho é uma lei da natureza”, e sua prática não visa
apenas sustento ou lucro, mas desenvolvimento moral, intelectual e fraterno. A
Doutrina ressalta que trabalhar é colaborar com Deus na construção da vida e da
sociedade.
Nessa
perspectiva:
- O trabalho amplia a
inteligência,
ao exigir esforço, criatividade e disciplina.
- Fortalece a
moralidade,
ao promover responsabilidade, cooperação e solidariedade.
- Contribui para a
saúde integral, ao organizar a rotina, dar propósito e
afastar a estagnação mental e emocional.
- Harmoniza o planeta, quando orientado
para a preservação ambiental e para o bem comum — necessidade urgente nos
debates contemporâneos sobre sustentabilidade, como apontam estudos atuais
em saúde pública e ecologia humana.
Jesus,
ao afirmar que “o Pai trabalha até hoje e
eu também trabalho”, ensina que a vida é movimento, construção e renovação.
Para o Espírito imortal, o trabalho é alavanca de crescimento e instrumento de
sublimação.
Conclusão
A diferença entre as duas cidades observadas pelo pesquisador não é geográfica, mas moral. Uma escolheu o trabalho como crescimento; a outra, a ociosidade como fuga.
Da mesma forma, cada indivíduo e cada sociedade definem, diariamente, qual
cidade desejam construir: a que floresce pelo esforço ou a que adoece pelo
descaso.
Nos
tempos atuais — marcados pela necessidade de responsabilidade ambiental,
educação continuada, participação cidadã e solidariedade — a lei do trabalho
continua sendo um farol seguro para quem deseja progresso verdadeiro.
Trabalhar, no sentido mais amplo e espiritual, é cooperar com a vida, melhorar
o mundo e, sobretudo, transformar-se intimamente.
Referências
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Espíritos. Livro terceiro, cap. III — Lei do Trabalho.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869).
- FRANCO, Divaldo
Pereira (Espírito Vianna de Carvalho). Atualidade do Pensamento
Espírita. Cap. 1.4, questão 33, ed. LEAL.
- CARVALHO, Marilena
Mota Alves de; CAVALCANTI, Vera Verônica do Nascimento; LEITE, Berenice
Castro Gonçalves; MEDEIROS, Nancy. A pesquisa, in O melhor é
viver em família, v. 9, CELD.
- Momento Espírita.
“A Pesquisa”. momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=5533&let=P&stat=0