Introdução
A
exortação de Paulo de Tarso — “E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu
tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido” (Gálatas 6:9) —
permanece tão atual quanto necessária. Em uma sociedade marcada pela pressa,
pela competição e pela busca incessante por resultados imediatos, é comum
percebermos pessoas desanimadas diante da prática do bem, decepcionadas por não
verem recompensas proporcionais a seus esforços. Essa sensação de fadiga moral
reflete, em grande parte, o egoísmo e o imediatismo ainda latentes na alma
humana.
À luz
da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, essa reflexão ganha
profundidade e clareza. O Espiritismo nos convida a compreender que o
verdadeiro bem é aquele praticado desinteressadamente, sem expectativa de
retorno, pois sua maior recompensa está na paz de consciência e no progresso
espiritual do próprio ser.
1. A fadiga moral e o equívoco da expectativa
Nos
dias atuais, é frequente ouvirmos frases como: “Cansei de ser bom”, “Ninguém
reconhece o que faço”, ou “Os maus é que prosperam”. Tais sentimentos são
compreensíveis no contexto humano, mas revelam uma visão limitada do bem.
Quando esperamos gratidão ou retorno material por nossas ações, não estamos
realmente servindo ao bem, mas apenas ao nosso orgulho disfarçado de virtude.
Em O
Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. XI, item 14), Allan Kardec observa
que “a caridade sem desinteresse não tem
mérito diante de Deus”. Isso significa que o valor moral de um ato está na
pureza da intenção que o inspira. O bem genuíno é aquele que nasce da harmonia
interior, da vontade sincera de contribuir para o progresso do próximo e de si
mesmo, sem cálculo de vantagem.
2. O exemplo do Cristo: o bem que não se exaure
Jesus
é o modelo supremo da perseverança no bem. Desde os primórdios da humanidade, o
Cristo — segundo a revelação espírita — atua como guia espiritual da Terra,
sustentando a marcha evolutiva de todos os seus habitantes. Mesmo diante das
quedas morais, das guerras e das traições da humanidade, Ele nunca interrompeu sua
obra de amor.
Em A
Gênese (cap. XV, item 10), Kardec recorda que “Jesus é o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir
de guia e modelo”. Segui-lo é, portanto, esforçar-se para agir com
paciência, tolerância e fé, mesmo quando o mundo parece resistir ao bem. O
Cristo não exige perfeição imediata, mas constância. Sua paciência milenar é o
testemunho de que o bem verdadeiro é incansável, porque se alimenta do amor — e
o amor, por sua natureza, é inesgotável.
3. O bem como processo de autotransformação
Muitos
Espíritos, antes de reencarnar, comprometem-se com tarefas nobres e promessas
de trabalho no bem. Contudo, diante das dificuldades da vida física, recuam,
desanimam e desistem. Essa realidade é mencionada em diversos relatos
espirituais e nas Revistas Espíritas de Kardec, nas quais ele registra
comunicações de Espíritos arrependidos que, embora desejassem servir, sucumbiram
ao orgulho ou ao cansaço moral.
O bem,
no entanto, é sempre um processo educativo. Cada esforço, mesmo imperfeito, é
um passo na ascensão moral do Espírito. Como ensina Emmanuel em Pão Nosso
(cap. 11), “quem realmente ama o bem não
se cansa de praticá-lo e vivê-lo”. A fadiga moral é, portanto, um sinal de
que ainda há resíduos do egoísmo a serem dissolvidos pela luz da caridade
verdadeira.
4. Perseverar é servir à Lei Divina
O
Espiritismo ensina que as leis morais — especialmente a Lei de Justiça, Amor e
Caridade (O Livro dos Espíritos, questões 873 a 890) — são universais e
imutáveis. Assim, o bem praticado jamais se perde. Ainda que não produza
resultados imediatos visíveis, ele atua silenciosamente na construção da
harmonia geral e no progresso íntimo de quem o pratica.
Em
tempos de crise social e moral, a perseverança no bem é um testemunho de fé e
lucidez. Não é possível esperar um mundo regenerado se os trabalhadores do bem
se deixam abater pelo desânimo. A constância, a paciência e o perdão são os
instrumentos pelos quais o Espírito constrói a sua libertação.
Conclusão
O
apelo de Paulo de Tarso aos Gálatas ecoa como um convite à maturidade
espiritual: o bem não é tarefa de um dia, mas jornada de uma vida — ou de
muitas vidas. Amar e servir sem cansaço é participar da própria obra divina,
colaborando com a evolução da Terra e da Humanidade.
Quando
o cansaço surgir, lembremo-nos do Cristo, que segue trabalhando sem descanso
pela redenção do mundo. Ele é a expressão viva do amor incansável. E se Ele,
Espírito puro, não se exaure, que direito temos nós, ainda imperfeitos, de
desanimar diante de pequenas decepções?
Perseverar
no bem é, enfim, o mais alto testemunho de fé e a prova de que já começamos a
emergir do mal que ainda habita em nós.
Referências
- ALLAN KARDEC. O
Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. XI. Federação Espírita
Brasileira (FEB).
- ALLAN KARDEC. A
Gênese. Cap. XV. Federação Espírita Brasileira (FEB).
- ALLAN KARDEC. O
Livro dos Espíritos. Questões 873–890. Federação Espírita Brasileira
(FEB).
- Revista Espírita (1858–1869), Allan
Kardec — Diversas comunicações sobre o trabalho no bem e a perseverança
moral.
- FRANCISCO CÂNDIDO
XAVIER, pelo Espírito Emmanuel. Pão Nosso, cap. 11. FEB.
- PAULO DE TARSO. Epístola
aos Gálatas 6:9.
- Momento Espírita. “O bem é
incansável.” Disponível em: momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=2825&stat=0.
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