domingo, 21 de dezembro de 2025

 

É TEMPO AGORA
CONSCIÊNCIA DO PRESENTE, ELOGIO, 
PERDÃO E RESPONSABILIDADE MORAL
- A Era do Espírito -


"Se tens um elogio a proferir,
É tempo agora.
Não aguardes que o vento da morte
Desvaneça da areia da vida
O nome que o merece.
Se há um agravo pungente a perdoar,
É tempo, é hora.
O mais fundo rancor não resiste
A um apelo de braços abertos."

Poema de Helena Kolody

Introdução

O poema Agora, de Helena Kolody, oferece uma imagem simples e profunda da condição humana: a vida acontece no instante presente, e é nele que se concentram nossas reais possibilidades de ação moral. A Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec a partir do ensino dos Espíritos, confirma essa perspectiva ao destacar que o progresso do Espírito se realiza por meio de escolhas conscientes, reiteradas no cotidiano. O tempo, sob esse enfoque, não é apenas sucessão cronológica, mas campo educativo onde se manifestam o pensamento, o sentimento e a vontade.

Refletir sobre o “tempo de agora” é, portanto, refletir sobre responsabilidade espiritual, relações humanas e transformação íntima. O elogio oportuno, o perdão concedido ou pedido e a presença consciente no hoje não são gestos secundários, mas expressões concretas da lei de progresso e da lei de amor, justiça e caridade.

O presente como único tempo de ação

Do ponto de vista espírita, o passado constitui experiência adquirida e o futuro permanece como consequência natural do que se constrói no presente. Allan Kardec, ao tratar da responsabilidade moral do Espírito, deixa claro que cada encarnação oferece oportunidades proporcionais ao grau evolutivo alcançado (O Livro dos Espíritos, questões 132 e 258). Assim, o “agora” é o único tempo efetivamente disponível para o exercício da consciência.

A dificuldade humana de viver o presente — ora aprisionada à culpa do passado, ora à ansiedade pelo futuro — foi amplamente observada pelos Espíritos na Revista Espírita. Nela, encontram-se advertências recorrentes sobre a necessidade de atenção à vida real, concreta, onde se formam hábitos, virtudes e imperfeições. Viver fora do presente é abdicar, ainda que inconscientemente, do próprio dever de progredir.

O elogio como reconhecimento e aprendizado

O elogio sincero, longe de ser mera gentileza social, constitui um exercício de humildade intelectual e moral. Reconhecer o valor no outro implica admitir que a verdade, o mérito e a capacidade não se concentram apenas em nós mesmos. Na perspectiva espírita, esse reconhecimento rompe a ilusão do orgulho, uma das paixões mais persistentes do Espírito imperfeito.

A Doutrina Espírita ensina que o orgulho e o egoísmo são os principais entraves ao progresso moral da humanidade (O Livro dos Espíritos, questão 917). O elogio consciente atua, portanto, como antídoto discreto, porém eficaz, contra essas tendências, ao mesmo tempo em que fortalece aquele que o recebe. Muitas vezes, uma palavra justa e oportuna é suficiente para reerguer ânimos abatidos e reacender a confiança necessária para seguir adiante.

Perdão: libertação interior e maturidade espiritual

Se o elogio educa a humildade, o perdão educa a liberdade interior. Perdoar não significa apagar a memória ou justificar o erro, mas romper o vínculo psicológico com o ressentimento. A Revista Espírita registra diversos ensinamentos que associam o ódio persistente a estados de sofrimento prolongado, tanto no plano corporal quanto no espiritual.

A Doutrina Espírita esclarece que o Espírito que se prende à vingança mantém-se vinculado ao ofensor por laços mentais inferiores, retardando o próprio avanço. O perdão, nesse contexto, não beneficia apenas o outro, mas sobretudo aquele que perdoa. Trata-se de um acordo íntimo com a própria consciência, no qual se decide abdicar do peso desnecessário do rancor.

Pedir perdão, por sua vez, exige coragem moral. Não há garantia de acolhimento, mas há certeza de libertação interior quando o gesto é sincero. O valor espiritual da iniciativa reside no movimento íntimo de superação do orgulho, não na resposta alheia.

Atualidade do ensino espiritual

Em um mundo marcado por excesso de estímulos, compromissos e informações, vive-se a sensação paradoxal de falta de tempo. Observações contemporâneas das ciências humanas confirmam o aumento da ansiedade ligada à aceleração do cotidiano, fenômeno que dialoga diretamente com as advertências morais presentes nas obras espíritas do século XIX.

Jesus, cuja autoridade moral é reconhecida pela Doutrina Espírita como modelo máximo de evolução espiritual, advertiu sobre a inutilidade da inquietação excessiva com o amanhã (Mateus 6:34). Tal ensinamento não incentiva a negligência, mas o equilíbrio: planejar sem se aprisionar, agir sem se angustiar, viver com presença e responsabilidade.

Considerações finais

“É tempo agora” não é apenas um convite poético, mas uma diretriz ética e espiritual. O elogio adiado pode nunca mais ser ouvido; o perdão postergado pode transformar-se em distância irreversível. A Doutrina Espírita nos lembra que nunca estamos tão vivos e tão aptos a decidir quanto no presente.

Viver o agora, sob a ótica espírita, é assumir conscientemente o próprio processo evolutivo, transformando pequenas atitudes em degraus de progresso moral. O tempo não nos pertence indefinidamente, mas o instante presente é sempre suficiente para começar.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Traduções diversas.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. A Gênese.
  • KOLDOY, Helena. Infinita Sinfonia. Poema Agora. Editora Insight.
  • XAVIER, Francisco Cândido, Espírito Emmanuel. Hora Certa. Editora GEEM.
  • Momento Espírita. É tempo, é hora. Disponível em: momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=7370

 

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