Introdução
A
dificuldade em distinguir política de politicagem, bem como o avanço da
polarização nos debates públicos, constitui uma das marcas mais evidentes da
vida social contemporânea. Em diferentes países — e de modo sensível no Brasil
— observa-se que práticas voltadas ao interesse imediato, ao personalismo e à
disputa emocional tendem a se sobrepor ao planejamento racional do bem comum.
Tal realidade suscita uma questão legítima: por que a politicagem se mostra,
com tanta frequência, mais atraente e eficaz do que a política em seu sentido
elevado?
A
Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec e amplamente debatida na Revista Espírita
(1858–1869), oferece elementos consistentes para compreender esse fenômeno não
apenas como um problema institucional ou cultural, mas como reflexo do estágio
de evolução moral da humanidade. Ao integrar dados das ciências sociais com a
análise das leis morais, o Espiritismo permite uma leitura mais profunda e
educativa da política, da politicagem e da polarização.
A
preferência pela politicagem: causas estruturais
Do
ponto de vista acadêmico, a ciência política identifica fatores objetivos que
favorecem a politicagem. Conceitos como patrimonialismo, clientelismo e os
modelos analíticos da Teoria da Escolha Pública ajudam a explicar por que
práticas imediatistas tendem a prevalecer sobre políticas de Estado de longo
prazo.
O
patrimonialismo, amplamente estudado por Max Weber e aplicado à formação social
brasileira por autores como Sérgio Buarque de Holanda, descreve a confusão
recorrente entre o que é público e o que é privado. Nessa lógica, cargos e
recursos estatais passam a ser tratados como extensão de interesses pessoais ou
de grupos, enfraquecendo a impessoalidade administrativa e a ética pública.
O
clientelismo, por sua vez, baseia-se na troca direta de favores por apoio
político. Do ponto de vista eleitoral, essa prática oferece resultados mais
rápidos e visíveis do que políticas estruturantes, cujos benefícios costumam
surgir apenas a médio ou longo prazo. A Teoria da Escolha Pública reforça esse
diagnóstico ao demonstrar que, em sistemas eleitorais competitivos, muitos
agentes políticos priorizam ações que maximizem suas chances de reeleição,
mesmo que isso implique custos futuros para a coletividade.
Assim,
a preferência pela politicagem não se explica apenas por desvios individuais,
mas por um sistema de incentivos que recompensa o curto prazo, a visibilidade e
a emoção, em detrimento do planejamento racional e do interesse geral.
Polarização
como combustível da politicagem
A
polarização política contemporânea intensifica esse quadro. Estudos recentes
apontam que a polarização deixou de ser apenas divergência ideológica e passou
a assumir um caráter afetivo, no qual o opositor é visto como inimigo moral.
Esse ambiente favorece a politicagem por diferentes mecanismos.
Primeiramente,
há o desvio de foco: debates técnicos sobre políticas públicas são substituídos
por conflitos identitários, ataques pessoais e narrativas simplificadas. Em
segundo lugar, instala-se a paralisia decisória, pois qualquer concessão ao
outro campo político é interpretada como traição. Por fim, a polarização
afetiva gera tolerância seletiva: práticas antiéticas ou ineficientes passam a
ser relativizadas quando praticadas por líderes considerados defensores do
“nosso lado”.
O
resultado é um ciclo de ressentimento que enfraquece a prestação de contas,
prioriza estratégias eleitorais imediatas e consome energias que poderiam ser
direcionadas à solução de problemas concretos da população.
A
política à luz da Lei de Sociedade
À luz
da Doutrina Espírita, a política, em seu sentido legítimo, está diretamente
vinculada à Lei de Sociedade. Em O
Livro dos Espíritos, questões 766 a 768, os Espíritos ensinam que a
vida em sociedade é condição necessária ao progresso, pois possibilita a
cooperação, o aprendizado mútuo e o desenvolvimento da fraternidade.
A
política, quando orientada pelo bem comum, torna-se instrumento da Lei de
Progresso. Ela deve harmonizar o avanço intelectual — expresso em leis,
instituições e tecnologias — com o progresso moral, fundamentado na justiça, na
solidariedade e no respeito à dignidade humana. Nessa perspectiva, governar é
servir, e legislar é criar condições para que a sociedade avance de forma
equilibrada.
Politicagem
como expressão do egoísmo e do orgulho
O que
se convencionou chamar de politicagem pode ser compreendido, do ponto de vista
espírita, como a aplicação das imperfeições morais à gestão pública. Kardec
identifica o egoísmo e o orgulho como os principais obstáculos ao progresso da
humanidade (O Livro dos
Espíritos, questão 785). Quando esses sentimentos orientam a ação
política, o interesse pessoal se sobrepõe ao coletivo.
O
personalismo, a manipulação das massas e a troca de favores revelam o uso
distorcido do livre-arbítrio, não para promover o bem, mas para satisfazer
vaidades, ambições ou vantagens materiais. A politicagem, assim, não é apenas
um problema administrativo, mas um sintoma moral.
Polarização,
intolerância e desequilíbrio coletivo
A
polarização extrema, marcada pela intolerância e pelo ódio, é incompatível com
a lei de caridade. A Revista
Espírita contém advertências constantes contra o fanatismo, que
cega a razão e impede o julgamento equilibrado. Quando paixões partidárias
dominam o pensamento, perde-se a capacidade de diálogo e de discernimento.
Do
ponto de vista espiritual, ambientes sociais carregados de hostilidade
favorecem a sintonia com faixas vibratórias inferiores, podendo gerar processos
de desequilíbrio coletivo. A Doutrina ensina que a verdadeira unidade humana
não virá da uniformidade forçada, mas da convergência progressiva dos
sentimentos em torno do bem, respeitando o livre-arbítrio e a diversidade de
opiniões.
Síntese
espírita do problema político
À luz
do Espiritismo, pode-se sintetizar:
·
A
política é necessária e legítima quando orientada para o progresso moral e
social.
·
A
politicagem é a expressão do egoísmo e do orgulho, retardando a evolução
coletiva.
·
A
polarização extrema é sinal de ausência de caridade, em que se prefere vencer o
adversário a construir o bem comum.
O
papel do espírita não é a indiferença diante da vida pública, mas a atuação
consciente, ética e responsável, sem submeter-se a paixões partidárias ou a
divisões artificiais. A transformação da sociedade começa pela transformação
íntima do indivíduo, que aprende a pensar, dialogar e agir com justiça e
fraternidade, mesmo em meio às divergências.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
- KARDEC, Allan. A Gênese.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
- WEBER, Max. Economia e Sociedade.
- HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil.
- DOWNS, Anthony. An Economic Theory of Democracy.
- PUTNAM, Robert. Comunidade e Democracia.
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