Introdução
Ao longo
dos anos, diversas interpretações foram atribuídas ao Espiritismo codificado
por Allan Kardec. Algumas dessas interpretações resultam de análises
superficiais; outras surgem da confusão entre os princípios doutrinários e as
práticas desenvolvidas por determinados grupos humanos ao longo do tempo.
Entre os
equívocos mais frequentes encontram-se duas afirmações aparentemente
contraditórias: a de que o Espiritismo seria uma doutrina maniqueísta e a de
que seria uma doutrina progressista. Para compreender adequadamente essas
questões, torna-se necessário recorrer às fontes originais da Codificação
Espírita e aos estudos publicados na Revista Espírita entre 1858 e 1869.
Somente
assim é possível distinguir os princípios fundamentais da Doutrina Espírita das
interpretações particulares que surgiram posteriormente no movimento espírita e
em outros segmentos espiritualistas.
O Que é Maniqueísmo?
Antes de
analisar a relação entre Espiritismo e maniqueísmo, é importante compreender o
significado do termo.
O
maniqueísmo foi uma antiga doutrina religiosa fundada por Mani, no século III,
que sustentava a existência de dois princípios eternos e opostos: o Bem e o
Mal. Segundo essa concepção, a realidade seria resultado da luta permanente
entre duas forças equivalentes e independentes.
Em
sentido mais amplo, o termo passou a designar qualquer visão rígida e
inflexível que divide a realidade em polos absolutos e irreconciliáveis, sem
admitir gradações, processos evolutivos ou zonas intermediárias.
Nessa
perspectiva, haveria apenas dois grupos de indivíduos: os inteiramente bons e
os inteiramente maus; os eleitos e os condenados; os vencedores e os
derrotados.
A
Doutrina Espírita, entretanto, apresenta uma concepção muito diferente da
realidade humana e espiritual.
A Doutrina Espírita e a Questão
do Dualismo Absoluto
Ao
definir Deus como a Inteligência Suprema e causa primária de todas as coisas, a
Doutrina Espírita conduz naturalmente à compreensão de que o Universo não
resulta da ação de duas forças eternas e opostas.
Partindo
desse princípio fundamental, toda a Criação encontra sua origem em uma única
Causa Suprema, da qual derivam as leis que regem tanto o mundo material quanto
o mundo moral.
Nessa
perspectiva, o mal não é apresentado como um princípio autônomo ou como uma
potência rival da Divindade. O que convencionalmente se denomina mal está
associado à imperfeição moral dos Espíritos, à ignorância das leis divinas e ao
uso inadequado do livre-arbítrio.
Essa
compreensão aparece de forma consistente ao longo da Codificação Espírita,
especialmente nos estudos relacionados à origem e ao destino dos Espíritos.
Segundo
os ensinos espíritas, os Espíritos são criados simples e ignorantes, trazendo
em si as potencialidades necessárias ao seu desenvolvimento intelectual e
moral. O progresso constitui a finalidade de sua jornada evolutiva, realizada
através das múltiplas experiências da existência.
Sob esse
entendimento, os Espíritos classificados como imperfeitos não representam uma
categoria à parte da Criação, nem se encontram destinados perpetuamente ao
erro. Sua condição corresponde a etapas transitórias do processo evolutivo,
assim como ocorre com todos os demais seres espirituais em diferentes graus de
adiantamento.
A Escala
Espírita apresentada em O Livro dos
Espíritos ilustra precisamente essa diversidade de estágios evolutivos,
demonstrando que a vida espiritual se caracteriza por uma sucessão contínua de
aprendizados e conquistas morais.
A
realidade espiritual, portanto, não se apresenta como uma divisão rígida entre
seres definitivamente bons e definitivamente maus. Ela se revela como um
processo dinâmico de aperfeiçoamento, no qual todos os Espíritos se encontram
submetidos à Lei do Progresso e destinados, em tempos distintos, ao
desenvolvimento de suas faculdades e virtudes.
A Lei do Progresso Como Antídoto ao Maniqueísmo
Uma das
características mais marcantes da Doutrina Espírita é a Lei do Progresso.
Segundo
essa lei natural, tudo evolui.
Evoluem
os mundos.
Evoluem
as sociedades.
Evoluem
as instituições.
Evoluem
os Espíritos.
Essa
visão torna incompatível qualquer interpretação maniqueísta.
Se todos
os Espíritos foram criados para alcançar a perfeição relativa que lhes é
destinada, não há espaço para divisões absolutas entre salvos e condenados.
O
Espírito que hoje se encontra em posição moral inferior poderá amanhã alcançar
elevados graus de adiantamento.
Da mesma
forma, aquele que atualmente possui maiores conquistas morais continua sujeito
ao aperfeiçoamento contínuo.
A
existência torna-se, assim, uma jornada educativa e não um tribunal de
sentenças eternas.
Doutrina Espírita e Movimento Espírita: Uma
Distinção Necessária
Grande
parte das acusações de maniqueísmo dirigidas ao Espiritismo nasce de uma
confusão frequentemente observada entre a Doutrina Espírita e o movimento
espírita.
A
Doutrina Espírita corresponde ao conjunto de princípios contidos nas obras da
Codificação e confirmados pelo método de controle universal dos ensinos dos
Espíritos.
O
movimento espírita, por sua vez, é constituído pelas pessoas, instituições,
grupos e correntes de pensamento que se identificam com esses princípios.
Como toda
atividade humana, o movimento está sujeito às limitações culturais, emocionais
e intelectuais de seus participantes.
Em
diversos momentos históricos, conceitos oriundos de outras tradições religiosas
foram incorporados por determinados grupos, gerando interpretações que não
encontram respaldo nas obras fundamentais.
É
justamente dessa mistura que surgem, muitas vezes, visões simplificadas sobre
obsessores, punições espirituais ou disputas entre forças do bem e do mal.
A análise
das obras fundamentais demonstra, entretanto, que a Doutrina Espírita não
sustenta tais interpretações.
Espiritismo e Espiritualismo: Respeito sem Confusão
Outro
aspecto importante é a distinção entre Espiritismo e espiritualismo.
O
espiritualismo constitui um gênero amplo que engloba todas as correntes que
admitem a existência da alma ou de uma dimensão espiritual da vida.
O
Espiritismo é uma dessas correntes, possuindo características metodológicas
próprias.
A
necessidade dessa distinção não representa rejeição ou desrespeito às demais
tradições espiritualistas.
Ao
contrário.
Respeitar
uma escola filosófica ou religiosa implica reconhecê-la em sua identidade
específica.
Cada
tradição possui sua história, seus métodos, seus símbolos e suas práticas.
Preservar
as diferenças legítimas não significa estabelecer hierarquias entre elas.
Significa
apenas evitar confusões conceituais que dificultam o entendimento mútuo.
A própria
Codificação Espírita defende amplamente a liberdade de consciência e o respeito
às convicções individuais.
O Que Significa Ser Progressista?
O termo
progressismo adquiriu múltiplos significados no debate político contemporâneo.
Por essa
razão, torna-se necessário retornar ao seu sentido mais amplo e filosófico.
Progressismo,
em sua essência, corresponde à convicção de que a humanidade pode e deve
evoluir continuamente em conhecimento, moralidade, liberdade e justiça.
Não se
trata da defesa de um partido político, de uma ideologia específica ou de
determinadas pautas circunstanciais.
Trata-se
do reconhecimento de que o progresso constitui uma lei natural da vida.
Sob essa
perspectiva, o Espiritismo pode ser legitimamente considerado progressista.
O Caráter Progressista da Doutrina Espírita
O
progressismo da Doutrina Espírita não decorre de alinhamentos políticos, mas de
sua própria estrutura filosófica.
A Lei do
Progresso ocupa posição central em O Livro dos Espíritos.
Nela
encontramos a ideia de que o desenvolvimento intelectual e moral é inevitável.
As
sociedades transformam-se.
Os
conhecimentos ampliam-se.
As
instituições aperfeiçoam-se.
As
crenças evoluem.
A própria
Doutrina Espírita afirma que deve acompanhar o progresso humano.
Uma das
características mais notáveis de sua metodologia consiste justamente na recusa
ao dogmatismo.
Quando
novas verdades são comprovadas pela observação e pela razão, elas devem ser
incorporadas ao conhecimento humano.
Essa
postura diferencia profundamente a Doutrina Espírita dos sistemas fechados e
inflexíveis.
A Revista Espírita e o Espiritismo em Movimento
A coleção
da Revista Espírita oferece uma demonstração prática desse caráter progressivo.
Ao longo
de onze anos de publicações, observamos um permanente diálogo com os
acontecimentos científicos, filosóficos e sociais da época.
Questões
relacionadas à educação, à emancipação feminina, à liberdade de consciência, ao
progresso moral da humanidade e à superação dos preconceitos aparecem
repetidamente em suas páginas.
Mais
importante ainda: observa-se um método baseado na observação, na análise e na
comparação dos fatos.
As
comunicações espirituais não eram aceitas automaticamente.
Eram
examinadas, confrontadas e submetidas ao critério da universalidade dos
ensinos.
Essa
metodologia revela uma doutrina aberta à investigação e incompatível com o
pensamento rígido.
Conclusão
A análise
das obras fundamentais da Codificação Espírita e da coleção da Revista Espírita
permite concluir que o Espiritismo não pode ser classificado como maniqueísta.
Sua visão
da realidade é essencialmente evolutiva.
Não
existem forças eternamente opostas disputando o Universo.
Não
existem seres condenados perpetuamente ao mal.
Existe
progresso.
Existe
educação espiritual.
Existe
transformação.
Por outro
lado, é perfeitamente legítimo afirmar que a Doutrina Espírita possui caráter
progressista, desde que o termo seja compreendido em seu sentido filosófico e
não partidário.
O
progresso constitui uma lei natural.
A
evolução intelectual e moral é uma necessidade da vida.
A fé deve
caminhar ao lado da razão.
O
conhecimento deve permanecer aberto às novas descobertas.
Esses
princípios, presentes nas obras fundamentais e confirmados pela experiência
histórica da Revista Espírita,
revelam uma doutrina que não divide a humanidade em blocos irreconciliáveis,
mas a compreende como uma grande família espiritual em contínuo processo de
aperfeiçoamento.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Especialmente Introdução, questões 1, 13, 100 a 113, 614 a 685 e 776 a 802.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulos XVII, XIX e XV.
- KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulo I.
2. Obras Complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
4. Obras Subsidiárias
- DENIS, Léon. Depois da Morte.
- DENIS, Léon. O Grande Enigma.
- XAVIER, Francisco Cândido, pelo Espírito Emmanuel. A Caminho da Luz.
- XAVIER, Francisco Cândido, pelo Espírito André Luiz. Evolução em Dois Mundos.
5. Passagens Bíblicas
- Mateus 5:48.
- João 8:32.
- Mateus 22:37-40.
- Romanos 12:21.
- 1 João 4:7-8.
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