Introdução
O
passe constitui uma das práticas de auxílio espiritual mais conhecidas no
movimento espírita. Entendido como a transmissão de recursos fluídicos,
espirituais e vitais, realizada com o concurso dos bons Espíritos, ele tem por
finalidade favorecer o equilíbrio do perispírito e, por seu intermédio,
contribuir para a harmonia física, psíquica e espiritual do assistido.
Embora
sua prática seja amplamente difundida, surgem frequentemente dúvidas quanto ao
ambiente destinado à aplicação dos passes. Questões relativas ao tamanho da
sala, à iluminação, à ventilação, ao uso de música ambiente, perfumes, incensos
ou outros recursos materiais costumam ser objeto de debates em muitas
instituições espíritas.
A
Codificação Espírita, entretanto, não estabelece normas arquitetônicas nem
impõe qualquer ritual para a realização do passe. Seu ensino dirige-se aos
princípios que devem orientar toda atividade espírita: simplicidade, ordem,
recolhimento, disciplina e elevação moral. Assim, mais importante do que a
aparência do ambiente é a qualidade espiritual daqueles que nele trabalham e a
fidelidade aos fundamentos da Doutrina.
A simplicidade como princípio doutrinário
Desde
suas primeiras obras, o Espiritismo codificado por Allan Kardec afasta toda
forma de ritualismo, simbolismo material ou prática exterior considerada
indispensável à ação dos Espíritos.
As
manifestações espirituais independem de objetos, vestimentas especiais,
fórmulas sacramentais ou ambientes revestidos de características místicas.
Essa
orientação também se aplica ao passe.
Sua
eficácia não decorre do local onde é realizado, mas da conjugação de diversos
fatores: a assistência dos bons Espíritos, a intenção sincera de servir, a
preparação moral do passista, a receptividade do assistido e a prece que
favorece a sintonia entre todos os participantes.
O
ambiente físico, portanto, constitui elemento auxiliar, jamais a causa dos
benefícios espirituais.
A importância da organização do ambiente
Embora
a Doutrina Espírita não determine como deve ser uma sala de passes, ela
recomenda que todas as atividades espíritas sejam desenvolvidas com ordem,
método e recolhimento.
Um
ambiente organizado facilita a concentração dos trabalhadores, reduz distrações
e favorece o clima de serenidade necessário às atividades espirituais.
Sempre
que possível, é conveniente que a instituição disponha de um espaço destinado
prioritariamente ao atendimento pelo passe. Essa providência possui caráter
prático e organizacional, não representando exigência doutrinária.
Quando
isso não for viável, qualquer recinto limpo, silencioso, bem conservado e
compatível com a finalidade da atividade poderá ser utilizado.
O
valor espiritual do passe não depende da exclusividade do local, mas do
respeito, da disciplina e da preparação daqueles que nele atuam.
Espaço físico e funcionalidade
A
Codificação Espírita não estabelece medidas para uma câmara de passe.
Consequentemente,
não existe dimensão considerada ideal sob o ponto de vista doutrinário.
O
espaço deve apenas atender às necessidades do atendimento, permitindo
circulação adequada dos trabalhadores e oferecendo conforto suficiente aos
assistidos.
A
disposição dos assentos deve favorecer a tranquilidade do ambiente, evitando
aglomerações desnecessárias e facilitando a organização dos atendimentos.
Trata-se
de critério de bom senso administrativo, aplicável a qualquer atividade
coletiva.
Iluminação e ambiente psicológico
Outra
questão frequentemente levantada refere-se à iluminação.
Não
existe qualquer orientação doutrinária que determine o uso de luzes coloridas,
penumbra ou ambientes escurecidos.
Da
mesma forma, não há fundamento para atribuir à intensidade da luz qualquer
influência direta sobre os recursos fluídicos empregados no passe.
Sob o
aspecto prático, uma iluminação equilibrada tende a favorecer o conforto
visual, transmitir sensação de acolhimento e contribuir para o recolhimento dos
participantes.
A
escolha da iluminação deve atender ao conforto do ambiente, sem criar
atmosferas de caráter místico ou ritualístico.
A
serenidade nasce principalmente da atitude mental dos presentes, e não dos
recursos materiais empregados.
Ventilação e conforto físico
O
conforto físico também merece atenção.
Salas
excessivamente quentes, abafadas ou mal ventiladas podem provocar desconforto,
dificultando tanto o atendimento quanto a concentração dos trabalhadores.
Janelas,
ventilação natural ou equipamentos silenciosos de circulação de ar constituem
recursos perfeitamente compatíveis com a simplicidade defendida pela Doutrina
Espírita.
Esses
cuidados visam ao bem-estar das pessoas, não à produção de efeitos espirituais
especiais.
Música ambiente e recursos auxiliares
Em
algumas instituições utiliza-se música instrumental suave durante os
atendimentos.
A
Codificação Espírita não faz referência a essa prática nem a recomenda como
requisito para o passe.
Quando
utilizada discretamente, a música pode favorecer o recolhimento de algumas
pessoas, desde que permaneça em plano secundário e jamais substitua a
concentração, a prece ou o silêncio interior.
Cada
instituição deve avaliar prudentemente sua conveniência, evitando que o recurso
se transforme em elemento indispensável ou adquira conotação ritualística.
O
essencial continua sendo a disciplina mental e a sintonia espiritual dos
participantes.
Perfumes, incensos e objetos ritualísticos
Entre
as dúvidas mais frequentes encontra-se o uso de perfumes, essências aromáticas,
incensos, velas, cristais ou outros objetos destinados, supostamente, a
"purificar" o ambiente.
A
Doutrina Espírita não atribui aos elementos materiais qualquer poder espiritual
dessa natureza.
Os
bons Espíritos não necessitam de substâncias aromáticas para realizar sua
assistência.
Da
mesma forma, os fluidos espirituais não dependem de fumaças, aromas ou objetos
especiais para serem transmitidos.
A
verdadeira purificação do ambiente decorre da qualidade dos pensamentos, da
elevação moral dos trabalhadores, da prece sincera e da presença dos Espíritos
dedicados ao bem.
Introduzir
elementos ritualísticos pode, ainda que involuntariamente, desviar a atenção do
princípio fundamental ensinado pelo Espiritismo: a ação do Espírito sobre os
fluidos ocorre principalmente pelo pensamento e pela vontade.
A preparação do passista
Nenhuma
organização material substitui a preparação íntima do trabalhador.
A
eficácia do passe está diretamente relacionada ao esforço permanente de
transformação moral, ao equilíbrio emocional, ao estudo doutrinário, à
disciplina dos pensamentos e ao sincero desejo de servir sem interesses
pessoais.
O
passista não atua por força própria.
Constitui
colaborador da espiritualidade superior, colocando-se como instrumento
disponível para o trabalho dos bons Espíritos.
Por
essa razão, sua principal preparação não ocorre na sala de passes, mas na vida
diária, por meio da renovação dos sentimentos, do cultivo da fraternidade e da
prática constante do bem.
O ambiente espiritual é criado pelos pensamentos
A
Doutrina Espírita ensina que o pensamento atua sobre os fluidos espirituais,
imprimindo-lhes qualidades compatíveis com seu conteúdo moral.
Desse
modo, o verdadeiro ambiente espiritual de uma câmara de passe não é determinado
pelas paredes, pela decoração ou pelos objetos existentes no recinto.
Ele
resulta da soma dos pensamentos, das intenções e dos sentimentos daqueles que
ali trabalham e daqueles que buscam auxílio.
Onde
predominam a sinceridade, a humildade, a disciplina e a fraternidade,
estabelecem-se naturalmente condições favoráveis para a atuação dos bons
Espíritos.
Conclusão
A
organização da câmara de passe merece atenção, pois um ambiente limpo,
silencioso, funcional e acolhedor favorece o recolhimento e contribui para o
bom andamento das atividades.
Entretanto,
a Doutrina Espírita deixa claro que esses cuidados pertencem ao campo da boa
administração e do bom senso, não constituindo requisitos espirituais
indispensáveis.
A
força do passe não reside na disposição dos móveis, na intensidade da
iluminação, na utilização de músicas, perfumes ou qualquer outro recurso
material.
Sua
verdadeira eficácia decorre da ação dos bons Espíritos, da qualidade moral do
passista, da receptividade do assistido e da sintonia estabelecida pela prece e
pelo pensamento elevado.
Assim,
a melhor preparação de uma câmara de passe continua sendo aquela que começa no
coração dos trabalhadores. Quando o ambiente é sustentado pela simplicidade,
pela disciplina, pelo estudo e pelo sincero propósito de servir, realiza-se, em
sua essência, o ideal proposto pelo Espiritismo codificado por Allan Kardec:
uma prática desprovida de formalismos, fundamentada na razão, na moral e na
confiança nas leis divinas.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Espíritos. 1857.
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Médiuns. 1861.
- KARDEC, Allan. O
Evangelho segundo o Espiritismo. 1864.
- KARDEC, Allan. A
Gênese. 1868.
2. Obras Complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. O
que é o Espiritismo. 1859.
- KARDEC, Allan. Obras
Póstumas. 1890.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869), especialmente os estudos sobre fluidos
espirituais, ação do pensamento e organização das reuniões espíritas.
4. Obras Subsidiárias
- PIRES, J.
Herculano. O Centro Espírita.
- SCHUBERT, Suely
Caldas. Obsessão/Desobsessão (nos trechos que tratam da preparação
moral e da disciplina dos trabalhadores).
5. Passagens Bíblicas
- Mateus 6:6.
- Mateus 18:20.
- Marcos 12:30.
- João 4:23–24.
- Filipenses 4:8.
- Tiago 5:16.
6. Observação
Evitamos
apresentar como "recomendações da Doutrina Espírita" aspectos como
potência da iluminação, distância entre cadeiras, uso de música ambiente ou
existência obrigatória de uma sala exclusiva para passes. Essas orientações
pertencem ao campo da organização institucional e do bom senso, não da
Codificação Espírita. Com isso, o artigo permanece fiel ao método de Allan
Kardec, distinguindo claramente os princípios doutrinários das práticas
administrativas adotadas por diferentes casas espíritas.
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