sexta-feira, 24 de julho de 2026

EVOCAÇÃO E COMUNICAÇÃO ESPONTÂNEA
DOIS CAMINHOS DO MESMO INTERCÂMBIO ESPIRITUAL
- A Era do Espírito -

A história da humanidade registra inúmeras narrativas sobre a comunicação entre os dois planos da vida. O diferencial da Doutrina Espírita, entretanto, não foi apenas reconhecer essa possibilidade, mas investigar essas comunicações com método, prudência e espírito crítico. As manifestações espirituais ofereceram os fatos; as evocações permitiram formular perguntas; a comparação das respostas e o Controle Universal do Ensino dos Espíritos transformaram observações dispersas em conhecimento organizado. Assim, o fenômeno deixou de ser simples motivo de curiosidade para tornar-se objeto de estudo, fazendo da razão e da moral os alicerces permanentes da pesquisa espírita.

"A observação dos fatos, o exame racional e a concordância universal dos ensinos constituem os fundamentos da segurança doutrinária. O fenômeno, por si só, não produz conhecimento; é o método que transforma a observação em ensino."

Introdução

A comunicabilidade dos Espíritos sempre despertou curiosidade, fascínio e inúmeras interpretações ao longo da História. Muito antes do surgimento da Doutrina Espírita, diversos povos já acreditavam ser possível estabelecer algum tipo de contato com aqueles que haviam deixado a vida física. Entretanto, quase sempre essas manifestações eram envolvidas por práticas ritualísticas, interpretações místicas ou crenças que dificultavam uma análise objetiva dos fenômenos.

A partir da segunda metade do século XIX, essa realidade começou a mudar. O Espiritismo codificado por Allan Kardec propôs uma abordagem inteiramente nova para o estudo das manifestações espirituais. Em vez de aceitar ou rejeitar os fenômenos com base apenas na tradição, na emoção ou na autoridade de quem os relatava, passou a examiná-los mediante observação sistemática, comparação das comunicações, análise lógica e criteriosa aplicação do Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE).

Essa metodologia representou uma profunda inovação. O intercâmbio entre encarnados e desencarnados deixou de ser compreendido como um acontecimento extraordinário ou sobrenatural, passando a integrar o conjunto das leis naturais que regem a vida do Espírito.

Entretanto, um aspecto dessa metodologia ainda merece maior atenção dos estudiosos.

Com frequência, estabelece-se uma oposição entre as comunicações espontâneas e as evocações, como se apenas uma delas fosse legítima ou útil ao estudo espírita. Não raro se afirma que "o telefone toca apenas de lá para cá", sugerindo que somente os Espíritos devam tomar a iniciativa das comunicações.

Todavia, a leitura cuidadosa das obras fundamentais da Codificação demonstra uma realidade diferente.

As comunicações espontâneas tiveram papel importante e contribuíram significativamente para o desenvolvimento da Doutrina Espírita. Contudo, basta examinar atentamente O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Céu e o Inferno e, principalmente, a coleção completa da Revista Espírita (1858–1869) para verificar que uma parcela expressiva das pesquisas ali registradas nasceu das evocações.

Os Espíritos eram convidados ao diálogo.

Recebiam perguntas cuidadosamente formuladas.

Esclareciam dúvidas.

Explicavam determinados fenômenos.

Relatavam suas experiências após o desencarne.

Complementavam estudos já iniciados.

Suas respostas eram comparadas com outras comunicações, analisadas racionalmente e confrontadas com o conjunto dos princípios já estabelecidos.

Esse procedimento evidencia um aspecto essencial da Doutrina Espírita: o fenômeno mediúnico nunca foi considerado suficiente por si mesmo. O verdadeiro diferencial encontrava-se no método empregado para investigá-lo.

Sob essa perspectiva, comunicações espontâneas e evocações não representam práticas opostas. São modalidades distintas do mesmo intercâmbio espiritual, cada uma contribuindo, à sua maneira, para o conhecimento das leis que regem a vida do Espírito.

Compreender essa diferença significa compreender melhor o próprio método da Codificação.

É esse o objetivo deste estudo.

1. Um mesmo intercâmbio, duas iniciativas

Quando se examinam as obras fundamentais da Doutrina Espírita, percebe-se que a comunicação entre encarnados e desencarnados pode ocorrer por diferentes caminhos.

Em determinadas ocasiões, a iniciativa parte do Espírito.

Em outras, parte do encarnado.

O fenômeno, entretanto, permanece essencialmente o mesmo.

Existe apenas diferença quanto ao início do diálogo.

Na comunicação espontânea, o Espírito manifesta-se por iniciativa própria, transmitindo advertências, esclarecimentos, orientações ou ensinamentos que considera oportunos.

Na evocação, ocorre o inverso.

É o encarnado quem dirige seu pensamento a determinado Espírito, convidando-o ao diálogo.

Esse convite, porém, jamais representa convocação obrigatória.

A liberdade permanece sendo atributo inseparável do Espírito.

Ele pode aceitar.

Pode recusar.

Pode encontrar-se impossibilitado de atender.

Pode estar desempenhando tarefas incompatíveis com aquele momento.

Pode necessitar de maior tempo de adaptação após o desencarne.

Pode, ainda, ser aconselhado pelos próprios benfeitores espirituais a não participar da comunicação.

Esse aspecto demonstra a extraordinária coerência moral da Doutrina Espírita.

A evocação nunca foi concebida como instrumento de domínio sobre os Espíritos.

Não existem fórmulas capazes de constrangê-los.

Não existem palavras sacramentais.

Não existem rituais que imponham sua presença.

A evocação constitui apenas um convite respeitoso, cuja aceitação depende inteiramente da vontade do Espírito e das Leis Divinas que regulam o intercâmbio entre os dois planos da vida.

Essa compreensão afasta definitivamente qualquer aproximação com práticas mágicas ou supersticiosas.

O diálogo espiritual é livre.

Fraterno.

Natural.

E subordinado às leis que governam a existência do Espírito.

2. A riqueza das comunicações espontâneas

Reconhecer a importância das evocações não significa diminuir o valor das comunicações espontâneas.

Ao contrário.

Estas desempenharam papel significativo na elaboração da Doutrina Espírita e continuam oferecendo valiosos elementos para o estudo da mediunidade.

Nas comunicações espontâneas, o Espírito escolhe o assunto que considera mais oportuno.

Muitas vezes transmite advertências morais.

Outras vezes oferece consolações.

Em determinadas circunstâncias esclarece problemas doutrinários ou chama a atenção para questões que ainda não haviam sido percebidas pelos pesquisadores.

Sob esse aspecto, as comunicações espontâneas possuem extraordinário valor porque revelam, frequentemente, aquilo que o próprio Espírito deseja ensinar.

A iniciativa pertence ao comunicante.

O tema nasce de sua percepção das necessidades dos encarnados ou de sua própria experiência espiritual.

Diversas mensagens publicadas na Revista Espírita apresentam exatamente essa característica.

Espíritos elevados oferecem orientações morais.

Espíritos sofredores descrevem espontaneamente as consequências de seus atos.

Benfeitores esclarecem aspectos da vida espiritual sem que lhes tenham sido formuladas perguntas específicas.

Essas manifestações ampliaram consideravelmente o campo de observação dos pesquisadores.

Entretanto, sob o ponto de vista metodológico, apresentam uma característica própria.

O pesquisador acompanha o desenvolvimento do pensamento do Espírito, mas possui menor possibilidade de direcionar imediatamente a investigação para questões específicas.

Isso não representa limitação.

Representa apenas natureza diferente do procedimento.

É justamente nesse ponto que a evocação passa a desempenhar função complementar de extraordinária importância.

3. A evocação como instrumento de investigação

Se as comunicações espontâneas revelam aquilo que o Espírito considera oportuno transmitir, a evocação permite ao pesquisador examinar questões previamente definidas.

Essa talvez seja sua maior contribuição metodológica.

Ao evocar determinado Espírito, o pesquisador pode formular perguntas sucessivas.

Solicitar esclarecimentos.

Pedir exemplos.

Esclarecer aparentes contradições.

Retomar temas anteriormente discutidos.

Comparar respostas obtidas em diferentes ocasiões.

Confrontar informações provenientes de diversos Espíritos.

Essa possibilidade aproxima a evocação de uma verdadeira entrevista.

Naturalmente, trata-se de entrevista realizada entre dois planos da vida.

Entretanto, conserva características semelhantes às empregadas em qualquer investigação séria.

Existe um problema.

Formulam-se perguntas.

Obtêm-se respostas.

Novas dúvidas surgem.

Outras perguntas são apresentadas.

As informações passam a ser analisadas, comparadas e confrontadas com novos dados.

Esse procedimento torna a pesquisa muito mais organizada.

Não por acaso, ele aparece repetidamente na Revista Espírita.

Ali encontram-se investigações sobre desencarnações recentes, suicídios, obsessões, emancipação da alma, sonambulismo, magnetismo, aparições, expiações, reencarnação, influência moral, pluralidade dos mundos habitados e inúmeros outros temas.

Em praticamente todos esses estudos, as perguntas desempenham papel central.

Isso demonstra que a evocação nunca foi simples curiosidade.

Foi instrumento de investigação.

Mais ainda.

Foi um recurso metodológico indispensável para aprofundar o conhecimento das leis espirituais.

4. Por que a Codificação utilizou tantas evocações?

Talvez esta seja uma das perguntas mais importantes deste estudo.

Ao percorrer cuidadosamente O Livro dos Médiuns, O Céu e o Inferno e toda a coleção da Revista Espírita, torna-se evidente que as evocações não ocupam posição secundária.

Ao contrário.

Constituem parte integrante do próprio método utilizado na elaboração da Codificação.

Em O Livro dos Médiuns, um capítulo inteiro é dedicado ao estudo das evocações.

Ali são examinadas suas condições, possibilidades, limites, finalidades e cuidados necessários.

A evocação é apresentada como prática legítima, desde que realizada com seriedade, objetivos úteis e respeito às Leis Divinas.

O Céu e o Inferno oferece exemplo ainda mais expressivo.

Toda a segunda parte da obra desenvolve-se mediante entrevistas realizadas com Espíritos pertencentes às mais diversas condições morais.

Espíritos felizes.

Espíritos em condições medianas.

Espíritos sofredores.

Suicidas.

Criminosos arrependidos.

Homens de ciência.

Pessoas simples.

Cada comunicação foi cuidadosamente conduzida mediante perguntas específicas.

As respostas permitiram compreender, de maneira concreta, as consequências morais da existência terrestre.

Entretanto, é na Revista Espírita que esse procedimento alcança sua máxima expressão.

Ao longo de doze anos de publicação, observa-se verdadeira sequência de investigações conduzidas por meio de evocações.

São centenas de entrevistas cuidadosamente organizadas.

Cada uma procura esclarecer determinado problema.

Cada resposta suscita novas perguntas.

Cada informação é comparada com comunicações anteriores.

Cada conclusão permanece subordinada ao exame racional.

Essa metodologia revela um aspecto frequentemente esquecido.

A Doutrina Espírita não foi construída apenas observando comunicações espontâneas.

Grande parte de seu desenvolvimento resultou de pesquisas cuidadosamente planejadas, nas quais a evocação desempenhou papel fundamental.

Isso explica por que a evocação jamais pode ser compreendida como prática acessória.

Ela integrou o próprio processo de construção do conhecimento espírita.

Entretanto, essa importância metodológica jamais dispensou a prudência.

Toda comunicação continuava sujeita à análise.

Nenhuma resposta era aceita simplesmente porque procedia de um Espírito.

O verdadeiro critério permanecia sendo o método.

Foi exatamente essa postura que permitiu distinguir opiniões individuais dos ensinos universais e transformar o estudo dos fenômenos mediúnicos em um corpo doutrinário sólido, coerente e progressivamente confirmado pela concordância dos ensinos dos Espíritos.

5. O que a evocação oferece que a comunicação espontânea normalmente não oferece

Ao estudar atentamente as obras fundamentais da Doutrina Espírita, percebe-se que comunicações espontâneas e evocações não competem entre si. Ao contrário, completam-se.

Cada modalidade oferece contribuições próprias para o estudo da realidade espiritual.

Nas comunicações espontâneas, o Espírito escolhe livremente o assunto que considera mais útil ou oportuno. Pode transmitir advertências, orientações morais, esclarecimentos ou simples demonstrações de sobrevivência da alma. O pesquisador recebe essas informações e as examina posteriormente.

Na evocação ocorre situação diferente.

O pesquisador define previamente o objeto do estudo.

Formula perguntas específicas.

Solicita esclarecimentos.

Retoma determinado assunto.

Explora novos desdobramentos das respostas.

Em outras palavras, a evocação permite transformar uma comunicação mediúnica em verdadeiro processo investigativo.

Essa diferença metodológica é extremamente importante.

Não significa que a evocação produza comunicações melhores.

Nem que as manifestações espontâneas sejam menos valiosas.

Cada uma atende a finalidades distintas.

Pode-se dizer, com segurança, que as comunicações espontâneas frequentemente revelam aquilo que o Espírito considera conveniente ensinar, enquanto a evocação permite investigar aquilo que o pesquisador deseja compreender.

Essa distinção explica por que tantas pesquisas publicadas na Revista Espírita foram realizadas mediante entrevistas cuidadosamente conduzidas.

Ao estudar um caso de obsessão, por exemplo, não bastava registrar a manifestação do Espírito.

Era necessário perguntar.

Por que aquele Espírito permanecia ligado ao obsidiado?

O que motivava sua conduta?

Como compreendia sua própria situação?

Arrependia-se?

Aceitava auxílio?

Quais eram suas dificuldades?

As respostas obtidas permitiam compreender o fenômeno com muito maior profundidade.

Da mesma forma, ao evocar Espíritos de diferentes condições morais, tornava-se possível comparar suas percepções sobre a vida espiritual, verificando pontos de concordância e identificando diferenças decorrentes do grau evolutivo de cada comunicante.

Essa metodologia transformava a comunicação mediúnica em objeto permanente de investigação.

Foi exatamente isso que distinguiu o Espiritismo das práticas mediúnicas existentes até então.

O fenômeno deixou de ser apenas observado.

Passou a ser estudado.

6. O Controle Universal do Ensino dos Espíritos e a investigação comparada

Talvez nenhuma contribuição metodológica da Doutrina Espírita seja tão importante quanto o Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE).

Esse princípio estabelece que nenhuma comunicação isolada, por mais elevada que pareça, possui autoridade suficiente para constituir ensino doutrinário.

Toda informação necessita ser examinada.

Comparada.

Confrontada.

Confirmada.

A razão participa desse processo de forma permanente.

Entretanto, existe um aspecto pouco destacado.

O próprio funcionamento do CUEE torna-se mais eficiente quando existe um problema claramente definido para investigação.

É justamente aí que a evocação revela todo o seu valor metodológico.

Quando diferentes grupos formulam perguntas semelhantes a Espíritos diversos, utilizando médiuns independentes, criam-se condições para comparar respostas, identificar concordâncias essenciais e reconhecer eventuais opiniões individuais.

Esse procedimento aproxima-se, guardadas as devidas proporções, da investigação científica.

Existe um problema.

Formula-se uma hipótese.

Obtêm-se dados.

Comparam-se resultados.

Verificam-se repetições.

Analisam-se divergências.

Extraem-se conclusões provisórias.

Na Codificação, entretanto, acrescenta-se um elemento indispensável.

O exame moral.

Uma comunicação pode apresentar aparência brilhante e, ainda assim, conter erros, exageros ou simples opiniões particulares do comunicante.

Por essa razão, a concordância universal jamais dispensou a análise racional.

Nem toda concordância produz verdade.

Nem toda informação isolada representa erro.

É a combinação entre universalidade, razão e moralidade que oferece segurança ao pesquisador espírita.

Observa-se, assim, que o verdadeiro objetivo da evocação nunca foi satisfazer curiosidades.

Sua finalidade consistia em ampliar o conhecimento das leis espirituais mediante investigação organizada e permanente.

7. Mistificação e animismo: por que o método continua indispensável

Ao reconhecer a legitimidade das evocações, a Doutrina Espírita jamais ignorou os riscos inerentes ao intercâmbio mediúnico.

Entre esses riscos destacam-se dois temas frequentemente discutidos: a mistificação e o animismo.

A mistificação ocorre quando Espíritos inferiores procuram enganar os encarnados, utilizando falsas identidades ou transmitindo informações incompatíveis com a verdade.

A solução proposta pela Codificação nunca foi abandonar as comunicações.

Foi estudá-las melhor.

Nenhum Espírito deve ser aceito apenas pelo nome que apresenta.

Nenhuma mensagem merece confiança apenas porque emociona.

A verdadeira autoridade manifesta-se pela elevação moral, pela coerência, pela lógica e pela concordância com o conjunto dos ensinos já confirmados.

O mesmo raciocínio aplica-se ao animismo.

Durante muito tempo, esse termo foi compreendido apenas como defeito da comunicação mediúnica.

Entretanto, a realidade é mais complexa.

Toda comunicação utiliza, inevitavelmente, os recursos intelectuais, emocionais e linguísticos do médium.

Seu vocabulário.

Sua memória.

Sua cultura.

Sua sensibilidade.

Isso não significa fraude.

Significa que a transmissão da mensagem ocorre por intermédio de um ser humano.

O verdadeiro desafio consiste em discernir aquilo que pertence predominantemente ao Espírito comunicante daquilo que decorre naturalmente da participação psíquica do médium.

Novamente, a solução não está na desconfiança sistemática.

Está no método.

Na comparação das comunicações.

Na análise racional.

Na repetição das observações.

Na humildade intelectual.

Mistificação e animismo deixam, assim, de representar obstáculos intransponíveis para tornar-se objetos naturais de investigação.

8. A atualidade do método espírita

Mais de cento e cinquenta anos transcorreram desde a publicação das primeiras obras da Codificação.

Nesse período, a ciência ampliou extraordinariamente o conhecimento sobre o universo físico, sobre o cérebro humano e sobre os processos cognitivos.

Também cresceram os estudos relacionados à consciência, às experiências de quase-morte, à telepatia e a outros fenômenos que desafiam explicações estritamente materialistas.

Naturalmente, essas pesquisas utilizam métodos próprios e não possuem o objetivo de confirmar a Doutrina Espírita.

Entretanto, demonstram que muitas questões relacionadas à consciência permanecem abertas ao estudo científico.

Essa constatação torna ainda mais atual o método desenvolvido pela Codificação.

Em vez de aceitar precipitadamente qualquer novidade, ou rejeitá-la sem exame, a Doutrina Espírita convida ao estudo permanente.

Observar.

Comparar.

Analisar.

Submeter as conclusões ao controle da razão e da moral.

Reconhecer os limites do conhecimento disponível.

Permanecer aberto ao progresso.

Esse espírito investigativo continua sendo uma das maiores riquezas do Espiritismo.

Não existe incompatibilidade entre fé raciocinada e investigação séria.

Ao contrário.

Quanto mais rigoroso for o método, maior será a segurança das conclusões.

Conclusão

A análise das obras fundamentais da Doutrina Espírita permite compreender que evocação e comunicação espontânea não constituem práticas opostas.

São duas modalidades legítimas do mesmo intercâmbio espiritual.

Cada uma possui finalidade própria.

As comunicações espontâneas frequentemente apresentam ensinamentos que o Espírito considera oportunos para determinado momento, ampliando o campo de observação dos pesquisadores.

As evocações, por sua vez, permitem dirigir a investigação para problemas específicos, aprofundar respostas, esclarecer dúvidas, comparar informações e ampliar o conhecimento das leis espirituais.

Foi exatamente por essa razão que as evocações desempenharam papel tão relevante na elaboração de O Livro dos Espíritos, de O Livro dos Médiuns, de O Céu e o Inferno e, principalmente, da coleção da Revista Espírita (1858–1869). Nessas obras, a evocação deixou de ser simples recurso de comunicação para tornar-se um dos principais instrumentos metodológicos da investigação espírita, permitindo formular perguntas, aprofundar respostas, comparar comunicações e aplicar, de forma progressiva, o Controle Universal do Ensino dos Espíritos.

Uma leitura atenta dessas obras demonstra que boa parte da pesquisa espírita desenvolveu-se mediante entrevistas cuidadosamente conduzidas com Espíritos das mais diversas condições morais.

Não se tratava de simples curiosidade.

Tratava-se de investigação.

Tratava-se de método.

Entretanto, a própria Codificação jamais atribuiu autoridade absoluta a qualquer comunicação.

Toda mensagem permanecia subordinada ao Controle Universal do Ensino dos Espíritos, ao exame da razão e à coerência moral de seu conteúdo.

Essa talvez seja a maior lição metodológica deixada pela Doutrina Espírita.

A verdade não decorre da identidade do comunicante.

Nem da intensidade do fenômeno.

Nem da emoção provocada pela mensagem.

Resulta da convergência entre observação, comparação, universalidade, lógica e moralidade.

Essa postura preserva extraordinária atualidade.

Em um tempo marcado pela rapidez das informações e pela facilidade com que opiniões pessoais podem adquirir aparência de verdades definitivas, o método espírita continua convidando à prudência, ao estudo e à reflexão.

Mais do que demonstrar que os Espíritos podem comunicar-se, a Codificação ensinou como estudar essas comunicações.

Foi essa preocupação metodológica que transformou um conjunto de fenômenos mediúnicos em um corpo doutrinário sólido, progressivo e aberto ao aperfeiçoamento contínuo.

Assim, pode-se afirmar que tanto a comunicação espontânea quanto a evocação continuam sendo recursos legítimos de intercâmbio entre os dois planos da vida.

Entretanto, seu verdadeiro valor não reside simplesmente no fenômeno que produzem, mas na forma como são examinadas.

Quando orientadas por objetivos elevados, conduzidas com respeito ao livre-arbítrio dos Espíritos e submetidas ao método espírita, ambas contribuem para o conhecimento das leis divinas que regem a existência do Espírito imortal.

Em última análise, uma das maiores originalidades da Doutrina Espírita não foi apenas demonstrar a realidade da comunicabilidade dos Espíritos. Foi estabelecer um método seguro para investigar essa realidade, distinguindo a opinião individual do ensino universal e fazendo da razão, da moral e da concordância dos ensinos os alicerces permanentes da construção do conhecimento espírita.

Reflexão Metodológica

Ao examinar cuidadosamente O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Céu e o Inferno e, sobretudo, a coleção da Revista Espírita (1858–1869), percebe-se um aspecto metodológico que nem sempre recebe a atenção que merece: a evocação não foi apenas um recurso para promover comunicações espirituais, mas um dos principais instrumentos de investigação utilizados na construção da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec.

A evocação não constituiu apenas um recurso para estabelecer comunicações com os Espíritos. Ela desempenhou uma função muito mais ampla: tornou-se um verdadeiro instrumento metodológico de investigação.

Por meio de perguntas cuidadosamente formuladas, respostas sucessivamente aprofundadas, comparação entre comunicações obtidas por diferentes médiuns e análise permanente à luz da razão e da moral, foi possível transformar observações mediúnicas isoladas em conhecimento organizado.

Sob esse aspecto, a evocação deixou de ser simples fenômeno para integrar o próprio processo de construção da Doutrina Espírita.

Pode-se dizer, portanto, que uma das maiores originalidades da Codificação não consistiu apenas em demonstrar a realidade da comunicabilidade dos Espíritos — fato conhecido em diferentes épocas da História —, mas em estabelecer um método racional para investigar essas comunicações, distinguindo opiniões individuais dos ensinos universais.

É justamente nesse contexto que o Controle Universal do Ensino dos Espíritos assume sua extraordinária importância. A evocação permitia formular perguntas semelhantes a Espíritos diferentes, por intermédio de diversos médiuns, possibilitando comparar respostas, verificar concordâncias e identificar divergências antes da formulação de qualquer princípio doutrinário.

Em outras palavras, a evocação transformou o intercâmbio espiritual em objeto permanente de pesquisa.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que a Doutrina Espírita permanece aberta ao progresso do conhecimento, sem renunciar ao rigor metodológico que presidiu sua elaboração.

Referências

1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1857.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1861.

2. Obras Complementares de Allan Kardec

  • KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 1865.
  • KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 1890.

3. Obras Complementares Históricas

  • KARDEC, Allan. Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos. Coleção completa (1858–1869).

4. Obras Subsidiárias

  • MIRANDA, Hermínio C. Diálogo com as Sombras: Teoria e Prática da Doutrinação. Brasília: FEB Editora, 1981.
  • DENIS, Léon. No Invisível.

5. Passagens Bíblicas

  • João 14:1–3.
  • João 14:26.
  • Mateus 17:1–9.
  • 1 João 4:1.
  • 1 Tessalonicenses 5:21.

6. Fontes Externas Utilizadas

  • RADIN, Dean. Entangled Minds: Extrasensory Experiences in a Quantum Reality. New York: Paraview Books, 2006.
  • NOURY, Bertrand. La Télépathie Revisitée. Paris: CNRS Éditions, 2019.

 

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