Introdução
Entre as passagens mais conhecidas das cartas de Paulo de Tarso
encontra-se a afirmação de que foi "arrebatado até o terceiro céu"
(2 Coríntios 12:2). Durante muitos séculos, essa expressão foi compreendida
literalmente, como se existissem regiões superpostas do Universo, culminando em
um lugar físico onde Deus habitaria.
Entretanto, o desenvolvimento da Astronomia tornou insustentável a
antiga cosmologia, segundo a qual a Terra ocupava o centro do Universo e os
céus eram constituídos por esferas sucessivas acima do firmamento.
A Doutrina Espírita, acompanhando o progresso do conhecimento humano e
aplicando o método da observação e da razão, oferece uma interpretação
compatível com as leis naturais, distinguindo aquilo que pertence à linguagem
simbólica da Antiguidade da realidade espiritual revelada pelos Espíritos
superiores.
Assim, compreender o "terceiro céu" exige considerar, ao mesmo
tempo, o contexto histórico da linguagem utilizada por Paulo e os princípios
fundamentais da imortalidade da alma, da pluralidade dos mundos habitados, da
emancipação do Espírito e do progresso espiritual.
A linguagem da época
Na cultura judaica e greco-romana do primeiro século, a palavra
"céu" possuía diversos significados.
Conforme os conhecimentos cosmológicos então existentes, imaginava-se
que o Universo fosse constituído por céus sucessivos.
A atmosfera terrestre constituía o primeiro céu.
A região dos astros formava o segundo.
Acima deles situava-se, segundo a crença tradicional, a morada de Deus.
Essa concepção refletia os conhecimentos científicos da época e não uma
descrição objetiva da estrutura do Universo.
A própria Revista Espírita e O Céu e o Inferno explicam
que tais ideias pertenciam ao sistema cosmológico antigo, posteriormente
superado pelos avanços da ciência.
O Espiritismo, portanto, não adota essa geografia celeste.
Onde está o céu?
Uma das contribuições mais importantes da Doutrina Espírita consiste em
demonstrar que o céu não constitui um lugar circunscrito no espaço.
O Universo é infinito, povoado por inúmeros mundos materiais e
espirituais, cada qual oferecendo condições compatíveis com o grau evolutivo
dos Espíritos que os habitam.
A felicidade não depende de coordenadas geográficas.
Ela decorre da condição moral do Espírito.
Quanto maior sua libertação das imperfeições, maior sua paz, sua lucidez
e sua capacidade de compreender as leis divinas.
Nesse sentido, céu e inferno deixam de representar localidades
determinadas para expressar estados reais da vida espiritual.
Não se trata de metáforas vazias, mas de consequências naturais do
desenvolvimento moral de cada Espírito.
O arrebatamento de Paulo
Outro aspecto importante da narrativa paulina encontra explicação na
Doutrina Espírita.
Ao declarar que não sabia se estava "no corpo ou fora do
corpo", Paulo descreve um fenômeno perfeitamente compatível com aquilo que
o Espiritismo denomina emancipação da alma.
Durante o sono, o êxtase ou determinados estados de desprendimento, o
Espírito do encarnado pode afastar-se parcialmente do corpo físico, conservando
os laços que o unem à existência corporal.
Nessas circunstâncias, pode perceber realidades espirituais inacessíveis
aos sentidos materiais, encontrar outros Espíritos e adquirir conhecimentos
que, ao retornar ao estado normal, muitas vezes se tornam difíceis de traduzir
pela linguagem humana.
Não há necessidade de recorrer ao sobrenatural.
Trata-se de uma faculdade inerente ao próprio Espírito, estudada
racionalmente pela Doutrina Espírita.
O verdadeiro significado do "terceiro
céu"
Sob a ótica espírita, Paulo não realizou uma viagem física para além das
estrelas.
Sua experiência representou uma percepção temporária de uma condição
espiritual superior.
A expressão "terceiro céu" permaneceu porque fazia parte da
linguagem conhecida por seus contemporâneos.
O conteúdo da experiência, porém, é muito mais importante do que a
expressão utilizada para descrevê-la.
O que Paulo percebeu foi um estado de felicidade, de luz, de sabedoria e
de aproximação com Espíritos superiores, impossível de ser explicado
integralmente pelas palavras disponíveis em seu tempo.
O Espiritismo mostra que toda revelação espiritual precisa ser
interpretada considerando o contexto histórico em que foi registrada.
Podemos falar em três "céus"
interiores?
Como recurso filosófico e didático, é possível utilizar a imagem dos
três céus para representar diferentes níveis de amadurecimento moral, desde que
fique claro tratar-se de uma analogia e não de um ensino literal da Doutrina
Espírita.
Nesse sentido, poderíamos compreender:
O primeiro céu como a
serenidade conquistada pelo Espírito que aprende a enfrentar as provas da
existência sem revolta, desenvolvendo confiança em Deus e resignação ativa
diante das dificuldades.
O segundo céu
representaria o fortalecimento da consciência moral, quando o indivíduo passa a
distinguir com maior clareza o bem e o mal, disciplinando suas paixões e
orientando suas escolhas pelos princípios da justiça, da caridade e da
responsabilidade.
O terceiro céu
simbolizaria a condição do Espírito que vive em crescente harmonia com as leis
divinas, não por imposição externa, mas porque essas leis já se encontram
plenamente assimiladas em sua consciência. Nessa condição, o bem torna-se
espontâneo, a paz interior torna-se duradoura e a felicidade decorre
naturalmente da sintonia com a vontade de Deus.
Essa interpretação não estabelece três categorias doutrinárias de céu,
mas traduz, em linguagem simbólica, o progresso contínuo do Espírito rumo à
perfeição.
A consciência como morada da Lei
A Doutrina Espírita ensina que Deus inscreveu Sua lei na consciência de
cada criatura.
O progresso consiste justamente em descobrir essa lei, compreendê-la e
vivê-la.
À medida que o Espírito evolui, diminuem os conflitos interiores, as
paixões inferiores perdem força e a paz torna-se consequência natural da
retidão de consciência.
Não é Deus quem distribui arbitrariamente felicidade ou sofrimento.
Cada Espírito experimenta as consequências naturais de suas escolhas,
aprendendo progressivamente a viver segundo as leis universais de amor, justiça
e caridade.
Nesse aspecto, o verdadeiro céu começa a ser construído ainda durante a
existência corporal.
A atualidade da mensagem de Paulo
Mesmo passados quase dois mil anos, a experiência relatada por Paulo
continua despertando interesse.
O mérito da Doutrina Espírita consiste em retirar dessa narrativa todo o
caráter fantástico ou milagroso, oferecendo-lhe explicação compatível com a
razão, com as leis naturais e com o progresso do conhecimento humano.
A narrativa deixa de descrever uma ascensão física pelos céus para
tornar-se o testemunho de uma experiência de emancipação da alma e de contato
com planos espirituais mais elevados.
Mais importante do que identificar a localização do "terceiro
céu" é compreender que todos os Espíritos caminham para estados cada vez
mais elevados de conhecimento, liberdade e felicidade.
Conclusão
A expressão "terceiro céu", utilizada por Paulo de Tarso,
pertence à linguagem cosmológica de sua época. A Doutrina Espírita esclarece
que ela não deve ser interpretada como referência a um lugar físico situado
acima das estrelas, mas como a descrição de uma experiência espiritual vivida
durante o desprendimento parcial da alma.
Ao mesmo tempo, essa passagem inspira uma reflexão permanente sobre o
progresso moral.
Quanto mais o Espírito aprende a dominar suas imperfeições, ouvir a
própria consciência e viver conforme as leis divinas, mais experimenta a paz, a
liberdade e a felicidade que caracterizam os Espíritos superiores.
O verdadeiro céu não se conquista pela mudança de lugar, mas pela
transformação do próprio Espírito. Essa transformação começa na Terra e
prossegue incessantemente ao longo da vida imortal, até que a consciência se
harmonize plenamente com as leis de Deus.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos (especialmente questões 113, 121, 439
a 455, 621, 625, 629, 920 e seguintes).
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns.
- KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
- KARDEC,
Allan. O Céu e o Inferno (Parte I, cap. III – "O Céu").
- KARDEC,
Allan. A Gênese.
2. Obras Complementares de Allan Kardec
- KARDEC,
Allan. O que é o Espiritismo.
- KARDEC,
Allan. Obras Póstumas.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC,
Allan (dir.). Revista Espírita (1858–1869), especialmente março de
1865, estudo "Onde é o Céu?".
4. Obras Subsidiárias
- DENIS,
Léon. Depois da Morte.
- PIRES,
José Herculano. O Espírito e o Tempo.
5. Passagens bíblicas, caps. e vers.
- Gênesis
1:6–8.
- João
14:2.
- João
8:32.
- Lucas
17:20–21.
- 2
Coríntios 12:2–4.
- Efésios
6:12.
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