Uma passagem evangélica que, examinada além
das aparências, coloca diante de nós questões ainda muito atuais: quem
excluímos, por que excluímos, como compreendemos o sofrimento e de que maneira
a fé, a vontade e o auxílio espiritual podem participar de uma cura?
INTRODUÇÃO
Algumas passagens dos Evangelhos atravessam os séculos sem perder a
capacidade de provocar perguntas. Outras, além disso, parecem ganhar novas
dimensões à medida que o conhecimento humano progride.
O encontro de Jesus com a mulher cananeia, narrado em Mateus 15:21-28 e
em Marcos 7:24-30, pertence a essa segunda categoria.
Uma mulher estrangeira aproxima-se de Jesus e pede auxílio para a filha
que, segundo o relato, encontrava-se atormentada por um demônio. Os discípulos
demonstram incômodo diante da insistência daquela desconhecida. Jesus permanece
inicialmente em silêncio e, depois, emprega uma expressão que, tomada
isoladamente, poderia parecer incompatível com a fraternidade que caracteriza
seus ensinamentos.
Entretanto, a narrativa termina de maneira surpreendente: aquela mulher,
aparentemente colocada à margem, manifesta uma confiança que merece o
reconhecimento de Jesus:
“Mulher, grande é a tua fé.”
A passagem, portanto, não trata apenas de uma cura. Coloca em confronto
comportamentos humanos muito diferentes: a exclusão e a acolhida, a impaciência
e a perseverança, o preconceito e a compreensão, o orgulho e a humildade.
Mas há ainda outra questão que merece nossa atenção.
O que realmente aconteceu com a filha daquela mulher?
A palavra “demônio” deve ser entendida literalmente? Seria possível
tratar o episódio como um caso de influência espiritual? A fé da mulher
participou da cura? Qual seria o papel de Jesus, de sua condição espiritual e
dos fluidos? E, se esse acontecimento tivesse ocorrido no século XIX, diante de
Allan Kardec, como teria sido investigado?
Essas perguntas não diminuem a beleza do Evangelho. Ao contrário:
permitem que o examinemos com maior profundidade.
PARTE I
— O EPISÓDIO EVANGÉLICO E O COMPORTAMENTO HUMANO
1. O encontro com a mulher cananeia
Jesus havia se retirado para a região de Tiro e Sidônia, território
predominantemente gentio.
Uma mulher cananeia aproxima-se e clama por auxílio. Sua filha
encontrava-se, segundo a narrativa evangélica, gravemente atormentada.
Ela não apresenta uma argumentação teológica. Não reivindica direitos.
Não procura demonstrar superioridade.
É simplesmente uma mãe diante do sofrimento da filha.
Seu primeiro movimento é pedir:
“Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim.”
A resposta inicial de Jesus é o silêncio.
Os discípulos, incomodados, pedem:
“Despede-a, que vem gritando atrás de nós.”
O pedido é significativo. Eles não dizem que desejam compreender aquela
mulher. Pedem simplesmente que ela seja afastada.
Ela é, naquele momento, percebida antes como um incômodo do que como uma
pessoa necessitada.
E aqui começa uma das grandes lições do episódio.
2. Os discípulos e a reação diante do
diferente
Os discípulos eram homens de sua época. Viviam em uma sociedade marcada
por profundas divisões religiosas, culturais e nacionais.
O estrangeiro era o diferente.
O diferente podia ser visto como ameaça, impureza ou inconveniência.
Não seria prudente, contudo, transformar os discípulos em personagens
essencialmente preconceituosos, como se fossem muito diferentes de nós. O mais
interessante é perceber que eles reproduzem uma reação humana bastante comum.
Quando alguém está fora do nosso grupo, podemos classificá-lo antes de
compreendê-lo.
A psicologia social contemporânea estuda fenômenos semelhantes sob
diferentes conceitos, entre eles a categorização social, os vieses relacionados
à pertença grupal e a discriminação.
Não precisamos, entretanto, transformar o Evangelho em um tratado de
psicologia social.
Basta observar o comportamento.
Os discípulos ouviram uma mulher estrangeira insistir.
Ela os incomodou.
E a solução encontrada foi simples: mandá-la embora.
Mudam as circunstâncias.
O mecanismo humano, porém, permanece reconhecível.
3. A perseverança de uma mãe
A mulher não desiste.
Ela aproxima-se ainda mais, ajoelha-se e pede:
“Senhor, socorre-me!”
Sua perseverança não assume a forma da violência.
Ela não agride.
Não acusa.
Não exige.
Não abandona o propósito.
Continua buscando auxílio.
Quando Jesus emprega a imagem dos filhos e dos cachorrinhos, ela
encontra uma resposta dentro da própria comparação:
“Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da
mesa dos seus donos.”
Sua resposta é extraordinária porque não nasce do confronto.
Ela aceita a premissa apresentada e, sem perder a humildade, demonstra
que dela também pode resultar uma possibilidade de auxílio.
Sua dor não eliminou sua lucidez.
Ela permaneceu concentrada no essencial: sua filha necessitava de
ajuda.
Essa atitude revela algo importante sobre a fé.
Não se trata de uma crença passiva.
É uma fé que se manifesta por meio da vontade, da perseverança e da
ação.
4. O silêncio e as palavras de Jesus
A passagem não autoriza a conclusão precipitada de que Jesus estivesse
desprezando aquela mulher.
Se assim fosse, teríamos dificuldade para harmonizar esse comportamento
com o conjunto de seus ensinamentos sobre amor, caridade e fraternidade.
A expressão relacionada às “ovelhas perdidas da casa de Israel” também
precisa ser compreendida em seu contexto histórico. A missão inicial de Jesus
dirigia-se particularmente ao povo judeu, que já possuía uma preparação
religiosa fundada no monoteísmo, na Lei e nos profetas.
Isso não significava estabelecer uma superioridade espiritual permanente
de um povo sobre outro.
A própria narrativa demonstra isso.
A mulher estrangeira não é rejeitada como pessoa.
Ao contrário: sua fé é reconhecida.
E esse reconhecimento possui grande importância.
5. A lição destinada aos discípulos
Há, entretanto, uma dimensão do episódio que merece maior destaque.
Jesus não estava sozinho diante daquela mulher.
Os discípulos estavam presentes.
Eles seriam os continuadores da divulgação de seus ensinamentos.
Assim, o acontecimento podia exercer sobre eles uma função pedagógica.
Eles haviam demonstrado incômodo diante de uma estrangeira insistente.
Jesus, porém, conduz a situação até o reconhecimento público da qualidade
espiritual daquela mulher.
Aquela que parecia estar “fora” demonstrou uma fé que mereceu ser
destacada diante daqueles que estavam “dentro”.
Essa inversão contém uma lição profunda.
O valor espiritual não é determinado pela nacionalidade, pela cultura,
pela posição social ou pela proximidade exterior com uma comunidade religiosa.
O Espírito é o verdadeiro ser.
As condições exteriores são transitórias.
A experiência daquela mulher, portanto, ultrapassava sua necessidade
particular.
Ela recebeu auxílio.
Sua filha foi beneficiada.
Mas os discípulos receberam uma lição que precisariam levar consigo na
futura propagação dos ensinamentos de Jesus.
A fraternidade não poderia ficar limitada às fronteiras humanas.
6. O preconceito ontem e hoje
Existe uma diferença importante entre identificar o preconceito em
determinado comportamento e condenar moralmente as pessoas que participaram
daquele comportamento.
A primeira atitude permite estudar.
A segunda pode apenas reproduzir o problema em outra direção.
Os discípulos estavam inseridos em uma cultura específica.
Nós também estamos inseridos em uma cultura específica.
Talvez nossos preconceitos sejam diferentes.
Talvez sejam mais sofisticados.
Talvez alguns estejam tão incorporados ao cotidiano que nem percebamos
sua existência.
A sociedade contemporânea dispõe de conhecimentos que permitem
compreender melhor os mecanismos da discriminação, da exclusão e do isolamento
social.
O Evangelho, porém, oferece uma pergunta ainda mais profunda:
Será que reconhecemos o outro como semelhante somente quando ele
pertence ao nosso grupo?
A mulher cananeia obriga os discípulos — e também nós — a enfrentar essa
pergunta.
PARTE II
— O EPISÓDIO À LUZ DA DOUTRINA ESPÍRITA
7. O que significava estar “endemoniado”?
Aqui precisamos proceder com cuidado.
O Evangelho informa que a filha da mulher estava “atormentada por um
demônio”.
Mas o significado de uma expressão utilizada no século I não pode ser
automaticamente transportado para as classificações desenvolvidas muitos
séculos depois.
Naquele contexto histórico, fenômenos que hoje poderiam ser descritos
através de categorias médicas, neurológicas ou psicológicas eram frequentemente
compreendidos dentro da linguagem religiosa disponível.
Isso não prova que todos esses acontecimentos fossem apenas doenças.
Também não prova que todos fossem manifestações espirituais.
A Doutrina Espírita permite considerar a existência de influência de
Espíritos sobre os encarnados, inclusive em graus diversos de obsessão e
subjugação. O Livro dos Médiuns apresenta a subjugação como uma
influência capaz de exercer forte constrangimento sobre as faculdades do
indivíduo.
Portanto, podemos admitir uma possibilidade: alguns dos antigos
“endemoniados” poderiam corresponder a fenômenos que o Espiritismo
posteriormente estudaria como influência espiritual.
Mas não podemos transformar essa possibilidade em diagnóstico
retrospectivo de todo relato evangélico.
Essa distinção é essencial.
8. Relato evangélico e investigação espírita
A diferença entre a filha da cananeia e determinados casos estudados na Revista
Espírita é metodologicamente importante.
No Evangelho, temos um relato conciso: há sofrimento → Jesus intervém
→ ocorre a cura.
Não temos uma descrição suficiente das circunstâncias para determinar
precisamente o mecanismo do fenômeno.
Já em um caso investigado, podemos observar, comparar e acompanhar os
acontecimentos.
Essa diferença nos impede de afirmar categoricamente:
“A filha da cananeia estava subjugada por um Espírito.”
Mas também não nos obriga a afirmar:
“Era necessariamente uma doença.”
A posição racional é outra: o fenômeno pode ser examinado à luz das
possibilidades oferecidas pelo conhecimento espírita, sem transformar a
hipótese em certeza histórica.
É justamente assim que o estudo espírita deve proceder.
9. Se o caso da cananeia tivesse ocorrido no
tempo de Kardec
Esta pergunta é particularmente interessante.
Se uma jovem apresentasse, no século XIX, fenômenos semelhantes aos
descritos no Evangelho e o caso chegasse ao conhecimento de Allan Kardec, ele
não começaria pela afirmação:
“Ela está possessa.”
Começaria pela observação.
Procuraria saber:
- quais
eram exatamente os fenômenos;
- quando
começaram;
- quanto
duravam;
- em que
circunstâncias apareciam;
- se
havia alterações da consciência;
- se a
jovem conservava ou não a memória;
- se
apresentava conhecimentos incomuns;
- se
modificava voz, comportamento ou personalidade;
- quais
eram suas condições físicas;
- quais
explicações médicas poderiam ser consideradas.
A Medicina seria chamada a examinar aquilo que estivesse dentro de seu
campo.
A Psicologia, quando aplicável, também.
E somente depois, se houvesse elementos que não fossem satisfatoriamente
explicados, a hipótese espiritual poderia ser investigada.
Isso é fundamental: a falta de explicação médica não constituiria,
por si só, uma prova de obsessão.
Mas, da mesma forma, a existência de sintomas físicos ou psicológicos
não eliminaria automaticamente a possibilidade de influência espiritual.
A investigação espírita acrescentaria uma pergunta:
Existe algum elemento do fenômeno que indique a ação de uma inteligência
espiritual independente do encarnado?
A partir daí começaria outra etapa da investigação.
Seria necessário observar, comparar, buscar confirmação e acompanhar os
resultados.
Um fato isolado pode sugerir. A concordância de muitos fatos permite
avançar na formulação de uma compreensão geral.
10. O caso da Srta. Júlia
É justamente aqui que o caso da Srta. Júlia, publicado na Revista
Espírita de dezembro de 1863 e janeiro de 1864, se torna particularmente
valioso.
Júlia tinha 23 anos e apresentava acessos de sonambulismo natural.
Durante determinadas crises, seu comportamento se modificava profundamente: ela
se debatia como se lutasse com alguém, apresentava sintomas de estrangulamento
e dirigia-se a uma personagem chamada Fredegunda. Kardec relata que o fenômeno
foi observado pessoalmente e estudado na Sociedade de Paris.
O estudo levou Kardec a rever uma afirmação anterior. Em O Livro dos
Médiuns, havia explicado que a chamada possessão, no sentido vulgar, seria
melhor compreendida como subjugação, evitando a ideia de que um Espírito
pudesse simplesmente tomar posse de um corpo como se dele fosse proprietário.
Entretanto, diante de novos fatos, a Revista Espírita registra
uma reconsideração dessa posição absoluta: Kardec admite a possibilidade de uma
“verdadeira possessão”, entendida naquele contexto particular como substituição
parcial da manifestação do Espírito encarnado pela de um Espírito errante.
Isso é extraordinariamente significativo.
Os fatos levaram ao aprofundamento da compreensão.
Não se tratava de preservar uma definição anterior contra a experiência.
Tratava-se de observar e aprender.
O caso também teve um desfecho considerado completo. Em janeiro de 1864,
Kardec relata a recuperação de Júlia e descreve os meios empregados no
processo.
E existe ainda um aspecto moral particularmente expressivo: o estudo
apresenta o resultado como uma espécie de dupla cura, pois Júlia se libertou da
influência e o Espírito que a atormentava caminhou para melhores sentimentos.
Aqui aparece uma diferença fundamental em relação à ideia religiosa
tradicional de “expulsar o demônio”.
No Espiritismo, o Espírito que perturba não é um ser criado para o mal.
É um Espírito imperfeito.
Portanto, o objetivo não é simplesmente expulsá-lo, mas também
auxiliá-lo a modificar-se.
11. A fé, a vontade e a ação dos fluidos
Voltamos então à mulher cananeia.
Jesus não disse:
“Grande é o teu conhecimento.”
Disse:
“Grande é a tua fé.”
E essa fé não era passiva.
Ela pediu.
Insistiu.
Raciocinou.
Perseverou.
Conservou a confiança.
Sua fé manifestou-se através da vontade.
Na Doutrina Espírita, a ação sobre os fluidos está relacionada ao
pensamento e à vontade. A Gênese explica que os Espíritos atuam sobre os
fluidos espirituais por meio do pensamento e da vontade, dando-lhes determinada
direção e modificando suas propriedades segundo leis próprias.
Por isso, podemos compreender a fé daquela mulher como um elemento
importante e contundente no conjunto do fenômeno, sem afirmar que ela,
isoladamente, produziu a cura.
Temos uma convergência:
a fé e a vontade da mulher;
a vontade e a elevada condição espiritual de Jesus;
a ação dos fluidos;
as condições da própria enferma;
e as circunstâncias espirituais envolvidas.
Não se trata de uma equação mecânica.
Trata-se de um conjunto de condições.
12. Jesus e a ação curativa
A Gênese apresenta os fenômenos de cura como
suscetíveis de explicação pelas leis naturais, particularmente pela ação
fluídica. O texto esclarece que os efeitos podem variar conforme as
circunstâncias e que a ação curativa está relacionada à qualidade do fluido e
às condições particulares do fenômeno.
Isso permite compreender racionalmente que uma cura realizada por Jesus
não precisaria representar uma suspensão das leis naturais.
Entretanto, devemos conservar a distinção metodológica: o princípio
geral é doutrinariamente estudado; a aplicação desse princípio ao caso
específico da cananeia permanece uma interpretação.
Não sabemos exatamente qual mecanismo ocorreu.
Podemos apenas dizer que a Doutrina Espírita oferece elementos para
compreender racionalmente a possibilidade de uma ação curativa de natureza
fluídica.
E a condição espiritual de Jesus é fundamental nessa compreensão.
Não estamos diante de uma força mecânica independente da pessoa que a
emprega.
A qualidade moral e espiritual daquele que atua participa do fenômeno.
13. Prece, assistência e desobsessão
A mesma compreensão pode ajudar-nos a refletir sobre a oração em favor
de um enfermo.
Quando alguém ora sinceramente por outra pessoa, não está
necessariamente produzindo uma cura automática.
A prece pode constituir uma forma de auxílio.
A fé, a vontade, os sentimentos e a intenção daquele que ora podem
favorecer condições para uma ação benéfica.
Mas existem outros elementos: a condição do enfermo, sua
receptividade, sua vontade, suas necessidades espirituais, as condições
orgânicas e a assistência dos Espíritos benfeitores.
O mesmo princípio pode ser aplicado aos trabalhos de desobsessão.
Não se trata simplesmente de “expulsar” um Espírito.
Há um encarnado que necessita de auxílio e um desencarnado que também
necessita de esclarecimento.
Ambos possuem vontade.
Ambos possuem necessidades próprias.
Ambos estão submetidos ao processo de evolução.
O trabalho de assistência procura, portanto, favorecer condições para
que o encarnado se liberte da influência prejudicial e para que o desencarnado
encontre condições de modificar sua disposição.
O caso de Júlia é particularmente expressivo nesse sentido. O relato de
janeiro de 1864 mostra que tentativas exclusivamente magnéticas haviam
produzido apenas melhora leve e passageira, enquanto o problema espiritual
permanecia tenaz.
O próprio relato também registra a importância da superioridade moral e
da assistência dos bons Espíritos no trabalho de auxílio.
14. Curar não é o mesmo que auxiliar
Esta distinção talvez seja uma das mais importantes para a compreensão
do episódio.
Auxiliar não significa necessariamente curar definitivamente.
Podemos aliviar uma dor.
Podemos favorecer uma recuperação.
Podemos modificar uma influência espiritual.
Podemos fortalecer a vontade de alguém.
Podemos proporcionar esclarecimento.
Podemos oferecer condições para uma transformação que ainda levará
tempo.
Mas não podemos substituir o próprio Espírito em seu processo evolutivo.
Por isso, mesmo quando existe uma ação fluídica benéfica, o resultado
dependerá das circunstâncias.
Há enfermidades cuja finalidade ou causa não se esgota no organismo
físico.
Há experiências vinculadas às necessidades do Espírito.
Há situações em que a cura física pode ser possível.
Em outras, o benefício poderá assumir outra forma.
Assim, não seria correto transformar a fé em uma fórmula:
“Quem tem fé será necessariamente curado.”
A experiência humana demonstra que não é assim.
A fé pode favorecer o auxílio sem transformar-se em garantia de
determinado resultado.
15. O bem realizado não se perde
Aqui chegamos a uma consequência que ultrapassa o episódio da mulher
cananeia.
Quando alguém ora por um enfermo, oferece assistência, participa de um
trabalho de desobsessão, transmite conhecimento ou simplesmente pratica uma
ação sincera de solidariedade, pode não conhecer imediatamente o resultado de
sua doação.
Pode acontecer de o auxílio produzir uma melhora.
Pode acontecer de produzir apenas um alívio.
Pode acontecer de favorecer uma transformação que somente aparecerá
muito tempo depois.
Pode até acontecer de o resultado esperado não se manifestar naquela
existência.
Isso não significa que a doação tenha sido inútil.
O bem realizado não se perde.
Não precisamos imaginar uma espécie de reserva de fluidos esperando por
outra existência.
É mais profundo que isso.
O bem realizado integra a experiência dos Espíritos.
A ação fraterna modifica aquele que doa e pode abrir possibilidades para
aquele que recebe.
Quando existirem condições, nesta ou em outra existência, os efeitos
dessa experiência poderão encontrar novas oportunidades de manifestação.
Não sabemos antecipadamente quando nem como.
E justamente por isso não devemos transformar a caridade em uma operação
de troca.
Não fazemos o bem para garantir um resultado.
Fazemos o bem porque o bem é uma expressão da lei de progresso e de
solidariedade.
A mulher cananeia recebeu um benefício para sua filha.
Os discípulos receberam uma lição.
Jesus deixou um ensinamento que atravessaria os séculos.
O acontecimento terminou naquele momento, mas o bem e a lição não
terminaram ali.
Essa talvez seja uma das maiores riquezas da passagem.
REFLEXÃO FINAL
A mulher cananeia entrou na narrativa como estrangeira e terminou
reconhecida por sua fé.
Os discípulos, que pertenciam ao grupo mais próximo de Jesus, precisaram
aprender uma lição sobre o olhar dirigido ao outro.
A filha, que sofria, recebeu auxílio.
E Jesus transformou um pedido individual em uma experiência de alcance
coletivo.
A passagem, portanto, pode ser examinada em diferentes níveis.
No plano humano, encontramos uma mulher que enfrenta o preconceito sem
permitir que ele destrua sua dignidade.
No plano moral, encontramos uma demonstração de humildade, perseverança
e confiança.
No plano espiritual, encontramos a possibilidade de uma ação curativa
relacionada à fé, à vontade, à condição espiritual de Jesus e aos fluidos,
segundo princípios que a Doutrina Espírita procura compreender.
No plano metodológico, encontramos uma advertência: não devemos
transformar uma interpretação em fato sem possuir os elementos necessários para
estabelecê-lo.
É nesse ponto que o caso da Srta. Júlia se torna tão significativo.
A filha da cananeia pertence ao relato evangélico.
Júlia pertence a um caso que foi observado, estudado e acompanhado por
Kardec e pelos participantes da Sociedade de Paris.
Um caso pode iluminar a interpretação do outro, mas não devemos
confundi-los.
E há ainda uma lição que ultrapassa todos esses aspectos.
A cura não deve ser confundida com a solução definitiva de todas as
necessidades do Espírito.
Quem auxilia não substitui aquele que necessita evoluir.
Quem ora não determina sozinho o resultado.
Quem trabalha na desobsessão não elimina o livre-arbítrio do Espírito
que sofre ou do Espírito que influencia.
Cada um permanece responsável por seu próprio desenvolvimento.
Mas isso não diminui a importância da solidariedade.
Ao contrário.
É justamente porque não podemos caminhar pelo outro que precisamos
oferecer-lhe ajuda quando ele não consegue caminhar sozinho.
A mulher cananeia pediu.
Jesus auxiliou.
Os discípulos aprenderam.
E a humanidade recebeu uma lição.
Talvez seja essa a verdadeira dimensão da passagem: a fé abre a
porta, a vontade movimenta o Espírito, o auxílio oferece condições, mas o
progresso pertence a cada consciência.
E, acima de tudo:
A cura pode ser circunstancial. O auxílio pode assumir muitas formas.
Mas o bem realizado não se perde.
A mulher cananeia não precisou deixar de ser quem era para merecer
consideração.
Precisou apenas ser reconhecida como Espírito.
E essa talvez seja uma das maiores lições que o episódio continua
oferecendo à humanidade.
REFERÊNCIAS
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris, 1857.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Paris, 1861. Segunda Parte, capítulo XXIII — Da obsessão, especialmente os itens referentes à subjugação.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris, 1864. Especialmente capítulo XIX — A fé transporta montanhas; capítulo XXIV — Não ponhais a candeia debaixo do alqueire.
- KARDEC, Allan. A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Paris, 1868. Capítulo XIV — Os fluidos.
2. Obras Complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Paris, 1859.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Paris, 1890.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC, Allan (org.). Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, 1858–1869.
Especialmente:
Dezembro de 1863 — “Um caso de possessão — Senhorita Júlia”. O estudo registra a observação do fenômeno e a reconsideração da posição anterior sobre a possibilidade de verdadeira possessão.
Janeiro de 1864 — “Um caso de possessão — Senhorita Júlia”. Segundo artigo sobre o caso, com descrição da recuperação da jovem e das circunstâncias do tratamento.
Janeiro de 1864 — “Palestras de além-túmulo — Fredegunda”. Comunicações relacionadas ao caso Júlia e ao Espírito envolvido.
4. Obras Subsidiárias
- XAVIER, Francisco Cândido. Obras psicografadas de Emmanuel e André Luiz, quando utilizadas para estudos complementares sobre prece, assistência espiritual, obsessão e progresso moral.
- FRANCO, Divaldo Pereira. Obras psicografadas de Joanna de Ângelis, quando utilizadas como complementação dos estudos sobre comportamento, moral e espiritualidade.
As obras subsidiárias devem ser utilizadas como complementação, não como
substituição das fontes fundamentais da Codificação.
5. Passagens Bíblicas
- Mateus 15:21-28 — Jesus e a mulher cananeia.
- Marcos 7:24-30 — Jesus e a mulher siro-fenícia.
- Mateus 10:5-7 — Instruções aos doze apóstolos.
6. Fontes Externas
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidance on mental health policy and strategic action plans. 2025.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies — Report of the WHO Commission on Social Connection. 2025.
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