Introdução
Entre os acontecimentos que marcaram os primeiros anos do Espiritismo, o
ano de 1858 ocupa lugar singular. Em janeiro começou a circular a Revista
Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos e, poucos meses depois, em 1º de
abril, foi fundada em Paris a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas — SPEE.
Não foram acontecimentos isolados.
Ambos nasceram de uma mesma necessidade: proporcionar meios para o
estudo ordenado de uma realidade que, naquele momento, despertava crescente
interesse e exigia algo além da simples curiosidade pelos fenômenos.
A pesquisa histórica que fundamenta este artigo permite acompanhar esse
processo desde as primeiras reuniões realizadas na residência de Allan Kardec,
passando pela necessidade de regularização legal, pela instalação da Sociedade,
pela organização de suas sessões, pelo crescimento do número de participantes e
pelas decisões tomadas durante seu primeiro ano de funcionamento.
O que torna essa experiência particularmente interessante não é apenas
sua antiguidade. É a maneira como uma pequena reunião de estudiosos foi
procurando transformar o interesse pelos fenômenos espíritas em observação,
estudo, comparação, registro e reflexão.
A Sociedade não era a Doutrina Espírita, nem pretendia ser sua
proprietária. Era uma instituição humana destinada ao estudo dos fenômenos e
dos princípios espíritas.
Essa distinção é fundamental.
A Doutrina Espírita, conforme apresentada pela Codificação, não pertence
a uma personalidade ou a uma instituição. Allan Kardec desempenhou a função de
codificador, organizador e pesquisador de ensinamentos provenientes dos
Espíritos, submetidos ao exame e à comparação segundo um método.
A história da SPEE pode, portanto, ser compreendida como a história de
uma das primeiras experiências organizadas de aplicação prática dessa atitude
diante do conhecimento.
PARTE I
Antes da Sociedade, o estudo
A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas não nasceu pronta.
Durante aproximadamente seis meses, reuniões eram realizadas na
residência de Allan Kardec, na rua dos Mártires. O espaço era pequeno e, com o
crescimento do interesse, tornou-se insuficiente. O número de participantes
chegou, em determinadas ocasiões, a ultrapassar consideravelmente a capacidade
do local.
A dificuldade física acabou conduzindo a uma necessidade administrativa.
Enquanto as reuniões permaneciam restritas a um pequeno grupo, podiam
ocorrer em caráter particular. Porém, o aumento do número de participantes e a
necessidade de utilizar um espaço apropriado exigiam a observância das normas
legais vigentes.
O contexto francês de 1858 também não era simples.
O Segundo Império, sob Napoleão III, atravessava período de forte tensão
política. O atentado de Felice Orsini contra o imperador, em janeiro daquele
ano, foi seguido por medidas de segurança que tornaram mais rigoroso o controle
das reuniões e das atividades consideradas potencialmente ameaçadoras à ordem
pública.
Nesse ambiente, uma sociedade dedicada ao estudo de ideias novas
precisava agir com prudência.
O senhor Dufaux, que conhecia pessoalmente o Prefeito de Polícia de
Paris, encarregou-se de encaminhar o pedido. A autorização dependia também do
Ministério do Interior e da Segurança Geral, então sob responsabilidade do
general Charles-Marie-Esprit Espinasse.
A autorização foi concedida em 13 de abril de 1858, doze dias depois da
fundação formal da Sociedade. A própria Revista Espírita registrou
posteriormente que o processo, que poderia normalmente exigir período muito
maior, foi concluído em aproximadamente quinze dias.
A documentação posterior acrescentou outro elemento interessante à
história.
Depois da morte do general Espinasse, em 1859, na batalha de Magenta, a Revista
Espírita publicou uma entrevista mediúnica com o oficial. Ao ser
questionado sobre seu conhecimento da Sociedade, sua resposta foi relacionada
ao processo de autorização, e uma nota esclareceu que ele efetivamente havia
contribuído para que a instituição obtivesse autorização para funcionar.
O episódio é historicamente curioso, mas não deve obscurecer o aspecto
principal.
A legalização não criou a finalidade da Sociedade.
Apenas tornou possível que uma atividade que já vinha sendo realizada em
caráter particular passasse a funcionar de maneira organizada e regular.
Esse detalhe revela algo importante: a instituição nasceu da
necessidade do estudo; não o estudo da necessidade da instituição.
PARTE II
Da reunião particular ao centro de observação
A denominação escolhida — Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
— já indicava claramente sua finalidade.
Na Revista Espírita de maio de 1858, a instituição foi
apresentada como um centro regular de observações. Seu propósito era
proporcionar condições para o estudo dos fenômenos relacionados às relações
entre o mundo visível e o mundo invisível e permitir o intercâmbio de observações
provenientes de diferentes lugares.
Não era, portanto, uma simples associação de pessoas reunidas em torno
de uma crença.
Seu próprio nome estabelecia uma orientação.
Estudos.
Essa palavra continua sendo uma das mais importantes para compreender
sua história.
Em O Que é o Espiritismo, a Sociedade é apresentada como uma
sociedade científica destinada a aprofundar os princípios da ciência espírita,
reunir informações provenientes de diferentes partes do mundo e coordenar
questões relacionadas ao progresso desses estudos.
Não se pretendia transformar a instituição em uma escola elementar, nem
em local de entretenimento.
A Sociedade deveria ser um ambiente de trabalho intelectual.
Isso explica uma característica que pode parecer estranha aos olhos
atuais: o acesso às sessões não era indiscriminado.
A restrição não tinha necessariamente por fundamento uma distinção
social. Havia uma razão relacionada à própria finalidade dos trabalhos. Pessoas
sem conhecimento preliminar poderiam ocupar o tempo da reunião com questões
elementares; pessoas hostis poderiam transformar a sessão em arena de
controvérsias; e curiosos poderiam esperar encontrar demonstrações destinadas a
satisfazer sua curiosidade.
A prioridade era outra. Estudar.
PARTE
III
Quando a curiosidade cede lugar à observação
A curiosidade teve seu papel no início da história do Espiritismo.
Fenômenos incomuns despertavam naturalmente a atenção. As mesas girantes
e outras manifestações contribuíram para aproximar muitas pessoas do assunto.
Mas aproximar não significa ensinar.
A Revista Espírita de setembro de 1858 apresenta uma distinção
particularmente importante ao tratar dos diferentes períodos da propagação do
Espiritismo. O primeiro é identificado como o período da curiosidade; o
segundo, como o período da observação, no qual os estudos se aprofundam e o
Espiritismo tende à unidade doutrinária e se constitui como ciência.
A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas pertence precisamente a esse
movimento de passagem.
A curiosidade pergunta:
“O que é isso?”
A observação pergunta:
“Em que condições ocorre?”
O estudo acrescenta:
“O que podemos concluir?”
E a reflexão procura avançar:
“Que consequências esse conhecimento pode produzir?”
Essa progressão continua atual.
O século XIX enfrentava a dificuldade de encontrar informações
confiáveis sobre fenômenos ainda pouco conhecidos.
O século XXI enfrenta, em sentido inverso, uma abundância extraordinária
de informações.
Hoje, uma comunicação atribuída a um Espírito pode alcançar milhares de
pessoas em poucos minutos. Um vídeo pode tornar-se viral antes que alguém tenha
examinado sua origem. Uma interpretação pessoal pode ser reproduzida tantas
vezes que acaba adquirindo aparência de verdade.
Mudaram os meios.
O problema metodológico permanece.
Por isso, a experiência da SPEE conserva sua atualidade: a facilidade
de divulgar não elimina a necessidade de examinar.
PARTE IV
Disciplina, recolhimento e liberdade de exame
A organização das sessões demonstra que a disciplina era considerada
condição necessária ao estudo.
As reuniões não deveriam transformar-se em espetáculo. O comportamento
dos participantes precisava ser compatível com a seriedade da finalidade
proposta.
Em dezembro de 1859, a Revista Espírita registrou advertências
dirigidas a ouvintes que haviam perturbado a tranquilidade das sessões com
conversas e palavras inadequadas. Reafirmou-se que aqueles que buscassem apenas
distração não deveriam procurar isso nas reuniões da Sociedade.
A disciplina, porém, não significava ausência de liberdade intelectual.
Em dezembro do mesmo ano, ao explicar os objetivos da Sociedade, a Revista
Espírita esclareceu que seus integrantes eram livres para discutir pontos
controvertidos e emitir opiniões pessoais. O que se procurava evitar era
transformar as sessões em uma arena de controvérsias ou permitir que ideias
preconcebidas substituíssem a observação.
Essa distinção é preciosa.
Liberdade de pensamento é condição do estudo.
Desordem intelectual é obstáculo ao estudo.
Questionar não significa combater.
Discordar não significa hostilizar.
Apresentar uma hipótese não significa transformá-la em verdade.
E respeitar uma tradição de estudos não significa renunciar ao exame
racional.
Esses princípios continuam indispensáveis em qualquer ambiente destinado
à investigação.
PARTE V
Registrar para preservar a experiência
Uma das características mais interessantes da experiência da SPEE foi a
preocupação com o registro dos trabalhos.
Em 1859, a Revista Espírita passou a publicar regularmente
boletins das sessões da Sociedade. Esses boletins apresentavam resumos dos
trabalhos e das atas, enquanto as comunicações consideradas úteis e instrutivas
poderiam ser publicadas integralmente, acompanhadas da indicação da data em que
haviam ocorrido.
Essa prática possui enorme valor histórico.
Uma reunião desaparece quando termina.
Um estudo registrado pode ser posteriormente examinado.
Uma observação sem registro depende da memória.
Um registro permite comparação.
Uma informação isolada pode ser esquecida.
Uma documentação organizada pode atravessar gerações.
O resultado dessa preocupação pode ser percebido atualmente. A Revista
Espírita tornou-se uma das principais fontes primárias para quem deseja
compreender a formação histórica da Doutrina Espírita e o ambiente intelectual
em que os estudos foram desenvolvidos.
Isso oferece outra lição aos centros espíritas contemporâneos.
Estudar não significa apenas conversar.
É importante registrar.
Registrar atas, estudos, referências, fontes, hipóteses, conclusões
provisórias e, quando pertinente, os próprios resultados de pesquisas.
A memória institucional não deve depender exclusivamente das lembranças
individuais.
Uma instituição que não preserva sua experiência perde parte de seu
próprio patrimônio intelectual.
PARTE VI
Um ano de crescimento, decisões e progresso
O primeiro ano de existência da Sociedade revelou que crescimento traz
responsabilidades.
Ao final do período social de 1858-1859, o número de membros havia
aumentado significativamente. A Sociedade possuía correspondentes em diferentes
lugares e despertava interesse muito além do pequeno grupo que havia
participado das primeiras reuniões.
Mas o crescimento exigiu controle.
Quanto maior o número de interessados, maior a necessidade de preservar
as condições de estudo.
Essa preocupação explica as restrições à presença de ouvintes, a
organização das sessões e a busca de um ambiente compatível com a finalidade da
instituição.
O crescimento também colocou em evidência a questão da liderança.
Ao final do primeiro ano social, Allan Kardec comunicou sua intenção de
renunciar às funções que exercia na Sociedade. A multiplicidade de seus
trabalhos e estudos tornava difícil continuar assumindo sozinho tantas
responsabilidades.
A Sociedade, entretanto, o reelegeu.
Ele aceitou permanecer, mas deixou clara sua intenção de poder
afastar-se quando a instituição estivesse em condições de contar com outra
pessoa capaz de assumir a presidência e proporcionar maior relevo à Sociedade.
Esse episódio é revelador.
A liderança não deveria transformar-se em propriedade pessoal.
A instituição precisava desenvolver capacidade própria de continuidade.
Isso também é progresso.
Uma organização cresce verdadeiramente quando deixa de depender
exclusivamente de uma pessoa.
O que esse primeiro ano ensina ao presente?
Ao observar a trajetória da SPEE, encontramos uma sequência que poderia
ser resumida assim:
reunião → organização → legalização → observação → disciplina → registro
→ crescimento → responsabilidade.
Não se trata de um modelo administrativo obrigatório para as
instituições espíritas atuais.
As circunstâncias históricas são diferentes.
O que permanece é o princípio.
A organização deve servir ao estudo.
O estudo deve servir à compreensão.
A compreensão deve favorecer o progresso intelectual e moral.
E o progresso deve estar aberto à correção e ao aperfeiçoamento.
A experiência da Sociedade também mostra que uma instituição não precisa
transformar-se em autoridade absoluta para desempenhar função importante.
Ela pode ser um instrumento.
Pode reunir pesquisadores.
Pode organizar documentos.
Pode comparar experiências.
Pode favorecer a discussão.
Pode preservar a memória.
Mas não deve substituir a consciência individual nem o exame racional.
Essa talvez seja uma das maiores lições que o passado oferece ao
presente.
Vivemos em uma época na qual a autoridade pode ser construída
rapidamente. Uma pessoa pode tornar-se referência nas redes sociais em poucos
meses. Uma mensagem pode ser considerada verdadeira apenas porque foi atribuída
a determinado Espírito. Um conceito pode ser repetido tantas vezes que sua
origem deixa de ser questionada.
A experiência da SPEE recomenda outro caminho.
Não basta saber quem afirmou. É necessário examinar o que foi afirmado.
Não basta saber quantas pessoas acreditam. É necessário verificar os
fundamentos.
Não basta divulgar. É necessário compreender.
E isso não significa desconfiança sistemática.
Significa prudência.
A prudência é uma forma de respeito à verdade.
REFLEXÃO
FINAL
Em 1º de abril de 1858, uma sociedade foi fundada em Paris para
organizar estudos que já vinham sendo realizados em ambiente particular.
Um ano depois, aquela pequena experiência havia crescido, criado
procedimentos, enfrentado dificuldades, organizado seus trabalhos, registrado
suas atividades e atraído estudiosos de diferentes lugares.
Esse primeiro ano foi, portanto, mais do que um período de
funcionamento.
Foi um período de aprendizagem.
A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas mostrou, na prática, que o
estudo de uma realidade nova exige mais do que entusiasmo.
Exige método.
Exige disciplina.
Exige registro.
Exige liberdade de exame.
Exige respeito pelas opiniões divergentes.
Exige capacidade de reconhecer os próprios limites.
E, sobretudo, exige disposição para aprender com a experiência.
Talvez seja por isso que a história daquela Sociedade ainda possa
dialogar com o presente.
Hoje dispomos de tecnologias que permitem acessar, em segundos,
documentos que no século XIX exigiam anos de trabalho. Podemos comparar
edições, consultar fontes históricas, cruzar informações e preservar enormes
quantidades de documentos.
Temos instrumentos muito mais poderosos.
Mas os instrumentos não pensam por nós.
A tecnologia pode ampliar o acesso ao conhecimento; não pode substituir
o discernimento.
A inteligência artificial pode localizar informações, comparar
documentos e auxiliar pesquisas; não pode transformar uma afirmação sem
fundamento em verdade.
A velocidade da comunicação pode multiplicar uma ideia; não pode
garantir sua validade.
Por isso, a grande lição da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas
talvez não esteja em sua sede, em seu regulamento ou mesmo em seus personagens
históricos.
Está na atitude diante do conhecimento.
Estudar sem preconceito.
Observar sem precipitação.
Questionar sem hostilidade.
Comparar sem paixão.
Registrar sem distorcer.
Concluir sem orgulho.
A curiosidade pode abrir a porta.
O estudo nos faz atravessá-la.
A observação nos permite compreender o caminho.
E o conhecimento, quando associado ao progresso moral, pode transformar
aquilo que inicialmente era apenas uma pergunta em instrumento de
aperfeiçoamento humano.
Foi assim que uma pequena reunião particular começou a transformar-se em
um centro organizado de estudos.
Talvez essa seja a pergunta que permanece para nós:
Depois de tantos anos de divulgação do Espiritismo, estamos apenas
repetindo o que já foi dito ou continuamos aprendendo a estudar?
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris, 1857.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, ou Guia dos Médiuns e dos Evocadores. Paris, 1861. Segunda parte, capítulo XXX — “Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”.
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Paris, 1859. Especialmente o diálogo referente à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Segunda parte — “A Revista Espírita” e “Fundação da Sociedade Espírita de Paris”.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, 1858-1869. Especialmente os números de maio e setembro de 1858 e os números de janeiro, março, maio, julho e dezembro de 1859.
- WANTUIL, Zêus; THIESEN, Francisco. Allan Kardec: pesquisa biobibliográfica e ensaios de interpretação. Vol. III. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1998. Cap. 1, item 3 — Société Parisienne des Études Spirites.
4. Obras Subsidiárias
- MOLLO, Elio. Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Pesquisa histórica elaborada a partir de material de referência recebido em 23 de novembro de 2009, reunindo dados de Obras Póstumas, Revista Espírita, O Que é o Espiritismo e fontes históricas complementares.
5. Passagens bíblicas
- Atos dos Apóstolos, 17:11 — referência aos habitantes de Bereia, que examinavam cuidadosamente os ensinamentos recebidos.
- 1 Tessalonicenses, 5:21 — recomendação de examinar todas as coisas e conservar o que é bom.
6. Fontes Externas Utilizadas
- BIBLIOTHÈQUE NATIONALE DE FRANCE — Catálogo geral e registros bibliográficos referentes à Revue spirite e às primeiras edições das obras de Allan Kardec.
- SÉNAT — République française. Registro biográfico histórico de Charles-Marie-Esprit Espinasse, incluindo seu período como Ministro do Interior e da Segurança Geral em 1858.
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