Introdução
Na existência corporal, os bens materiais possuem utilidade e atendem a
necessidades legítimas. O homem necessita deles para viver, trabalhar, educar
os filhos, proteger a família e participar da sociedade. O problema moral,
portanto, não está na posse, mas no apego que pode nascer dela.
A avareza começa quando o bem deixa de ser considerado um meio e passa a
constituir uma finalidade em si mesma. O indivíduo já não pergunta quanto
necessita, nem para que poderá utilizar o que possui; preocupa-se apenas em
acumular, conservar e aumentar. A riqueza, então, que poderia servir ao
progresso, transforma-se em objeto de preocupação, orgulho ou domínio.
Jesus, ao recomendar que nos preservássemos de toda avareza, não
condenou a propriedade nem estabeleceu a pobreza material como condição para a
vida espiritual. Sua advertência foi mais profunda: a vida não depende da
abundância dos bens que alguém possui.
A questão permanece atual. Em um mundo no qual a capacidade de
acumulação alcançou dimensões desconhecidas em outras épocas, a pergunta moral
continua sendo essencial: o homem possui os bens ou é possuído por eles?
PARTE I
— A POSSE DOS BENS E O APEGO DO ESPÍRITO
A passagem registrada no Evangelho de Lucas apresenta uma situação
aparentemente simples. Um homem procura Jesus para que intervenha numa disputa
de herança. Jesus não assume a condição de juiz daquela partilha. Em seguida,
porém, oferece ensinamento de alcance muito maior: recomenda a todos que se
preservem da avareza.
A lição é significativa.
O conflito pela herança poderia ser resolvido juridicamente. A divisão
dos bens poderia ser determinada conforme as leis humanas. Mas nenhuma decisão
exterior seria capaz de eliminar a causa moral do conflito se os interessados
permanecessem dominados pela cobiça.
É justamente aí que se encontra a diferença entre posse material e
apego espiritual.
O homem pode possuir muito sem ser avaro, assim como pode possuir pouco
e ser profundamente apegado ao que tem. A avareza não se mede pela quantidade
de dinheiro guardado, mas pela disposição interior diante da riqueza.
A Doutrina Espírita esclarece que o uso dos bens terrenos é uma
necessidade da existência. Em O Livro dos Espíritos, ao tratar dos gozos
dos bens da Terra, o ensino espiritual reconhece sua utilidade, mas adverte
quanto ao abuso e estabelece a razão como instrumento para distinguir o
necessário do excesso.
Assim, não há incompatibilidade entre espiritualidade e administração
responsável dos recursos materiais. Trabalhar, economizar, constituir
patrimônio, assegurar o futuro da família e utilizar os próprios recursos com
prudência podem constituir atos legítimos e até deveres.
O problema aparece quando a segurança material se converte em falsa
segurança espiritual.
O rico da parábola não é apresentado como criminoso porque sua terra
produziu abundantemente. O erro encontra-se na conclusão a que chegou. Diante
da abundância, pensou exclusivamente em ampliar seus celeiros e garantir para
si muitos anos de repouso, como se tivesse domínio absoluto sobre o futuro.
Seu patrimônio aumentou, mas sua compreensão da vida não acompanhou esse
crescimento.
É uma situação que pode ocorrer em qualquer condição econômica.
O trabalhador que economiza para proporcionar melhores condições à
família não se encontra na mesma situação moral daquele que acumula por medo de
perder aquilo que já possui. O empresário que utiliza seus recursos para
produzir, empregar e desenvolver a sociedade não se encontra na mesma posição
daquele que transforma o dinheiro em instrumento de exploração. A pessoa que
reserva recursos para uma necessidade futura não é equivalente àquela que se
angustia diante da possibilidade de gastar até mesmo o que lhe é legitimamente
necessário.
Por isso, a avareza é antes de tudo uma condição do Espírito.
A riqueza, por si mesma, não torna ninguém melhor ou pior. O que importa
é o uso que se faz dela e, sobretudo, o que ela produz no íntimo daquele que a
possui.
A Doutrina Espírita apresenta a riqueza como uma prova particularmente
delicada. A pobreza pode colocar o indivíduo diante de determinadas
dificuldades; a riqueza pode colocá-lo diante de outras. Em ambas as situações,
o Espírito encontra oportunidades de aprendizado.
A questão 808 de O Livro dos Espíritos é particularmente
esclarecedora ao examinar a desigualdade das riquezas. O ensino espiritual não
considera suficiente afirmar que toda riqueza decorre simplesmente de
diferentes capacidades individuais. Faz também referência à astúcia, ao roubo,
à espoliação e à injustiça, mostrando que a origem dos patrimônios e a cobiça
com que são buscados constituem questões morais.
Essa observação permanece atual.
Segundo o World Inequality Report 2026, os 10% mais ricos da
população mundial concentram aproximadamente três quartos da riqueza global,
enquanto a metade mais pobre possui cerca de 2%. O mesmo relatório indica que a
concentração extrema de riqueza continua crescendo.
Esses números, entretanto, não autorizam concluir que toda pessoa rica
seja avara ou moralmente inferior. A Doutrina Espírita não estabelece
semelhante relação automática. O patrimônio pode resultar de trabalho,
capacidade, circunstâncias, herança ou diversas combinações desses fatores.
O problema moral começa quando a riqueza deixa de ser administrada como
recurso e passa a dominar a consciência.
É possível possuir muito e ser desprendido. Também é possível possuir
pouco e viver inteiramente subordinado ao desejo de possuir.
O desprendimento, portanto, não significa necessariamente abandonar os
bens, mas não permitir que eles determinem o valor da existência.
PARTE II
— RIQUEZA, RESPONSABILIDADE E RIQUEZA DIANTE DE DEUS
A expressão utilizada por Jesus — “rico para com Deus” — oferece uma
chave para compreender o ensinamento.
Ser rico para com Deus não significa possuir patrimônio espiritual
acumulado como se fosse uma conta bancária. Significa enriquecer a própria
consciência por meio das virtudes que permanecem com o Espírito.
O patrimônio material permanece no mundo material. As aquisições morais
acompanham o Espírito.
Essa diferença modifica profundamente a maneira de compreender a
existência.
O dinheiro pode comprar uma casa, mas não cria um lar. Pode adquirir
medicamentos, mas não garante saúde. Pode proporcionar conforto, educação e
oportunidades, mas não compra fraternidade, honestidade, serenidade ou
verdadeira afeição.
Também não compra tempo.
O rico da parábola descobriu essa verdade quando já não podia utilizá-la
em seu benefício.
A advertência não significa que a morte torne inútil tudo aquilo que foi
construído durante a existência. Ao contrário: os bens podem ter grande
utilidade quando empregados para o bem. O que desaparece com a morte é a
condição de proprietário material. O que permanece é o resultado moral da
maneira como esses recursos foram utilizados.
Essa perspectiva é especialmente importante diante da realidade
contemporânea.
Dados recentes mostram simultaneamente avanços e contradições. No
Brasil, segundo o IBGE, a pobreza caiu de 27,3% da população em 2023 para 23,1%
em 2024, enquanto a extrema pobreza caiu de 4,4% para 3,5%, os menores níveis
da série histórica iniciada em 2012. O índice de Gini da renda domiciliar per
capita também alcançou, em 2024, seu menor valor da série, 0,504.
Isso demonstra que a realidade social não pode ser reduzida a uma
narrativa de permanente deterioração. Existem progressos concretos que devem
ser reconhecidos.
Mas o progresso material não elimina a necessidade do progresso moral.
Em escala mundial, a concentração patrimonial continua
extraordinariamente elevada. E a questão moral não consiste simplesmente em
perguntar quanto alguém possui, mas em perguntar o que a sociedade faz com
aquilo que produz e o que cada indivíduo faz com aquilo que recebe.
Essa reflexão pode alcançar até mesmo as prioridades coletivas.
Em 2025, os gastos militares mundiais chegaram a aproximadamente US$
2,887 trilhões, segundo o Stockholm International Peace Research Institute
(SIPRI), o maior valor registrado pela instituição e o décimo primeiro ano
consecutivo de crescimento.
Não cabe transformar esse dado em julgamento simplista. Os Estados
possuem necessidades legítimas de defesa e segurança. Entretanto, ele permite
uma pergunta semelhante à proposta pela parábola: quais são as prioridades
que revelam aquilo que valorizamos?
A questão da avareza, portanto, pode ultrapassar o comportamento
individual e alcançar a consciência coletiva.
Uma sociedade pode possuir enorme capacidade produtiva e, ao mesmo
tempo, conviver com fome, pobreza, desperdício, desigualdade extrema e
conflitos. Pode desenvolver tecnologias extraordinárias e ainda não saber
utilizar adequadamente seus recursos em favor da dignidade humana.
O progresso intelectual amplia o poder de ação; o progresso moral
precisa orientar esse poder.
A Doutrina Espírita apresenta a caridade não apenas como assistência
ocasional, mas como expressão da lei de amor e justiça. A riqueza, quando
colocada a serviço do bem, pode tornar-se instrumento de progresso. Quando
utilizada exclusivamente para satisfazer o egoísmo, pode alimentar justamente
as paixões que retardam o desenvolvimento espiritual.
Há, portanto, uma diferença fundamental entre acumular e construir.
Acumular pode significar simplesmente guardar para si.
Construir significa produzir algo que permaneça útil: uma empresa que
respeita seus trabalhadores, uma escola, uma pesquisa, uma obra social, uma
família educada moralmente, uma oportunidade oferecida a alguém, uma comunidade
mais justa, uma descoberta científica, uma atitude de solidariedade.
O valor espiritual de um patrimônio não está apenas em seu tamanho, mas
no bem que dele resulta.
A própria Revista Espírita, em textos dedicados à ostentação e à
miséria humana, apresenta reflexões que convergem para essa compreensão: não é
a aparência exterior da beneficência que determina seu valor moral, mas a
intenção que a acompanha. Uma grande contribuição realizada para receber
reconhecimento pode ter menor significado moral do que um pequeno auxílio
oferecido sinceramente.
Isso conduz a uma conclusão importante: a avareza não é vencida
simplesmente pela distribuição dos bens, mas pela transformação da relação do
Espírito com eles.
Alguém pode abandonar uma parte de sua riqueza e continuar escravo da
vaidade. Pode doar para ser admirado. Pode praticar a beneficência para
adquirir prestígio. Pode transformar a própria caridade em instrumento de
superioridade.
O desprendimento verdadeiro é mais profundo.
Ele modifica a consciência.
O indivíduo passa a compreender que os bens materiais são recursos
temporários colocados sob sua administração durante determinada existência.
Utiliza-os com prudência, mas não lhes atribui valor absoluto.
É possível, então, trabalhar sem idolatrar o trabalho; prosperar sem
desprezar quem possui menos; economizar sem transformar a segurança financeira
em obsessão; administrar patrimônio sem fazer dele a medida do próprio valor; e
utilizar a riqueza sem esquecer aqueles que dela necessitam.
Essa é uma educação moral que permanece necessária em qualquer época.
REFLEXÃO
FINAL
As ondas do mar levam consigo aquilo que é passageiro. A vida material
também transforma continuamente as circunstâncias: patrimônios mudam de mãos,
posições sociais desaparecem, riquezas são transferidas, empresas surgem e
desaparecem, gerações sucedem gerações.
Nada disso permanece indefinidamente com o homem.
Entretanto, permanece aquilo que foi construído no íntimo.
A honestidade praticada quando ninguém observava. A solidariedade
oferecida sem publicidade. A renúncia ao excesso. O auxílio prestado sem
humilhar. O patrimônio utilizado com responsabilidade. A capacidade de
reconhecer que aquilo que possuímos não nos torna superiores a ninguém.
A parábola do rico insensato não é, portanto, uma condenação da riqueza.
É uma advertência contra a ilusão de que ter mais significa ser mais.
O verdadeiro patrimônio do Espírito não é medido pelo tamanho dos seus
celeiros, mas pela qualidade daquilo que neles não pode ser guardado.
Os bens materiais passam de mãos em mãos.
As virtudes conquistadas acompanham o Espírito.
Preservar-se da avareza é, assim, aprender a possuir sem pertencer aos
próprios bens; utilizar sem abusar; prosperar sem esquecer; guardar sem
acumular por egoísmo; e compreender, enfim, que nenhuma riqueza exterior
substitui aquela que o Espírito constrói em si mesmo.
REFERÊNCIAS
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, Cap. V — Lei de conservação, questões 711 a 717 — Gozo dos bens terrenos.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, Cap. IX — Lei de igualdade, questões 803 a 824 — Desigualdade das condições sociais e desigualdade das riquezas.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XVI — Não se pode servir a Deus e a Mamon, especialmente itens 1 a 14.
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Considerações sobre a natureza, finalidade e consequências morais do Espiritismo.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Considerações sobre os princípios fundamentais da Doutrina Espírita e suas consequências morais.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC, Allan (dir.). Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, 1860. Textos e dissertações espíritas sobre a condição humana, a ostentação e o emprego moral dos recursos materiais.
4. Obras Subsidiárias
- XAVIER, Francisco Cândido, pelo Espírito Emmanuel. Pensamento e Vida. Brasília: FEB. Reflexões sobre a formação moral e espiritual do pensamento e da conduta.
5. Passagens bíblicas
- Lucas, 12:13-21 — Advertência de Jesus contra a avareza e parábola do rico insensato.
- Mateus, 6:19-21 — Tesouros na Terra e tesouros no Céu.
- Mateus, 6:24 — “Não podeis servir a Deus e a Mamon.”
- 1 Timóteo, 6:9-10 — Advertência sobre o desejo desmedido de enriquecimento e o amor ao dinheiro.
6. Fontes Externas Utilizadas
- IBGE — Síntese de Indicadores Sociais 2025: Uma análise das condições de vida da população brasileira. Dados referentes à pobreza, extrema pobreza e desigualdade de renda.
- IBGE — PNAD Contínua: Rendimento de todas as fontes 2025. Dados sobre rendimento da população brasileira.
- WORLD INEQUALITY LAB. World Inequality Report 2026. Dados sobre concentração mundial de renda e riqueza.
- SIPRI — STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE. Trends in World Military Expenditure, 2025. Dados sobre os gastos militares mundiais em 2025.
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