sábado, 15 de agosto de 2026

PRESERVAR-SE DA AVAREZA
QUANDO POSSUIR DEIXA DE SER INSTRUMENTO
E PASSA A SER FINALIDADE
- A Era do Espírito -

Introdução

Na existência corporal, os bens materiais possuem utilidade e atendem a necessidades legítimas. O homem necessita deles para viver, trabalhar, educar os filhos, proteger a família e participar da sociedade. O problema moral, portanto, não está na posse, mas no apego que pode nascer dela.

A avareza começa quando o bem deixa de ser considerado um meio e passa a constituir uma finalidade em si mesma. O indivíduo já não pergunta quanto necessita, nem para que poderá utilizar o que possui; preocupa-se apenas em acumular, conservar e aumentar. A riqueza, então, que poderia servir ao progresso, transforma-se em objeto de preocupação, orgulho ou domínio.

Jesus, ao recomendar que nos preservássemos de toda avareza, não condenou a propriedade nem estabeleceu a pobreza material como condição para a vida espiritual. Sua advertência foi mais profunda: a vida não depende da abundância dos bens que alguém possui.

A questão permanece atual. Em um mundo no qual a capacidade de acumulação alcançou dimensões desconhecidas em outras épocas, a pergunta moral continua sendo essencial: o homem possui os bens ou é possuído por eles?

PARTE I — A POSSE DOS BENS E O APEGO DO ESPÍRITO

A passagem registrada no Evangelho de Lucas apresenta uma situação aparentemente simples. Um homem procura Jesus para que intervenha numa disputa de herança. Jesus não assume a condição de juiz daquela partilha. Em seguida, porém, oferece ensinamento de alcance muito maior: recomenda a todos que se preservem da avareza.

A lição é significativa.

O conflito pela herança poderia ser resolvido juridicamente. A divisão dos bens poderia ser determinada conforme as leis humanas. Mas nenhuma decisão exterior seria capaz de eliminar a causa moral do conflito se os interessados permanecessem dominados pela cobiça.

É justamente aí que se encontra a diferença entre posse material e apego espiritual.

O homem pode possuir muito sem ser avaro, assim como pode possuir pouco e ser profundamente apegado ao que tem. A avareza não se mede pela quantidade de dinheiro guardado, mas pela disposição interior diante da riqueza.

A Doutrina Espírita esclarece que o uso dos bens terrenos é uma necessidade da existência. Em O Livro dos Espíritos, ao tratar dos gozos dos bens da Terra, o ensino espiritual reconhece sua utilidade, mas adverte quanto ao abuso e estabelece a razão como instrumento para distinguir o necessário do excesso.

Assim, não há incompatibilidade entre espiritualidade e administração responsável dos recursos materiais. Trabalhar, economizar, constituir patrimônio, assegurar o futuro da família e utilizar os próprios recursos com prudência podem constituir atos legítimos e até deveres.

O problema aparece quando a segurança material se converte em falsa segurança espiritual.

O rico da parábola não é apresentado como criminoso porque sua terra produziu abundantemente. O erro encontra-se na conclusão a que chegou. Diante da abundância, pensou exclusivamente em ampliar seus celeiros e garantir para si muitos anos de repouso, como se tivesse domínio absoluto sobre o futuro.

Seu patrimônio aumentou, mas sua compreensão da vida não acompanhou esse crescimento.

É uma situação que pode ocorrer em qualquer condição econômica.

O trabalhador que economiza para proporcionar melhores condições à família não se encontra na mesma situação moral daquele que acumula por medo de perder aquilo que já possui. O empresário que utiliza seus recursos para produzir, empregar e desenvolver a sociedade não se encontra na mesma posição daquele que transforma o dinheiro em instrumento de exploração. A pessoa que reserva recursos para uma necessidade futura não é equivalente àquela que se angustia diante da possibilidade de gastar até mesmo o que lhe é legitimamente necessário.

Por isso, a avareza é antes de tudo uma condição do Espírito.

A riqueza, por si mesma, não torna ninguém melhor ou pior. O que importa é o uso que se faz dela e, sobretudo, o que ela produz no íntimo daquele que a possui.

A Doutrina Espírita apresenta a riqueza como uma prova particularmente delicada. A pobreza pode colocar o indivíduo diante de determinadas dificuldades; a riqueza pode colocá-lo diante de outras. Em ambas as situações, o Espírito encontra oportunidades de aprendizado.

A questão 808 de O Livro dos Espíritos é particularmente esclarecedora ao examinar a desigualdade das riquezas. O ensino espiritual não considera suficiente afirmar que toda riqueza decorre simplesmente de diferentes capacidades individuais. Faz também referência à astúcia, ao roubo, à espoliação e à injustiça, mostrando que a origem dos patrimônios e a cobiça com que são buscados constituem questões morais.

Essa observação permanece atual.

Segundo o World Inequality Report 2026, os 10% mais ricos da população mundial concentram aproximadamente três quartos da riqueza global, enquanto a metade mais pobre possui cerca de 2%. O mesmo relatório indica que a concentração extrema de riqueza continua crescendo.

Esses números, entretanto, não autorizam concluir que toda pessoa rica seja avara ou moralmente inferior. A Doutrina Espírita não estabelece semelhante relação automática. O patrimônio pode resultar de trabalho, capacidade, circunstâncias, herança ou diversas combinações desses fatores.

O problema moral começa quando a riqueza deixa de ser administrada como recurso e passa a dominar a consciência.

É possível possuir muito e ser desprendido. Também é possível possuir pouco e viver inteiramente subordinado ao desejo de possuir.

O desprendimento, portanto, não significa necessariamente abandonar os bens, mas não permitir que eles determinem o valor da existência.

PARTE II — RIQUEZA, RESPONSABILIDADE E RIQUEZA DIANTE DE DEUS

A expressão utilizada por Jesus — “rico para com Deus” — oferece uma chave para compreender o ensinamento.

Ser rico para com Deus não significa possuir patrimônio espiritual acumulado como se fosse uma conta bancária. Significa enriquecer a própria consciência por meio das virtudes que permanecem com o Espírito.

O patrimônio material permanece no mundo material. As aquisições morais acompanham o Espírito.

Essa diferença modifica profundamente a maneira de compreender a existência.

O dinheiro pode comprar uma casa, mas não cria um lar. Pode adquirir medicamentos, mas não garante saúde. Pode proporcionar conforto, educação e oportunidades, mas não compra fraternidade, honestidade, serenidade ou verdadeira afeição.

Também não compra tempo.

O rico da parábola descobriu essa verdade quando já não podia utilizá-la em seu benefício.

A advertência não significa que a morte torne inútil tudo aquilo que foi construído durante a existência. Ao contrário: os bens podem ter grande utilidade quando empregados para o bem. O que desaparece com a morte é a condição de proprietário material. O que permanece é o resultado moral da maneira como esses recursos foram utilizados.

Essa perspectiva é especialmente importante diante da realidade contemporânea.

Dados recentes mostram simultaneamente avanços e contradições. No Brasil, segundo o IBGE, a pobreza caiu de 27,3% da população em 2023 para 23,1% em 2024, enquanto a extrema pobreza caiu de 4,4% para 3,5%, os menores níveis da série histórica iniciada em 2012. O índice de Gini da renda domiciliar per capita também alcançou, em 2024, seu menor valor da série, 0,504.

Isso demonstra que a realidade social não pode ser reduzida a uma narrativa de permanente deterioração. Existem progressos concretos que devem ser reconhecidos.

Mas o progresso material não elimina a necessidade do progresso moral.

Em escala mundial, a concentração patrimonial continua extraordinariamente elevada. E a questão moral não consiste simplesmente em perguntar quanto alguém possui, mas em perguntar o que a sociedade faz com aquilo que produz e o que cada indivíduo faz com aquilo que recebe.

Essa reflexão pode alcançar até mesmo as prioridades coletivas.

Em 2025, os gastos militares mundiais chegaram a aproximadamente US$ 2,887 trilhões, segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), o maior valor registrado pela instituição e o décimo primeiro ano consecutivo de crescimento.

Não cabe transformar esse dado em julgamento simplista. Os Estados possuem necessidades legítimas de defesa e segurança. Entretanto, ele permite uma pergunta semelhante à proposta pela parábola: quais são as prioridades que revelam aquilo que valorizamos?

A questão da avareza, portanto, pode ultrapassar o comportamento individual e alcançar a consciência coletiva.

Uma sociedade pode possuir enorme capacidade produtiva e, ao mesmo tempo, conviver com fome, pobreza, desperdício, desigualdade extrema e conflitos. Pode desenvolver tecnologias extraordinárias e ainda não saber utilizar adequadamente seus recursos em favor da dignidade humana.

O progresso intelectual amplia o poder de ação; o progresso moral precisa orientar esse poder.

A Doutrina Espírita apresenta a caridade não apenas como assistência ocasional, mas como expressão da lei de amor e justiça. A riqueza, quando colocada a serviço do bem, pode tornar-se instrumento de progresso. Quando utilizada exclusivamente para satisfazer o egoísmo, pode alimentar justamente as paixões que retardam o desenvolvimento espiritual.

Há, portanto, uma diferença fundamental entre acumular e construir.

Acumular pode significar simplesmente guardar para si.

Construir significa produzir algo que permaneça útil: uma empresa que respeita seus trabalhadores, uma escola, uma pesquisa, uma obra social, uma família educada moralmente, uma oportunidade oferecida a alguém, uma comunidade mais justa, uma descoberta científica, uma atitude de solidariedade.

O valor espiritual de um patrimônio não está apenas em seu tamanho, mas no bem que dele resulta.

A própria Revista Espírita, em textos dedicados à ostentação e à miséria humana, apresenta reflexões que convergem para essa compreensão: não é a aparência exterior da beneficência que determina seu valor moral, mas a intenção que a acompanha. Uma grande contribuição realizada para receber reconhecimento pode ter menor significado moral do que um pequeno auxílio oferecido sinceramente.

Isso conduz a uma conclusão importante: a avareza não é vencida simplesmente pela distribuição dos bens, mas pela transformação da relação do Espírito com eles.

Alguém pode abandonar uma parte de sua riqueza e continuar escravo da vaidade. Pode doar para ser admirado. Pode praticar a beneficência para adquirir prestígio. Pode transformar a própria caridade em instrumento de superioridade.

O desprendimento verdadeiro é mais profundo.

Ele modifica a consciência.

O indivíduo passa a compreender que os bens materiais são recursos temporários colocados sob sua administração durante determinada existência. Utiliza-os com prudência, mas não lhes atribui valor absoluto.

É possível, então, trabalhar sem idolatrar o trabalho; prosperar sem desprezar quem possui menos; economizar sem transformar a segurança financeira em obsessão; administrar patrimônio sem fazer dele a medida do próprio valor; e utilizar a riqueza sem esquecer aqueles que dela necessitam.

Essa é uma educação moral que permanece necessária em qualquer época.

REFLEXÃO FINAL

As ondas do mar levam consigo aquilo que é passageiro. A vida material também transforma continuamente as circunstâncias: patrimônios mudam de mãos, posições sociais desaparecem, riquezas são transferidas, empresas surgem e desaparecem, gerações sucedem gerações.

Nada disso permanece indefinidamente com o homem.

Entretanto, permanece aquilo que foi construído no íntimo.

A honestidade praticada quando ninguém observava. A solidariedade oferecida sem publicidade. A renúncia ao excesso. O auxílio prestado sem humilhar. O patrimônio utilizado com responsabilidade. A capacidade de reconhecer que aquilo que possuímos não nos torna superiores a ninguém.

A parábola do rico insensato não é, portanto, uma condenação da riqueza.

É uma advertência contra a ilusão de que ter mais significa ser mais.

O verdadeiro patrimônio do Espírito não é medido pelo tamanho dos seus celeiros, mas pela qualidade daquilo que neles não pode ser guardado.

Os bens materiais passam de mãos em mãos.

As virtudes conquistadas acompanham o Espírito.

Preservar-se da avareza é, assim, aprender a possuir sem pertencer aos próprios bens; utilizar sem abusar; prosperar sem esquecer; guardar sem acumular por egoísmo; e compreender, enfim, que nenhuma riqueza exterior substitui aquela que o Espírito constrói em si mesmo.

REFERÊNCIAS

1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, Cap. V — Lei de conservação, questões 711 a 717 — Gozo dos bens terrenos.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, Cap. IX — Lei de igualdade, questões 803 a 824 — Desigualdade das condições sociais e desigualdade das riquezas.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XVI — Não se pode servir a Deus e a Mamon, especialmente itens 1 a 14.

2. Obras complementares de Allan Kardec

  • KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Considerações sobre a natureza, finalidade e consequências morais do Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Considerações sobre os princípios fundamentais da Doutrina Espírita e suas consequências morais.

3. Obras Complementares Históricas

  • KARDEC, Allan (dir.). Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, 1860. Textos e dissertações espíritas sobre a condição humana, a ostentação e o emprego moral dos recursos materiais.

4. Obras Subsidiárias

  • XAVIER, Francisco Cândido, pelo Espírito Emmanuel. Pensamento e Vida. Brasília: FEB. Reflexões sobre a formação moral e espiritual do pensamento e da conduta.

5. Passagens bíblicas

  • Lucas, 12:13-21 — Advertência de Jesus contra a avareza e parábola do rico insensato.
  • Mateus, 6:19-21 — Tesouros na Terra e tesouros no Céu.
  • Mateus, 6:24 — “Não podeis servir a Deus e a Mamon.”
  • 1 Timóteo, 6:9-10 — Advertência sobre o desejo desmedido de enriquecimento e o amor ao dinheiro.

6. Fontes Externas Utilizadas

  • IBGE — Síntese de Indicadores Sociais 2025: Uma análise das condições de vida da população brasileira. Dados referentes à pobreza, extrema pobreza e desigualdade de renda.
  • IBGE — PNAD Contínua: Rendimento de todas as fontes 2025. Dados sobre rendimento da população brasileira.
  • WORLD INEQUALITY LAB. World Inequality Report 2026. Dados sobre concentração mundial de renda e riqueza.
  • SIPRI — STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE. Trends in World Military Expenditure, 2025. Dados sobre os gastos militares mundiais em 2025.

 

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