Introdução
Há uma
pergunta que atravessa gerações e reaparece com especial intensidade quando os
acontecimentos parecem escapar ao nosso controle: Para onde caminha a
humanidade?
Basta
acompanhar as notícias para encontrarmos guerras, violência, corrupção,
desigualdade, intolerância, crises econômicas, conflitos políticos e diferentes
formas de sofrimento. A sucessão desses acontecimentos pode produzir a
impressão de que o mal se amplia continuamente e de que a esperança se torna
cada vez mais difícil.
Essa
percepção não é inteiramente ilusória.
O World
Social Report 2025, das Nações Unidas, identifica uma combinação
preocupante de insegurança econômica, desigualdade, fragmentação social e perda
de confiança nas instituições. Segundo o relatório, mais da metade da população
mundial vive em países nos quais existe pouca ou nenhuma confiança no governo,
enquanto cerca de 65% reside em países onde a desigualdade de renda está
crescendo.
Entretanto,
existe outra realidade, menos ruidosa e quase sempre menos valorizada pelas
manchetes.
O mesmo
mundo que produz violência também produz solidariedade. Enquanto alguns
exploram, outros socorrem. Enquanto alguns discriminam, outros acolhem.
Enquanto alguns espalham desinformação, outros procuram esclarecer. Enquanto
determinadas pessoas se fecham no interesse individual, milhões colaboram,
voluntariam-se, doam e ajudam desconhecidos.
O World
Happiness Report 2025 apresenta justamente esse contraste. As pessoas
tendem a ser mais pessimistas do que deveriam quanto à bondade dos outros,
enquanto os atos de benevolência — como ajudar desconhecidos, doar e realizar
trabalho voluntário — permaneceram, em 2024, acima dos níveis observados antes
da pandemia.
Há,
portanto, duas paisagens diante de nós.
Uma é a
do mal que faz barulho.
Outra é a
do bem que trabalha em silêncio.
Não se
trata de negar a primeira, mas de não esquecer a segunda.
A
Doutrina Espírita, ao considerar a imortalidade do Espírito e a Lei do
Progresso, oferece elementos importantes para essa reflexão. A humanidade não
se transforma de maneira instantânea, nem por uma intervenção exterior que
dispense o esforço dos próprios Espíritos. O progresso resulta do
desenvolvimento gradual de suas faculdades, do aprendizado proporcionado pelas
experiências e da transformação de suas imperfeições.
Por isso,
a pergunta:
“O que
será do mundo?”
precisa
ser acompanhada de outra, mais próxima e mais exigente:
“Que
contribuição estou oferecendo ao mundo que ajudo a construir?”
PARTE I —
O MAL QUE FAZ BARULHO E O BEM QUE TRABALHA EM SILÊNCIO
1. A sensação de que tudo está pior
Existe
uma característica da experiência contemporânea que merece atenção.
Nunca
tivemos acesso tão rápido a acontecimentos ocorridos em lugares tão distantes.
Uma
tragédia em outro continente pode chegar à nossa tela poucos minutos depois. Um
conflito iniciado milhares de quilômetros distante pode entrar em nossa casa
durante o jantar. Uma agressão registrada por uma câmera pode ser reproduzida
milhões de vezes.
Isso
ampliou extraordinariamente nosso conhecimento dos acontecimentos, mas também
modificou nossa percepção da realidade.
A
violência não foi criada pela comunicação moderna. O que mudou foi a
velocidade, a extensão e a frequência com que somos expostos às suas imagens.
Há ainda
outro aspecto.
As
informações negativas disputam nossa atenção com grande eficiência. Tragédias,
escândalos e conflitos provocam impacto emocional e são rapidamente
compartilhados. A solidariedade cotidiana, ao contrário, raramente se
transforma em manchete.
A pessoa
que cuida durante anos de um familiar dificilmente será notícia.
O
voluntário que dedica seu tempo a crianças também não.
Aquele
que devolve uma carteira perdida tampouco.
A mãe ou
o pai que educa os filhos para a honestidade realiza uma tarefa silenciosa.
O
trabalhador que recusa uma vantagem ilícita talvez jamais seja mencionado.
Aquele
que, diante de uma provocação, decide não revidar provavelmente não será
filmado.
Entretanto,
essas pequenas decisões também fazem parte da realidade humana.
Talvez
devêssemos perguntar não apenas quantas pessoas praticam o mal, mas também
quantas, todos os dias, decidem não praticá-lo.
2. A realidade é mais complexa do que as manchetes
Reconhecer
a presença do bem não significa minimizar o mal.
A paz não
é construída fechando os olhos diante da injustiça.
A
solidariedade não exige ingenuidade.
A
compaixão não significa ausência de discernimento.
Existem
problemas graves que exigem soluções políticas, econômicas, educacionais,
jurídicas e sociais. O relatório das Nações Unidas chama atenção justamente
para fatores estruturais, como insegurança econômica, desigualdade,
precariedade do trabalho, perda de confiança e fragmentação social.
Não seria
razoável atribuir questões dessa dimensão exclusivamente à conduta moral
individual.
Existem
responsabilidades pessoais e responsabilidades coletivas.
Uma
sociedade não pode transferir ao indivíduo aquilo que exige políticas públicas
responsáveis. Da mesma maneira, governos e instituições não podem substituir a
consciência individual.
Precisamos
das duas dimensões.
Há,
entretanto, um dado que merece consideração quando afirmamos que a humanidade
estaria simplesmente caminhando para uma escalada contínua da violência.
Os dados
globais de homicídios não confirmam uma evolução linear nesse sentido. Segundo
dados das Nações Unidas, a taxa mundial de homicídios intencionais caiu de 5,9
por 100 mil habitantes em 2015 para 5,2 em 2023.
Isso não
diminui o sofrimento das vítimas, nem significa que o problema esteja
resolvido.
Mas
demonstra que a realidade é mais complexa do que a sucessão das manchetes pode
sugerir.
O mundo
possui problemas graves.
Mas
também possui conquistas que não recebem a mesma atenção.
3. O perigo de enxergar somente o mal
Quando
observamos continuamente o comportamento negativo dos outros, existe o risco de
desenvolvermos uma espécie de pessimismo moral.
Começamos
a pensar:
“Não
adianta confiar em ninguém.”
“As
pessoas só pensam em si mesmas.”
“O ser
humano não tem jeito.”
“É
impossível mudar.”
Essas
conclusões podem parecer realistas, mas produzem um efeito perigoso: a
desistência da própria responsabilidade.
Se
acreditamos que todos são desonestos, por que preservar a honestidade?
Se
pensamos que todos são agressivos, por que cultivar a paciência?
Se
acreditamos que ninguém ajuda ninguém, por que ajudar?
O
pessimismo em relação ao ser humano pode terminar justificando aquilo que
pretendia apenas denunciar.
A
Doutrina Espírita apresenta outra perspectiva.
O
Espírito não é considerado um ser condenado à inferioridade permanente. A Lei
do Progresso indica que a imperfeição atual não constitui condição definitiva.
Isso
modifica profundamente nossa maneira de observar o próximo.
O
indivíduo que hoje erra não precisa ser confundido com o erro que pratica.
A
criatura que demonstra egoísmo não está condenada a permanecer egoísta.
Aquele
que hoje age com violência pode modificar-se mediante aprendizado, esforço e
novas experiências.
A
possibilidade de transformação não elimina a responsabilidade pelos atos. Ao
contrário, torna-a ainda mais significativa.
Se
podemos progredir, somos responsáveis pelo esforço que realizamos para isso.
4. O progresso não dispensa o esforço
Existe
uma diferença importante entre confiar no progresso e esperar passivamente por
ele.
Ninguém
se torna paciente apenas admirando a paciência.
Ninguém
aprende a perdoar simplesmente repetindo a palavra “perdão”.
Ninguém
se torna generoso apenas condenando o egoísmo.
A
transformação exige exercício.
É por
isso que a moral ensinada e exemplificada por Jesus permanece tão exigente.
Amar os inimigos, fazer o bem aos que nos odeiam, orar pelos que nos perseguem
e fazer aos outros o que gostaríamos que eles nos fizessem não são
recomendações de comodidade moral.
São
propostas de superação.
Elas
convidam o ser humano a vencer gradualmente as reações de vingança, a
hostilidade, o egoísmo e outras tendências que alimentam os conflitos.
A
Doutrina Espírita compreende essa transformação como processo progressivo.
Não se
trata de tornar-se perfeito de uma hora para outra.
Trata-se
de trabalhar, pouco a pouco, para tornar-se menos imperfeito e mais capaz de
praticar o bem.
PARTE II
— UM MAL A MENOS, UM BEM A MAIS
5. A pergunta que muda de direção
Imaginemos
alguém diante de uma grande cidade.
Observa a
pobreza e pergunta:
“Como
posso acabar com a miséria?”
Observa a
violência:
“Como
posso acabar com a violência?”
Observa a
intolerância:
“Como
posso acabar com o ódio?”
As
perguntas são legítimas.
Mas
talvez precisem de uma segunda formulação:
“O que
posso fazer para não acrescentar miséria, violência ou ódio ao ambiente em que
vivo?”
Essa
mudança parece pequena.
Não é.
Ela
desloca a responsabilidade do abstrato para o concreto.
Não
conseguimos controlar todos os acontecimentos do planeta.
Podemos,
porém, controlar muitas de nossas respostas.
Não
decidimos o que os outros falarão.
Podemos
decidir como responderemos.
Não
escolhemos todas as circunstâncias.
Podemos
escolher nosso comportamento diante delas.
Não
conseguimos impedir que alguém seja injusto conosco.
Podemos
evitar transformar a injustiça recebida em uma nova injustiça praticada por
nós.
Aqui
começa uma das dimensões mais importantes da transformação moral.
6. Um mal a menos
Se uma
pessoa vence determinado impulso de vingança, existe uma vingança a menos.
Se alguém
aprende a controlar a agressividade, existe uma agressão a menos.
Se alguém
abandona um hábito de mentira, existe uma mentira a menos.
Se alguém
aprende a respeitar quem pensa diferente, existe uma intolerância a menos.
Se alguém
recusa participar de uma corrupção, existe uma prática desonesta a menos.
Talvez
pareça pouco diante dos problemas do mundo.
Mas é
justamente assim que a mudança começa.
Cada
criatura contribui para o ambiente humano por meio daquilo que pensa, sente e
faz.
Uma
pessoa não precisa salvar o mundo inteiro para participar de sua transformação.
Pode
simplesmente deixar de piorá-lo.
E,
depois, começar a melhorá-lo.
7. Um bem a mais
A
transformação não deve, entretanto, limitar-se à contenção do mal.
É
possível acrescentar o bem.
Uma
palavra de compreensão.
Uma
atitude de honestidade.
Um gesto
de solidariedade.
Uma
oportunidade de perdão.
Um
auxílio prestado sem esperar recompensa.
Uma
orientação oferecida a quem necessita.
Um tempo
dedicado a alguém que se encontra sozinho.
O World
Happiness Report 2025 apresenta dados interessantes sobre esse
comportamento. As pessoas tendem a subestimar a benevolência dos outros,
enquanto experiências com atos de ajuda, como a devolução de carteiras
perdidas, demonstram que a realidade frequentemente é mais positiva do que
esperamos.
Isso
sugere uma questão importante: será que conhecemos suficientemente a
quantidade de bondade que existe ao nosso redor?
Talvez o
bem seja menos visível justamente porque não precisa fazer barulho.
Uma
pessoa ajuda outra e segue sua vida.
Um grupo
arrecada alimentos.
Um
profissional oferece seu trabalho a quem não pode pagar.
Um
professor dedica tempo adicional a um aluno.
Um
vizinho percebe a dificuldade de uma família e oferece ajuda.
Milhares
de ações semelhantes acontecem diariamente.
Nem todas
aparecem nas manchetes.
Mas
existem.
E, quando
se multiplicam, produzem confiança, vínculos e cooperação.
A
solidariedade não resolve sozinha os problemas estruturais de uma sociedade,
mas contribui para formar o tecido moral sobre o qual relações sociais mais
justas podem ser construídas.
8. A transformação íntima não é fuga do mundo
Existe,
entretanto, uma interpretação equivocada que precisa ser evitada.
Falar em
transformação íntima não significa abandonar os problemas sociais.
Não
significa aceitar injustiças em nome da resignação.
Não
significa considerar a pobreza inevitável ou a violência um problema
exclusivamente espiritual.
A moral
precisa produzir consequências concretas.
Quem
compreende a fraternidade não pode permanecer indiferente diante do sofrimento
alheio.
Quem
valoriza a justiça não pode apoiar conscientemente a corrupção.
Quem
compreende a dignidade humana não deve transformar diferenças de opinião em
motivo para humilhação.
Quem
pretende viver a mensagem de Jesus precisa reconhecer que o amor ao próximo
possui dimensão prática.
A
transformação interior e a ação social não são adversárias.
Uma pode
alimentar a outra.
Uma
consciência mais desenvolvida favorece ações mais responsáveis; e a prática do
bem oferece oportunidades concretas para que essa consciência se desenvolva.
O
progresso moral do indivíduo não o afasta da sociedade.
Ao
contrário, aumenta sua responsabilidade perante ela.
PARTE III
— A RESPONSABILIDADE QUE NOS CABE
9. A gota e o oceano
É comum
desvalorizarmos uma pequena ação porque ela não resolve o problema inteiro.
“De que
adianta ajudar uma pessoa?”
“De que
adianta doar pouco?”
“De que
adianta eu mudar se tantos continuam iguais?”
Essa
lógica contém um equívoco.
Uma ação
individual não precisa resolver um problema para possuir valor.
Um médico
não cura todos os enfermos do mundo, mas pode cuidar daqueles que consegue
atender.
Um
professor não educa toda a humanidade, mas pode modificar profundamente a vida
de seus alunos.
Um
voluntário não elimina a pobreza, mas pode aliviar a necessidade de alguém.
Um
cidadão não elimina a corrupção, mas pode escolher não participar dela.
O bem não
precisa ser absoluto para ser real.
Uma
pequena ação pode ser limitada em extensão e, ainda assim, grande em
significado.
10. Liberdade e responsabilidade
A
Doutrina Espírita estabelece relação estreita entre liberdade e
responsabilidade.
A
liberdade permite escolher.
A escolha
produz consequências.
E as
consequências constituem elementos do aprendizado do Espírito.
Isso
significa que nossa existência não deve ser avaliada apenas pela quantidade de
resultados exteriores que conseguimos produzir.
Existe
também o valor moral das escolhas.
Às vezes,
uma pessoa perde uma oportunidade financeira porque recusou uma vantagem
indevida.
Exteriormente,
pode parecer que perdeu.
Moralmente,
pode ter conquistado muito.
Outra
pessoa pode responder a uma ofensa sem revidar.
Alguém
poderá considerar isso fraqueza.
Mas, se
essa atitude resultou de esforço consciente para não ferir, houve uma vitória
interior.
Outra
criatura pode cuidar de alguém durante anos sem receber reconhecimento.
Socialmente,
talvez quase ninguém saiba.
No campo
da consciência, porém, aquela dedicação possui outro significado.
O
progresso moral não pode ser medido apenas pelos critérios utilizados para
avaliar o sucesso material.
11. Não esperar o mundo ideal para fazer o bem
Existe
uma tendência humana de adiar a própria mudança.
“Quando
as coisas melhorarem, farei minha parte.”
“Quando
os outros me respeitarem, eu os respeitarei.”
“Quando a
sociedade for mais justa, serei mais generoso.”
“Quando
estiver menos ocupado, ajudarei alguém.”
Mas o
mundo ideal nunca chega completamente.
A vida
sempre apresentará dificuldades.
Haverá
pessoas difíceis.
Haverá
injustiças.
Haverá
decepções.
Haverá
momentos em que ser paciente será mais difícil do que reagir.
É
precisamente nessas circunstâncias que a escolha moral ganha significado.
Ser justo
quando temos poder para agir injustamente é mais difícil.
Perdoar
quando fomos feridos exige esforço.
Manter a
honestidade quando ninguém descobriria a fraude exige consciência.
A
transformação moral não se manifesta apenas quando nossas melhores qualidades
encontram condições favoráveis.
Ela se
revela, sobretudo, quando nossas tendências inferiores encontram oportunidade
para se expressar e, apesar disso, escolhemos outro caminho.
12. A esperança precisa de lucidez
Esperança
não significa imaginar que todos os problemas desaparecerão.
Significa
reconhecer que eles podem ser enfrentados.
Também
não significa negar o sofrimento.
Significa
não permitir que o sofrimento destrua nossa capacidade de agir.
A própria
história humana demonstra avanços e retrocessos.
Existem
guerras, mas também existem esforços pela paz.
Existe
pobreza, mas também existem iniciativas de combate à fome.
Existe
violência, mas a taxa mundial de homicídios apresentou redução entre 2015 e
2023.
Existe
desconfiança, mas milhões de relações são sustentadas diariamente pela
confiança.
Existe
egoísmo, mas a solidariedade continua presente.
Existe
intolerância, mas também existem pessoas trabalhando pela dignidade e pela
convivência respeitosa.
A
realidade não é inteiramente luminosa nem inteiramente sombria.
É um
campo de experiências no qual o ser humano aprende, erra, corrige-se e
progride.
Essa
visão é mais exigente do que o pessimismo e mais racional do que o otimismo
ingênuo.
CONCLUSÃO
— QUE PARTE DO MUNDO SE TORNA MELHOR PORQUE EU PASSEI POR ELA?
Talvez
nunca saibamos exatamente quando a humanidade atingirá condições mais elevadas
de convivência.
Sabemos,
entretanto, que nenhuma sociedade poderá prescindir dos valores cultivados por
seus integrantes.
As
instituições são importantes.
As leis
são necessárias.
A
educação é indispensável.
A justiça
social é fundamental.
Mas
nenhuma estrutura externa consegue substituir inteiramente a consciência.
Podemos
construir excelentes instituições e, ainda assim, corrompê-las se permanecermos
desonestos.
Podemos
elaborar leis justas e violá-las por interesse pessoal.
Podemos
defender a fraternidade em discursos e praticar a intolerância nas relações
cotidianas.
Por isso,
a transformação da humanidade possui uma dimensão interior que não pode ser
ignorada.
A
Doutrina Espírita apresenta o progresso moral como consequência do
desenvolvimento do Espírito. Não se trata de esperar passivamente que uma força
exterior transforme a humanidade, mas de compreender que cada existência
oferece oportunidades de aprendizado e aperfeiçoamento.
Nesse
caminho, a pergunta:
“Quando o
mundo será melhor?”
talvez
precise ser substituída por outra:
“Que
parte do mundo se torna melhor porque eu passei por ela?”
Talvez
seja nossa casa.
Talvez o
ambiente profissional.
Talvez
uma amizade.
Talvez
alguém que encontramos por poucos minutos.
Talvez
uma pessoa que jamais saberemos ter ajudado.
Não
precisamos resolver todos os problemas da Terra para contribuir com sua
melhoria.
Podemos
começar reduzindo aqueles que produzimos.
Um
conflito a menos.
Uma
mentira a menos.
Uma
agressão a menos.
Um
preconceito a menos.
Uma
injustiça a menos.
Um
egoísmo a menos.
E,
simultaneamente:
Uma
palavra de compreensão a mais.
Uma
atitude de honestidade a mais.
Uma
oportunidade de perdão a mais.
Uma mão
estendida a mais.
Uma ação
de solidariedade a mais.
Uma
consciência disposta a aprender a mais.
Essa
talvez seja uma aritmética simples, mas não insignificante.
Um mal
evitado não desaparece apenas da vida daquele que o praticaria. Pode também
impedir uma cadeia de reações que produziria novos sofrimentos.
Um bem
praticado não beneficia apenas quem o recebe. Pode despertar outro bem em quem
o presencia.
O
progresso humano também se constrói dessa maneira.
Não
apenas por grandes acontecimentos históricos, mas por inúmeras decisões
individuais que, somadas ao longo do tempo, modificam as relações entre as
pessoas.
Uma
pequena luz não ilumina uma cidade inteira, mas demonstra que a escuridão não é
absoluta.
Uma gota
não sacia a sede de todos, mas pode aliviar a sede de alguém.
Uma
pessoa não muda sozinha a humanidade, mas pode impedir que uma parcela da
humanidade se torne pior.
Talvez
seja esse o ponto de partida mais realista para a construção de um futuro
melhor.
Não
esperar que o mundo se transforme para então nos transformarmos.
Transformarmo-nos para que, onde estivermos, o mundo receba de nós alguma coisa
melhor do que recebeu antes.
Se cada
um conseguir ser um pouco menos causa de sofrimento e um pouco mais
instrumento de auxílio, a mudança deixará de ser apenas uma esperança
distante.
Começará
na única região da realidade sobre a qual possuímos responsabilidade imediata: nós
mesmos.
E talvez
seja justamente assim que a Lei do Progresso se manifesta na experiência
cotidiana: o mundo se modifica à medida que os Espíritos que o constituem
também se modificam.
Um mundo
melhor começa em nós.
Não
porque possamos, sozinhos, transformar toda a humanidade.
Mas
porque não existe transformação coletiva duradoura sem transformação dos
indivíduos que formam a coletividade.
REFERÊNCIAS
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — Das leis morais, especialmente questões 614 a 919.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XI — Amar o próximo como a si mesmo; cap. XVII — Sede perfeitos; cap. XVIII — Muitos os chamados, poucos os escolhidos.
- KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo. Primeira parte — Doutrina.
2. Obras Complementares Históricas
- KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Coleção de 1858 a 1869.
3. Obras Subsidiárias
- FRANCO, Divaldo Pereira. A busca da perfeição. Pelo Espírito Eros.
4. Passagens bíblicas
- Mateus, 5:9; 5:38-48; 7:12.
- Lucas, 6:27-36.
- João, 13:34-35.
- Gálatas, 6:9-10.
5. Fontes Externas
- UNITED NATIONS — Department of Economic and Social Affairs. World Social Report 2025: A New Policy Consensus to Accelerate Social Progress.
- UNITED NATIONS. The Sustainable Development Goals Report 2025 — Goal 16: Peace, Justice and Strong Institutions.
- WORLD HAPPINESS REPORT. World Happiness Report 2025 — Caring and sharing: Global analysis of happiness and kindness.
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