Como compreender o estudo publicado em Obras
Póstumas sem confundir um registro de trabalho com uma formulação
doutrinária definitiva — e sem transformar a análise histórica em julgamento
precipitado de Allan Kardec?
Introdução
Alguns textos relacionados à trajetória de Allan Kardec despertam
debates intensos quando examinados fora de seu contexto histórico e
metodológico. Entre eles está o estudo intitulado “Teoria da Beleza”,
publicado postumamente em Obras Póstumas, em 1890.
O assunto exige equilíbrio.
De um lado, não seria correto ignorar expressões e concepções presentes
no texto que refletem conhecimentos científicos, classificações antropológicas
e padrões estéticos próprios do século XIX — alguns deles hoje reconhecidos
como equivocados ou incompatíveis com os princípios contemporâneos de igualdade
humana.
De outro, também seria metodologicamente inadequado tratar uma anotação
de trabalho, publicada depois da desencarnação de Allan Kardec, como se fosse
necessariamente um artigo definitivo, aprovado para integrar a Codificação
Espírita ou apresentado como conclusão final e irrevogável.
A análise precisa considerar, simultaneamente:
- o
conteúdo efetivo do manuscrito;
- sua
condição de anotação ou estudo em desenvolvimento;
- o
contexto científico e cultural do século XIX;
- os
textos publicados por Allan Kardec na Revista Espírita;
- os
princípios fundamentais da Doutrina Espírita;
- o
método de observação, comparação e análise empregado na Codificação;
- e a
possibilidade de que um pesquisador registre hipóteses provisórias antes
de submetê-las a novos exames.
O objetivo, portanto, não é construir uma defesa sentimental de Allan
Kardec, tampouco condená-lo por meio de uma leitura isolada. É compreender o
processo de elaboração de suas ideias e aplicar ao próprio estudo o método
racional que caracteriza o Espiritismo.
PARTE I
— A “TEORIA DA BELEZA” E O CONTEXTO DE SUA ELABORAÇÃO
1. O problema proposto pelo estudo
O texto publicado sob o título “Teoria da Beleza” parte de uma questão
aparentemente simples:
A beleza é apenas relativa aos costumes e às preferências de cada povo
ou existe uma beleza absoluta?
A pergunta foi suscitada pela leitura da obra As Revoluções Inevitáveis
no Globo e na Humanidade, de Charles Richard.
Richard procurava combater a ideia de que o ser humano teria sofrido uma
degeneração física desde os tempos primitivos. Ao comparar representações
antigas e modernas, discutia a evolução das formas humanas, do porte físico e
da aparência.
A partir dessa leitura, o estudo de Allan Kardec procura relacionar:
- a
evolução física da Humanidade;
- o
desenvolvimento intelectual e moral;
- a
influência do princípio espiritual sobre o organismo;
- a
expressão exterior das qualidades da alma;
- e a
possibilidade de uma transformação progressiva das formas humanas.
Em sua formulação mais geral, o raciocínio apresentado no texto pode ser
resumido em três ideias:
- A
beleza absoluta não deveria depender apenas de convenções humanas.
- A
forma exterior poderia expressar, em alguma medida, as condições do
Espírito.
- O
progresso espiritual tenderia a produzir maior harmonia na manifestação
corporal e perispiritual.
Essas ideias, tomadas em seu sentido filosófico mais amplo, dialogam com
temas presentes na Doutrina Espírita, especialmente a relação entre Espírito,
perispírito, corpo e progresso.
O problema surge quando determinadas observações históricas sobre formas
físicas e grupos humanos são interpretadas como uma escala universal e rígida
de superioridade estética ou espiritual.
É justamente nesse ponto que o texto precisa ser examinado com maior
cuidado.
2. O cenário científico do século XIX
Para compreender a origem de certas formulações, é indispensável
considerar o ambiente intelectual em que foram produzidas.
Durante o século XIX, a Europa assistia à expansão de diversas teorias
que buscavam explicar a relação entre organismo, inteligência, caráter e
evolução humana. Entre elas estavam:
- a
frenologia;
- a
fisiognomonia;
- determinadas
interpretações evolucionistas;
- teorias
antropológicas classificatórias;
- estudos
sobre crânios, medidas corporais e supostas diferenças entre povos.
Algumas dessas correntes partiam de observações reais, mas extraíam
conclusões excessivas ou generalizações que não resistiram ao desenvolvimento
posterior da ciência.
A frenologia, por exemplo, procurava relacionar determinadas regiões do
cérebro a faculdades específicas e, em versões mais extremadas, pretendia
deduzir o caráter de uma pessoa pela configuração do crânio.
A fisiognomonia, por sua vez, buscava interpretar características
morfológicas e expressões faciais como sinais de disposições psicológicas e
morais.
Essas abordagens não eram necessariamente idênticas. Algumas observações
sobre a influência das emoções na expressão facial possuíam fundamento
plausível; o problema estava em converter relações parciais ou circunstanciais
em leis gerais e deterministas.
Também circulavam teorias que associavam, indevidamente, características
físicas de determinados povos a graus inferiores de inteligência, moralidade ou
capacidade de desenvolvimento.
Atualmente, a ciência não sustenta a ideia de que exista uma hierarquia
racial de valor humano, inteligência essencial ou potencial moral. A
diversidade física da Humanidade não autoriza estabelecer uma escala de
superioridade espiritual entre grupos étnicos.
Isso não significa, contudo, que toda investigação realizada no século
XIX deva ser descartada sem análise. Significa que seus dados e conclusões
precisam ser avaliados de acordo com critérios históricos, científicos e
doutrinários.
3. A importância de distinguir o manuscrito da
obra definitiva
Um dos pontos centrais deste debate é a natureza de Obras Póstumas.
A obra foi publicada em 1890, vinte e um anos após a desencarnação de
Allan Kardec, reunindo textos, anotações, registros e materiais encontrados
entre seus papéis.
Ela possui grande valor histórico, pois permite conhecer aspectos de
seus estudos, preocupações, projetos e reflexões. Entretanto, não deve ser
automaticamente equiparada às cinco obras fundamentais da Codificação,
organizadas e publicadas em vida pelo próprio Allan Kardec:
- O
Livro dos Espíritos;
- O
Livro dos Médiuns;
- O
Evangelho segundo o Espiritismo;
- O Céu
e o Inferno;
- A
Gênese.
É necessário distinguir:
- um
texto preparado para publicação;
- um
artigo efetivamente publicado;
- uma
comunicação mediúnica examinada;
- uma
conclusão doutrinária;
- uma
anotação pessoal;
- um
projeto de estudo;
- uma
hipótese ainda em desenvolvimento.
Essa distinção não diminui o valor histórico de uma anotação. Apenas
impede que se atribua a ela um grau de autoridade que sua própria natureza
documental não comprova.
No caso da “Teoria da Beleza”, é plausível compreender o manuscrito como
parte de um processo de investigação, especialmente porque o tema reaparece na Revista
Espírita de agosto de 1869, em abordagem mais desenvolvida e acompanhada de
instruções espirituais.
Entretanto, é prudente formular essa conclusão com precisão: os
documentos permitem identificar uma continuidade temática e um posterior
desenvolvimento do assunto, mas não autorizam afirmar, sem ressalvas, todos os
detalhes sobre o que Allan Kardec pretendia fazer com o manuscrito ou qual
seria exatamente sua versão final planejada.
4. O método espírita não transforma toda
anotação em doutrina
A Doutrina Espírita foi organizada por meio de um procedimento que não
consistia em aceitar automaticamente toda ideia surgida durante uma
investigação.
O método pressupõe:
- observação
dos fatos;
- formulação
de perguntas;
- comparação
de comunicações;
- exame
racional;
- identificação
de concordâncias;
- análise
das consequências;
- revisão
diante de novos elementos.
Assim, uma anotação pessoal pode representar:
- uma
hipótese inicial;
- uma
tentativa de interpretar determinado fenômeno;
- uma
reflexão influenciada por leituras contemporâneas;
- uma
questão a ser submetida aos Espíritos;
- um
estudo incompleto;
- ou uma
ideia que ainda necessitaria de correções.
Não se deve confundir o pensamento provisório do pesquisador com a
conclusão resultante de um processo de investigação.
Essa distinção é particularmente importante quando se estudam autores
que trabalhavam com temas complexos e em campos do conhecimento ainda em
formação.
O próprio Allan Kardec advertiu, na introdução de A Gênese, que
determinadas teorias deveriam ser consideradas opiniões pessoais enquanto não
fossem confirmadas ou contraditadas. Esse critério demonstra que a honestidade
intelectual exige separar o que pertence à Doutrina daquilo que permanece no
campo da interpretação ou da hipótese.
PARTE II
— A REVISTA ESPÍRITA, A FRENOLOGIA E O APRIMORAMENTO DA ANÁLISE
5. “A Frenologia e a Fisiognomonia”, de julho
de 1860
A Revista Espírita de julho de 1860 publicou o artigo “A
Frenologia e a Fisiognomonia”, que oferece elementos fundamentais para
compreender como Allan Kardec examinava essas teorias.
O texto não apresenta uma aceitação ingênua da frenologia. Ao contrário,
estabelece uma distinção entre:
- a
relação existente entre o cérebro e a manifestação das faculdades;
- e a
conclusão materialista de que o cérebro seria a própria causa do
pensamento.
O artigo reconhece que o estado do cérebro influencia a manifestação das
faculdades intelectuais e morais. Contudo, sustenta que essa influência não
prova que o órgão seja a origem do princípio inteligente.
A formulação central pode ser resumida da seguinte maneira:
- a
faculdade é a causa;
- o
estado do cérebro é consequência ou instrumento de manifestação;
- o
cérebro permite a expressão do pensamento no organismo;
- uma
alteração cerebral pode prejudicar a manifestação de uma faculdade sem
destruir necessariamente a faculdade em si.
Para tornar a ideia compreensível, o artigo utiliza uma comparação:
assim como uma lesão na perna pode impedir alguém de caminhar sem eliminar sua
vontade de andar, uma alteração no cérebro pode dificultar a manifestação do
pensamento sem significar que o pensamento tenha sido produzido pela matéria.
Essa abordagem é importante porque revela que Allan Kardec não adotava
simplesmente o materialismo cerebral de sua época.
Ele procurava reinterpretar determinadas observações fisiológicas a
partir da primazia do princípio espiritual.
6. A distinção entre órgão e faculdade
A análise de 1860 apresenta uma consequência doutrinária relevante.
Se o cérebro fosse a causa absoluta do pensamento, o ser humano poderia
ser compreendido como uma máquina determinada por sua organização física. Nesse
caso, a responsabilidade moral ficaria comprometida, pois os atos seriam
explicados apenas pela estrutura orgânica.
A perspectiva espírita propõe outra relação:
- o
Espírito é o ser inteligente;
- o
corpo é o instrumento de sua manifestação na existência encarnada;
- o
cérebro participa da expressão das faculdades;
- as
condições orgânicas podem favorecer ou limitar essa manifestação;
- mas
não constituem, por si mesmas, a origem da inteligência e da moralidade.
Essa concepção não elimina a importância da biologia. O organismo possui
influência concreta sobre a experiência humana. Doenças, lesões, limitações
neurológicas e condições genéticas podem afetar profundamente a expressão das
faculdades.
O ponto doutrinário é outro: a limitação do instrumento não deve ser
confundida com a inferioridade essencial do ser inteligente que o utiliza.
Essa distinção será decisiva para a análise da beleza, da deficiência,
da aparência e das diferenças físicas entre os seres humanos.
7. A fisiognomonia e a influência das
disposições íntimas
No mesmo artigo, Allan Kardec examina a fisiognomonia.
Ele admite que os pensamentos, emoções e hábitos podem influenciar os
movimentos musculares e, com o tempo, modificar a expressão facial. O rosto
pode revelar, em determinadas circunstâncias, sinais de alegria, tristeza,
severidade, bondade, tensão ou serenidade.
Essa observação, porém, não autoriza concluir que seja possível
determinar o caráter de alguém apenas pela aparência.
Há uma diferença importante entre afirmar que:
- as experiências e emoções podem influenciar a expressão corporal;
e afirmar que:
- a forma física permite conhecer, de maneira segura e definitiva, o
valor moral de uma pessoa.
A primeira proposição pode ser observada em situações concretas. A
segunda transforma uma relação parcial em regra absoluta.
O próprio artigo alerta contra induções errôneas que poderiam ser
extraídas da fisiognomonia, especialmente quando se tenta relacionar pessoas a
determinados animais ou associar traços exteriores a características morais
fixas.
Portanto, a abordagem espírita presente nesse estudo não autoriza um
julgamento superficial do ser humano pela aparência.
8. “A cabeça de Garibaldi” e a primazia do
Espírito
Outro elemento importante é o artigo “A cabeça de Garibaldi”, publicado
na Revista Espírita de março de 1861.
O texto parte de uma notícia sobre o exame do crânio de Giuseppe
Garibaldi e sobre a suposta correspondência entre sua configuração cerebral e
suas faculdades intelectuais e morais.
Allan Kardec aproveita o tema para desenvolver uma reflexão sobre a
relação entre cérebro e alma.
O raciocínio apresentado pode ser organizado em alguns pontos:
- o
cérebro é instrumento de manifestação, não fonte absoluta do pensamento;
- as
aptidões do Espírito não surgem necessariamente com o nascimento do corpo;
- o
organismo pode expressar faculdades previamente desenvolvidas;
- a
constituição física deve ser compreendida em relação à individualidade
espiritual;
- a
existência corporal não esgota a história do ser inteligente.
Essa abordagem torna difícil sustentar que Allan Kardec defendesse, de
forma simples e absoluta, um determinismo biológico segundo o qual o formato do
crânio produziria automaticamente o valor intelectual ou moral do indivíduo.
O artigo de 1861 demonstra que ele já trabalhava com uma interpretação
espiritualista das relações entre organismo e faculdades.
Isso não significa que todos os conceitos antropológicos empregados por
ele naquele período estejam livres das limitações científicas de seu tempo.
Significa, porém, que a leitura de suas anotações posteriores deve levar em
conta sua posição metodológica anterior e documentada.
9. “Frenologia espiritualista e espírita —
Perfectibilidade da raça negra”
Na Revista Espírita de abril de 1862, o artigo “Frenologia
espiritualista e espírita — Perfectibilidade da raça negra” trata de uma
questão particularmente delicada: a possibilidade de desenvolvimento
intelectual e moral das pessoas negras.
O texto enfrenta teorias que consideravam determinados grupos humanos
naturalmente incapazes de progresso.
O tema deve ser lido criticamente, pois contém expressões e
classificações próprias do século XIX, algumas das quais refletem limitações
históricas e conceitos atualmente rejeitados.
Ao mesmo tempo, o artigo apresenta uma linha argumentativa que merece
ser considerada: a condição física de uma encarnação não define o potencial
evolutivo do Espírito.
A perspectiva da reencarnação impede que características corporais
atuais sejam transformadas em sentença definitiva sobre a capacidade de
progresso de um ser.
Nesse sentido, o estudo contribui para uma compreensão fundamental:
- o
Espírito é perfectível;
- nenhuma
condição corporal transitória encerra seu futuro;
- a
encarnação não estabelece uma hierarquia espiritual permanente entre
povos;
- as
diferenças físicas não justificam a negação da fraternidade;
- a
educação e as oportunidades sociais influenciam o desenvolvimento das
faculdades humanas.
É necessário, contudo, não suavizar artificialmente as limitações de
linguagem presentes no texto. Fazer justiça histórica não significa negar o que
foi escrito. Significa reconhecer, ao mesmo tempo, os elementos problemáticos e
os princípios que apontam para uma compreensão mais ampla da perfectibilidade
humana.
10. A “Teoria da Beleza” na Revista
Espírita de agosto de 1869
O tema reaparece na Revista Espírita de agosto de 1869, em texto
intitulado também “Teoria da Beleza”.
Essa publicação é especialmente importante porque apresenta uma
abordagem mais desenvolvida sobre a natureza da beleza.
O texto distingue:
- a
beleza relativa, dependente de gostos, costumes e padrões culturais;
- e a
beleza absoluta, relacionada à harmonia universal.
A beleza absoluta é apresentada em conexão com a perfeição divina,
enquanto as formas existentes na criação seriam manifestações parciais e
relativas dessa harmonia.
O estudo também desloca a análise da aparência física isolada para a
relação entre:
- inteligência;
- bondade;
- expressão
moral;
- perispírito;
- harmonia;
- e
desenvolvimento espiritual.
Um dos pontos mais significativos é a observação de que pessoas de
aparência física considerada bela podem produzir impressão desagradável,
enquanto indivíduos com aparência pouco convencional podem transmitir bondade,
equilíbrio e simpatia.
Essa constatação enfraquece qualquer tentativa de identificar
automaticamente beleza exterior com superioridade moral.
A beleza física, nessa perspectiva, não desaparece como realidade
relativa, mas deixa de ser considerada medida segura do valor espiritual.
11. O que muda entre a anotação e a abordagem
posterior?
A comparação entre os materiais permite identificar diferenças de
ênfase.
Na anotação publicada em Obras Póstumas
O foco parece concentrar-se mais em:
- evolução
das formas físicas;
- relação
entre aparência e desenvolvimento;
- influência
de teorias antropológicas do século XIX;
- comparação
entre tipos humanos;
- possibilidade
de uma transformação progressiva da morfologia.
Na abordagem da Revista Espírita
O foco desloca-se mais claramente para:
- relatividade
dos padrões de beleza;
- harmonia
como fundamento do belo;
- influência
das qualidades morais;
- distinção
entre aparência e valor espiritual;
- papel
do perispírito;
- impossibilidade
de reduzir a beleza a um padrão étnico fixo.
Essa diferença permite compreender que o tema foi objeto de
desenvolvimento e aprofundamento.
Entretanto, a formulação mais responsável não é afirmar categoricamente
que os Espíritos “apagaram completamente” todas as imperfeições do
manuscrito, nem que se pode reconstruir com absoluta certeza cada etapa da
intenção editorial de Allan Kardec.
O que se pode afirmar com segurança é que a Revista Espírita
oferece material posterior e mais elaborado, que deve ser considerado na
interpretação da anotação publicada em Obras Póstumas.
12. A beleza segundo os princípios
fundamentais do Espiritismo
O estudo da beleza deve ser confrontado com princípios mais amplos da
Doutrina Espírita.
Igualdade
quanto à origem espiritual
A Doutrina Espírita ensina que todos os
Espíritos têm a mesma origem e são destinados ao progresso.
As diferenças observadas entre os seres
humanos não estabelecem superioridade essencial de uma raça sobre outra.
Pluralidade
das existências
O Espírito pode reencarnar em diferentes
condições, povos, culturas e organismos.
Por isso, não seria coerente transformar a
aparência física de uma encarnação em sinal definitivo de valor espiritual.
Lei de
Progresso
O progresso é desenvolvimento gradual das
faculdades intelectuais e morais.
Ele não pode ser reduzido à adoção de
determinado formato corporal, cor de pele, estrutura facial ou padrão estético.
Primazia do
Espírito
O corpo é instrumento de manifestação do ser
inteligente.
Suas condições influenciam a experiência
encarnada, mas não esgotam a identidade do Espírito nem determinam seu
potencial evolutivo.
Justiça e
responsabilidade
A avaliação espiritual relaciona-se às
intenções, aos atos, ao esforço e ao desenvolvimento moral — não à aparência
física.
Caridade e
fraternidade
A fraternidade universal é incompatível com a
classificação de pessoas como espiritualmente inferiores por sua origem étnica
ou por seus traços corporais.
13. O perigo de duas atitudes igualmente
inadequadas
A análise desse assunto pode cair em dois extremos.
O primeiro
extremo: a defesa cega
Consiste em afirmar que tudo o que foi escrito
por Allan Kardec está necessariamente correto, mesmo quando se trata de:
·
anotação pessoal;
·
hipótese científica;
·
opinião histórica;
·
interpretação provisória;
·
conceito posteriormente superado.
Essa postura não corresponde ao método
espírita, que exige exame, comparação e disposição para reconhecer equívocos.
O segundo
extremo: a condenação simplista
Consiste em retirar uma passagem de seu
contexto, ignorar outros textos do mesmo autor e concluir que todo o trabalho
de Allan Kardec estaria invalidado por uma anotação ou por expressões
condicionadas pelos conhecimentos de sua época.
Essa atitude também é metodologicamente
frágil.
Ela desconsidera:
·
a diferença entre manuscrito e obra
definitiva;
·
a evolução de um estudo;
·
o contexto histórico;
·
a existência de textos que apresentam posição
mais complexa;
·
a distinção entre opinião pessoal e princípio
doutrinário;
·
e a necessidade de examinar o conjunto da
obra.
A atitude racional não é blindar nem destruir.
É estudar.
14. Como aplicar o método espírita a esse
debate?
Uma análise equilibrada pode seguir alguns passos:
- Identificar
a natureza do documento: é anotação, artigo, comunicação, comentário ou
obra fundamental?
- Verificar
a data: quando foi escrito e quando foi publicado?
- Conhecer
o contexto: quais teorias científicas circulavam naquele período?
- Examinar
o texto integral: evitar conclusões baseadas em fragmentos isolados.
- Comparar
com outras publicações: especialmente textos anteriores e posteriores
sobre o mesmo assunto.
- Confrontar
com a Codificação: verificar se a interpretação é compatível com seus
princípios fundamentais.
- Separar
observação de conclusão: reconhecer quando um dado foi transformado em
hipótese.
- Distinguir
princípio espiritual de classificação histórica: não confundir evolução
moral com padrão étnico.
- Admitir
limites: reconhecer aquilo que os documentos comprovam e aquilo que
permanece interpretativo.
- Evitar
julgamentos de intenção: não atribuir malícia, preconceito deliberado ou
intenção oculta sem evidência suficiente.
Esse procedimento não elimina as dificuldades do tema, mas impede que
elas sejam tratadas de maneira superficial.
REFLEXÃO
FINAL
A chamada “Teoria da Beleza” exige uma leitura cuidadosa porque reúne
três elementos diferentes:
- o
pensamento científico do século XIX;
- as
reflexões pessoais de Allan Kardec;
- e o
desenvolvimento de uma abordagem espiritualista sobre a beleza, a forma e
o progresso.
Ignorar o contexto histórico pode conduzir ao anacronismo. Ignorar as
limitações presentes em determinados trechos pode conduzir à defesa cega.
Transformar uma anotação em dogma também é inadequado; descartá-la sem
investigar sua relação com outros textos, igualmente.
A compreensão mais justa nasce do confronto entre documentos, princípios
e método.
A Revista Espírita demonstra que Allan Kardec examinava temas
científicos de seu tempo, identificava elementos aproveitáveis, rejeitava
conclusões materialistas e procurava reinterpretar os fenômenos à luz da
existência do Espírito, da reencarnação e do progresso.
Seus estudos sobre frenologia, fisiognomonia, cérebro e beleza revelam
um pesquisador interessado em compreender como o ser espiritual se manifesta
por meio do organismo. Ao mesmo tempo, os textos também carregam marcas do
ambiente intelectual em que foram produzidos, o que recomenda análise crítica e
não veneração automática.
A verdadeira fidelidade à Doutrina Espírita não consiste em transformar
toda anotação histórica em verdade definitiva. Também não consiste em julgar o
passado sem examinar seus documentos e circunstâncias.
Consiste em observar, comparar, raciocinar e reconhecer o grau de
autoridade de cada fonte.
Nesse sentido, fazer justiça a Allan Kardec é respeitar sua condição de
educador e investigador, sem lhe atribuir uma infalibilidade que ele próprio
não reivindicou. É compreender que a Doutrina Espírita pertence aos Espíritos
que a revelaram, enquanto o trabalho humano de organização, análise e
divulgação deve permanecer submetido à razão, à coerência e ao progresso do
conhecimento.
Quanto à beleza, talvez a conclusão mais segura seja esta:a aparência
pode expressar aspectos da vida, mas não define a grandeza do Espírito. A
beleza mais elevada não se mede pela forma corporal de um povo ou de um
indivíduo, mas pela harmonia entre inteligência, sentimento, caráter e
desenvolvimento moral.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Paris: Didier, 1857; 2ª edição, 1860.
Questões 54, 76–95, 132–133, 217, 361–366, 776–802 e 803–806.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns. Paris: Didier, 1861.
- KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris: Didier, 1864.
- KARDEC,
Allan. O Céu e o Inferno, ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo.
Paris: Didier, 1865.
- KARDEC,
Allan. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo.
Paris: Didier, 1868. Introdução e critérios relativos às teorias e
opiniões pessoais.
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC,
Allan. O Que é o Espiritismo. Paris: 1859.
- KARDEC,
Allan. Obras Póstumas. Paris: 1890. Texto “Teoria da Beleza”.
3. Fontes Externas Utilizadas
- KARDEC,
Allan. “A Frenologia e a Fisiognomonia.” Revista Espírita — Jornal de
Estudos Psicológicos, julho de 1860.
- KARDEC,
Allan. “A cabeça de Garibaldi.” Revista Espírita — Jornal de Estudos
Psicológicos, março de 1861.
- KARDEC,
Allan. “Frenologia espiritualista e espírita — Perfectibilidade da raça
negra.” Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, abril de
1862.
- KARDEC,
Allan. “Teoria da Beleza.” Revista Espírita — Jornal de Estudos
Psicológicos, agosto de 1869.
- RICHARD,
Charles. As Revoluções Inevitáveis no Globo e na Humanidade. Obra
mencionada como fonte de inspiração para o estudo “Teoria da Beleza”.
- WANTUIL,
Zêus. Nota explicativa sobre “Teoria da Beleza”, publicada em edições
comentadas de Obras Póstumas.