Introdução
A
Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec no século XIX, oferece um vasto
corpo de conhecimentos sobre a interação entre os planos material e espiritual.
Dentre os recursos de assistência espiritual, destaca-se o passe,
prática que mobiliza os fluidos vitais e espirituais para favorecer o
reequilíbrio do perispírito e, por consequência, do corpo físico.
Longe
de qualquer misticismo, o passe é compreendido no Espiritismo como um ato de
transfusão fluídica consciente e caritativa, baseado na vontade e no amor,
em sintonia com os Espíritos benfeitores. Este artigo explora os fundamentos
dessa prática segundo os ensinamentos de Kardec e registros publicados na Revista Espírita (1858–1869), abordando
seus conceitos, mecanismos, implicações fisiológicas e espirituais, bem como os
cuidados necessários para sua aplicação responsável.
1. Conceito de Passe e Magnetização
O
passe consiste na transmissão de fluidos vitais e espirituais do passista ao
paciente, com a possível assistência de Espíritos benevolentes. Em termos
técnicos, trata-se de uma forma de magnetização, fenômeno em que o
fluido vital emitido pelo perispírito do passista atua sobre outro organismo,
produzindo efeitos fisiopsíquicos.
Allan
Kardec esclarece em O Livro dos Médiuns
que a ação magnética pode ocorrer de três modos:
- Pelo fluido do
próprio magnetizador (magnetismo humano);
- Pelo fluido dos
Espíritos, atuando diretamente (magnetismo espiritual);
- Pela combinação dos
fluidos espirituais com os do magnetizador (magnetismo misto).
Os
estudos da Revista Espírita relatam
diversas experiências realizadas com médiuns curadores, demonstrando que o
êxito do passe depende menos de fórmulas exteriores e mais da qualidade
moral, da vontade e da sintonia espiritual do passista.
2. O Perispírito e sua Relação com os Fluidos
O perispírito,
segundo O Livro dos Espíritos, é o
envoltório semimaterial da alma e serve de intermediário entre o espírito e o
corpo. É através dele que os fluidos vitais e espirituais atuam sobre a
organização física.
Quando
o campo mental do indivíduo mantém-se em padrões negativos (ódio, mágoa,
desesperança), esse desequilíbrio repercute no perispírito e, por consequência,
nos centros vitais do corpo, abrindo espaço para distúrbios orgânicos.
Assim,
o passe atua rearmonizando o perispírito, dissipando fluidos deletérios
e repondo energias salutares, preparando o organismo para responder
positivamente aos tratamentos médicos e à regeneração natural.
3. Classificação dos Passes
Conforme
a codificação espírita e os relatos da Revista
Espírita, os passes podem ser classificados em três tipos principais:
- Magnético – transfere
exclusivamente os fluidos vitais do passista;
- Espiritual – transmitido
diretamente pelos Espíritos benfeitores, em resposta à prece;
- Misto (magnetismo
humano-espiritual) – combinação dos fluidos do passista com os
dos Espíritos, modalidade mais comum nas reuniões espíritas.
A
eficiência de qualquer modalidade está ligada à intenção caritativa, à fé
raciocinada e à sintonia com os bons Espíritos.
4. Corpo Físico, Plexos e Centros Vitais
O
corpo humano é sustentado por sistemas orgânicos interdependentes (nervoso,
endócrino, cardiovascular, respiratório etc.), que recebem influência direta
dos centros vitais ou plexos fluídicos, correspondentes energéticos
dos plexos nervosos.
Esses
centros (frontal, laríngeo, cardíaco, gástrico, genésico, esplênico e básico)
funcionam como portas de ligação entre o perispírito e o corpo físico,
regulando a distribuição da energia vital.
Quando
há desajustes nesses centros, surgem distúrbios psicossomáticos que podem ser
revertidos ou atenuados com a imposição de mãos e passes longitudinais,
técnicas simples e silenciosas que visam o reequilíbrio fluídico.
5. O Fluido Magnético e a Fluidificação da Água
O fluido
magnético é a energia vital do passista, projetada de forma direcionada e
consciente. Essa energia, combinada com a dos Espíritos protetores, atua sobre
os campos energéticos do paciente, restaurando a harmonia.
A fluidificação
da água é um recurso complementar: os Espíritos depositam na água elementos
sutis de ordem espiritual, que, ao serem ingeridos, agem gradualmente sobre o
perispírito e o organismo físico. Essa prática, amplamente adotada em centros
espíritas, encontra respaldo nos relatos de curas publicadas por Kardec na Revista Espírita.
6. Preparo do Passista e do Paciente
Allan
Kardec, em Obras Póstumas, afirma que
“a força magnética pode existir em
qualquer pessoa, mas só o homem de bem a emprega exclusivamente para o bem”.
O passista
deve cultivar a elevação moral, a disciplina mental, a prece e o estudo
doutrinário, mantendo uma vida equilibrada e reta. Já o paciente deve
dispor-se com fé e receptividade, favorecendo a assimilação das energias.
O
êxito do passe não depende de gestos padronizados, mas da intenção sincera
de auxiliar. A técnica é apenas um instrumento; o amor e a caridade são o
conteúdo essencial.
7. Considerações Finais
A
assistência espiritual através dos fluidos vitais e espirituais é um dos
mais belos recursos de solidariedade humana e espiritual oferecidos pela
Doutrina Espírita. O passe não substitui os tratamentos médicos, mas os complementa
e potencializa, atuando nas causas sutis do sofrimento.
Quando
aplicado com responsabilidade, conhecimento e amor, o passe restabelece a harmonia
do perispírito, que por sua vez favorece a reorganização do corpo físico,
constituindo-se em uma ferramenta de consolo, cura e renovação interior.
Referências
- Allan Kardec. O
Livro dos Espíritos. 1857.
- Allan Kardec. O
Livro dos Médiuns. 1861.
- Allan Kardec. A
Gênese. 1868.
- Allan Kardec. Obras
Póstumas. Publicado postumamente em 1890.
- Revista Espírita. Diversos artigos
sobre magnetismo e curas espirituais (1858–1869).
- Joanna de Ângelis,
psicografia de Divaldo Pereira Franco. Mensagem “Imposição de Mãos”.
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