Introdução
Nas
últimas décadas, o termo “duplo etérico” tem sido cada vez mais utilizado em
livros, palestras e artigos que circulam no meio espírita. Muitas vezes,
apresenta-se esse conceito como se fosse parte integrante da Doutrina Espírita.
No entanto, uma análise criteriosa revela que o chamado “duplo etérico” não faz
parte da codificação espírita estabelecida por Allan Kardec no século XIX.
Trata-se de um conceito oriundo de correntes esotéricas, especialmente da
Teosofia, onde é chamado de Linga Sharira. Sua aceitação indiscriminada
no meio espírita tem gerado confusão doutrinária e afastado os estudos do
método científico e criterioso empregado por Kardec.
Este
artigo propõe uma análise racional e doutrinária sobre o tema, com base nas
obras fundamentais do Espiritismo e na Revista Espírita (1858–1869),
esclarecendo os equívocos e reforçando a necessidade de se preservar a
integridade dos conceitos espíritas.
O Surgimento do Conceito de “Duplo Etérico”
O
termo “duplo etérico” é amplamente utilizado por escolas esotéricas e aparece
em obras da Teosofia como o terceiro princípio da constituição humana (Linga
Sharira), considerado um molde energético do corpo físico. No meio
espírita, autores como André Luiz (através da mediunidade de Francisco Cândido
Xavier) mencionam a expressão, o que acabou contribuindo para sua popularização
(*).
Entretanto,
é importante destacar que esse termo não foi adotado nem definido pela
Doutrina Espírita. A única ocorrência da expressão “duplo etéreo” nas obras
de Allan Kardec aparece em O Livro dos
Médiuns, capítulo VIII, item 128, e mesmo assim apenas como parte de uma pergunta
especulativa feita por Kardec ao Espírito São Luís. A resposta dos
Espíritos, porém, nega a existência de um “duplo etéreo” dos objetos,
explicando que os Espíritos apenas manipulam os elementos materiais dispersos
no espaço para produzir formas visíveis.
Além
disso, em nenhum momento Kardec afirma que o ser humano possua vários corpos
sobrepostos. Pelo contrário, ele ensina que o homem é formado por três elementos:
o corpo físico, o perispírito e o princípio inteligente (ou alma). Conforme
registrado na Revista Espírita de 1864:
“Quando a alma está
unida ao corpo durante a vida, tem um envoltório duplo: um pesado, grosseiro e
destrutível, que é o corpo; outro fluídico, leve e indestrutível, chamado
perispírito.”
Portanto,
no máximo, o termo “duplo” se refere à existência desses dois envoltórios
(corpo e perispírito), não a um suposto “corpo vital” intermediário.
(*) As obras que tratam mais diretamente do duplo etérico são aquelas que descrevem
os mecanismos da mediunidade, como Mecanismos
da Mediunidade e Evolução em Dois
Mundos, ambas psicografadas por André Luiz através de Chico Xavier e Waldo
Vieira. Essas obras se aprofundam na estrutura e funcionamento do corpo
espiritual, incluindo o duplo etérico,
que é o envoltório de fluidos vitais entre o perispírito e o corpo físico.
As Explicações Espíritas para os Fenômenos Vitais
Os
defensores do “duplo etérico” costumam atribuir a ele funções como vitalização
da matéria, filtragem de energias, administração do fluido vital, ou
manifestação da aura. No entanto, todos esses fenômenos podem ser explicados
pela Doutrina Espírita utilizando conceitos próprios e coerentes, sem a
necessidade de recorrer a terminologias estranhas à codificação.
Em O
Livro dos Espíritos (questões 70 a 75), Kardec apresenta o conceito de princípio
vital, e no comentário à questão 70 introduz a noção de fluido vital
como uma modificação do Fluido Cósmico Universal. Este fluido é absorvido pelos
seres vivos durante a encarnação e está ligado às funções orgânicas do corpo.
Dessa forma, o Espiritismo já fornece uma explicação racional para a
vitalização da matéria, sem precisar postular a existência de um “corpo vital”
separado.
Sobre
a chamada “aura”, Kardec também não utiliza esse termo, mas descreve algo
semelhante como “atmosfera fluídica” ou “atmosfera individual”, formada
pela irradiação do perispírito ao redor do corpo. Essa descrição aparece, por
exemplo, em Obras Póstumas:
“O perispírito não se
acha encerrado nos limites do corpo... forma, em torno do corpo, uma espécie de
atmosfera que o pensamento e a força da vontade podem dilatar mais ou menos.”
Novamente,
não se trata de um novo corpo, mas da expansão do próprio perispírito.
Os Riscos da Adoção Acriticamente de Termos
Estranhos
A
aceitação do termo “duplo etérico” no vocabulário espírita representa um risco
doutrinário. Como advertiu Kardec na Revista
Espírita de 1868, mesmo quando tinha convicções pessoais sobre determinados
temas (como a geração espontânea), ele preferiu não incluí-las na Doutrina
Espírita, por não haver consenso e comprovação suficientes. Segundo suas
palavras:
“As opiniões individuais
não podem fazer lei; não se baseando a Doutrina em probabilidades, não podíamos
decidir uma questão de tal gravidade... Afirmando a coisa sem restrição, teria
sido comprometer a Doutrina prematuramente.”
Portanto,
incorporar conceitos de outras doutrinas ao Espiritismo sem o devido exame e
validação metodológica contraria o método espírita, que exige estudo
comparado, concordância universal dos ensinos dos Espíritos e coerência lógica.
Conclusão
O
conceito de “duplo etérico” não faz parte da Doutrina Espírita codificada por
Allan Kardec e sua difusão no movimento espírita representa um equívoco
conceitual. Embora seja legítimo estudar ideias de outras filosofias, a sua
inserção no contexto espírita deve ser feita com explicações em linguagem e
lógica espíritas, conforme orientado pelos Espíritos na questão 628 de O Livro dos Espíritos.
Cabe
ao espírita valorizar e aprofundar o estudo da Doutrina Espírita,
evitando importar conceitos esotéricos como se fossem verdades espíritas. Se
desejamos fortalecer a fé raciocinada, é essencial que a formação doutrinária
dos espíritas esteja firmemente alicerçada nos conceitos originais e seguros da
Codificação, sem mistificações e sem sincretismos.
Referências
- Allan Kardec. O
Livro dos Espíritos – 1857.
- Allan Kardec. O
Livro dos Médiuns – 1861.
- Allan Kardec. Obras
Póstumas – 1890 (póstumo).
- Allan Kardec. Revista
Espírita (1858–1869).
- Alexandre Fontes da
Fonseca. “Duplo Etérico: Conceito Espírita ou Não?” – Artigo disponível em
portais espíritas.
- André Luiz
(espírito), psicografia de Francisco Cândido Xavier – diversas obras.
- Teosofia – Conceito
de Linga Sharira (doutrina esotérica, não espírita).
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