sábado, 29 de novembro de 2025

ARREPENDIMENTO, AMOR E TRANSFORMAÇÃO INTERIOR
UMA LEITURA ESPÍRITA DAS ESCOLHAS COTIDIANAS
- A Era do Espírito -

Introdução

Há músicas que nos alcançam de forma inesperada e silenciosa, convidando-nos a contemplar a própria consciência. Certas letras, sobretudo quando carregadas de sensibilidade e verdade humana, despertam em nós a percepção de que poderíamos ter vivido com mais gentileza, menos pressa e maior coerência interior.

Versos populares como “Queria ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer…” encontram eco na estrutura moral da Doutrina Espírita, que, desde 1857, ensina que o Espírito progride por meio do autoconhecimento, da indulgência e da prática do amor. O Espiritismo, codificado por Allan Kardec a partir do ensino dos Espíritos superiores, convida-nos a reconhecer nossas limitações sem fatalismo, e sim com responsabilidade e esperança.

Arrependimento e Imperfeição: Lições de um Mundo em Transição

No atual estágio da humanidade, ainda situada em um planeta de provas e expiações, é natural que a convivência espiritual seja marcada por imperfeições, impulsos e arrependimentos. Como lembra Kardec em O Livro dos Espíritos, o erro não define o Espírito, mas lhe serve de oportunidade para reconstrução moral.

Poucos de nós alcançam a velhice sem olhar para trás e dizer: “poderia ter amado mais”. A investigação científica contemporânea sobre emoções e longevidade mostra que vínculos afetivos sólidos reduzem quadros de ansiedade e aumentam a percepção de bem-estar, evidenciando que o amor não apenas pacifica a consciência, mas também favorece a saúde integral.

Da mesma forma, pesquisas em psicologia apontam que a repressão contínua das emoções — o “não ter chorado mais” — contribui para quadros de estresse e desgaste emocional. O Espiritismo, coerente com essa compreensão, ensina que o choro não é fraqueza, mas válvula de alívio da alma, recurso terapêutico que auxilia o Espírito a reorganizar sentimentos.

A Valorização do Simples e o Chamado à Consciência Moral

A metáfora de “ver o sol nascer” recorda-nos que a felicidade não se encontra nas grandes conquistas, mas na capacidade de perceber a beleza do simples. A ciência contemporânea sobre bem-estar psicológico reforça que a gratidão diária — mesmo por elementos básicos da vida — desenvolve resiliência e favorece uma postura emocional mais equilibrada.

O Espiritismo alinha-se a essa percepção ao destacar, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, que a paz espiritual não deriva de bens materiais, mas de hábitos de simplicidade, benevolência e serenidade diante da vida.

Outro ponto essencial é a necessidade de aceitar as pessoas “como elas são”. Isso exige indulgência — virtude destacada por Kardec e amplamente analisada na Revista Espírita —, pois cada Espírito se encontra em um grau distinto de compreensão e maturidade. O Cristo, modelo e guia da humanidade, ensinou há dois milênios que o amor verdadeiro ultrapassa afinidades, conveniências e expectativas.

Empatia, Reparação e Coragem Moral

A frase “cada um sabe a alegria e a dor que vai no coração” expressa a essência da empatia. A Doutrina Espírita explica que as aparências enganam, e que sob um sorriso frequentemente se ocultam lutas íntimas desconhecidas. O Espírito Emmanuel, em obras complementares, afirma que a empatia é exercício de percepção espiritual, que nos aproxima do próximo e alarga o sentido de fraternidade.

Entretanto, perceber o outro não basta. É necessário examinar a própria consciência. Muitas vezes, após um gesto impensado ou uma palavra precipitada, surge o arrependimento, que constitui — ensina Kardec — o primeiro passo da transformação moral. O segundo passo é a expiação, e o terceiro, a reparação.

Reparar, no cotidiano, significa buscar aqueles a quem magoamos, intencionalmente ou não, e oferecer um gesto de reconciliação. Isso não exige grandiosidade: bastam franqueza, humildade e doçura.

A coragem moral de revisar atitudes é o que diferencia o arrependimento que aprisiona daquele que liberta.

Superar a Vaidade e Construir a Paz Interior

O orgulho e a vaidade — que aparecem reiteradas vezes nas obras da codificação e na Revista Espírita — são, ainda hoje, grandes obstáculos ao progresso espiritual. Eles impedem pedidos de perdão, interrompem reconciliações e distorcem a visão que temos de nós mesmos.

A paz de espírito, ao contrário, nasce da consciência tranquila, fruto de esforços sinceros de melhoria e de amor.

Não se trata de viver sem falhas, mas de não repetir continuamente as mesmas escolhas que produzem dor. O Espírito progride pela ação e pelo movimento, não pelo imobilismo moral.

Conclusão: O Amanhecer da Consciência

Não importa a idade do corpo, o tempo da vida ou a soma de nossos enganos: sempre há um sol a nascer dentro de nós. A cada manhã, a vida nos convida a recomeçar, a amar mais, a compreender melhor, a valorizar o que é simples e luminoso.

Que não cheguemos ao final da existência arrependidos por não ter amado o suficiente, por não ter deixado lágrimas libertarem o coração, por não ter visto o sol nascer ao lado de quem estimamos.

A transformação íntima, ensinada pelos Espíritos superiores e exemplificada pelo Cristo, é caminho aberto a todos — um caminho que se trilha passo a passo, gesto a gesto, perdão a perdão.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. A Gênese.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • Momento Espírita. O propósito de mudar.
  • Titãs. Epitáfio.
  • Obras complementares do Espiritismo: Emmanuel, André Luiz.

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