Introdução
Há
músicas que nos alcançam de forma inesperada e silenciosa, convidando-nos a
contemplar a própria consciência. Certas letras, sobretudo quando carregadas de
sensibilidade e verdade humana, despertam em nós a percepção de que poderíamos
ter vivido com mais gentileza, menos pressa e maior coerência interior.
Versos
populares como “Queria ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol
nascer…” encontram eco na estrutura moral da Doutrina Espírita, que, desde
1857, ensina que o Espírito progride por meio do autoconhecimento, da
indulgência e da prática do amor. O Espiritismo, codificado por Allan Kardec a
partir do ensino dos Espíritos superiores, convida-nos a reconhecer nossas
limitações sem fatalismo, e sim com responsabilidade e esperança.
Arrependimento e Imperfeição: Lições de um Mundo em
Transição
No
atual estágio da humanidade, ainda situada em um planeta de provas e expiações,
é natural que a convivência espiritual seja marcada por imperfeições, impulsos
e arrependimentos. Como lembra Kardec em O Livro dos Espíritos, o erro
não define o Espírito, mas lhe serve de oportunidade para reconstrução moral.
Poucos
de nós alcançam a velhice sem olhar para trás e dizer: “poderia ter amado mais”. A investigação científica contemporânea
sobre emoções e longevidade mostra que vínculos afetivos sólidos reduzem
quadros de ansiedade e aumentam a percepção de bem-estar, evidenciando que o amor
não apenas pacifica a consciência, mas também favorece a saúde integral.
Da
mesma forma, pesquisas em psicologia apontam que a repressão contínua das
emoções — o “não ter chorado mais” —
contribui para quadros de estresse e desgaste emocional. O Espiritismo,
coerente com essa compreensão, ensina que o choro não é fraqueza, mas válvula
de alívio da alma, recurso terapêutico que auxilia o Espírito a reorganizar
sentimentos.
A Valorização do Simples e o Chamado à Consciência Moral
A
metáfora de “ver o sol nascer”
recorda-nos que a felicidade não se encontra nas grandes conquistas, mas na
capacidade de perceber a beleza do simples. A ciência contemporânea sobre
bem-estar psicológico reforça que a gratidão diária — mesmo por elementos
básicos da vida — desenvolve resiliência e favorece uma postura emocional mais
equilibrada.
O
Espiritismo alinha-se a essa percepção ao destacar, em O Evangelho Segundo o
Espiritismo, que a paz espiritual não deriva de bens materiais, mas de
hábitos de simplicidade, benevolência e serenidade diante da vida.
Outro
ponto essencial é a necessidade de aceitar as pessoas “como elas são”. Isso exige indulgência — virtude destacada por
Kardec e amplamente analisada na Revista Espírita —, pois cada Espírito
se encontra em um grau distinto de compreensão e maturidade. O Cristo, modelo e
guia da humanidade, ensinou há dois milênios que o amor verdadeiro ultrapassa
afinidades, conveniências e expectativas.
Empatia, Reparação e Coragem Moral
A
frase “cada um sabe a alegria e a dor que
vai no coração” expressa a essência da empatia. A Doutrina Espírita explica
que as aparências enganam, e que sob um sorriso frequentemente se ocultam lutas
íntimas desconhecidas. O Espírito Emmanuel, em obras complementares, afirma que
a empatia é exercício de percepção espiritual, que nos aproxima do próximo e
alarga o sentido de fraternidade.
Entretanto,
perceber o outro não basta. É necessário examinar a própria consciência. Muitas
vezes, após um gesto impensado ou uma palavra precipitada, surge o
arrependimento, que constitui — ensina Kardec — o primeiro passo da
transformação moral. O segundo passo é a expiação, e o terceiro, a reparação.
Reparar,
no cotidiano, significa buscar aqueles a quem magoamos, intencionalmente ou
não, e oferecer um gesto de reconciliação. Isso não exige grandiosidade: bastam
franqueza, humildade e doçura.
A
coragem moral de revisar atitudes é o que diferencia o arrependimento que
aprisiona daquele que liberta.
Superar a Vaidade e Construir a Paz Interior
O
orgulho e a vaidade — que aparecem reiteradas vezes nas obras da codificação e
na Revista Espírita — são, ainda hoje, grandes obstáculos ao progresso
espiritual. Eles impedem pedidos de perdão, interrompem reconciliações e
distorcem a visão que temos de nós mesmos.
A paz
de espírito, ao contrário, nasce da consciência tranquila, fruto de esforços
sinceros de melhoria e de amor.
Não se
trata de viver sem falhas, mas de não repetir continuamente as mesmas escolhas
que produzem dor. O Espírito progride pela ação e pelo movimento, não pelo
imobilismo moral.
Conclusão: O Amanhecer da Consciência
Não
importa a idade do corpo, o tempo da vida ou a soma de nossos enganos: sempre
há um sol a nascer dentro de nós. A cada manhã, a vida nos convida a recomeçar,
a amar mais, a compreender melhor, a valorizar o que é simples e luminoso.
Que
não cheguemos ao final da existência arrependidos por não ter amado o
suficiente, por não ter deixado lágrimas libertarem o coração, por não ter
visto o sol nascer ao lado de quem estimamos.
A
transformação íntima, ensinada pelos Espíritos superiores e exemplificada pelo
Cristo, é caminho aberto a todos — um caminho que se trilha passo a passo,
gesto a gesto, perdão a perdão.
Referências
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O
Evangelho Segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. A
Gênese.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869).
- Momento Espírita. O
propósito de mudar.
- Titãs. Epitáfio.
- Obras
complementares do Espiritismo: Emmanuel, André Luiz.
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