Introdução
Vivemos
no século XXI sob a paradoxal realidade de conviver com avanços tecnológicos e
sociais inéditos — e, simultaneamente, com fome, desperdício e desigualdade
material. Segundo relatórios recentes da Organização das Nações Unidas para
Alimentação e Agricultura (FAO), aproximadamente 30% de toda a comida
produzida no mundo é desperdiçada anualmente, enquanto cerca de 735
milhões de pessoas passam fome. Esses dados evidenciam uma contradição
moral e social: não falta alimento — falta gestão, responsabilidade e
fraternidade.
A
Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, especialmente em O Livro dos
Espíritos (questões 702 a 707), trata do instinto de conservação como uma lei
divina destinada a assegurar a vida e o progresso dos seres. Ao
confrontarmos os ensinos espiritistas com os desafios contemporâneos,
percebemos que a fome e a miséria não são resultado da “vontade de Deus”, mas
da má utilização dos recursos terrestres e do egoísmo humano.
Este
artigo propõe uma reflexão racional sobre o instinto de conservação, a partir
das obras de Kardec e da Revista Espírita, relacionando os princípios
doutrinários com dados atuais e com a responsabilidade coletiva na gestão dos
bens que a Terra oferece.
Instinto de conservação: base da vida e da evolução
O
Espiritismo ensina que o instinto de conservação está inscrito em todas as
criaturas:
“É Lei da Natureza. Deus concedeu
a todos os seres vivos o instinto de conservação, porque todos têm que
concorrer para o cumprimento dos desígnios da Providência.” — O Livro dos Espíritos, q.
702
A vida é
uma oportunidade de progresso. Logo, conservar a existência não é egoísmo, é
dever para com a própria evolução.
Enquanto
o instinto age de forma impulsiva nos seres inferiores, no homem é
complementado pela razão, o que implica responsabilidade moral sobre o modo
como utilizamos os recursos disponíveis.
A Terra oferece o necessário — nós exigimos o
supérfluo
Os Espíritos afirmam com
simplicidade e profundidade:
“A Terra produziria sempre o necessário,
se o homem soubesse contentar-se com o necessário.” — O Livro dos Espíritos, q.
705
O
planeta dispõe de recursos suficientes para garantir a subsistência de todos os
seus habitantes. O problema não está na natureza, mas no modo como utilizamos —
ou desperdiçamos — o que ela oferece. A carência material que atinge milhões de
pessoas é, em grande parte, resultado da má gestão humana e da busca
incessante pelo supérfluo.
Os
dados contemporâneos deixam isso evidente:
·
A FAO
estima que 1,3
bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados todos os
anos no mundo.
·
No
Brasil, segundo relatórios da Embrapa e do Instituto
Akatu, entre 20% e 30% dos alimentos se perdem antes
mesmo de chegar ao consumidor.
·
A
quantidade global de alimentos desperdiçados seria suficiente para alimentar
toda a população que hoje passa fome.
Ou
seja: não
sofremos escassez — sofremos excesso. Somos capazes de produzir
mais do que o planeta necessita, mas não somos capazes de compartilhar.
A
Doutrina Espírita identifica nessa realidade não um problema técnico, e sim moral.
Kardec registra:
“É o egoísmo que faz com que o homem
empregue no supérfluo o que se destina ao necessário.” — O Livro dos Espíritos, qs.
705 e 707
A
fome, portanto, não é obra da Providência Divina. É obra humana.
A
Terra é generosa. A natureza é abundante. A desigualdade nasce da falta de fraternidade.
Busca, esforço e responsabilidade pessoal
O Cristo
disse: “Buscai e achareis.” (Mateus 7:7). Kardec interpreta essa máxima
de modo racional:
“Não basta pedir; é necessário
agir, trabalhar, perseverar.” — Revista Espírita, 1861
Assim, a
Providência não apoia o comodismo. A luta pelo sustento faz parte do
desenvolvimento da inteligência e da força de vontade.
O
instinto de conservação nos impulsiona a preservar a vida, porém não a
qualquer custo, especialmente se isso significar prejudicar o outro. Kardec
é firme:
“Há mais mérito em sofrer as
provas com coragem e abnegação do que em salvar a vida à custa de um crime.” — O Livro dos Espíritos, q.
703a
Civilização, progresso e equidade
A
Doutrina Espírita reconhece que o progresso social amplia tanto as necessidades
quanto os meios de supri-las. Kardec afirma:
“Quando a civilização houver
cumprido a sua obra, ninguém poderá queixar-se de lhe faltar o necessário.” — O Livro dos Espíritos, q.
707
Hoje, a
ciência avançou na produção e distribuição de alimentos. Tecnologias como
agricultura de precisão, manejo sustentável do solo e combate às perdas
pós-colheita estão mais acessíveis do que nunca.
Ainda
assim, persistem desigualdades porque ainda não cumprimos a parte moral da
equação.
A
tecnologia já é capaz.
O planeta já oferece.
Falta transformar o egoísmo em solidariedade.
Conclusão
O
instinto de conservação é lei divina que assegura a continuidade da vida. A
Terra, como ensina o Espiritismo, é suficientemente generosa para todos.
Quando há falta, ela não decorre da natureza, mas do mau uso que fazemos dela.
A fome é,
antes de tudo, um problema moral.
O
Espiritismo afirma que a verdadeira evolução humana começa quando o instinto se
alia à razão e esta se converte em consciência. E consciência só existe quando
reconhecemos que a vida não é conquista individual, mas cooperação coletiva.
“Para todos há lugar ao sol,
desde que cada um ocupe o seu e não o dos outros.” — O Livro dos Espíritos, q.
707
Se
queremos um mundo sem fome, não basta produzir. É preciso compartilhar,
reorganizar, servir e amar.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. 1857.
- KARDEC, Allan. O Livro
dos Médiuns. 1861.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (coleção 1858–1869).
- Organização das Nações
Unidas para Alimentação e Agricultura — FAO. Relatório sobre desperdício
global de alimentos, 2023–2024.
- EMBRAPA / Instituto Akatu.
Relatório sobre perdas e desperdícios no Brasil, 2023.
- ONU — The State of Food
Security and Nutrition in the World, 2024.
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