segunda-feira, 3 de novembro de 2025

INSTINTO DE CONSERVAÇÃO E RESPONSABILIDADE HUMANA
- A Era do Espírito -

Introdução

Vivemos no século XXI sob a paradoxal realidade de conviver com avanços tecnológicos e sociais inéditos — e, simultaneamente, com fome, desperdício e desigualdade material. Segundo relatórios recentes da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), aproximadamente 30% de toda a comida produzida no mundo é desperdiçada anualmente, enquanto cerca de 735 milhões de pessoas passam fome. Esses dados evidenciam uma contradição moral e social: não falta alimento — falta gestão, responsabilidade e fraternidade.

A Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, especialmente em O Livro dos Espíritos (questões 702 a 707), trata do instinto de conservação como uma lei divina destinada a assegurar a vida e o progresso dos seres. Ao confrontarmos os ensinos espiritistas com os desafios contemporâneos, percebemos que a fome e a miséria não são resultado da “vontade de Deus”, mas da má utilização dos recursos terrestres e do egoísmo humano.

Este artigo propõe uma reflexão racional sobre o instinto de conservação, a partir das obras de Kardec e da Revista Espírita, relacionando os princípios doutrinários com dados atuais e com a responsabilidade coletiva na gestão dos bens que a Terra oferece.

Instinto de conservação: base da vida e da evolução

O Espiritismo ensina que o instinto de conservação está inscrito em todas as criaturas:

“É Lei da Natureza. Deus concedeu a todos os seres vivos o instinto de conservação, porque todos têm que concorrer para o cumprimento dos desígnios da Providência.”O Livro dos Espíritos, q. 702

A vida é uma oportunidade de progresso. Logo, conservar a existência não é egoísmo, é dever para com a própria evolução.

Enquanto o instinto age de forma impulsiva nos seres inferiores, no homem é complementado pela razão, o que implica responsabilidade moral sobre o modo como utilizamos os recursos disponíveis.

A Terra oferece o necessário — nós exigimos o supérfluo

Os Espíritos afirmam com simplicidade e profundidade:

“A Terra produziria sempre o necessário, se o homem soubesse contentar-se com o necessário.” O Livro dos Espíritos, q. 705

O planeta dispõe de recursos suficientes para garantir a subsistência de todos os seus habitantes. O problema não está na natureza, mas no modo como utilizamos — ou desperdiçamos — o que ela oferece. A carência material que atinge milhões de pessoas é, em grande parte, resultado da má gestão humana e da busca incessante pelo supérfluo.

Os dados contemporâneos deixam isso evidente:

·         A FAO estima que 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados todos os anos no mundo.

·         No Brasil, segundo relatórios da Embrapa e do Instituto Akatu, entre 20% e 30% dos alimentos se perdem antes mesmo de chegar ao consumidor.

·         A quantidade global de alimentos desperdiçados seria suficiente para alimentar toda a população que hoje passa fome.

Ou seja: não sofremos escassez — sofremos excesso. Somos capazes de produzir mais do que o planeta necessita, mas não somos capazes de compartilhar.

A Doutrina Espírita identifica nessa realidade não um problema técnico, e sim moral. Kardec registra:

“É o egoísmo que faz com que o homem empregue no supérfluo o que se destina ao necessário.” O Livro dos Espíritos, qs. 705 e 707

A fome, portanto, não é obra da Providência Divina. É obra humana.

A Terra é generosa. A natureza é abundante. A desigualdade nasce da falta de fraternidade.

Busca, esforço e responsabilidade pessoal

O Cristo disse: “Buscai e achareis.” (Mateus 7:7). Kardec interpreta essa máxima de modo racional:

“Não basta pedir; é necessário agir, trabalhar, perseverar.”Revista Espírita, 1861

Assim, a Providência não apoia o comodismo. A luta pelo sustento faz parte do desenvolvimento da inteligência e da força de vontade.

O instinto de conservação nos impulsiona a preservar a vida, porém não a qualquer custo, especialmente se isso significar prejudicar o outro. Kardec é firme:

“Há mais mérito em sofrer as provas com coragem e abnegação do que em salvar a vida à custa de um crime.”O Livro dos Espíritos, q. 703a

Civilização, progresso e equidade

A Doutrina Espírita reconhece que o progresso social amplia tanto as necessidades quanto os meios de supri-las. Kardec afirma:

“Quando a civilização houver cumprido a sua obra, ninguém poderá queixar-se de lhe faltar o necessário.”O Livro dos Espíritos, q. 707

Hoje, a ciência avançou na produção e distribuição de alimentos. Tecnologias como agricultura de precisão, manejo sustentável do solo e combate às perdas pós-colheita estão mais acessíveis do que nunca.

Ainda assim, persistem desigualdades porque ainda não cumprimos a parte moral da equação.

A tecnologia já é capaz.
O planeta já oferece.
Falta transformar o egoísmo em solidariedade.

Conclusão

O instinto de conservação é lei divina que assegura a continuidade da vida. A Terra, como ensina o Espiritismo, é suficientemente generosa para todos. Quando há falta, ela não decorre da natureza, mas do mau uso que fazemos dela.

A fome é, antes de tudo, um problema moral.

O Espiritismo afirma que a verdadeira evolução humana começa quando o instinto se alia à razão e esta se converte em consciência. E consciência só existe quando reconhecemos que a vida não é conquista individual, mas cooperação coletiva.

“Para todos há lugar ao sol, desde que cada um ocupe o seu e não o dos outros.”O Livro dos Espíritos, q. 707

Se queremos um mundo sem fome, não basta produzir. É preciso compartilhar, reorganizar, servir e amar.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1857.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1861.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (coleção 1858–1869).
  • Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura — FAO. Relatório sobre desperdício global de alimentos, 2023–2024.
  • EMBRAPA / Instituto Akatu. Relatório sobre perdas e desperdícios no Brasil, 2023.
  • ONU — The State of Food Security and Nutrition in the World, 2024.

 

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