terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A ANSIEDADE E O TEMPO QUE NÃO EXISTE
UMA REFLEXÃO À LUZ DA DOUTRINA ESPÍRITA
- A Era do Espírito -

Introdução

A vida moderna, marcada por velocidade, notificações incessantes e pressões diárias, tornou a ansiedade um fenômeno comum em todas as faixas etárias. No entanto, muito antes de os estudos contemporâneos analisarem seus impactos psicológicos, a Doutrina Espírita — desde O Livro dos Espíritos e toda a coleção da Revista Espírita (1858–1869) — já apontava a importância da consciência presente, da serenidade e da confiança nas leis divinas. Jesus, no Evangelho, também adverte sobre o risco de viver fora do tempo real da existência: o agora.

O presente artigo propõe uma reflexão doutrinária e racional sobre o fenômeno da ansiedade, compreendido como uma desvinculação do Espírito em relação ao instante presente, e suas consequências na vida emocional, espiritual e relacional.

1. Ansiedade: o afastamento psicológico do presente

Quando ansiosos, não vivemos o momento em que nossos pés se encontram. O pensamento vagueia entre lembranças do que já passou e projeções do que ainda não chegou. Assim, como mostra a psicologia atual, a mente cria “tempos imaginários” que funcionam como cenários de preocupação antecipada, e o indivíduo, ainda que fisicamente presente, se torna emocionalmente ausente.

A Doutrina Espírita sugere compreender esse estado como uma espécie de deslocamento da atenção e do fluido mental. Kardec observa, na Revista Espírita, que o pensamento é força atuante e direciona o Espírito para onde se projeta. Se o pensamento está no futuro temeroso, é como se uma parte de nós se projetasse para um lugar inexistente.

Nessas condições, “não existimos” no agora — não percebemos sabores, rostos, paisagens, nem a própria respiração. É um estado de semi-inconsciência cotidiana, que prejudica nossa lucidez espiritual e nossa capacidade de aprender com os acontecimentos atuais, sejam eles agradáveis ou desafiadores.

2. Invisíveis para nós mesmos: um fenômeno da vida moderna

O ritmo urbano contemporâneo intensifica essa ausência interior. Em meio a ruídos, prazos e estímulos constantes, muitas pessoas se movimentam como se estivessem em piloto automático. A neurociência tem chamado atenção para isso: estudos recentes indicam que grande parte dos pensamentos de um adulto está direcionada para o passado ou para o futuro, e apenas uma fração se concentra plenamente na experiência presente.

Em chave espírita, isso revela um risco: o Espírito encarnado perde oportunidades de progresso moral quando se desconecta do agora, pois o aprendizado e o esforço transformador só podem ser realizados no tempo presente — o único que realmente existe para a vida encarnada.

3. “O dia de amanhã cuidará de si mesmo”: uma lição de equilíbrio

Jesus compreendeu profundamente essa tendência humana de viver fora do tempo real. Por isso, ensinou com simplicidade luminosa:

“Não vos inquieteis pelo dia de amanhã. Basta a cada dia o seu mal.” (Mateus 6:34)

O Mestre não propõe desorganização ou falta de planejamento, mas equilíbrio. Planejar é ato de razão; inquietar-se é desequilíbrio da emoção. Na explicação dada pelos Espíritos a Kardec, a Providência é sabedoria ativa que sustenta todas as criaturas, desde os lírios do campo até as aves do céu, indicando que a confiança é uma virtude necessária à saúde espiritual.

Quando antecipamos sofrimentos, criamos “males imaginários”, que desgastam nossas forças antes mesmo de qualquer desafio real. A ansiedade se torna, então, uma forma de sofrimento sem utilidade, como observa Emmanuel em diversas mensagens, especialmente quando descreve a importância de viver cada etapa da vida com serenidade e responsabilidade.

4. O presente como campo de trabalho espiritual

A Doutrina Espírita reafirma, de modo constante, que cada dia traz suas lições específicas. O progresso do Espírito ocorre passo a passo, e não por saltos impulsivos da imaginação. Viver o agora com atenção é reconhecer que cada tarefa, cada encontro e até cada dificuldade contém uma oportunidade educativa.

Assim, cuidar da ansiedade não significa ignorar obstáculos, mas fortalecermo-nos para enfrentá-los quando realmente chegarem. Buscar apoio psicológico, desenvolver práticas de respiração, meditação, prece e disciplina mental são recursos legítimos que auxiliam o Espírito encarnado na administração de suas emoções.

A serenidade não nasce da fuga, mas da presença.

Conclusão

Viver no presente é um exercício de lucidez espiritual. É reconhecer que o ontem já ensinou e o amanhã ainda está sendo preparado pelas Leis Divinas. Permanecer no agora é existir de fato, com responsabilidade, confiança e equilíbrio emocional. O Mestre nos convida à calma e ao sossego interior, lembrando-nos de que jamais estamos desamparados.

Ao cultivar serenidade e fé ativa, aprendemos que o hoje contém tudo o que precisamos para crescer — nem mais, nem menos.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. A Gênese.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • XAVIER, Francisco Cândido. A Caminho da Luz (pelo Espírito Emmanuel).
  • Momento Espírita. Como se não existíssemos, momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=7562&stat=0
  • Evangelho de Mateus, cap. 6, vers. 25–34.

 

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