Introdução
A vida
moderna, marcada por velocidade, notificações incessantes e pressões diárias,
tornou a ansiedade um fenômeno comum em todas as faixas etárias. No entanto,
muito antes de os estudos contemporâneos analisarem seus impactos psicológicos,
a Doutrina Espírita — desde O Livro dos Espíritos e toda a coleção da Revista
Espírita (1858–1869) — já apontava a importância da consciência presente,
da serenidade e da confiança nas leis divinas. Jesus, no Evangelho, também
adverte sobre o risco de viver fora do tempo real da existência: o agora.
O
presente artigo propõe uma reflexão doutrinária e racional sobre o fenômeno da
ansiedade, compreendido como uma desvinculação do Espírito em relação ao
instante presente, e suas consequências na vida emocional, espiritual e
relacional.
1. Ansiedade: o afastamento psicológico do presente
Quando
ansiosos, não vivemos o momento em que nossos pés se encontram. O pensamento
vagueia entre lembranças do que já passou e projeções do que ainda não chegou.
Assim, como mostra a psicologia atual, a mente cria “tempos imaginários” que funcionam como cenários de preocupação
antecipada, e o indivíduo, ainda que fisicamente presente, se torna
emocionalmente ausente.
A
Doutrina Espírita sugere compreender esse estado como uma espécie de
deslocamento da atenção e do fluido mental. Kardec observa, na Revista
Espírita, que o pensamento é força atuante e direciona o Espírito para onde
se projeta. Se o pensamento está no futuro temeroso, é como se uma parte de nós
se projetasse para um lugar inexistente.
Nessas
condições, “não existimos” no agora —
não percebemos sabores, rostos, paisagens, nem a própria respiração. É um
estado de semi-inconsciência cotidiana, que prejudica nossa lucidez espiritual
e nossa capacidade de aprender com os acontecimentos atuais, sejam eles
agradáveis ou desafiadores.
2. Invisíveis para nós mesmos: um fenômeno da vida
moderna
O
ritmo urbano contemporâneo intensifica essa ausência interior. Em meio a
ruídos, prazos e estímulos constantes, muitas pessoas se movimentam como se
estivessem em piloto automático. A neurociência tem chamado atenção para isso:
estudos recentes indicam que grande parte dos pensamentos de um adulto está
direcionada para o passado ou para o futuro, e apenas uma fração se concentra
plenamente na experiência presente.
Em
chave espírita, isso revela um risco: o Espírito encarnado perde oportunidades
de progresso moral quando se desconecta do agora, pois o aprendizado e o
esforço transformador só podem ser realizados no tempo presente — o único que
realmente existe para a vida encarnada.
3. “O dia de
amanhã cuidará de si mesmo”: uma lição de equilíbrio
Jesus
compreendeu profundamente essa tendência humana de viver fora do tempo real.
Por isso, ensinou com simplicidade luminosa:
“Não
vos inquieteis pelo dia de amanhã. Basta a cada dia o seu mal.” (Mateus 6:34)
O
Mestre não propõe desorganização ou falta de planejamento, mas equilíbrio.
Planejar é ato de razão; inquietar-se é desequilíbrio da emoção. Na explicação
dada pelos Espíritos a Kardec, a Providência é sabedoria ativa que sustenta
todas as criaturas, desde os lírios do campo até as aves do céu, indicando que
a confiança é uma virtude necessária à saúde espiritual.
Quando
antecipamos sofrimentos, criamos “males
imaginários”, que desgastam nossas forças antes mesmo de qualquer desafio
real. A ansiedade se torna, então, uma forma de sofrimento sem utilidade, como
observa Emmanuel em diversas mensagens, especialmente quando descreve a
importância de viver cada etapa da vida com serenidade e responsabilidade.
4. O presente como campo de trabalho espiritual
A
Doutrina Espírita reafirma, de modo constante, que cada dia traz suas lições
específicas. O progresso do Espírito ocorre passo a passo, e não por saltos
impulsivos da imaginação. Viver o agora com atenção é reconhecer que cada
tarefa, cada encontro e até cada dificuldade contém uma oportunidade educativa.
Assim,
cuidar da ansiedade não significa ignorar obstáculos, mas fortalecermo-nos para
enfrentá-los quando realmente chegarem. Buscar apoio psicológico, desenvolver
práticas de respiração, meditação, prece e disciplina mental são recursos
legítimos que auxiliam o Espírito encarnado na administração de suas emoções.
A
serenidade não nasce da fuga, mas da presença.
Conclusão
Viver
no presente é um exercício de lucidez espiritual. É reconhecer que o ontem já
ensinou e o amanhã ainda está sendo preparado pelas Leis Divinas. Permanecer no
agora é existir de fato, com responsabilidade, confiança e equilíbrio
emocional. O Mestre nos convida à calma e ao sossego interior, lembrando-nos de
que jamais estamos desamparados.
Ao cultivar
serenidade e fé ativa, aprendemos que o hoje contém tudo o que precisamos para
crescer — nem mais, nem menos.
Referências
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O
Evangelho Segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. A
Gênese.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869).
- XAVIER, Francisco
Cândido. A Caminho da Luz (pelo Espírito Emmanuel).
- Momento Espírita. Como
se não existíssemos,
momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=7562&stat=0
- Evangelho de
Mateus, cap. 6, vers. 25–34.
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