domingo, 28 de dezembro de 2025

A VIRADA DO ANO SOB A ÓTICA ESPÍRITA
TEMPO CONVENCIONAL, RENOVAÇÃO MORAL
- A Era do Espírito -

Introdução

A mudança de ano, marcada civilmente pelos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro, é um fenômeno essencialmente humano, fruto de convenções históricas, astronômicas e administrativas. No entanto, ao longo dos séculos, essa passagem simbólica adquiriu significados culturais, religiosos e psicológicos profundos. À luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e desenvolvida nas páginas da Revista Espírita (1858–1869), a virada do ano convida a uma reflexão mais ampla: não apenas sobre calendários e festividades, mas sobre o uso consciente do tempo, a responsabilidade moral e o progresso do Espírito imortal.

A mudança de ano como convenção histórica

Historicamente, as celebrações de Ano-Novo variaram conforme civilizações e calendários. Babilônios, egípcios, romanos e povos medievais marcaram o início do ano em diferentes datas, associadas a fenômenos naturais, colheitas ou eventos religiosos. A fixação do 1º de janeiro como início do ano, consolidada com o calendário gregoriano em 1582, atende a necessidades de padronização civil e administrativa, hoje amplamente adotadas no mundo.

Do ponto de vista espírita, essa diversidade histórica confirma que o “início do ano” não é um fato absoluto da natureza, mas uma referência coletiva útil à organização social. O tempo cronológico, medido por calendários e relógios, não se confunde com o tempo espiritual, que se expressa pela continuidade da vida e pela evolução do Espírito.

O tempo na perspectiva espírita

A Doutrina Espírita ensina que o Espírito é imortal e progride através de múltiplas existências corporais. Assim, não há rupturas reais no fluxo da vida espiritual provocadas por datas específicas. A mudança do calendário não transforma, por si só, o ser interior.

Entretanto, a Revista Espírita frequentemente destaca o valor da reflexão, do exame de consciência e da vigilância moral. Datas simbólicas, como a virada do ano, podem servir de estímulo psicológico e moral para balanços pessoais, desde que não se restrinjam a expectativas ilusórias ou promessas vazias.

Sob essa ótica, o Ano-Novo não representa um “recomeço automático”, mas uma oportunidade convencional para avaliar o caminho percorrido e reajustar propósitos à luz das Leis Divinas.

Réveillon, confraternização e espiritualidade

O termo réveillon, que significa “despertar”, oferece um simbolismo coerente com a proposta espírita quando compreendido em profundidade. Mais do que festejos externos, o verdadeiro despertar é o da consciência, que reconhece suas imperfeições e se dispõe ao esforço contínuo de melhoria.

A comemoração civil da Confraternização Universal, celebrada em 1º de janeiro, harmoniza-se com os princípios espíritas de fraternidade, solidariedade e paz entre os povos. A fraternidade, porém, não se limita a um dia do calendário: constitui dever permanente do Espírito em relação ao próximo.

Da mesma forma, o Dia Mundial da Paz, embora de origem religiosa específica, converge com o entendimento espírita de que a paz coletiva é reflexo da paz interior, construída pelo domínio das paixões e pela vivência do bem.

A virada do ano e o compromisso com o progresso moral

A Doutrina Espírita não incentiva superstições, rituais exteriores ou crenças de que o simples transcurso de uma data traga prosperidade, proteção ou felicidade. Kardec é claro ao afirmar que o progresso do Espírito resulta do esforço próprio, do trabalho no bem e da reforma — ou, mais adequadamente, da transformação íntima.

Assim, metas formuladas na virada do ano só terão valor real se acompanhadas de ações concretas e perseverantes. O novo ano civil pode ser visto como um marco pedagógico, útil para renovar compromissos com:

  • o autoconhecimento;
  • a melhoria moral;
  • o exercício da caridade;
  • o cumprimento consciente dos deveres familiares, profissionais e sociais.

Cada dia, e não apenas o primeiro de janeiro, constitui ocasião legítima para recomeçar.

Considerações finais

Para os adeptos do Espiritismo, a virada do ano não representa uma mudança espiritual automática, nem um ponto mágico de transformação. Trata-se de uma referência coletiva que pode — se bem compreendida — favorecer a reflexão, o planejamento responsável e o fortalecimento de propósitos elevados.

O tempo, na visão espírita, é instrumento de progresso. Usá-lo bem é dever do Espírito em marcha evolutiva. Que a mudança de ano seja, portanto, menos um rito exterior e mais um convite à vigilância interior, ao trabalho no bem e à construção paciente da paz que começa em cada consciência.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • KARDEC, Allan. A Gênese.
  • BRASIL. Lei Federal nº 108, de 29 de outubro de 1935.
  • PAULO VI. Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1967.

 

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