quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

ENTRE O CONSELHO E A VIVÊNCIA
SABER O BEM E REALIZÁ-LO
- A Era do Espírito -

Introdução

É comum observar que muitas pessoas demonstram notável lucidez ao orientar amigos, familiares ou conhecidos diante de dificuldades morais, emocionais ou existenciais. Entretanto, quando se veem em situação semelhante, encontram grande dificuldade — ou mesmo fracasso — em aplicar a si próprias os mesmos conselhos que ofereceram com segurança e clareza. À primeira vista, tal discrepância pode parecer incoerência ou hipocrisia. Contudo, tanto a psicologia contemporânea quanto a Doutrina Espírita oferecem explicações mais profundas e construtivas para esse fenômeno, revelando-o como expressão legítima da condição humana em processo de aprendizado moral.

Este artigo propõe uma reflexão integrada, considerando contribuições atuais da psicologia e, sobretudo, os princípios da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, em harmonia com os ensinamentos registrados na Revista Espírita (1858–1869), a fim de compreender por que saber o bem não equivale, necessariamente, a consegui-lo realizar de imediato.

A Visão Psicológica: Entre a Razão e a Emoção

A psicologia contemporânea reconhece que existe uma diferença significativa entre avaliar racionalmente um problema e vivenciá-lo emocionalmente. Ao aconselhar alguém, o indivíduo se encontra em posição de relativo distanciamento afetivo. Essa condição favorece a objetividade, o raciocínio lógico e a análise serena das opções disponíveis.

Um conceito amplamente discutido é o chamado Paradoxo de Salomão, que descreve a tendência humana de raciocinar com mais sabedoria sobre os problemas alheios do que sobre os próprios. Estudos recentes em psicologia cognitiva indicam que emoções intensas, medo de perdas, experiências passadas e expectativas pessoais ativam circuitos emocionais que dificultam a tomada de decisões coerentes quando o problema nos diz respeito diretamente.

Outro aspecto relevante é o chamado “hiato entre saber e fazer” (value-action gap). Conhecer o que é correto não garante, por si só, a força emocional, a disciplina ou a maturidade interior necessárias para transformar esse conhecimento em ação concreta. Assim, a dificuldade não reside apenas na razão, mas na gestão das emoções e impulsos.

A Contribuição da Doutrina Espírita: Conhecimento Moral e Prova Vivencial

A Doutrina Espírita aprofunda essa análise ao distinguir claramente o conhecimento intelectual do progresso moral. Em O Livro dos Espíritos, os ensinamentos mostram que o Espírito pode compreender as leis morais antes de conseguir vivê-las plenamente, pois a verdadeira assimilação ocorre por meio da experiência repetida e consciente.

A Revista Espírita registra diversas reflexões de Allan Kardec sobre a diferença entre “compreender o bem” e “praticar o bem”. O conselho bem formulado revela que o indivíduo já alcançou certo grau de entendimento moral; contudo, a dificuldade em aplicá-lo a si mesmo indica que ainda enfrenta resistências íntimas, imperfeições e hábitos arraigados que fazem parte do seu estágio evolutivo.

Sob essa ótica, a situação não configura hipocrisia, mas sim um retrato fiel do Espírito em processo de transformação íntima. O conhecimento antecede a vivência, assim como a teoria antecede o domínio prático em qualquer campo do aprendizado humano.

O Papel das Provações e da Consciência

Na perspectiva espírita, as dificuldades pessoais funcionam como provas educativas. Ao vivenciar aquilo que antes apenas orientava nos outros, o indivíduo é convidado a consolidar, pela experiência, o valor real do conselho que proferiu. A consciência, então, passa a atuar como instrumento pedagógico, revelando a incoerência não para condenar, mas para ensinar.

Esse mecanismo favorece o desenvolvimento da humildade e da empatia. Quem experimenta a própria fragilidade torna-se mais compreensivo com as limitações alheias, abandonando julgamentos severos. Kardec frequentemente enfatiza que o verdadeiro progresso moral se manifesta menos pelo discurso e mais pelo esforço sincero de melhoria, ainda que imperfeito.

Utilidade do Ato de Aconselhar

Mesmo quando o conselheiro não consegue aplicar plenamente o que orienta, o ato de aconselhar não é inútil. Pelo contrário, ele possui valor educativo duplo:

  • Para quem aconselha, o exercício de formular orientações morais organiza ideias, reforça princípios e pode gerar futuros insights. A percepção da própria incoerência, longe de ser um fracasso, pode tornar-se um ponto de partida para mudanças mais profundas quando o Espírito estiver mais preparado.
  • Para quem recebe o conselho, a utilidade é direta. A orientação externa oferece clareza e objetividade em momentos de confusão emocional. A validade do conselho não depende da perfeição moral de quem o transmite, mas da verdade que ele encerra.

A Doutrina Espírita ensina que ninguém é portador absoluto da virtude, mas todos podem ser instrumentos do bem, ainda que imperfeitamente.

Hipocrisia ou Fraqueza Humana?

A hipocrisia pressupõe intenção consciente de enganar ou de se colocar moralmente acima dos outros. No caso analisado, o que se observa é, na maioria das vezes, a luta íntima entre o ideal já compreendido e a realidade emocional ainda não dominada. Trata-se de fraqueza humana, não de má-fé.

Reconhecer essa dinâmica permite substituir o julgamento pela compreensão e o orgulho pela humildade. A experiência compartilhada — aconselhar e, depois, lutar para aplicar o próprio conselho — constitui valiosa oportunidade de aprendizado moral, em consonância com a lei de progresso ensinada pelos Espíritos.

Conclusão

A discrepância entre aconselhar bem e viver com dificuldade o que se aconselha não é sinal de inutilidade moral, mas expressão do caminho evolutivo do Espírito. A psicologia explica o fenômeno pelos limites emocionais e cognitivos do ser humano; a Doutrina Espírita o amplia, mostrando que o conhecimento moral antecede a vivência transformadora.

Entre o conselho e a prática existe um campo educativo onde a consciência desperta, o orgulho cede lugar à humildade e o Espírito aprende, passo a passo, a converter entendimento em ação. Nesse processo, errar tentando viver o bem vale mais do que ignorá-lo por completo, pois cada esforço sincero aproxima o ser humano da coerência interior que caracteriza o verdadeiro progresso moral.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. A Gênese.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • BAUMEISTER, Roy F.; TIERNEY, John. Willpower: Rediscovering the Greatest Human Strength.
  • GROSSMANN, Igor et al. “Reasoning About Social Conflicts Improves Wise Reasoning.” Psychological Science, estudos sobre o Paradoxo de Salomão.

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