Introdução
É
comum observar que muitas pessoas demonstram notável lucidez ao orientar
amigos, familiares ou conhecidos diante de dificuldades morais, emocionais ou
existenciais. Entretanto, quando se veem em situação semelhante, encontram
grande dificuldade — ou mesmo fracasso — em aplicar a si próprias os mesmos
conselhos que ofereceram com segurança e clareza. À primeira vista, tal
discrepância pode parecer incoerência ou hipocrisia. Contudo, tanto a
psicologia contemporânea quanto a Doutrina Espírita oferecem explicações mais
profundas e construtivas para esse fenômeno, revelando-o como expressão
legítima da condição humana em processo de aprendizado moral.
Este
artigo propõe uma reflexão integrada, considerando contribuições atuais da
psicologia e, sobretudo, os princípios da Doutrina Espírita codificada por
Allan Kardec, em harmonia com os ensinamentos registrados na Revista
Espírita (1858–1869), a fim de compreender por que saber o bem não
equivale, necessariamente, a consegui-lo realizar de imediato.
A Visão Psicológica: Entre a Razão e a Emoção
A
psicologia contemporânea reconhece que existe uma diferença significativa entre
avaliar racionalmente um problema e vivenciá-lo emocionalmente. Ao aconselhar
alguém, o indivíduo se encontra em posição de relativo distanciamento afetivo.
Essa condição favorece a objetividade, o raciocínio lógico e a análise serena
das opções disponíveis.
Um
conceito amplamente discutido é o chamado Paradoxo de Salomão, que
descreve a tendência humana de raciocinar com mais sabedoria sobre os problemas
alheios do que sobre os próprios. Estudos recentes em psicologia cognitiva
indicam que emoções intensas, medo de perdas, experiências passadas e expectativas
pessoais ativam circuitos emocionais que dificultam a tomada de decisões
coerentes quando o problema nos diz respeito diretamente.
Outro
aspecto relevante é o chamado “hiato entre saber e fazer” (value-action gap).
Conhecer o que é correto não garante, por si só, a força emocional, a
disciplina ou a maturidade interior necessárias para transformar esse
conhecimento em ação concreta. Assim, a dificuldade não reside apenas na razão,
mas na gestão das emoções e impulsos.
A Contribuição da Doutrina Espírita: Conhecimento
Moral e Prova Vivencial
A
Doutrina Espírita aprofunda essa análise ao distinguir claramente o
conhecimento intelectual do progresso moral. Em O Livro dos Espíritos,
os ensinamentos mostram que o Espírito pode compreender as leis morais antes de
conseguir vivê-las plenamente, pois a verdadeira assimilação ocorre por meio da
experiência repetida e consciente.
A Revista
Espírita registra diversas reflexões de Allan Kardec sobre a diferença
entre “compreender o bem” e “praticar o bem”. O conselho bem formulado revela
que o indivíduo já alcançou certo grau de entendimento moral; contudo, a
dificuldade em aplicá-lo a si mesmo indica que ainda enfrenta resistências
íntimas, imperfeições e hábitos arraigados que fazem parte do seu estágio
evolutivo.
Sob
essa ótica, a situação não configura hipocrisia, mas sim um retrato fiel do
Espírito em processo de transformação íntima. O conhecimento antecede a
vivência, assim como a teoria antecede o domínio prático em qualquer campo do
aprendizado humano.
O Papel das Provações e da Consciência
Na
perspectiva espírita, as dificuldades pessoais funcionam como provas
educativas. Ao vivenciar aquilo que antes apenas orientava nos outros, o
indivíduo é convidado a consolidar, pela experiência, o valor real do conselho
que proferiu. A consciência, então, passa a atuar como instrumento pedagógico,
revelando a incoerência não para condenar, mas para ensinar.
Esse
mecanismo favorece o desenvolvimento da humildade e da empatia. Quem
experimenta a própria fragilidade torna-se mais compreensivo com as limitações
alheias, abandonando julgamentos severos. Kardec frequentemente enfatiza que o
verdadeiro progresso moral se manifesta menos pelo discurso e mais pelo esforço
sincero de melhoria, ainda que imperfeito.
Utilidade do Ato de Aconselhar
Mesmo
quando o conselheiro não consegue aplicar plenamente o que orienta, o ato de
aconselhar não é inútil. Pelo contrário, ele possui valor educativo duplo:
- Para quem aconselha, o exercício de
formular orientações morais organiza ideias, reforça princípios e pode
gerar futuros insights. A percepção da própria incoerência, longe de ser
um fracasso, pode tornar-se um ponto de partida para mudanças mais
profundas quando o Espírito estiver mais preparado.
- Para quem recebe o
conselho,
a utilidade é direta. A orientação externa oferece clareza e objetividade
em momentos de confusão emocional. A validade do conselho não depende da
perfeição moral de quem o transmite, mas da verdade que ele encerra.
A
Doutrina Espírita ensina que ninguém é portador absoluto da virtude, mas todos
podem ser instrumentos do bem, ainda que imperfeitamente.
Hipocrisia ou Fraqueza Humana?
A
hipocrisia pressupõe intenção consciente de enganar ou de se colocar moralmente
acima dos outros. No caso analisado, o que se observa é, na maioria das vezes,
a luta íntima entre o ideal já compreendido e a realidade emocional ainda não
dominada. Trata-se de fraqueza humana, não de má-fé.
Reconhecer
essa dinâmica permite substituir o julgamento pela compreensão e o orgulho pela
humildade. A experiência compartilhada — aconselhar e, depois, lutar para
aplicar o próprio conselho — constitui valiosa oportunidade de aprendizado
moral, em consonância com a lei de progresso ensinada pelos Espíritos.
Conclusão
A
discrepância entre aconselhar bem e viver com dificuldade o que se aconselha
não é sinal de inutilidade moral, mas expressão do caminho evolutivo do
Espírito. A psicologia explica o fenômeno pelos limites emocionais e cognitivos
do ser humano; a Doutrina Espírita o amplia, mostrando que o conhecimento moral
antecede a vivência transformadora.
Entre
o conselho e a prática existe um campo educativo onde a consciência desperta, o
orgulho cede lugar à humildade e o Espírito aprende, passo a passo, a converter
entendimento em ação. Nesse processo, errar tentando viver o bem vale mais do
que ignorá-lo por completo, pois cada esforço sincero aproxima o ser humano da
coerência interior que caracteriza o verdadeiro progresso moral.
Referências
- KARDEC, Allan. O
Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O
Evangelho Segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. A
Gênese.
- KARDEC, Allan. Revista
Espírita (1858–1869).
- BAUMEISTER, Roy F.;
TIERNEY, John. Willpower: Rediscovering the Greatest Human Strength.
- GROSSMANN, Igor et
al. “Reasoning About Social Conflicts Improves Wise Reasoning.” Psychological
Science, estudos sobre o Paradoxo de Salomão.
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