segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O TEMPO, A VIDA E A CONSCIÊNCIA
UMA LEITURA ESPÍRITA SOBRE A IMPERMANÊNCIA
- A Era do Espírito –

Introdução

A percepção do tempo acompanha a humanidade desde seus primórdios. Ele organiza a vida social, estrutura a memória e orienta a experiência individual. Contudo, raramente refletimos sobre sua natureza mais profunda e sobre o modo como o utilizamos no curso da existência. Este artigo propõe uma reflexão serena sobre a brevidade da vida corporal, o valor dos afetos e a necessidade de viver com consciência, sem nos deixarmos absorver pelas distrações do cotidiano.

À luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, o tempo não se limita a uma medida cronológica. Ele se apresenta como instrumento educativo do Espírito imortal, constituindo campo de provas, aprendizado e progresso, no qual cada existência corporal representa uma etapa transitória da longa jornada evolutiva.

A brevidade da vida corporal e a ilusão do tempo

O Espiritismo ensina que a vida material, mesmo quando aparentemente longa, é apenas um instante diante da eternidade do Espírito. Em O Livro dos Espíritos, aprendemos que o Espírito é criado simples e ignorante, progredindo por meio de múltiplas existências corporais, cada uma delimitada pelas condições do tempo.

Essa transitoriedade da encarnação explica por que a existência humana é frequentemente comparada a um sopro. O tempo atua, muitas vezes, como um verdadeiro “ilusionista”: envolve-nos em rotinas, expectativas e preocupações que nos fazem acreditar que sempre haverá um depois. Assim, deixamos escapar oportunidades valiosas de amar, aprender e servir.

A Revista Espírita registra, em diversos estudos e observações morais, que o apego excessivo às coisas passageiras constitui uma das principais causas do sofrimento humano, justamente porque o Espírito se esquece da natureza temporária da experiência corporal.

Tempo, consciência e responsabilidade moral

Na perspectiva espírita, o tempo é também um recurso moral. Cada minuto vivido representa uma possibilidade concreta de crescimento interior. O uso consciente do tempo está diretamente relacionado à responsabilidade do Espírito perante a lei de progresso.

Não se trata de viver sob ansiedade ou urgência constante, mas de compreender que as horas não retornam e que cada escolha imprime marcas na consciência. Kardec destaca que o verdadeiro valor do Espírito não se mede por feitos espetaculares, mas pela fidelidade aos deveres cotidianos, muitas vezes silenciosos, simples e discretos.

Nesse sentido, o convite a não se deixar absorver pelas “miudezas” da vida diária encontra plena ressonância na Doutrina Espírita. As distrações excessivas, o apego às aparências e a busca incessante por reconhecimento social desviam o Espírito do essencial: o aperfeiçoamento moral e o cultivo dos afetos legítimos.

Afetos, perdas e amadurecimento espiritual

A imprevisibilidade da vida convida à vigilância afetiva e à disponibilidade sincera para amar. A Doutrina Espírita esclarece que os laços verdadeiros não se rompem com a morte, mas se transformam. Ainda assim, a separação temporária imposta pela desencarnação constitui prova sensível para o Espírito encarnado.

Por essa razão, valorizar a convivência, o diálogo e o cuidado mútuo é exercício de sabedoria. Amar no presente é forma de preparação para o futuro espiritual, pois os vínculos construídos com respeito, ternura e responsabilidade ultrapassam os limites da experiência material.

A consciência da finitude do corpo não deve gerar medo, mas lucidez. Ela ensina a relativizar dores, superar ressentimentos e priorizar aquilo que efetivamente contribui para a paz interior e o equilíbrio da consciência.

Natureza, sensibilidade e educação do Espírito

Outro aspecto relevante dessa reflexão é o convite à contemplação da natureza. A Doutrina Espírita reconhece na criação um reflexo da inteligência divina. Observar a beleza natural, respeitar a vida em suas múltiplas manifestações e sentir-se parte da “casa planetária” favorece o equilíbrio emocional e o despertar espiritual.

Em A Gênese, Kardec explica que as leis naturais são expressões da ordem divina. Viver em harmonia com elas — nos planos físico, moral e espiritual — contribui para o uso mais consciente do tempo e para a formação de uma consciência ampliada, sensível e solidária.

O tempo como aliado do progresso

Transformar o tempo de adversário em aliado é compreender sua função educativa. As horas vividas entre o nascer e o pôr do sol, quando bem aproveitadas, tornam-se instrumentos de aprendizado, trabalho útil, estudo e cultivo do sentimento.

A Doutrina Espírita não propõe fuga do mundo, mas equilíbrio entre deveres e repouso, razão e sensibilidade, ação e reflexão. Essa “arte de viver”, construída gradualmente, acompanha o amadurecimento do Espírito, que aprende a não se deixar iludir pelas aparências transitórias da existência.

Considerações finais

O tempo, embora ilusório quando considerado como valor absoluto, é real em seus efeitos educativos. Cada existência corporal representa uma oportunidade concedida ao Espírito para avançar alguns passos na senda do progresso. Usar bem as horas é respeitar a si mesmo, aos outros e às leis que regem a vida.

À luz da Doutrina Espírita, viver com consciência do tempo não significa pressa, mas presença; não é angústia, mas responsabilidade; não é medo da morte, mas valorização da vida. Assim, entre o início e o fim de cada jornada, cabe a cada Espírito transformar o tempo em experiência significativa e em aprendizado duradouro.

Referências

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
KARDEC, Allan. A Gênese.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
ZAGHETTO, Sonia. O tempo, Sofia. Texto reflexivo.

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