Introdução
A
percepção do tempo acompanha a humanidade desde seus primórdios. Ele organiza a
vida social, estrutura a memória e orienta a experiência individual. Contudo,
raramente refletimos sobre sua natureza mais profunda e sobre o modo como o
utilizamos no curso da existência. Este artigo propõe uma reflexão serena sobre
a brevidade da vida corporal, o valor dos afetos e a necessidade de viver com
consciência, sem nos deixarmos absorver pelas distrações do cotidiano.
À luz
da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, o tempo não se limita a uma
medida cronológica. Ele se apresenta como instrumento educativo do Espírito
imortal, constituindo campo de provas, aprendizado e progresso, no qual cada
existência corporal representa uma etapa transitória da longa jornada
evolutiva.
A brevidade da vida corporal e a ilusão do tempo
O
Espiritismo ensina que a vida material, mesmo quando aparentemente longa, é
apenas um instante diante da eternidade do Espírito. Em O Livro dos
Espíritos, aprendemos que o Espírito é criado simples e ignorante,
progredindo por meio de múltiplas existências corporais, cada uma delimitada
pelas condições do tempo.
Essa
transitoriedade da encarnação explica por que a existência humana é
frequentemente comparada a um sopro. O tempo atua, muitas vezes, como um
verdadeiro “ilusionista”: envolve-nos em rotinas, expectativas e preocupações
que nos fazem acreditar que sempre haverá um depois. Assim, deixamos escapar
oportunidades valiosas de amar, aprender e servir.
A Revista
Espírita registra, em diversos estudos e observações morais, que o apego
excessivo às coisas passageiras constitui uma das principais causas do
sofrimento humano, justamente porque o Espírito se esquece da natureza
temporária da experiência corporal.
Tempo, consciência e responsabilidade moral
Na
perspectiva espírita, o tempo é também um recurso moral. Cada minuto vivido
representa uma possibilidade concreta de crescimento interior. O uso consciente
do tempo está diretamente relacionado à responsabilidade do Espírito perante a
lei de progresso.
Não se
trata de viver sob ansiedade ou urgência constante, mas de compreender que as
horas não retornam e que cada escolha imprime marcas na consciência. Kardec
destaca que o verdadeiro valor do Espírito não se mede por feitos
espetaculares, mas pela fidelidade aos deveres cotidianos, muitas vezes
silenciosos, simples e discretos.
Nesse
sentido, o convite a não se deixar absorver pelas “miudezas” da vida diária
encontra plena ressonância na Doutrina Espírita. As distrações excessivas, o
apego às aparências e a busca incessante por reconhecimento social desviam o
Espírito do essencial: o aperfeiçoamento moral e o cultivo dos afetos
legítimos.
Afetos, perdas e amadurecimento espiritual
A
imprevisibilidade da vida convida à vigilância afetiva e à disponibilidade
sincera para amar. A Doutrina Espírita esclarece que os laços verdadeiros não
se rompem com a morte, mas se transformam. Ainda assim, a separação temporária
imposta pela desencarnação constitui prova sensível para o Espírito encarnado.
Por essa
razão, valorizar a convivência, o diálogo e o cuidado mútuo é exercício de
sabedoria. Amar no presente é forma de preparação para o futuro espiritual,
pois os vínculos construídos com respeito, ternura e responsabilidade
ultrapassam os limites da experiência material.
A
consciência da finitude do corpo não deve gerar medo, mas lucidez. Ela ensina a
relativizar dores, superar ressentimentos e priorizar aquilo que efetivamente
contribui para a paz interior e o equilíbrio da consciência.
Natureza, sensibilidade e educação do Espírito
Outro
aspecto relevante dessa reflexão é o convite à contemplação da natureza. A
Doutrina Espírita reconhece na criação um reflexo da inteligência divina.
Observar a beleza natural, respeitar a vida em suas múltiplas manifestações e
sentir-se parte da “casa planetária” favorece o equilíbrio emocional e o
despertar espiritual.
Em A
Gênese, Kardec explica que as leis naturais são expressões da ordem divina.
Viver em harmonia com elas — nos planos físico, moral e espiritual — contribui
para o uso mais consciente do tempo e para a formação de uma consciência
ampliada, sensível e solidária.
O tempo como aliado do progresso
Transformar
o tempo de adversário em aliado é compreender sua função educativa. As horas
vividas entre o nascer e o pôr do sol, quando bem aproveitadas, tornam-se
instrumentos de aprendizado, trabalho útil, estudo e cultivo do sentimento.
A
Doutrina Espírita não propõe fuga do mundo, mas equilíbrio entre deveres e
repouso, razão e sensibilidade, ação e reflexão. Essa “arte de viver”,
construída gradualmente, acompanha o amadurecimento do Espírito, que aprende a
não se deixar iludir pelas aparências transitórias da existência.
Considerações finais
O
tempo, embora ilusório quando considerado como valor absoluto, é real em seus
efeitos educativos. Cada existência corporal representa uma oportunidade
concedida ao Espírito para avançar alguns passos na senda do progresso. Usar
bem as horas é respeitar a si mesmo, aos outros e às leis que regem a vida.
À luz
da Doutrina Espírita, viver com consciência do tempo não significa pressa, mas
presença; não é angústia, mas responsabilidade; não é medo da morte, mas
valorização da vida. Assim, entre o início e o fim de cada jornada, cabe a cada
Espírito transformar o tempo em experiência significativa e em aprendizado
duradouro.
Referências
KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos.
KARDEC, Allan. A Gênese.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo.
KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
ZAGHETTO, Sonia. O tempo, Sofia. Texto reflexivo.
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