Introdução
Quando indagado acerca
do maior mandamento da Lei, Jesus respondeu:
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de
toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o maior e o primeiro
mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti
mesmo” (Mt
22:37-39).
E, completando o ensino,
afirmou:
“Tudo o que quiserdes que os homens vos façam,
fazei-o vós também a eles” (Mt 7:12).
Essas palavras não
constituem apenas recomendações morais isoladas. Representam a síntese da Lei
Divina, a passagem da obediência exterior (“não
faça”) para a vivência interior (“como
amar”). A Doutrina Espírita, fundamentada no ensino dos Espíritos e
organizada metodicamente por Allan Kardec, reconhece nesses princípios a base
de toda a evolução moral do Espírito.
À luz do Evangelho e das
obras fundamentais, especialmente O Evangelho segundo o Espiritismo e O
Livro dos Espíritos, examinemos como o amor a Deus e ao próximo se traduz
em atitudes concretas — inclusive nos pequenos detalhes da vida diária, como o
controle da palavra e o valor do silêncio.
1. A
unificação dos amores: Deus e o próximo
Ao afirmar que o segundo
mandamento é “semelhante” ao
primeiro, Jesus estabelece uma verdade profunda: não é possível amar
verdadeiramente a Deus sem amar o próximo.
O amor a Deus não se
limita ao culto ou à declaração verbal. Ele se comprova na prática da
benevolência. Amar o próximo é amar a imagem viva da criação divina.
Além disso, o Mestre
acrescenta um elemento essencial: amar de “todo
coração, alma e entendimento”. O amor não deve ser apenas emocional, nem
apenas intelectual. Ele envolve sentimento, vontade e razão. A fé não é cega; é
consciente. A inteligência deve participar da escolha do bem.
A Doutrina Espírita
reforça essa ideia ao apresentar a Lei de Justiça, Amor e Caridade como
expressão da Lei Natural (O Livro dos
Espíritos, questão 648). O progresso moral depende da harmonização entre
sentimento e discernimento.
2. A
Regra de Ouro como método prático
Se o mandamento do amor
é o objetivo, a Regra de Ouro é o método.
“Tudo o que quiserdes que os homens vos façam,
fazei-o vós também a eles.” Não se trata apenas de evitar o mal, mas de
praticar ativamente o bem. Jesus não diz apenas: “Não façais ao outro o que não quereis para vós”. Ele diz: “Fazei”.
Essa orientação exige
empatia e imaginação moral. Antes de agir, o indivíduo deve perguntar: “Se eu estivesse na posição dele, como
gostaria de ser tratado?”
A Doutrina Espírita
interpreta esse princípio como fundamento da caridade autêntica. Kardec define
a caridade, segundo Jesus, como:
“Benevolência para com todos, indulgência para as
imperfeições dos outros e perdão das ofensas” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap.
XV).
A Regra de Ouro não é
apenas norma social; é critério de autoavaliação constante.
3. O
amor nas pequenas coisas: o verdadeiro teste
Curiosamente, para
muitos, é mais fácil realizar grandes atos de solidariedade do que dominar
pequenas reações cotidianas.
Grandes ações — doações
públicas, auxílio em tragédias, gestos heroicos — despertam forte consciência
moral e, frequentemente, reconhecimento social. Já os pequenos detalhes
acontecem no campo do automatismo.
A palavra impensada, o
tom áspero, o comentário precipitado surgem no “piloto automático”. A
vigilância diminui, sobretudo nos ambientes familiares, onde relaxamos o
autocontrole.
Entretanto, conforme
ensina O Evangelho segundo o Espiritismo (cap. XVII), o verdadeiro adepto da Doutrina Espírita se
reconhece pela transformação moral e pelo esforço em domar suas más inclinações.
Essas inclinações raramente se apresentam como grandes crimes, mas como
impaciência, irritação, orgulho ferido e julgamento precipitado.
A Epístola de Tiago
compara a língua a um pequeno leme que governa grande navio (Tg 3:2-5). A
imagem é precisa: a palavra dirige o clima moral das relações.
Num mundo atual marcado
pela comunicação instantânea — redes sociais, mensagens rápidas, opiniões
impulsivas — a responsabilidade sobre a palavra torna-se ainda maior. Nunca foi tão fácil ferir; nunca foi tão
necessário vigiar.
4. O
silêncio como expressão de amor
Sob a ótica da Regra de
Ouro, o silêncio consciente é frequentemente a forma mais elevada de caridade.
Quando alguém sente o
impulso de reagir com agressividade verbal e escolhe calar-se, está aplicando
imediatamente o princípio evangélico. Está interrompendo a propagação de uma
corrente negativa.
O silêncio, nesse
contexto, não é omissão covarde, mas domínio de si. É o filtro que impede que o
“lixo emocional” se espalhe.
A Doutrina Espírita
ensina que somos responsáveis pelas vibrações que emitimos. Ao responder à
agressão com nova agressão, tornamo-nos cooperadores da desarmonia. Ao manter
serenidade, preservamos nossa própria paz e contribuímos para atenuar o
conflito.
O exemplo de Jesus
diante de seus acusadores (Mt 27:12-14) ilustra esse ponto. Seu silêncio não
foi fraqueza, mas superioridade moral. Ele não precisava defender o ego;
mantinha-se fiel à consciência.
Silenciar, muitas vezes,
é escolher não lançar a “segunda flecha” após a dor inicial. É permitir que o
entendimento governe o impulso.
5.
Servir: o amor em movimento
A Regra de Ouro atinge
sua expressão máxima no serviço ao próximo.
Servir como gostaríamos
de ser servidos é tornar concreto o amor. A vida oferece, diariamente,
oportunidades simples: uma palavra de encorajamento, um gesto de acolhimento,
um auxílio material, uma escuta atenta.
Jesus exemplificou esse
ensino na parábola do Bom Samaritano (Lc 10:33-35) e no gesto silencioso da
viúva que ofertou o que tinha (Mc 12:41-44). A Doutrina Espírita recorda que:
“Não há dia em que não possais fazer o bem” (O Livro dos Espíritos,
questão 643).
A riqueza, ensina ainda
o Evangelho, é prova delicada, pois pode alimentar o egoísmo (cap. XVI). O
verdadeiro mérito está em servir sem ostentação, conforme a orientação: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a
tua direita” (Mt 6:3; cf. O Livro dos
Espíritos, questão 888-a).
Servir é o amor em ação.
Mas servir discretamente, sem vaidade, é amor amadurecido.
6. A
microética que molda o Espírito
A evolução moral não se
constrói apenas em atos extraordinários, mas na repetição diária de escolhas
conscientes.
Controlar a palavra,
evitar a crítica destrutiva, praticar o silêncio oportuno, oferecer auxílio sem
alarde — tudo isso compõe a “microética”
do cotidiano.
É nessa esfera
aparentemente pequena que o Espírito realmente cresce. O domínio de si é
conquista gradual, resultado de vigilância e esforço.
A Regra de Ouro,
aplicada nos detalhes, transforma o clima íntimo. O verdadeiro alívio não está
em descarregar impulsos, mas em perceber que não somos mais escravos deles.
Conclusão
O amor a Deus e ao
próximo constitui a síntese da Lei Divina. A Regra de Ouro é seu método
prático. A caridade é sua expressão concreta.
Se todas as leis morais
se resumem ao ato de amar, então cada palavra, cada silêncio e cada gesto
tornam-se oportunidades de crescimento espiritual.
Num mundo que valoriza
grandes feitos visíveis, o Evangelho recorda que a verdadeira grandeza se
manifesta nos detalhes invisíveis.
Viver o ideal nos
pequenos atos de cada hora é o caminho seguro da transformação moral. Amar,
servir e silenciar quando necessário são formas de construir, desde agora, a
harmonia que desejamos experimentar plenamente como Espíritos imortais.
Referências
- BÍBLIA
SAGRADA. Mateus 7:12; 22:37-39; 27:12-14; Lucas 6:31; 10:33-35; 23:26;
Marcos 12:41-44; Tiago 3:2-5.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 643, 648 e 888-a.
- KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulos XI, XV, XVI e
XVII.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita (1858–1869).
- XAVIER,
Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Vinha de Luz.
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