Introdução
A Doutrina
Espírita, conforme organizada por Allan Kardec, oferece uma explicação clara,
racional e progressiva acerca da constituição do ser humano e de sua relação
com os mundos material e espiritual. Distanciando-se de concepções meramente
materialistas ou místicas, essa visão fundamenta-se na observação dos fatos, na
lógica e no ensino concorde dos Espíritos.
Para
compreender essa estrutura, é indispensável distinguir — sem separar — três
noções fundamentais: alma, Espírito e homem. Embora
interligadas, elas correspondem a estados e funções diferentes do mesmo
princípio inteligente ao longo de sua jornada evolutiva.
1. A Alma: o Princípio Inteligente Individualizado
Em O
Livro dos Espíritos, questão 23, o espírito (com “e” minúsculo) é definido
como o princípio inteligente do Universo, criado simples e ignorante,
destinado ao progresso até a perfeição possível.
Quando esse
princípio inteligente se individualiza e anima um corpo físico por intermédio
do perispírito, ele recebe o nome de alma. A alma é, portanto, o núcleo
consciente do ser: pensa, sente, decide, aprende e responde moralmente por seus
atos. Ela sobrevive à morte do corpo e prossegue sua evolução, seja no mundo
espiritual, seja em novas experiências corporais.
Convém
notar a distinção terminológica adotada pela Doutrina:
- espírito (minúsculo) refere-se ao princípio inteligente em sua essência;
- Espírito (maiúsculo) designa esse mesmo princípio quando individualizado e
revestido de perispírito, encarnado ou desencarnado.
2. O Espírito: o Ser Duplo
A morte não
reduz o ser ao nada nem o despoja de toda forma. Fora da encarnação, o
princípio inteligente permanece ligado ao perispírito, envoltório
semimaterial que conserva sua individualidade, memória e caráter.
Desse modo,
o Espírito é um ser duplo, composto por:
- a alma (princípio inteligente);
- o perispírito, corpo fluídico
intermediário entre o plano espiritual e o material.
Essa
constituição explica a sobrevivência da consciência após a morte, as
manifestações espirituais e a possibilidade de comunicação entre os dois planos
da vida, temas amplamente analisados na Revista Espírita.
3. O Homem: o Ser Triplo
Durante a
encarnação, o Espírito se liga temporariamente a um corpo físico, formando o homem,
definido pela Doutrina como um ser triplo:
- Corpo físico – instrumento de ação no mundo material;
- Perispírito – elo de ligação entre corpo e alma, transmissor das sensações e
impulsos;
- Alma – o
princípio inteligente que dirige o conjunto, confere identidade e orienta
o progresso.
Essa
composição tripartida permite compreender, de maneira lógica, os fenômenos da
vida orgânica, da morte, da mediunidade, do sofrimento e da evolução
espiritual, sem recorrer a explicações sobrenaturais.
4. Fundamentação Doutrinária
Em O que
é o Espiritismo, capítulo II (Noções Elementares de Espiritismo),
Kardec apresenta de forma didática os fundamentos dessa estrutura:
- a alma, revestida de perispírito,
constitui o Espírito encarnado;
- o homem é formado por corpo, perispírito
e alma;
- a imortalidade da alma é uma verdade
fundamental;
- a distinção entre alma (espírito) e
Espírito refere-se a estados e funções, não a naturezas diferentes.
Esses
princípios são constantemente retomados e esclarecidos nos estudos publicados
na Revista Espírita, onde Kardec aprofunda o entendimento da alma como
ser moral, dotado de livre-arbítrio e responsável por seu próprio progresso.
5. Síntese Didática
- Alma (ou espírito): princípio inteligente individualizado, simples, imortal e
perfectível.
- Espírito: alma revestida de perispírito; ser duplo que habita o mundo
espiritual.
- Homem:
Espírito encarnado; ser triplo que atua temporariamente no mundo material.
Conclusão
Essa
organização conceitual, conforme a Codificação Espírita, amplia a compreensão
do ser humano para além do corpo físico. O homem é um Espírito em jornada
evolutiva, que utiliza a matéria como instrumento de aprendizado e
aperfeiçoamento moral.
A alma
constitui o núcleo do ser; o Espírito é esse mesmo princípio com sua vestimenta
fluídica; e o homem é a expressão transitória do Espírito encarnado. Essa visão
responde, de modo coerente e racional, às grandes questões da existência: de
onde viemos, para onde vamos, por que sofremos e qual o sentido da vida.
Ao integrar
razão, observação e moral, a Doutrina Espírita oferece uma leitura clara da
condição humana, convidando cada indivíduo a compreender-se como ser imortal em
constante processo de evolução.
Referências
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos,
questões 23 e correlatas.
- Allan Kardec. O que é o Espiritismo,
cap. II – Noções Elementares de Espiritismo.
- Allan Kardec. Revista Espírita.
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