Uma pequena noz, ao escapar do
bico de um corvo, encontrou abrigo na fresta de um campanário. Apesar do alerta
dos sinos, o muro decidiu acolhê-la, julgando-a inofensiva. Com o tempo, porém,
a semente lançou raízes, cresceu silenciosamente e acabou por romper as pedras
que a sustentavam, provocando a ruína da própria estrutura que lhe dera abrigo.
Assim também ocorre na vida
moral: pequenas concessões, quando não vigiadas, podem transformar-se em forças
capazes de abalar toda a edificação da consciência.
Introdução
A antiga fábula da noz
que, acolhida numa fresta do campanário, acabou por derrubar o muro que a
abrigara, encerra profunda lição moral. Pequena e aparentemente inofensiva, a
semente, ao encontrar condições favoráveis, desenvolveu raízes vigorosas que comprometeram
a estrutura de pedra. O que parecia insignificante revelou-se decisivo.
À luz da Doutrina
Espírita — revelada pelos Espíritos sob método e organizada por Allan Kardec —
essa imagem simbólica encontra perfeita correspondência com os mecanismos da
vida moral. Pensamentos, inclinações e hábitos constituem verdadeiras sementes
psíquicas. Uma vez admitidos na intimidade da consciência, tendem a crescer
segundo a natureza que lhes é própria.
Em tempos atuais,
marcados pela velocidade da informação, pela amplificação das emoções nas redes
sociais e pela fragilidade das relações humanas, a metáfora das sementes
revela-se ainda mais oportuna.
A Lei
de Causa e Efeito no Campo Moral
O ensino espírita
demonstra que o Espírito é o autor de seu próprio progresso. Em O Livro dos
Espíritos (q. 115 e 909), aprendemos que a imperfeição moral é resultado do
predomínio das más inclinações e que o verdadeiro combate se trava no íntimo.
Nenhuma transformação se
opera subitamente. Assim como a noz não derrubou o muro no primeiro instante,
também as quedas morais raramente são imediatas. Elas começam por concessões
mínimas: uma palavra impensada, um julgamento precipitado, um sentimento alimentado
em silêncio.
A lei de causa e efeito
atua tanto no plano material quanto no moral. Um pensamento cultivado
converte-se em hábito; o hábito, em caráter; o caráter, em destino.
As
Sementes Destrutivas na Atualidade
A semente da fofoca, por
exemplo, nunca foi tão fértil quanto na era digital. Uma informação distorcida
pode se espalhar em segundos, alcançando milhares de pessoas. Estudos
contemporâneos sobre comportamento social indicam que conteúdos negativos
tendem a gerar maior engajamento emocional — o que explica a rápida propagação
de boatos e ataques virtuais.
Do ponto de vista
espiritual, cada palavra carregada de maledicência cria vínculos fluídicos de
perturbação. A Revista Espírita (1858–1869) registra diversos casos em
que pensamentos hostis alimentavam processos obsessivos, evidenciando que o mal
moral encontra ressonância nas afinidades espirituais.
O mau humor constante,
quando transformado em postura habitual, produz ambiente psíquico pesado,
favorecendo desarmonias familiares e profissionais. O ciúme, alimentado pela
insegurança e pelo orgulho, é reconhecido como uma das paixões que mais
escravizam o Espírito, pois nasce do egoísmo — raiz de muitos sofrimentos
humanos (cf. O Livro dos Espíritos, q. 913).
Como a noz na fresta do
muro, essas disposições parecem pequenas no início. Contudo, quando nutridas
pela repetição e justificadas pelo orgulho, criam fissuras profundas nas
estruturas afetivas.
O
Discernimento como Sino de Alerta
Na fábula, os sinos
advertiram o muro sobre o risco de acolher o corpo estranho. Essa imagem
simboliza a consciência — voz interior que nos alerta quanto às escolhas
morais.
A Doutrina Espírita
ensina que a consciência é reflexo da lei divina inscrita no Espírito (cf. O
Livro dos Espíritos, q. 621). Sempre que silenciamos essa advertência
íntima, permitimos que a semente inadequada encontre abrigo.
O problema raramente
está na aproximação da semente — pensamentos surgem naturalmente — mas na
permissão para que permaneça e se desenvolva. Vigilância e oração, recomendadas
pelo Cristo, traduzem-se, no entendimento espírita, por atenção constante aos próprios
sentimentos e esforço ativo de renovação.
As
Sementes Regeneradoras
Se há sementes que
destroem, há igualmente as que edificam.
A tolerância, quando
cultivada, rompe muros de separação. Em sociedades polarizadas, onde opiniões
divergentes frequentemente se convertem em antagonismos, a disposição para
compreender antes de julgar torna-se instrumento de pacificação.
O espírito de
cooperação, tão necessário em tempos de desafios globais — crises ambientais,
desigualdades sociais, conflitos culturais — representa força agregadora. Obras
complementares do Espiritismo, como Evolução em Dois Mundos, destacam a
importância da solidariedade como mecanismo de progresso coletivo.
Entretanto, é o amor —
entendido não como emoção passageira, mas como princípio ativo de benevolência
— que constitui a semente mais transformadora. Em O Evangelho segundo o
Espiritismo, o amor ao próximo é apresentado como síntese da lei divina.
Quando essa semente
encontra ao menos uma fresta de boa vontade, desenvolve virtudes que se
refletem no ambiente, modificando relações e inspirando atitudes construtivas.
O
Coração como Solo Fértil
O Espírito encarnado
vive cercado de influências. Contudo, é senhor de suas escolhas. O coração
humano, entendido como centro simbólico das decisões morais, não pode ser
simultaneamente campo de discórdia e jardim de fraternidade. A seleção é
inevitável.
A fábula ensina que a
omissão também é escolha. O muro não caiu por violência externa, mas por
acolher, sem discernimento, aquilo que comprometeu sua estrutura.
Do mesmo modo, nossas
quedas raramente decorrem apenas das circunstâncias externas; resultam,
sobretudo, das sementes que permitimos germinar.
Conclusão
Vivemos época de
intensas transformações sociais e tecnológicas. Nunca houve tantas
possibilidades de comunicação e, paradoxalmente, tantos conflitos nas relações
humanas. Isso demonstra que o progresso material não substitui o
aperfeiçoamento moral.
À luz da Doutrina
Espírita, cada Espírito é responsável pelo cultivo do próprio campo interior.
Pensamentos são sementes; sentimentos, raízes; ações, frutos.
Há sementes e sementes.
O coração é um só.
Cabe a cada um escolher
quais ideias, emoções e atitudes deseja transformar em árvore frondosa. Pois,
inevitavelmente, aquilo que acolhemos crescerá — para edificar ou para
destruir.
Pensemos nisso e façamos
a opção consciente pelas sementes que produzem paz.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. A Gênese.
- KARDEC, Allan (dir.). Revista Espírita (1858–1869).
- XAVIER, Francisco Cândido (Espírito André Luiz). Evolução em Dois Mundos.
- Momento Espírita. Falando de sementes. Disponível em: momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=4705&stat=0
- DA VINCI, Leonardo. Fábulas. Cap. “A noz e o campanário”. Ed. Melhoramentos.
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