Introdução
O avanço tecnológico e a
expansão das redes de comunicação transformaram profundamente a forma como os
seres humanos se relacionam, aprendem e buscam sentido para a existência. No
campo espiritual, esse novo contexto suscita reflexões importantes, especialmente
no que se refere à mediunidade, à fé e à responsabilidade moral do indivíduo
diante das perdas, do sofrimento e da continuidade da vida.
A recorrente busca por
mensagens psicografadas de entes queridos, intensificada pela era digital,
levanta questionamentos legítimos: estaria a humanidade excessivamente
dependente de intermediários para se consolar? Estaríamos preparados para uma
fase evolutiva em que a consciência, mais do que os fenômenos, se torne o
principal guia espiritual?
À luz da Doutrina
Espírita codificada por Allan Kardec e dos ensinamentos constantes da Revista
Espírita (1858–1869), essa reflexão encontra fundamentos sólidos, alinhados
com a advertência pedagógica de Jesus: “Oh,
homens, até quando estarei convosco?”, expressão que simboliza o
chamado à maturidade espiritual e à autonomia moral.
A
Mediunidade no Contexto da Evolução Humana
A Doutrina Espírita
esclarece que a mediunidade é uma faculdade natural, inerente ao ser humano,
manifestando-se de formas variadas conforme o progresso moral e intelectual do
Espírito. Em suas formas ostensivas, ela teve papel relevante nas fases iniciais
da revelação espiritual, funcionando como instrumento educativo e consolador.
Entretanto, Allan Kardec
adverte, em diversas ocasiões, que os fenômenos mediúnicos não constituem um
fim em si mesmos. Seu valor reside no ensino moral que deles se extrai. A
dependência excessiva de manifestações extraordinárias pode indicar imaturidade
espiritual, semelhante àquela observada nos primeiros séculos da fé religiosa,
quando se buscavam sinais exteriores em detrimento da transformação interior.
Na era digital, a
facilidade de acesso à informação e a multiplicação de conteúdos espirituais
exigem ainda maior discernimento. O consolo legítimo não pode ser confundido
com dependência emocional ou espiritual, sob risco de se transformar a
mediunidade em “muleta psíquica”, conceito que contraria o objetivo educativo
da revelação espírita.
A
Advertência de Jesus e a Maturidade da Fé
A exclamação de Jesus — “Oh, homens, até quando estarei convosco?”
— registrada nos Evangelhos sinópticos, ultrapassa o episódio histórico em que
foi pronunciada. Ela representa uma advertência universal dirigida à humanidade
ainda presa à fé exterior, dependente da presença física do instrutor e pouco
habituada ao exercício consciente da responsabilidade moral.
No episódio em questão,
os discípulos falham não por ausência de recursos espirituais, mas por
insegurança interior e falta de convicção. A fé, naquele estágio, ainda não
havia sido assimilada como compreensão íntima das leis divinas.
A Doutrina Espírita
interpreta essa passagem como expressão de um estágio coletivo da evolução
humana, no qual a fé instintiva precisava gradualmente ceder lugar à fé
raciocinada, fundamentada na compreensão das causas, conforme ensina O
Evangelho segundo o Espiritismo (cap. XIX).
Fé
Raciocinada e Autonomia da Consciência
Allan Kardec distingue
claramente a fé baseada na aceitação passiva da fé raciocinada, que se apoia no
entendimento das leis naturais e morais. Esta última não rejeita o sentimento,
mas o ilumina pela razão, permitindo que o Espírito creia porque compreende, e
não apenas porque lhe foi dito.
Essa transição marca um
ponto decisivo no progresso espiritual da humanidade. A fé raciocinada não teme
o avanço do conhecimento nem o confronto com a ciência, pois reconhece que a
verdade, sendo divina, não pode contradizer a razão.
Nesse sentido, a
mediunidade ostensiva tende a perder protagonismo à medida que o ser humano
desenvolve sua capacidade de discernimento, intuição moral e responsabilidade
pessoal.
A Lei
de Deus Escrita na Consciência
Antes mesmo de qualquer
revelação exterior, a Doutrina Espírita ensina que a Lei de Deus está inscrita
na consciência de cada Espírito (O Livro dos Espíritos, questão 621).
Esse princípio estabelece a base da autonomia moral e do livre-arbítrio.
Jesus não veio
substituir a consciência humana, mas despertá-la. Seu ensino moral convida à
interiorização da lei divina, ao exercício do discernimento e à escolha
consciente do bem. A dependência contínua de orientações externas, quando já se
possui capacidade de compreender, representa atraso no processo evolutivo.
Assim, a advertência “até quando estarei convosco?” pode ser
compreendida como um apelo à emancipação espiritual, ao amadurecimento da fé e
à confiança na lei íntima que orienta o Espírito.
Ensino
Coletivo, Espírito de Verdade e Progresso Solidário
A Doutrina Espírita não
se estrutura sobre figuras centralizadoras ou revelações isoladas. Seu
fundamento reside no ensino coletivo dos Espíritos, submetido ao controle da
razão e da universalidade, conforme método estabelecido por Allan Kardec.
O Espírito de Verdade,
identificado com o Consolador prometido por Jesus, não se apresenta como fonte
exclusiva da Doutrina, mas como expressão de uma coletividade de Espíritos
superiores, encarregados de orientar o progresso moral da humanidade de forma
gradual e contínua.
Esse caráter coletivo
harmoniza-se com a evolução social observada desde o século XVIII,
intensificada no século XIX e amplamente desenvolvida na contemporaneidade:
trabalho cooperativo, organização social, educação compartilhada e
responsabilidade solidária.
A questão 888-a de O
Livro dos Espíritos, atribuída a São Vicente de Paulo, ilustra essa
dinâmica ao destacar que o progresso se realiza pela assistência mútua entre
Espíritos mais e menos adiantados.
Conclusão
A trajetória da fé
humana revela um movimento inequívoco: da crença exterior à convicção íntima;
da dependência ao discernimento; do personalismo à coletividade consciente. A
mediunidade, como instrumento educativo, cumpre seu papel quando conduz à autonomia
moral, e não quando perpetua a dependência emocional.
Na era digital e no
futuro que se anuncia, a responsabilidade espiritual tende a se deslocar cada
vez mais para o campo da consciência individual e coletiva. O ensino espírita,
fiel ao método que o sustenta, não impõe verdades, mas convida ao estudo, à reflexão
e à vivência do bem.
A advertência de Jesus
permanece atual porque continua a desafiar o Espírito humano a crescer,
compreender e agir com responsabilidade. Os tempos são chegados para que cada
um aprenda a caminhar com os próprios recursos morais, sustentado pela razão,
pelo sentimento esclarecido e pela consciência desperta.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 23, 76, 593, 621, 888-a, entre outras.
- KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, caps. VI e XIX.
- KARDEC, Allan. A Gênese, cap. I, itens 42 a 47; cap. XVII, edição de 1868.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869), especialmente fevereiro de 1865 e estudos correlatos sobre o Cristo, o Consolador e o Espírito de Verdade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário