Um menino de quatro anos, ao se preparar para dormir,
questiona a mãe sobre Deus: Seu nome e Seu tamanho. Ao ouvir que Deus é do
tamanho do Universo e está em todos os lugares, a criança reage com medo,
imaginando que, se Deus viesse visitá-lo, destruiria a casa por ser grande
demais para caber nela. A lógica infantil, simples e coerente, deixa a mãe
momentaneamente sem resposta e encerra a conversa, revelando como a ideia de
Deus, quando associada apenas à grandeza e ao poder, pode gerar temor em vez de
confiança.
Introdução
A cena singela de um
menino que teme a visita de Deus por imaginá-Lo grande demais para caber em sua
casa revela mais do que uma ingenuidade infantil. Ela expõe, de forma
simbólica, como a ideia de Deus se forma, se limita e se transforma conforme o
grau de compreensão do ser humano. Ao longo da história, a Humanidade projetou
no Criador suas próprias concepções, medos e expectativas. A Doutrina Espírita,
codificada por Allan Kardec a partir do ensino dos Espíritos, contribui de modo
decisivo para depurar essa visão, afastando imagens antropomórficas e
aproximando-nos de uma compreensão racional, moral e universal do Ser Supremo.
A
construção histórica da ideia de Deus
Durante longos períodos,
prevaleceu a concepção de um Deus personalista, dotado de forma humana, sujeito
a paixões, iras e preferências. Era um Deus poderoso, mas temido; soberano,
porém distante; justo apenas para alguns. Essa visão refletia o estágio moral e
intelectual das sociedades que a produziram.
A própria narrativa
bíblica mostra uma progressão nesse entendimento. Se, em determinado momento,
Deus aparece como legislador severo, em outro é apresentado como juiz rigoroso,
espelhando a necessidade educativa de povos ainda imaturos espiritualmente. A
Revelação, contudo, não é estática: ela acompanha o progresso humano.
Jesus
e a revelação do Deus-Pai
Com Jesus, a Humanidade
dá um salto qualitativo na compreensão do Criador. Ele não nega a soberania
divina, mas a redefine à luz do amor. Deus deixa de ser apenas o Senhor dos
Exércitos para ser o Pai misericordioso, que faz nascer o sol para bons e maus
e que não deseja a perda de nenhum de Seus filhos.
Essa mudança é profunda.
Pela primeira vez, o amor de Deus não é apenas exigido, mas revelado. O Criador
passa a ser apresentado como alguém que educa, sustenta, perdoa e conduz. A lei
divina deixa de ser vista como instrumento de punição e passa a ser compreendida
como caminho de crescimento e libertação.
O
Consolador Prometido e a visão racional de Deus
A Doutrina Espírita,
aprofunda e esclarece essa compreensão. Em O Livro dos Espíritos, Deus é
definido de maneira objetiva e filosófica como a Inteligência Suprema, causa
primária de todas as coisas (questão 1). Não é um ser localizado no espaço,
nem limitado por forma, tamanho ou matéria.
As qualidades divinas —
onipotência, onisciência, eternidade, imaterialidade e unicidade — são
apresentadas de modo coerente com a razão e em harmonia com as leis naturais.
Deus governa o Universo por leis sábias, justas e imutáveis, cuja finalidade é
o progresso dos Espíritos. Nada ocorre sem Sua ciência, mas isso não implica
arbitrariedade ou favoritismo.
A coleção da Revista
Espírita (1858–1869) reforça essa visão ao mostrar que os acontecimentos
humanos, individuais ou coletivos, estão inseridos em um conjunto maior de
causas e efeitos, sempre orientados para a educação moral do Espírito imortal.
Destruição,
transformação e sabedoria divina
Um dos equívocos mais
comuns na compreensão de Deus está na associação direta entre destruição e
castigo. A Doutrina Espírita esclarece que a destruição, longe de ser negação
da bondade divina, é uma das leis da Natureza. Nada se destrói sem finalidade. O
que parece ruína, muitas vezes, é apenas transformação necessária para o
surgimento de novas formas de vida, aprendizado e progresso.
Deus não cria para
destruir por capricho, mas para renovar, ajustar e conduzir. A destruição
material pode ser instrumento de renovação moral, individual ou coletiva,
sempre subordinada à justiça e à misericórdia.
A
maturidade espiritual e a ampliação da consciência
Assim como a criança do
relato inicial concebe Deus a partir de referências concretas e espaciais,
muitos adultos ainda limitam o Criador às suas próprias imagens mentais. A
maturidade espiritual consiste justamente em libertar-se dessas projeções e
aceitar que Deus é maior do que qualquer definição humana, sem ser distante ou
inacessível.
À medida que o Espírito
evolui, sua compreensão de Deus se amplia. Não para dominá-Lo intelectualmente,
o que seria impossível, mas para confiar mais profundamente em Suas leis. Deus
deixa de ser um medo que ameaça e passa a ser uma presença que sustenta.
Considerações
finais
A Doutrina Espírita nos
convida a repousar na certeza de que existe uma Inteligência Suprema governando
o Universo com justiça e amor. Esse Pai não invade nossa “casa pequena” para
destruí-la; ao contrário, sustenta-a com cuidado, mesmo quando não compreendemos
plenamente os caminhos da vida.
Confiar em Deus, à luz
do ensino dos Espíritos, não é um ato cego de fé, mas uma adesão consciente às
leis que regem o progresso moral e espiritual. É compreender que estamos em
aprendizado constante, conduzidos com sabedoria rumo à felicidade futura, ainda
que, por ora, só consigamos enxergar uma parte do caminho.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. A Gênese.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
- Momento Espírita. A visão que temos de Deus. Disponível em: momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=4805&let=V&stat=0
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