domingo, 8 de fevereiro de 2026

DO DEUS TEMIDO AO PAI REVELADO
A CONSTRUÇÃO DA IDEIA DE DEUS
- A Era do Espírito -

Um menino de quatro anos, ao se preparar para dormir, questiona a mãe sobre Deus: Seu nome e Seu tamanho. Ao ouvir que Deus é do tamanho do Universo e está em todos os lugares, a criança reage com medo, imaginando que, se Deus viesse visitá-lo, destruiria a casa por ser grande demais para caber nela. A lógica infantil, simples e coerente, deixa a mãe momentaneamente sem resposta e encerra a conversa, revelando como a ideia de Deus, quando associada apenas à grandeza e ao poder, pode gerar temor em vez de confiança.

Introdução

A cena singela de um menino que teme a visita de Deus por imaginá-Lo grande demais para caber em sua casa revela mais do que uma ingenuidade infantil. Ela expõe, de forma simbólica, como a ideia de Deus se forma, se limita e se transforma conforme o grau de compreensão do ser humano. Ao longo da história, a Humanidade projetou no Criador suas próprias concepções, medos e expectativas. A Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec a partir do ensino dos Espíritos, contribui de modo decisivo para depurar essa visão, afastando imagens antropomórficas e aproximando-nos de uma compreensão racional, moral e universal do Ser Supremo.

A construção histórica da ideia de Deus

Durante longos períodos, prevaleceu a concepção de um Deus personalista, dotado de forma humana, sujeito a paixões, iras e preferências. Era um Deus poderoso, mas temido; soberano, porém distante; justo apenas para alguns. Essa visão refletia o estágio moral e intelectual das sociedades que a produziram.

A própria narrativa bíblica mostra uma progressão nesse entendimento. Se, em determinado momento, Deus aparece como legislador severo, em outro é apresentado como juiz rigoroso, espelhando a necessidade educativa de povos ainda imaturos espiritualmente. A Revelação, contudo, não é estática: ela acompanha o progresso humano.

Jesus e a revelação do Deus-Pai

Com Jesus, a Humanidade dá um salto qualitativo na compreensão do Criador. Ele não nega a soberania divina, mas a redefine à luz do amor. Deus deixa de ser apenas o Senhor dos Exércitos para ser o Pai misericordioso, que faz nascer o sol para bons e maus e que não deseja a perda de nenhum de Seus filhos.

Essa mudança é profunda. Pela primeira vez, o amor de Deus não é apenas exigido, mas revelado. O Criador passa a ser apresentado como alguém que educa, sustenta, perdoa e conduz. A lei divina deixa de ser vista como instrumento de punição e passa a ser compreendida como caminho de crescimento e libertação.

O Consolador Prometido e a visão racional de Deus

A Doutrina Espírita, aprofunda e esclarece essa compreensão. Em O Livro dos Espíritos, Deus é definido de maneira objetiva e filosófica como a Inteligência Suprema, causa primária de todas as coisas (questão 1). Não é um ser localizado no espaço, nem limitado por forma, tamanho ou matéria.

As qualidades divinas — onipotência, onisciência, eternidade, imaterialidade e unicidade — são apresentadas de modo coerente com a razão e em harmonia com as leis naturais. Deus governa o Universo por leis sábias, justas e imutáveis, cuja finalidade é o progresso dos Espíritos. Nada ocorre sem Sua ciência, mas isso não implica arbitrariedade ou favoritismo.

A coleção da Revista Espírita (1858–1869) reforça essa visão ao mostrar que os acontecimentos humanos, individuais ou coletivos, estão inseridos em um conjunto maior de causas e efeitos, sempre orientados para a educação moral do Espírito imortal.

Destruição, transformação e sabedoria divina

Um dos equívocos mais comuns na compreensão de Deus está na associação direta entre destruição e castigo. A Doutrina Espírita esclarece que a destruição, longe de ser negação da bondade divina, é uma das leis da Natureza. Nada se destrói sem finalidade. O que parece ruína, muitas vezes, é apenas transformação necessária para o surgimento de novas formas de vida, aprendizado e progresso.

Deus não cria para destruir por capricho, mas para renovar, ajustar e conduzir. A destruição material pode ser instrumento de renovação moral, individual ou coletiva, sempre subordinada à justiça e à misericórdia.

A maturidade espiritual e a ampliação da consciência

Assim como a criança do relato inicial concebe Deus a partir de referências concretas e espaciais, muitos adultos ainda limitam o Criador às suas próprias imagens mentais. A maturidade espiritual consiste justamente em libertar-se dessas projeções e aceitar que Deus é maior do que qualquer definição humana, sem ser distante ou inacessível.

À medida que o Espírito evolui, sua compreensão de Deus se amplia. Não para dominá-Lo intelectualmente, o que seria impossível, mas para confiar mais profundamente em Suas leis. Deus deixa de ser um medo que ameaça e passa a ser uma presença que sustenta.

Considerações finais

A Doutrina Espírita nos convida a repousar na certeza de que existe uma Inteligência Suprema governando o Universo com justiça e amor. Esse Pai não invade nossa “casa pequena” para destruí-la; ao contrário, sustenta-a com cuidado, mesmo quando não compreendemos plenamente os caminhos da vida.

Confiar em Deus, à luz do ensino dos Espíritos, não é um ato cego de fé, mas uma adesão consciente às leis que regem o progresso moral e espiritual. É compreender que estamos em aprendizado constante, conduzidos com sabedoria rumo à felicidade futura, ainda que, por ora, só consigamos enxergar uma parte do caminho.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. A Gênese.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • Momento Espírita. A visão que temos de Deus. Disponível em: momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=4805&let=V&stat=0

 

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