terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

ENTUSIASMO: FORÇA DE PROGRESSO
OU CAMINHO PARA O DESEQUILÍBRIO?
UMA ANÁLISE PSICOLÓGICA E ESPÍRITA
- A Era do Espírito -

Introdução

O entusiasmo é frequentemente exaltado como virtude indispensável ao êxito pessoal e coletivo. Empreendedores o celebram, educadores o estimulam, líderes o utilizam como combustível motivacional. Entretanto, quando ultrapassa os limites do discernimento, pode converter-se em fonte de ilusões, impulsividade e desgaste emocional.

Em uma época marcada por cultura de alta performance, redes sociais que amplificam emoções e ambientes profissionais exigentes — onde índices de ansiedade e burnout vêm crescendo segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde — torna-se oportuno refletir: quando o entusiasmo é útil e quando se torna prejudicial?

A psicologia contemporânea oferece respostas importantes. À luz da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e desenvolvida na Revista Espírita, o tema ganha ainda uma dimensão moral e espiritual, integrando emoção, razão e responsabilidade.

1. O Entusiasmo como Força Construtiva

Na psicologia, o entusiasmo é descrito como estado de alta energia emocional associado a esperança ativa, otimismo e disposição para agir. Ele difere da simples expectativa passiva: mobiliza o indivíduo.

Ação e Conquista de Metas

O entusiasmo impulsiona o comportamento. Pessoas entusiasmadas demonstram maior persistência diante de obstáculos. Estudos da Psicologia Positiva indicam que emoções elevadas favorecem engajamento e produtividade.

Sob a ótica espírita, essa energia encontra paralelo na Lei do Progresso. Em O Livro dos Espíritos, ensina-se que o ser humano foi criado para avançar continuamente. O entusiasmo, quando equilibrado, torna-se força propulsora da evolução.

Poder de Influência

O entusiasmo é contagioso. Líderes que demonstram convicção mobilizam equipes com mais facilidade. A emoção compartilhada cria coesão.

Na perspectiva espírita, sabemos que pensamentos e sentimentos irradiam influência. A afinidade moral aproxima Espíritos e fortalece correntes mentais. Um entusiasmo sincero e equilibrado pode elevar ambientes e estimular o bem coletivo.

Resiliência e Saúde

Pesquisas atuais associam estados emocionais positivos à redução do estresse e à melhora da imunidade. Pessoas com maior vitalidade emocional tendem a recuperar-se mais rapidamente de adversidades.

A Doutrina Espírita ensina que o equilíbrio moral repercute no perispírito e, por consequência, no corpo físico. Emoções harmonizadas contribuem para saúde integral.

Criatividade e Inovação

O entusiasmo amplia a abertura cognitiva. Ideias novas surgem com maior fluidez quando há energia emocional positiva.

Em termos espirituais, a criatividade pode ser vista como expressão da inteligência em ação — atributo essencial do Espírito em progresso.

2. Quando o Entusiasmo se Torna Prejudicial

O problema não reside na emoção em si, mas em sua desproporção ou desconexão da realidade.

Distorção do Julgamento

O entusiasmo excessivo pode gerar otimismo ingênuo. Riscos são ignorados; obstáculos, minimizados. Decisões financeiras ou profissionais tomadas sob euforia podem resultar em prejuízos significativos.

A Doutrina Espírita valoriza a razão como instrumento de equilíbrio. Kardec sempre recomendou exame, análise e prudência. A fé, para ser sólida, deve encarar a razão face a face.

Positividade Tóxica

A psicologia alerta para o perigo de impor alegria constante como obrigação. Emoções legítimas — tristeza, medo, frustração — quando reprimidas, tendem a retornar com maior intensidade.

O Espiritismo ensina que as paixões não devem ser suprimidas violentamente, mas educadas. O autoconhecimento é ferramenta de harmonização interior.

Esgotamento e Burnout

A busca incessante por motivação e resultados pode levar ao esgotamento físico e mental. O entusiasmo sem limites transforma-se em compulsão produtiva.

Na Lei do Trabalho, aprendemos que o labor é necessário ao progresso, mas não deve converter-se em escravidão. O equilíbrio é princípio universal.

Impulsividade

Estados de grande euforia podem reduzir a capacidade de ponderação. Decisões precipitadas geram consequências que exigem posterior reparação — expressão clara da Lei de Causa e Efeito.

3. A Psicologia do Equilíbrio: Contraste Mental

A psicologia contemporânea propõe o chamado “contraste mental”: visualizar o sucesso com entusiasmo, mas simultaneamente identificar obstáculos e planejar soluções.

Não se trata de eliminar o entusiasmo, mas de integrá-lo ao realismo.

Esse princípio harmoniza-se com o método adotado por Allan Kardec, que sempre conciliou ideal elevado com análise criteriosa dos fatos. Na Revista Espírita, observa-se constante exame racional das comunicações espirituais, evitando tanto o ceticismo frio quanto o entusiasmo acrítico.

4. Entusiasmo e Transformação Íntima

À luz da Doutrina Espírita, o verdadeiro entusiasmo nasce do propósito moral. Quando orientado pelo bem, ele se torna perseverança; quando orientado pelo orgulho ou pela vaidade, converte-se em precipitação.

A transformação íntima — entendida como renovação profunda de sentimentos e intenções — exige energia, mas também vigilância. O entusiasmo deve ser sustentado pela disciplina interior.

Em termos espirituais, podemos afirmar:

  • Entusiasmo + egoísmo = imprudência.
  • Entusiasmo + vaidade = exibicionismo.
  • Entusiasmo + razão e fraternidade = progresso equilibrado.

Conclusão

O entusiasmo é força neutra em si mesma. Pode ser motor de crescimento ou fonte de desequilíbrio, conforme a direção que lhe damos.

A psicologia moderna recomenda autorregulação emocional e realismo prático. A Doutrina Espírita acrescenta dimensão moral: emoções devem ser educadas pela razão e iluminadas pelo propósito do bem.

Não se trata de extinguir a chama do entusiasmo, mas de colocá-la sob a lâmpada da prudência.

Quando equilibrado, ele impulsiona o progresso individual e coletivo. Quando desmedido, exige aprendizado pela experiência.

Como em tantas questões da vida moral, o segredo está na harmonia entre sentimento e discernimento — entre impulso e responsabilidade.

Referências

  • Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
  • Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo.
  • Allan Kardec. A Gênese.
  • Revista Espírita (1858–1869).
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Relatórios recentes sobre saúde mental e burnout.

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