terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

ERGUER A ALMA
A INJÚRIA À LUZ DA RAZÃO E DA DOUTRINA ESPÍRITA
- A Era do Espírito -

Introdução

“Quando recebo uma injúria, preciso erguer minha alma tão alto, que a ofensa não chegue até mim.” A frase atribuída a René Descartes sintetiza uma atitude interior de elevação moral diante da agressão verbal ou moral.

Em tempos atuais, marcados por polarizações intensas, debates acalorados nas redes sociais e crescente intolerância no convívio público, o tema da injúria assume relevância renovada. A facilidade de comunicação ampliou também a propagação de ofensas, muitas vezes impulsivas e desprovidas de reflexão.

Como compreender, então, essa “elevação da alma”? O pensamento cartesiano aponta para o domínio da razão sobre as paixões. A psicologia contemporânea fala em autorregulação emocional. A Doutrina Espírita, por sua vez, aprofunda o tema ao relacioná-lo ao progresso moral do Espírito imortal.

Examinemos essa convergência sob a ótica espírita, com base na codificação de Allan Kardec e nos ensinamentos constantes da Revista Espírita.

1. A Razão sobre as Paixões: Convergências com o Pensamento Atual

Descartes defendia a primazia da mente pensante (res cogitans) sobre os impulsos corporais. “Erguer a alma” significaria utilizar a razão para não permitir que a ofensa determine o estado interior.

A psicologia moderna descreve fenômeno semelhante ao distinguir reação de resposta. A reação é automática, emocional; a resposta é consciente, refletida. Neurocientificamente, trata-se da diferença entre o impulso do sistema límbico e a mediação do córtex pré-frontal.

Contudo, tanto na filosofia quanto na ciência atual, há um alerta: não se trata de reprimir emoções ou negar a dor, mas de processá-las sem permitir que definam a identidade do indivíduo. Autonomia emocional não é indiferença artificial; é maturidade.

Essa base racional encontra correspondência profunda na Doutrina Espírita.

2. A Injúria como Prova de Evolução Moral

No capítulo IX de O Evangelho segundo o Espiritismo — “Bem-aventurados os brandos e pacíficos” — os Espíritos ensinam que a cólera e o ressentimento são obstáculos ao progresso. A capacidade de suportar a injúria sem revide é sinal de adiantamento moral.

A ofensa funciona como teste. Se ela nos atinge profundamente, revela pontos ainda frágeis do orgulho ou da vaidade. Se a atravessamos com serenidade, demonstra que já não vibramos na mesma faixa da agressividade.

Na Revista Espírita, encontram-se diversos relatos e reflexões sobre o “fel interior” — metáfora empregada para designar o rancor que corrói silenciosamente o Espírito. Guardar ressentimento equivale a manter dentro de si o veneno que pretendia atingir o outro.

Erguer a alma, sob a ótica espírita, significa elevar o padrão vibratório, recusando-se a compartilhar da mesma frequência moral do agressor.

3. O Ofensor como Espírito em Desequilíbrio

A Doutrina Espírita propõe mudança radical de perspectiva: o agressor não é um adversário poderoso, mas um Espírito em estado de enfermidade moral.

Em O Livro dos Espíritos, aprendemos que os Espíritos imperfeitos ainda se deixam dominar pelo orgulho, inveja e egoísmo. Quando alguém insulta, manifesta suas próprias limitações.

Diante disso, o revide não soluciona; apenas perpetua o ciclo de hostilidade. A compreensão, ao contrário, interrompe a cadeia de reações sucessivas.

Não se trata de condescendência com o erro, mas de discernimento. Assim como não odiamos o enfermo por sua febre, não devemos nutrir rancor contra quem demonstra febre moral.

A elevação da alma é, portanto, atitude de lucidez e compaixão.

4. O Orgulho como Ponto Sensível

Kardec esclarece que a ofensa só nos fere porque encontra eco em algo que ainda valorizamos excessivamente. Se não houvesse orgulho ou suscetibilidade, a injúria perderia força.

Isso não significa aceitar injustiças passivamente. Há situações que exigem defesa legítima e esclarecimento firme. Porém, mesmo nesses casos, o estado íntimo pode permanecer sereno.

A verdadeira força não está na agressividade, mas no equilíbrio. O silêncio prudente, quando escolhido com consciência, não é fraqueza; é domínio próprio.

Erguer a alma não implica ignorar a dor, mas examiná-la:

— Há verdade na crítica recebida?
— Há aprendizado possível?
— Ou trata-se apenas da projeção das dificuldades do outro?

Esse exame íntimo transforma a ofensa em oportunidade educativa.

5. Rompendo o Ciclo da Violência Moral

A sociedade contemporânea demonstra como reações impulsivas amplificam conflitos. Comentários ofensivos geram respostas igualmente agressivas, criando espirais de hostilidade.

A Doutrina Espírita ensina que cada ação produz consequência. O revide mantém o encadeamento das causas e efeitos dolorosos. A não reação agressiva rompe o ciclo.

Perdoar não é esquecer por conveniência, nem aceitar abusos reiterados. É libertar-se do vínculo negativo criado pela injúria. Quem não reage com ódio impede que a agressão se prolongue além do momento inicial.

Nesse sentido, “erguer a alma” é preservar a própria liberdade interior.

Conclusão

A máxima de Descartes encontra, na Doutrina Espírita, significado mais amplo e profundo. Elevar a alma diante da injúria é exercício de superioridade moral, não por orgulho, mas por maturidade espiritual.

É compreender que:

  • a ofensa revela mais sobre quem a profere do que sobre quem a recebe;
  • o ressentimento aprisiona quem o alimenta;
  • o perdão e a serenidade são sinais de progresso do Espírito.

Num mundo em que palavras são lançadas com rapidez e pouca reflexão, a elevação interior torna-se atitude revolucionária. Ao não permitir que a injúria determine nosso estado íntimo, preservamos a paz e contribuímos para ambiente moral mais saudável.

Erguer a alma, portanto, é escolher a lei de amor e caridade acima da reação instintiva. É manter a autonomia espiritual. É não entregar ao outro o controle remoto de nossas emoções.

E, sobretudo, é compreender que o verdadeiro triunfo não está em vencer o agressor, mas em vencer a si mesmo.

Referências

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IX.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
  • DESCARTES, René. Correspondências e reflexões filosóficas (século XVII).

 

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