quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

ESPIRITISMO, CIÊNCIA E PRUDÊNCIA
UMA REFLEXÃO A PARTIR DA CRÔNICA DE 1864
- A Era do Espírito -

Introdução

Em julho de 1864, a Revista Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos, sob a direção de Allan Kardec, reproduziu trecho do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro (23 de setembro de 1863), no qual um correspondente comentava, com certa ironia, os “espectros dos teatros” e, em seguida, abordava o Espiritismo.

O texto é particularmente interessante porque revela o estado de espírito de uma época: curiosidade, ceticismo moderado, prudência metodológica e reconhecimento da existência dos fatos, embora com dúvidas quanto à teoria explicativa.

Mais de 160 anos depois, a análise permanece atual. Em um mundo marcado por inteligência artificial, experiências imersivas digitais e crescente interesse por fenômenos psíquicos, a postura racional recomendada naquele artigo conserva valor exemplar.

1. Do Maravilhoso ao Método: A Superação do Sensacionalismo

A crônica inicia com tom quase jocoso, sugerindo que fantasmas poderiam tornar-se atrações domésticas e substitutos de diversões sociais. Esse tratamento revela como, naquele período, muitos confundiam os fenômenos espíritas com espetáculos ou curiosidades teatrais.

A Doutrina Espírita, entretanto, desde sua origem, distinguiu-se do sensacionalismo. Kardec insistiu que os fenômenos não deveriam ser tratados como entretenimento, mas como objeto de estudo sério.

Na própria Revista Espírita (1858–1869), observa-se constante esforço para afastar o maravilhoso e enquadrar os fatos na ordem das leis naturais. O que era chamado de “sobrenatural” resultava apenas do desconhecimento das leis que regem o intercâmbio entre os dois planos da vida.

Esse princípio permanece válido em 2026: em tempos de viralizações instantâneas e conteúdos espetacularizados nas redes sociais, a prudência continua sendo salvaguarda contra a credulidade e o descrédito.

2. O Reconhecimento dos Fatos e a Prudência Teórica

O correspondente do jornal afirma algo notável: os fatos existem, mas sua explicação exige cautela. Ele rejeita dois extremos:

  • Negar sistematicamente todos os fenômenos;
  • Submeter todos os fenômenos a uma teoria precipitada.

Essa posição coincide com o método adotado na Codificação. Kardec não partiu de hipóteses pessoais para explicar os fenômenos; partiu da observação, da comparação e da concordância universal dos ensinos dos Espíritos.

Ele próprio declara que nada foi admitido como princípio doutrinário sem controle rigoroso da experiência. O Espiritismo, nesse sentido, foi estudado “à maneira das ciências de observação”.

Ainda hoje, esse método é referência. Em um cenário onde informações circulam em volume sem precedentes, a tendência humana é formular conclusões rápidas. A Doutrina, porém, ensina que a verdade se consolida pela verificação continuada e pela coerência com as leis morais universais.

3. Fenômenos Psíquicos e Atualidade Científica

O autor da crônica menciona acontecimentos cotidianos: coincidências significativas, intuições, pressentimentos, antecipações mentais. Questiona se tudo poderia ser atribuído ao acaso.

No século XXI, áreas como psicologia cognitiva, neurociência e estudos da consciência investigam fenômenos relacionados à intuição e à percepção ampliada. Embora a ciência acadêmica mantenha reservas quanto a interpretações espiritualistas, cresce o interesse por experiências subjetivas complexas.

A Doutrina Espírita, desde o século XIX, já ensinava que:

  • O pensamento é força atuante;
  • Existe intercâmbio fluídico entre os seres;
  • A alma sobrevive à morte e conserva individualidade.

Sem conflitar com a razão, tais princípios oferecem estrutura explicativa que integra fenômenos dispersos sob um conjunto coerente de leis.

4. O “Sobrenatural” e a Lei Natural

Um dos pontos centrais do comentário publicado em 1864 é a afirmação de que os fenômenos não são sobrenaturais, mas naturais, ainda que regidos por leis desconhecidas.

Esse é um dos pilares da Doutrina Espírita.

O chamado “maravilhoso” diminui à medida que a lei é conhecida. A eletricidade, outrora mistério, tornou-se fundamento tecnológico. O magnetismo, inicialmente estranho, hoje é objeto de estudo físico. Do mesmo modo, os fenômenos mediúnicos deixam de parecer extraordinários quando compreendidos à luz das propriedades do perispírito e das leis fluídicas.

O Espiritismo, longe de ampliar o campo do inexplicável, restringe-o, integrando fenômenos à ordem natural.

5. Expansão da Ideia Espírita e Contexto Histórico

O correspondente reconhece que a ideia espírita agitava diversos países — Áustria, Itália, América, França — e observava que até no Brasil surgiam reuniões dedicadas ao tema.

Hoje, o Brasil é um dos países com maior número de estudiosos da Doutrina Espírita no mundo. Centros de estudo, publicações e atividades assistenciais demonstram que aquela “invasão geral”, mencionada em 1863, consolidou-se como movimento estruturado de educação moral e espiritual.

A própria publicação da brochura O Espiritismo em sua expressão mais simples, em português, foi importante para difundir princípios essenciais, facilitando o acesso a leitores brasileiros.

6. Atualidade do Método Espírita em 2026

Em uma era marcada por:

  • Inteligência artificial generativa;
  • Simulações virtuais hiper-realistas;
  • Proliferação de teorias conspiratórias;
  • Polarizações ideológicas intensas;

o conselho dado na crônica permanece oportuno: examinar com boa-fé, sem precipitação e sem ideias preconcebidas.

A Doutrina Espírita propõe exatamente isso:

  • Observação rigorosa dos fatos;
  • Análise racional;
  • Subordinação da teoria à experiência;
  • Harmonia entre ciência, filosofia e moral.

Não se trata de crença cega, mas de convicção fundamentada na coerência entre fenômeno, lei e consequência moral.

7. Ciência e Transformação Moral

Importa recordar que o Espiritismo não se limita ao estudo dos fenômenos. Sua finalidade é essencialmente moral.

Compreender a sobrevivência da alma e a lei de causa e efeito conduz à responsabilidade pessoal. O conhecimento espírita, quando autêntico, não gera espetáculo, mas transformação íntima.

Esse ponto distingue o estudo sério da curiosidade superficial. O fenômeno, por si só, não eleva; o que eleva é a aplicação moral das verdades descobertas.

Conclusão

O artigo reproduzido pela Revista Espírita em 1864 demonstra que, desde o início, o Espiritismo enfrentou simultaneamente entusiasmo e dúvida. A postura equilibrada — reconhecer os fatos e evitar teorias prematuras — foi o caminho adotado na Codificação.

Hoje, em meio a novas formas de maravilhamento tecnológico e novas perplexidades científicas, a lição permanece atual: estudar com método, analisar com prudência e aplicar o conhecimento à melhoria moral.

Negado ontem, discutido hoje, o Espiritismo continua convidando ao exame racional e à elevação da consciência.

Referências

  • KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Julho de 1864. Extraído do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro (23 de setembro de 1863).
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
  • KARDEC, Allan. O Espiritismo em sua expressão mais simples.
  • KARDEC, Allan. A Gênese.

 

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