Introdução
Em julho de 1864, a Revista
Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos, sob a direção de Allan Kardec,
reproduziu trecho do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro (23 de
setembro de 1863), no qual um correspondente comentava, com certa ironia, os
“espectros dos teatros” e, em seguida, abordava o Espiritismo.
O texto é
particularmente interessante porque revela o estado de espírito de uma época:
curiosidade, ceticismo moderado, prudência metodológica e reconhecimento da
existência dos fatos, embora com dúvidas quanto à teoria explicativa.
Mais de 160 anos depois,
a análise permanece atual. Em um mundo marcado por inteligência artificial,
experiências imersivas digitais e crescente interesse por fenômenos psíquicos,
a postura racional recomendada naquele artigo conserva valor exemplar.
1. Do
Maravilhoso ao Método: A Superação do Sensacionalismo
A crônica inicia com tom
quase jocoso, sugerindo que fantasmas poderiam tornar-se atrações domésticas e
substitutos de diversões sociais. Esse tratamento revela como, naquele período,
muitos confundiam os fenômenos espíritas com espetáculos ou curiosidades
teatrais.
A Doutrina Espírita,
entretanto, desde sua origem, distinguiu-se do sensacionalismo. Kardec insistiu
que os fenômenos não deveriam ser tratados como entretenimento, mas como objeto
de estudo sério.
Na própria Revista
Espírita (1858–1869), observa-se constante esforço para afastar o
maravilhoso e enquadrar os fatos na ordem das leis naturais. O que era chamado
de “sobrenatural” resultava apenas do desconhecimento das leis que regem o
intercâmbio entre os dois planos da vida.
Esse princípio permanece
válido em 2026: em tempos de viralizações instantâneas e conteúdos
espetacularizados nas redes sociais, a prudência continua sendo salvaguarda
contra a credulidade e o descrédito.
2. O
Reconhecimento dos Fatos e a Prudência Teórica
O correspondente do
jornal afirma algo notável: os fatos existem, mas sua explicação exige cautela.
Ele rejeita dois extremos:
- Negar
sistematicamente todos os fenômenos;
- Submeter
todos os fenômenos a uma teoria precipitada.
Essa posição coincide
com o método adotado na Codificação. Kardec não partiu de hipóteses pessoais
para explicar os fenômenos; partiu da observação, da comparação e da
concordância universal dos ensinos dos Espíritos.
Ele próprio declara que
nada foi admitido como princípio doutrinário sem controle rigoroso da
experiência. O Espiritismo, nesse sentido, foi estudado “à maneira das ciências
de observação”.
Ainda hoje, esse método
é referência. Em um cenário onde informações circulam em volume sem
precedentes, a tendência humana é formular conclusões rápidas. A Doutrina,
porém, ensina que a verdade se consolida pela verificação continuada e pela
coerência com as leis morais universais.
3.
Fenômenos Psíquicos e Atualidade Científica
O autor da crônica
menciona acontecimentos cotidianos: coincidências significativas, intuições,
pressentimentos, antecipações mentais. Questiona se tudo poderia ser atribuído
ao acaso.
No século XXI, áreas
como psicologia cognitiva, neurociência e estudos da consciência investigam
fenômenos relacionados à intuição e à percepção ampliada. Embora a ciência
acadêmica mantenha reservas quanto a interpretações espiritualistas, cresce o
interesse por experiências subjetivas complexas.
A Doutrina Espírita,
desde o século XIX, já ensinava que:
- O
pensamento é força atuante;
- Existe
intercâmbio fluídico entre os seres;
- A
alma sobrevive à morte e conserva individualidade.
Sem conflitar com a
razão, tais princípios oferecem estrutura explicativa que integra fenômenos
dispersos sob um conjunto coerente de leis.
4. O
“Sobrenatural” e a Lei Natural
Um dos pontos centrais
do comentário publicado em 1864 é a afirmação de que os fenômenos não são
sobrenaturais, mas naturais, ainda que regidos por leis desconhecidas.
Esse é um dos pilares da
Doutrina Espírita.
O chamado “maravilhoso”
diminui à medida que a lei é conhecida. A eletricidade, outrora mistério,
tornou-se fundamento tecnológico. O magnetismo, inicialmente estranho, hoje é
objeto de estudo físico. Do mesmo modo, os fenômenos mediúnicos deixam de parecer
extraordinários quando compreendidos à luz das propriedades do perispírito e
das leis fluídicas.
O Espiritismo, longe de
ampliar o campo do inexplicável, restringe-o, integrando fenômenos à ordem
natural.
5.
Expansão da Ideia Espírita e Contexto Histórico
O correspondente
reconhece que a ideia espírita agitava diversos países — Áustria, Itália,
América, França — e observava que até no Brasil surgiam reuniões dedicadas ao
tema.
Hoje, o Brasil é um dos
países com maior número de estudiosos da Doutrina Espírita no mundo. Centros de
estudo, publicações e atividades assistenciais demonstram que aquela “invasão
geral”, mencionada em 1863, consolidou-se como movimento estruturado de educação
moral e espiritual.
A própria publicação da
brochura O Espiritismo em sua expressão mais simples, em português, foi
importante para difundir princípios essenciais, facilitando o acesso a leitores
brasileiros.
6.
Atualidade do Método Espírita em 2026
Em uma era marcada por:
- Inteligência
artificial generativa;
- Simulações
virtuais hiper-realistas;
- Proliferação
de teorias conspiratórias;
- Polarizações
ideológicas intensas;
o conselho dado na
crônica permanece oportuno: examinar com boa-fé, sem precipitação e sem ideias
preconcebidas.
A Doutrina Espírita
propõe exatamente isso:
- Observação
rigorosa dos fatos;
- Análise
racional;
- Subordinação
da teoria à experiência;
- Harmonia
entre ciência, filosofia e moral.
Não se trata de crença
cega, mas de convicção fundamentada na coerência entre fenômeno, lei e
consequência moral.
7.
Ciência e Transformação Moral
Importa recordar que o
Espiritismo não se limita ao estudo dos fenômenos. Sua finalidade é
essencialmente moral.
Compreender a
sobrevivência da alma e a lei de causa e efeito conduz à responsabilidade
pessoal. O conhecimento espírita, quando autêntico, não gera espetáculo, mas
transformação íntima.
Esse ponto distingue o
estudo sério da curiosidade superficial. O fenômeno, por si só, não eleva; o
que eleva é a aplicação moral das verdades descobertas.
Conclusão
O artigo reproduzido
pela Revista Espírita em 1864 demonstra que, desde o início, o
Espiritismo enfrentou simultaneamente entusiasmo e dúvida. A postura
equilibrada — reconhecer os fatos e evitar teorias prematuras — foi o caminho
adotado na Codificação.
Hoje, em meio a novas
formas de maravilhamento tecnológico e novas perplexidades científicas, a lição
permanece atual: estudar com método, analisar com prudência e aplicar o
conhecimento à melhoria moral.
Negado ontem, discutido
hoje, o Espiritismo continua convidando ao exame racional e à elevação da
consciência.
Referências
- KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Julho de 1864. Extraído do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro (23 de setembro de 1863).
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
- KARDEC, Allan. O Espiritismo em sua expressão mais simples.
- KARDEC, Allan. A Gênese.
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