Introdução
Ao afirmar que o
Espiritismo “marchando com o progresso,
não será nunca ultrapassado”, Allan Kardec estabeleceu um dos princípios
mais originais e desafiadores da Doutrina Espírita. Longe de propor um sistema
fechado ou dogmático, esse enunciado — presente em A Gênese, capítulo I,
item 55 — define o Espiritismo como um corpo doutrinário aberto ao avanço do
conhecimento humano, desde que submetido ao crivo da razão e da universalidade
do ensino dos Espíritos.
Nos dias atuais, esse
princípio tem gerado tensões internas: de um lado, aqueles que veem a
codificação como intocável; de outro, os que defendem revisões imediatas sempre
que surgem novas descobertas científicas ou mudanças sociais. Este artigo
propõe analisar essa questão à luz do método espírita, distinguindo com clareza
o que constitui lei natural — imutável — e o que representa conhecimento humano
condicionado ao século XIX — portanto, passível de revisão.
O
princípio do progresso na Doutrina Espírita
A Doutrina Espírita
nasce em diálogo direto com a ciência e a filosofia de seu tempo. Kardec jamais
apresentou as obras fundamentais como revelações fechadas, mas como resultados
provisórios de uma investigação metódica, sujeita à retificação. A Revista
Espírita (1858–1869) é testemunho claro desse processo: nela, hipóteses são
formuladas, discutidas, abandonadas ou reformuladas à medida que novas
observações surgem.
Assim, o progresso não é
uma concessão externa ao Espiritismo; ele está inscrito em sua própria
estrutura. Contudo, esse progresso não é arbitrário. Kardec estabeleceu
critérios rigorosos para a aceitação de novas ideias: racionalidade,
concordância com os fatos científicos e universalidade do ensino dos Espíritos,
obtida por comunicações independentes, em diferentes lugares e por diversos
médiuns.
Lei
natural e conhecimento de época: uma distinção necessária
Para compreender o
debate contemporâneo, é útil recorrer a uma analogia estrutural: o Espiritismo
pode ser visto como um edifício. Suas fundações são as leis morais —
universais, imutáveis — enquanto o acabamento e as instalações correspondem às
explicações técnicas e sociais, necessariamente condicionadas ao estágio do
conhecimento humano.
A essência moral: o núcleo permanente
A lei
de amor, justiça e caridade constitui o eixo central da Doutrina Espírita.
Esses princípios não dependem de avanços tecnológicos ou de contextos culturais
específicos. A necessidade do perdão, do auxílio mútuo, da responsabilidade
individual e do autoconhecimento permanece a mesma no século XIX ou no XXI,
pois decorre da própria finalidade evolutiva do Espírito.
Nesse
ponto, não há espaço para “atualizações”. A moral espírita é progressiva em sua
vivência, não em seu conteúdo essencial.
A explicação técnica: ciência em movimento
Ao
tratar dos fenômenos espirituais, Kardec utilizou o vocabulário científico
disponível em sua época. Conceitos como “fluido universal”, “fluido magnético”
ou “princípio vital” dialogavam com a física e a biologia do século XIX. Hoje,
o avanço das neurociências, da física de campos e da biologia molecular oferece
modelos explicativos mais precisos para a interação entre consciência, corpo e
ambiente.
Manter
exclusivamente o vocabulário técnico do século XIX, sem contextualização,
transforma a Doutrina em anacronismo intelectual. Ser fiel ao método espírita
implica atualizar a linguagem explicativa, preservando o princípio, mas
reformulando o mecanismo descrito, sempre que a ciência demonstrar novos dados
confiáveis.
Exemplos
concretos de tensão entre texto histórico e progresso
A formação da Terra
Em A
Gênese, a formação do planeta é descrita segundo a teoria do
incandescimento, dominante na geologia da época. Hoje, a ciência explica a
formação planetária por processos de acreção, diferenciação de camadas e
tectônica de placas. Aplicando o item 55 de A Gênese, o procedimento é
claro: a descrição técnica é reformulada, sem que se perca a tese central de
uma ordem inteligente regendo a formação dos mundos.
Aqui,
o conflito é mínimo, pois trata-se de ciência natural, facilmente verificável.
A questão das “raças”
Mais
sensível é o tema das classificações raciais presentes em alguns trechos da
codificação e da Revista Espírita. No século XIX, o racismo científico
era amplamente aceito no meio acadêmico. Kardec, como educador e homem de
ciência de seu tempo, utilizou essa linguagem para ilustrar ideias sobre
progresso espiritual.
Entretanto,
a genética moderna demonstrou que não existem raças humanas biológicas, e a
própria Doutrina Espírita ensina que o Espírito não possui cor, etnia ou
condição social permanente, reencarnando em múltiplos contextos ao longo de sua
trajetória evolutiva.
Aqui,
a distinção é fundamental: a desigualdade racial pertence ao conhecimento
humano da época; a igualdade essencial dos Espíritos é lei natural. Confundir
esses planos é cristalizar o erro histórico como se fosse revelação espiritual.
Manter
o texto ou alterá-lo? A terceira via espírita
Do ponto de vista
histórico e metodológico, alterar o texto original das obras fundamentais seria
um equívoco. O documento precisa ser preservado para que se compreenda a
evolução do pensamento espírita e do próprio conhecimento humano. Ao mesmo
tempo, manter o texto sem qualquer contextualização pode induzir leitores a
interpretações equivocadas, transformando erros de época em supostas verdades
eternas.
A solução mais fiel ao
pensamento de Kardec é a contextualização crítica: preservação integral do
texto original, acompanhada de notas explicativas, estudos introdutórios e
análises comparativas com a ciência e a ética contemporâneas. Esse procedimento
respeita simultaneamente a história e o progresso.
O
desafio institucional e emocional
Apesar de sua solidez
intelectual, essa abordagem encontra resistências profundas. O conflito não é
apenas doutrinário, mas emocional. Para muitos, a obra de Kardec tornou-se um
porto seguro psicológico, e admitir erros pontuais é sentido como ameaça à totalidade
da doutrina. Soma-se a isso a sacralização do codificador e a disputa por
identidade e autoridade dentro do movimento espírita.
As notas de rodapé,
embora necessárias, não resolvem sozinhas o problema. Elas funcionam como ponte
pedagógica, mas a verdadeira pacificação exige uma mudança de mentalidade:
compreender que Kardec foi o ponto de partida, não o ponto de chegada; que a identidade
espírita reside no livre exame, não na cristalização da letra.
Considerações
finais
O que é mais fiel ao
Espiritismo: preservar a forma do século XIX ou aplicar, hoje, o método que lhe
deu origem? A resposta, à luz da própria Doutrina Espírita, é clara: ser fiel
ao espírito da obra, não à letra. A letra, isolada, pode imobilizar; o espírito
vivifica, impulsiona e renova.
Manter os livros como
monumentos históricos e utilizar o método espírita como instrumento vivo de
investigação é a única forma de honrar, simultaneamente, a história, a ciência
e a razão. O Espiritismo não foi concebido para ser um museu de ideias, mas um
organismo intelectual e moral em permanente diálogo com a verdade, onde quer
que ela se manifeste.
Referências
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC,
Allan. A Gênese.
- KARDEC,
Allan. Obras Póstumas.
- KARDEC,
Allan (dir.). Revista Espírita (1858–1869).
Nenhum comentário:
Postar um comentário