Introdução
O movimento
espírita contemporâneo, especialmente no Brasil, apresenta uma rica diversidade
de narrativas e concepções sobre a vida espiritual. Termos como erraticidade,
Umbral, mundos de expiação, transição planetária e outras
descrições da chamada “geografia espiritual” tornaram-se familiares a muitos
estudiosos e simpatizantes. Diante desse quadro, impõe-se uma reflexão serena,
racional e fiel ao método espírita: como distinguir o que pertence ao corpo
doutrinário fundamental do que constitui revelações complementares, opiniões ou
hipóteses mediúnicas?
Seguindo o
exemplo de Allan Kardec e da Revista Espírita, este estudo não se propõe
a condenar pessoas ou obras, mas a examinar ideias, confrontando-as com
a Codificação Espírita e com o princípio do Controle Universal do Ensino dos
Espíritos (CUEE). Trata-se, portanto, de um exercício de aprendizado,
discernimento e refutação sensata, quando necessária, sempre orientado pela
razão e pela moral.
A base doutrinária: erraticidade e “muitas moradas”
Na
Codificação Espírita, os conceitos relacionados à vida espiritual são
apresentados de forma ampla, universal e não dogmática, evitando
descrições excessivamente localizadas ou imagéticas.
A erraticidade
é definida como o estado do Espírito no intervalo entre duas encarnações. Não
constitui punição nem privilégio, mas uma condição natural dos Espíritos que
ainda necessitam reencarnar para progredir. Nesse estado, o Espírito pode
experimentar situações variadas, de acordo com seu grau moral, suas
necessidades educativas e sua consciência.
Quanto à
expressão evangélica “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (João 14:2),
a interpretação espírita apresenta dois eixos complementares:
- Pluralidade dos mundos habitados, em consonância com os dados astronômicos e com a justiça divina,
que não limita a vida inteligente a um único planeta;
- Estados da alma, isto é, diferentes condições de felicidade ou sofrimento íntimo,
resultantes do grau de adiantamento moral do Espírito.
Esses
princípios, desenvolvidos em O Livro dos Espíritos, O Evangelho
segundo o Espiritismo e A Gênese, estabelecem leis gerais, evitando
a fixação em cenários rígidos ou descrições que possam induzir à materialização
excessiva da vida espiritual.
O Umbral e as revelações complementares
O termo Umbral
não aparece nas obras fundamentais da Codificação, mas ganhou ampla difusão no
Brasil a partir da obra Nosso Lar (1944), atribuída ao Espírito André
Luiz, pela psicografia de Chico Xavier. Ali, o Umbral é descrito como uma
região de transição fluídica, próxima à Terra, onde se encontram Espíritos
ainda presos a paixões, culpas ou desequilíbrios morais.
Do ponto de
vista doutrinário, é importante distinguir o nome e a narrativa específica
do princípio geral. Kardec, em O Céu e o Inferno, descreve
estados de sofrimento temporário, consciências atormentadas após a
desencarnação e mundos transitórios destinados a Espíritos em processo de
reajuste. Assim, muitos estudiosos veem no Umbral uma representação
particularizada de realidades já indicadas de forma genérica na
Codificação, sem que isso o eleve automaticamente à condição de conceito
doutrinário universal.
Nesse
sentido, o Umbral pode ser compreendido como hipótese explicativa ou
revelação complementar, útil sob o aspecto moral e educativo, mas que não
substitui nem amplia as leis gerais estabelecidas pelo método espírita.
Teorias modernas e o caso do “Planeta Chupão”
Mais
distante ainda da base doutrinária encontra-se o conceito conhecido como “Planeta
Chupão” ou astro intruso, difundido principalmente em obras
mediúnicas atribuídas ao Espírito Ramatis, pela psicografia de Hercílio Maes.
Segundo essa concepção, durante períodos de transição planetária, um astro de
vibração densa aproximar-se-ia da Terra para atrair Espíritos incompatíveis com
o novo estágio moral do planeta.
Tal ideia
não encontra respaldo direto na Codificação Espírita nem na Revista Espírita.
Do ponto de vista doutrinário, a migração de Espíritos para mundos compatíveis
com seu grau evolutivo já é plenamente explicada pela lei de afinidade
vibratória, sem necessidade de mecanismos físicos extraordinários. Por
isso, muitos estudiosos consideram essas teorias como especulações
mediúnicas isoladas, que devem permanecer no campo das opiniões pessoais,
sujeitas ao crivo da razão.
O Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE)
O critério
fundamental para distinguir doutrina de opinião foi estabelecido por Allan
Kardec: o Controle Universal do Ensino dos Espíritos. Conforme exposto,
entre outros textos, na introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo,
a autoridade do ensino espírita não reside em um médium, Espírito ou grupo
específico, mas na concordância espontânea e universal de comunicações
sérias, obtidas por médiuns independentes, em diversos lugares e contextos.
Se aplicado
com rigor nos dias atuais, o CUEE produziria efeitos significativos:
- Rebaixamento de teorias isoladas ao estatuto de hipóteses ou opiniões, sem valor doutrinário;
- Fortalecimento da essência moral, priorizando ensinamentos úteis à transformação interior;
- Superação do personalismo mediúnico, evitando a centralização da autoridade em figuras carismáticas;
- Unificação pelo raciocínio, preservando o caráter científico-filosófico da Doutrina Espírita.
Esse método
conduz naturalmente a um retorno ao essencial: o progresso moral do Espírito, a
caridade, a responsabilidade e a verdade.
O exame prático das comunicações mediúnicas
Kardec
nunca propôs uma aceitação passiva das mensagens espirituais. Em O Livro dos
Médiuns, ele estabelece um verdadeiro método experimental, baseado na fé
raciocinada.
Entre os
critérios fundamentais, destacam-se:
- Filtro da razão e da lógica: comunicações que contradizem a justiça e a bondade divinas devem
ser rejeitadas;
- Confronto com a Codificação: nenhuma revelação posterior pode anular princípios já
estabelecidos;
- Concordância entre grupos independentes: ideias novas só ganham valor quando confirmadas amplamente;
- Análise da linguagem e do conteúdo moral: simplicidade, clareza e elevação são marcas dos Espíritos
superiores;
- Prudência do dirigente: evitar divulgações apressadas e submeter as mensagens ao tempo e
à observação.
Esse
conjunto de cuidados preserva a Doutrina Espírita de desvios místicos,
fantasiosos ou personalistas.
Conclusão
A
diversidade de concepções presentes no movimento espírita atual exige
maturidade doutrinária, espírito crítico e fidelidade ao método. Estudar o
Umbral, a erraticidade ou hipóteses modernas não é, em si, um erro; o equívoco
surge quando opiniões mediúnicas são elevadas à condição de doutrina,
sem o respaldo do Controle Universal e da razão.
Seguindo o
exemplo de Allan Kardec e da Revista Espírita, cabe ao estudioso separar
o acessório do fundamental, valorizando aquilo que conduz à elevação moral
do Espírito. A Doutrina Espírita permanece viva não pela multiplicação de
narrativas extraordinárias, mas pela coerência entre razão, experiência e
ética, sempre orientada pela verdade e pela caridade.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
- KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno.
- KARDEC, Allan. A Gênese.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869).
- XAVIER, Francisco Cândido (médium). Nosso Lar. Espírito André Luiz.
- MAES, Hercílio (médium). Mensagens do Astral. Espírito Ramatis.
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