Introdução
Os
fenômenos da intuição, do sono, do sonambulismo e do êxtase sempre despertaram
o interesse humano, tanto da ciência quanto da filosofia e da espiritualidade.
A ciência contemporânea os estuda a partir da neurobiologia e da psicologia dos
estados de consciência; a Doutrina Espírita, por sua vez, oferece uma leitura
complementar, centrada na realidade do Espírito e em sua relação com o corpo
durante a encarnação.
Sem negar
os mecanismos orgânicos, o Espiritismo — conforme codificado por Allan Kardec e
desenvolvido na coleção da Revista Espírita (1858–1869) — explica tais
fenômenos como diferentes graus de emancipação da alma, isto é, momentos
em que o Espírito recupera, parcial ou amplamente, sua liberdade em relação à
matéria. Essa abordagem preserva o rigor racional, evita o misticismo e se
mantém fiel ao método experimental e comparativo adotado na Codificação.
1. O Sono e os Sonhos: Emancipação Parcial da Alma
Em O
Livro dos Espíritos, questões 400 a 412, o sono é definido como um estado
em que o corpo repousa, mas o Espírito jamais dorme. Durante esse repouso, os
laços que unem a alma ao corpo se afrouxam, permitindo ao Espírito entrar em
relação mais direta com o mundo espiritual.
Os sonhos são, portanto, a recordação
imperfeita das experiências vividas pelo Espírito durante essa liberdade
parcial. A chamada confusão
onírica, entendida como o processo mental de produção dos
sonhos durante o sono, não decorre da falta de significado do que foi
efetivamente vivenciado, mas da dificuldade do cérebro físico — órgão material
e limitado — em traduzir percepções espirituais, as quais não se exprimem por
formas, cores ou palavras humanas. Kardec observa que, no momento do despertar,
as impressões colhidas pelo Espírito se entrelaçam às lembranças da vida
corporal, originando imagens fragmentadas, simbólicas ou de difícil compreensão.
A Revista
Espírita registra numerosos casos em que sonhos apresentam coerência moral,
advertências ou inspirações úteis, confirmando que nem todos são simples
reflexos fisiológicos, embora muitos o sejam. O critério de discernimento está
nos efeitos morais e na lógica íntima da experiência.
2. O Esquecimento dos Sonhos e Sua Finalidade
Segundo a
Codificação, o Espírito não perde a memória do que vivencia fora do corpo; quem
esquece é o homem encarnado. Esse esquecimento decorre da incompatibilidade
vibratória entre a matéria cerebral e as percepções espirituais mais sutis (O
Livro dos Espíritos, questões 403 a 406).
Além disso,
o esquecimento possui utilidade providencial. Se o ser humano conservasse
lembrança clara e contínua da vida espiritual, poderia negligenciar os deveres
da existência presente, comprometendo o exercício do livre-arbítrio. Assim, a
lembrança retorna apenas de forma indireta, sob a forma de intuições,
inspirações ou impressões morais persistentes.
3. A Intuição: O Saber do Espírito
Para a
Doutrina Espírita, a intuição é uma faculdade inerente ao Espírito. Kardec a
define como uma forma de conhecimento imediato, que não passa pelo raciocínio
discursivo. Ela pode ter duas origens principais:
- Reminiscência espiritual, isto é, a lembrança vaga de conhecimentos adquiridos em
existências anteriores ou no estado espiritual entre encarnações;
- Sugestão de Espíritos protetores, que influenciam o pensamento do encarnado por meio de contato
fluídico, sem lhe retirar a liberdade.
Na Revista
Espírita, Kardec esclarece que os Espíritos se comunicam pelo pensamento, e
que a intuição é frequentemente resultado dessa comunhão discreta. O pensamento
inspirado chega ao encarnado como se fosse seu, pois atua diretamente sobre o
seu envoltório espiritual, transmitindo-se ao cérebro.
4. O Sonambulismo: Independência Funcional da Alma
O
sonambulismo é tratado por Kardec como um estado de emancipação mais acentuado
do que o sono comum (O Livro dos Espíritos, questões 425 a 438). Nele, o
Espírito conserva maior lucidez e utiliza o corpo como instrumento, sem
recorrer aos sentidos orgânicos habituais.
Por isso, o
sonâmbulo pode perceber à distância, descrever objetos ocultos ou executar atos
complexos sem consciência vigil. A alma percebe diretamente por meio do seu
envoltório espiritual, que funciona como um sentido geral, independente de
olhos, ouvidos ou tato físicos. O corpo age, mas a consciência ordinária
permanece adormecida.
5. O Êxtase: Grau Máximo de Emancipação
O êxtase é
descrito como uma forma elevada de sonambulismo, na qual o desprendimento da
alma se torna quase completo. Nesse estado, o Espírito pode contemplar
realidades espirituais superiores, experimentando sentimentos de paz e
felicidade difíceis de exprimir em linguagem humana.
Kardec
adverte, contudo, que o êxtase prolongado pode ser perigoso ao organismo, pois
o corpo fica em estado de extrema passividade (O Livro dos Espíritos,
questões 439 a 441). Ao retornar, o êxtático conserva apenas uma lembrança
vaga, mais afetiva do que intelectual, daquilo que experimentou.
6. O Papel do Perispírito segundo a Codificação
A Doutrina
Espírita ensina que o perispírito é o elemento intermediário entre o Espírito e
o corpo físico. Formado do fluido cósmico universal próprio de cada mundo, ele
penetra o corpo e o irradia, ligando-se a ele molécula a molécula (A Gênese,
cap. XIV).
É por meio
do perispírito que:
- a vontade do Espírito se transmite ao
corpo;
- as sensações do corpo chegam à
consciência espiritual;
- as experiências vividas fora do corpo
tentam se registrar na memória cerebral.
Nos
fenômenos de sono, sonambulismo e êxtase, a diferença essencial está no grau de
expansão e liberdade do perispírito. Quanto mais frouxos os laços com o corpo,
maior a lucidez espiritual e menor a participação dos sentidos materiais.
Conclusão
A Doutrina
Espírita, fiel ao método racional estabelecido por Allan Kardec, explica a
intuição, o sono, o sonambulismo e o êxtase como expressões naturais da vida do
Espírito, temporariamente ligado à matéria. Esses fenômenos não são
sobrenaturais, mas leis da natureza ainda pouco compreendidas em sua
totalidade.
Enquanto a
ciência moderna investiga os correlatos orgânicos desses estados, o Espiritismo
amplia o horizonte, mostrando que o ser humano não se resume ao cérebro, e que
a consciência não nasce nem se extingue com o corpo. Assim, longe de se oporem,
razão científica e razão espírita se completam, cada uma atuando em seu campo
próprio de observação.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
Questões 400–441.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
Segunda Parte, caps. XIV e XXIII.
- KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulo
XIV.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita.
Coleção completa (1858–1869).
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