Introdução
A
compreensão da vida, de sua origem e de seus mecanismos sempre desafiou o
pensamento humano. A Doutrina Espírita, apoiada no ensino dos Espíritos e
organizada sob método rigoroso, oferece uma explicação racional e coerente ao
classificar os seres da Natureza, esclarecer a função do princípio vital e
estabelecer a relação entre Espírito, matéria e fluido cósmico universal. Longe
de especulações místicas, essa abordagem propõe uma leitura lógica dos
fenômenos vitais e mediúnicos, em consonância com as leis naturais.
Seres orgânicos e inorgânicos: uma distinção essencial
A Natureza
apresenta dois grandes grupos de seres: orgânicos e inorgânicos.
Os seres orgânicos são aqueles que manifestam vida, revelada pelos fenômenos do
nascimento, crescimento, reprodução e morte. Possuem órgãos especializados,
ajustados às funções vitais e à conservação do indivíduo.
Os seres
inorgânicos, ao contrário, não apresentam vitalidade nem movimento próprio. São
constituídos pela simples agregação da matéria, como os minerais, a água, o ar
e os corpos brutos em geral. Neles, o movimento não é produzido internamente,
mas resulta de causas externas.
Ambos estão
submetidos à mesma lei da atração, força universal que rege a coesão da
matéria. A diferença fundamental entre esses dois reinos não reside na
substância material, mas na presença, nos seres orgânicos, de um elemento
específico: o princípio vital.
A vida como efeito e não como atributo da matéria
A matéria
que constitui os seres orgânicos encontra-se animalizada, isto é,
associada ao princípio vital. A vida não é propriedade intrínseca da matéria;
ela surge da ação de um agente especial sobre a matéria organizada.
Isoladamente, a matéria não vive; do mesmo modo, o princípio vital, separado da
organização material, não produz vida.
Assim, a
vida deve ser entendida como um efeito resultante de uma combinação, e
não como uma causa autônoma. Segundo o ensino dos Espíritos, o princípio vital
é um dos elementos necessários à constituição do Universo e tem sua origem na matéria
universal modificada, sendo distinto, embora comparável, aos elementos
materiais conhecidos pela ciência.
O fluido vital e sua função mediadora
O fluido
vital deriva do fluido cósmico universal, sendo também denominado
fluido magnético ou fluido elétrico animalizado. Ele atua como elo entre o
Espírito e a matéria, possibilitando que o princípio inteligente se manifeste
através do corpo físico.
Esse fluido
é essencialmente o mesmo em todos os seres orgânicos, mas sofre variações
conforme as espécies e os indivíduos. É ele que confere movimento e atividade
aos seres vivos, distinguindo-os dos corpos inertes, que apenas recebem
movimento sem o produzir.
A
quantidade de fluido vital não é uniforme. Varia de indivíduo para indivíduo,
explicando diferenças de vigor, vitalidade e resistência orgânica. Contudo,
esse fluido não é inesgotável: pode se esgotar se não for constantemente
renovado pela assimilação de substâncias que o contenham. Em certas
circunstâncias, pode ser transmitido de um indivíduo a outro, permitindo que
aquele que o possui em maior abundância auxilie quem dele carece, chegando, em
alguns casos, a reativar uma vida prestes a extinguir-se.
Extinção da vida orgânica e continuidade do Espírito
A atividade
do princípio vital mantém-se enquanto os órgãos funcionam de maneira harmônica.
Quando esses órgãos entram em exaustão e já não conseguem sustentar suas
funções, a vida orgânica cessa. Nesse momento, o princípio vital se extingue
para aquele organismo, retornando à massa universal de onde se originou.
A morte do
corpo não implica a destruição do Espírito. Representa apenas a dissolução do
vínculo vital que o unia à matéria, permanecendo o Espírito íntegro em sua
individualidade.
Perispírito, fluido universal e ação espiritual
O princípio
vital reside no fluido cósmico universal, do qual o Espírito extrai seu
envoltório semimaterial, o perispírito. É por meio desse envoltório que
o Espírito atua sobre a matéria inerte.
Nos
fenômenos de movimentação física, o Espírito não age diretamente sobre a
matéria bruta. Ele utiliza a combinação do fluido vital do médium com o fluido
universal, animando temporariamente o objeto com uma vida fictícia e
momentânea, suficiente para que este obedeça à impulsão espiritual. Assim,
mesas, copos ou outros objetos não se movem por ação direta do Espírito sobre a
matéria, mas pela intermediação fluídica.
Os esclarecimentos do Espírito São Luís
Na Revista
Espírita de junho de 1858, o Espírito São Luís esclarece a natureza do
fluido empregado nas manifestações visíveis e tangíveis. Ele explica que o
Espírito combina parte do fluido universal com o fluido emanado do médium,
apropriado a esse efeito, revestindo-o, à sua vontade, da forma desejada.
Questionado
por Allan Kardec, São Luís afirma que esse fluido é semi-material, que
compõe o perispírito e que constitui a ligação do Espírito à matéria, sendo
também o elemento através do qual se manifesta o princípio vital.
A síntese doutrinária e suas implicações
Com base
nesses esclarecimentos, Allan Kardec conclui que, sendo o fluido vital aquele
que, sob a impulsão do Espírito, confere vida momentânea aos corpos inertes, e
sendo o perispírito formado desse mesmo fluido, é o Espírito quem dá vida ao
corpo durante a encarnação. Quando ele se retira, o corpo perde o princípio
vital e morre.
Essa
explicação lança luz sobre numerosos fenômenos até então considerados
inexplicáveis, oferecendo uma interpretação racional, coerente e filosófica, em
plena harmonia com as leis naturais.
O fluido
cósmico universal envolve os mundos e constitui elemento indispensável à vida.
Cada planeta o apresenta em grau mais ou menos etéreo, conforme sua natureza; o
da Terra é um dos mais materiais. Quando condensado, esse fluido forma o
perispírito, que, durante a encarnação, se liga intimamente ao corpo físico e,
na erraticidade, permanece livre, conservando sua função de instrumento da ação
espiritual.
Conclusão
A
compreensão do princípio vital e do papel do fluido cósmico universal revela a
profunda harmonia existente entre Espírito, matéria e vida. A Doutrina
Espírita, ao tratar desses temas com método e clareza, oferece uma explicação
lógica dos fenômenos vitais e mediúnicos, integrando ciência, filosofia e
espiritualidade sem romper com as leis naturais. Trata-se de uma visão que
amplia o entendimento da vida, preservando a razão e convidando à reflexão
consciente sobre a realidade espiritual.
Referências
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos,
cap. IV – Princípio Vital.
- KARDEC, Allan. A Gênese, cap. X.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns,
cap. IV, item XIII.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita,
junho de 1858.
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