terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

“SIM, SIM; NÃO, NÃO”
A ÉTICA DA CLAREZA E DA RESPONSABILIDADE MORAL
- A Era do Espírito -

Introdução

Em meio às complexidades da vida moderna — marcada por contratos, promessas implícitas, discursos ambíguos e relações cada vez mais mediadas por interesses — a máxima evangélica “Seja o vosso falar: sim, sim; não, não” (Mateus 5:37) permanece atual e profundamente desafiadora. Longe de ser apenas um conselho moral genérico, essa orientação de Jesus constitui um verdadeiro princípio de integridade, clareza e responsabilidade espiritual.

À semelhança de um sinal de trânsito — em que o vermelho indica limite, o amarelo convida à prudência e o verde autoriza o avanço — a palavra humana deveria expressar com fidelidade o pensamento e a intenção interior. Quando isso não ocorre, instala-se a desarmonia nas relações e, segundo a compreensão espírita, também no campo moral e espiritual do indivíduo.

Este artigo propõe refletir sobre o sentido profundo do “sim, sim; não, não”, articulando o ensinamento evangélico com a Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e com os esclarecimentos da Revista Espírita (1858–1869), relacionando-o ainda às práticas contemporâneas de comunicação ética e responsável.

O ensinamento evangélico e o valor da palavra

No contexto do Sermão da Montanha, Jesus critica o uso excessivo de juramentos como tentativa de garantir credibilidade. A lição é clara: quando há retidão moral, a palavra simples basta. O recurso a justificativas elaboradas, promessas vagas ou meias-verdades denuncia, quase sempre, insegurança interior ou intenção de enganar.

Assim, o “sim” verdadeiro e o “não” honesto tornam-se expressões naturais de uma consciência alinhada com o bem. Tudo o que extrapola essa simplicidade — como afirma o próprio Cristo — nasce das imperfeições humanas ainda não superadas.

Clareza, limites e responsabilidade nas relações atuais

No mundo contemporâneo, esse princípio se aplica de forma direta às relações pessoais, profissionais e sociais. Estudos recentes nas áreas de ética organizacional e psicologia das relações indicam que a comunicação clara reduz conflitos, previne frustrações e fortalece vínculos de confiança.

Alguns pilares práticos se destacam:

  • Honestidade consciente: declarar com clareza o que se pode ou não assumir evita expectativas irreais e compromissos inviáveis.
  • Limites bem definidos: saber dizer “não” é essencial para a saúde emocional e para o respeito mútuo.
  • Objetividade responsável: substituir respostas evasivas por posicionamentos claros demonstra consideração pelo tempo e pela dignidade do outro.
  • Transparência nas responsabilidades: alinhar expectativas e registrar acordos reflete justiça e seriedade moral.

Dizer “não” com respeito, quando necessário, não é falta de caridade, mas expressão de maturidade ética.

Comunicação ética e respeito mútuo

Práticas modernas de comunicação respeitosa — como a chamada Comunicação Não Violenta — reforçam valores que dialogam profundamente com o ensinamento evangélico. Ao expressar fatos, sentimentos, necessidades e limites de forma clara e serena, o indivíduo evita a agressividade e também a falsidade.

Essa postura favorece soluções equilibradas, preserva a dignidade das partes envolvidas e impede que a palavra se transforme em instrumento de manipulação. O “sim” parcial, a proposta alternativa ou o esclarecimento de prioridades são exemplos de como a clareza pode conviver com a empatia, sem abrir espaço à simulação.

A interpretação espírita do “sim, sim; não, não”

À luz da Doutrina Espírita, essa máxima assume um alcance ainda mais profundo, pois envolve não apenas consequências sociais, mas implicações morais e espirituais.

1. Simplicidade e pureza de intenção

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo IX, destaca-se que a verdadeira afabilidade não é aparência, mas reflexo de um coração sem duplicidade. A palavra clara é sinal de uma alma que não cultiva segundas intenções.

2. Pensamento, palavra e harmonia espiritual

A codificação ensina que a palavra é a exteriorização do pensamento. Quando há incoerência entre o que se pensa e o que se diz, cria-se desequilíbrio moral. A sinceridade, ao contrário, favorece a harmonia íntima e a afinidade com Espíritos que se comprazem na verdade.

3. Lei de causa e efeito

O excesso de explicações, a mentira ou a simulação são compreendidos como frutos do orgulho e do egoísmo. Cada palavra que falseia a verdade gera consequências que, mais cedo ou mais tarde, exigirão reparação. Nesse sentido, viver o “sim, sim; não, não” é também um exercício de responsabilidade espiritual.

4. Honestidade como expressão de caridade

Ser claro é um ato de respeito e de amor ao próximo, pois evita ilusões, enganos e sofrimentos desnecessários. A transparência, portanto, não é dureza moral, mas caridade lúcida.

A mentira e o egoísmo segundo O Livro dos Espíritos

Na Parte Terceira de O Livro dos Espíritos, dedicada às Leis Morais, a sinceridade aparece como condição essencial para o progresso humano.

  • Lei de Progresso (questões 790–793): os Espíritos esclarecem que o progresso intelectual, quando dissociado da moral, favorece a simulação e o orgulho.
  • Lei de Sociedade: a mentira rompe a confiança, base indispensável da vida coletiva.
  • Perfeição Moral (questão 917): o egoísmo é identificado como a raiz de todas as imperfeições, incluindo a falsidade e a dissimulação.

No mundo espiritual, conforme ensina a Parte Segunda, a mentira é inviável, pois o pensamento se torna visível. Isso reforça a necessidade de educar a consciência desde já para a verdade simples.

O combate ao egoísmo e a transformação interior

A questão 917 ocupa lugar central ao apontar o egoísmo como o maior obstáculo ao progresso moral da humanidade. Mentir, omitir ou prometer sem intenção de cumprir costuma atender a interesses pessoais: evitar perdas, preservar aparências ou obter vantagens.

A superação desse estado não ocorre apenas por mudanças externas, mas por uma transformação íntima, baseada em:

  • Educação moral, e não apenas instrução intelectual;
  • Desenvolvimento do sentimento de fraternidade;
  • Valorização do ser em detrimento do parecer.

Quando o indivíduo passa a orientar sua vida pelo progresso espiritual, a palavra naturalmente se torna reta, simples e confiável.

Exame de consciência e aplicação prática

Como exercício diário, a Doutrina Espírita propõe o exame de consciência indicado por Santo Agostinho (questão 919). Ele convida cada um a refletir, ao fim do dia:

  • Fui sincero nas minhas palavras?
  • Disse “sim” quando, em verdade, queria dizer “não”?
  • Usei da ambiguidade para me beneficiar ou evitar responsabilidades?

Esse autodescobrimento contínuo fortalece a coerência moral e conduz, gradualmente, à vivência autêntica do ensinamento de Jesus.

Conclusão

O “sim, sim; não, não” não é apenas uma regra de boa convivência, mas um princípio de elevação moral, aplicável tanto à vida cotidiana quanto à jornada espiritual. Em um mundo ainda marcado pela ambiguidade e pela aparência, a clareza da palavra representa um sinal de maturidade ética e de fidelidade à verdade.

À luz da Doutrina Espírita, viver esse ensinamento é cooperar com as leis divinas, harmonizar pensamento e ação, e contribuir para relações mais justas, conscientes e fraternas — hoje e além da vida corporal.

Referências

  • Bíblia – Evangelho de Mateus, capítulo 5, versículo 37.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. IX.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Segunda; Parte Terceira, especialmente questões 790–793, 917 e 919.
  • KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869). Diversos artigos sobre moral, sinceridade e progresso espiritual.
  • KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Reflexões sobre educação moral e responsabilidade da consciência.

 

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