Introdução
Em meio às
complexidades da vida moderna — marcada por contratos, promessas implícitas,
discursos ambíguos e relações cada vez mais mediadas por interesses — a máxima
evangélica “Seja o vosso falar: sim, sim; não, não” (Mateus 5:37)
permanece atual e profundamente desafiadora. Longe de ser apenas um conselho
moral genérico, essa orientação de Jesus constitui um verdadeiro princípio de
integridade, clareza e responsabilidade espiritual.
À
semelhança de um sinal de trânsito — em que o vermelho indica limite, o amarelo
convida à prudência e o verde autoriza o avanço — a palavra humana deveria
expressar com fidelidade o pensamento e a intenção interior. Quando isso não
ocorre, instala-se a desarmonia nas relações e, segundo a compreensão espírita,
também no campo moral e espiritual do indivíduo.
Este artigo
propõe refletir sobre o sentido profundo do “sim, sim; não, não”, articulando o
ensinamento evangélico com a Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec e
com os esclarecimentos da Revista Espírita (1858–1869), relacionando-o
ainda às práticas contemporâneas de comunicação ética e responsável.
O ensinamento evangélico e o valor da palavra
No contexto
do Sermão da Montanha, Jesus critica o uso excessivo de juramentos como
tentativa de garantir credibilidade. A lição é clara: quando há retidão
moral, a palavra simples basta. O recurso a justificativas elaboradas,
promessas vagas ou meias-verdades denuncia, quase sempre, insegurança interior
ou intenção de enganar.
Assim, o
“sim” verdadeiro e o “não” honesto tornam-se expressões naturais de uma
consciência alinhada com o bem. Tudo o que extrapola essa simplicidade — como
afirma o próprio Cristo — nasce das imperfeições humanas ainda não superadas.
Clareza, limites e responsabilidade nas relações atuais
No mundo
contemporâneo, esse princípio se aplica de forma direta às relações pessoais,
profissionais e sociais. Estudos recentes nas áreas de ética organizacional e
psicologia das relações indicam que a comunicação clara reduz conflitos,
previne frustrações e fortalece vínculos de confiança.
Alguns
pilares práticos se destacam:
- Honestidade consciente: declarar com clareza o que se pode ou não assumir evita
expectativas irreais e compromissos inviáveis.
- Limites bem definidos: saber dizer “não” é essencial para a saúde emocional e para o
respeito mútuo.
- Objetividade responsável: substituir respostas evasivas por posicionamentos claros
demonstra consideração pelo tempo e pela dignidade do outro.
- Transparência nas responsabilidades: alinhar expectativas e registrar acordos reflete justiça e
seriedade moral.
Dizer “não”
com respeito, quando necessário, não é falta de caridade, mas expressão de
maturidade ética.
Comunicação ética e respeito mútuo
Práticas
modernas de comunicação respeitosa — como a chamada Comunicação Não Violenta —
reforçam valores que dialogam profundamente com o ensinamento evangélico. Ao
expressar fatos, sentimentos, necessidades e limites de forma clara e serena, o
indivíduo evita a agressividade e também a falsidade.
Essa
postura favorece soluções equilibradas, preserva a dignidade das partes
envolvidas e impede que a palavra se transforme em instrumento de manipulação.
O “sim” parcial, a proposta alternativa ou o esclarecimento de prioridades são
exemplos de como a clareza pode conviver com a empatia, sem abrir espaço à
simulação.
A interpretação espírita do “sim, sim; não, não”
À luz da
Doutrina Espírita, essa máxima assume um alcance ainda mais profundo, pois
envolve não apenas consequências sociais, mas implicações morais e
espirituais.
1. Simplicidade e pureza de intenção
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo
IX, destaca-se que a verdadeira afabilidade não é aparência, mas reflexo de um
coração sem duplicidade. A palavra clara é sinal de uma alma que não cultiva
segundas intenções.
2. Pensamento, palavra e harmonia espiritual
A codificação ensina que a palavra é a exteriorização do pensamento.
Quando há incoerência entre o que se pensa e o que se diz, cria-se
desequilíbrio moral. A sinceridade, ao contrário, favorece a harmonia íntima e
a afinidade com Espíritos que se comprazem na verdade.
3. Lei de causa e efeito
O excesso de explicações, a mentira ou a simulação são compreendidos
como frutos do orgulho e do egoísmo. Cada palavra que falseia a verdade gera
consequências que, mais cedo ou mais tarde, exigirão reparação. Nesse sentido,
viver o “sim, sim; não, não” é também um exercício de responsabilidade
espiritual.
4. Honestidade como expressão de caridade
Ser claro é um ato de respeito e de amor ao próximo, pois evita ilusões,
enganos e sofrimentos desnecessários. A transparência, portanto, não é dureza
moral, mas caridade lúcida.
A mentira e o egoísmo segundo O Livro dos Espíritos
Na Parte
Terceira de O Livro dos Espíritos, dedicada às Leis Morais, a
sinceridade aparece como condição essencial para o progresso humano.
- Lei de Progresso (questões 790–793): os Espíritos esclarecem que o progresso intelectual, quando
dissociado da moral, favorece a simulação e o orgulho.
- Lei de Sociedade: a mentira rompe a confiança, base indispensável da vida coletiva.
- Perfeição Moral (questão 917): o egoísmo é identificado como a raiz de todas as imperfeições,
incluindo a falsidade e a dissimulação.
No mundo
espiritual, conforme ensina a Parte Segunda, a mentira é inviável, pois o
pensamento se torna visível. Isso reforça a necessidade de educar a consciência
desde já para a verdade simples.
O combate ao egoísmo e a transformação interior
A questão
917 ocupa lugar central ao apontar o egoísmo como o maior obstáculo ao
progresso moral da humanidade. Mentir, omitir ou prometer sem intenção de
cumprir costuma atender a interesses pessoais: evitar perdas, preservar
aparências ou obter vantagens.
A superação
desse estado não ocorre apenas por mudanças externas, mas por uma transformação
íntima, baseada em:
- Educação moral, e não apenas instrução intelectual;
- Desenvolvimento do sentimento de
fraternidade;
- Valorização do ser em detrimento do
parecer.
Quando o
indivíduo passa a orientar sua vida pelo progresso espiritual, a palavra
naturalmente se torna reta, simples e confiável.
Exame de consciência e aplicação prática
Como
exercício diário, a Doutrina Espírita propõe o exame de consciência indicado
por Santo Agostinho (questão 919). Ele convida cada um a refletir, ao fim do
dia:
- Fui sincero nas minhas palavras?
- Disse “sim” quando, em verdade, queria
dizer “não”?
- Usei da ambiguidade para me beneficiar ou
evitar responsabilidades?
Esse
autodescobrimento contínuo fortalece a coerência moral e conduz, gradualmente,
à vivência autêntica do ensinamento de Jesus.
Conclusão
O “sim,
sim; não, não” não é apenas uma regra de boa convivência, mas um princípio
de elevação moral, aplicável tanto à vida cotidiana quanto à jornada
espiritual. Em um mundo ainda marcado pela ambiguidade e pela aparência, a
clareza da palavra representa um sinal de maturidade ética e de fidelidade à
verdade.
À luz da
Doutrina Espírita, viver esse ensinamento é cooperar com as leis divinas,
harmonizar pensamento e ação, e contribuir para relações mais justas,
conscientes e fraternas — hoje e além da vida corporal.
Referências
- Bíblia –
Evangelho de Mateus, capítulo 5, versículo 37.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. IX.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Segunda; Parte Terceira,
especialmente questões 790–793, 917 e 919.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita (1858–1869). Diversos artigos sobre
moral, sinceridade e progresso espiritual.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Reflexões sobre educação moral e
responsabilidade da consciência.
Nenhum comentário:
Postar um comentário