Introdução
Nos lares
contemporâneos, os noticiários televisivos e digitais ocupam lugar de destaque.
Crimes, conflitos, escândalos políticos, guerras e catástrofes dominam as
manchetes. O bem, quando aparece, quase sempre vem associado ao lucro, à
projeção social ou ao inusitado. Essa realidade suscita uma indagação legítima:
por que o mal parece ocupar tanto espaço na mídia? E como compreender esse
fenômeno à luz da ciência e da Doutrina Espírita?
A resposta
exige equilíbrio. Não se trata de negar os fatos, nem de fechar os olhos às
dores do mundo. Antes, é necessário compreendê-los com lucidez, evitando tanto
a alienação quanto a contaminação moral. A análise que segue busca integrar
contribuições da psicologia e da sociologia contemporâneas com os princípios
ensinados pelos Espíritos na Codificação organizada por Allan Kardec e
desenvolvidos na Revista Espírita.
1. O Viés de Negatividade e a Herança Instintiva
A
psicologia moderna denomina “viés de negatividade” a tendência humana de dar
maior atenção a eventos ameaçadores do que a acontecimentos positivos. Estudos
em neurociência apontam o papel da amígdala cerebral na detecção de perigos,
ativando respostas de alerta por meio de hormônios como o cortisol e a
adrenalina.
Do ponto de
vista evolutivo, essa característica foi essencial à sobrevivência. Ignorar um
risco poderia ser fatal; deixar de notar algo agradável não implicava perigo
imediato. Assim, o cérebro foi treinado, ao longo de milênios, a priorizar o
que ameaça.
Os meios de
comunicação, conscientes ou não desse mecanismo, frequentemente acionam esse
“alarme biológico” por meio de manchetes impactantes. O medo retém a atenção; a
atenção sustenta a audiência; a audiência movimenta recursos econômicos.
Forma-se um ciclo em que o receio se converte em produto.
À luz da
Doutrina Espírita, esse fenômeno pode ser entendido como resquício da
animalidade ainda predominante na humanidade terrestre. Em O Evangelho
Segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo VII, destaca-se o conflito
entre o homem velho — ainda dominado por instintos — e o homem novo — chamado à
renovação moral. O apego desmedido ao sensacionalismo negativo revela que ainda
vibramos, coletivamente, em faixas inferiores de sensibilidade.
2. O Valor da Notícia e a Sociologia do Conflito
Na
sociologia da comunicação, fala-se em critérios de noticiabilidade: o que rompe
a rotina chama atenção. Um voo que aterrissa em segurança não é manchete; um
acidente aéreo, sim. O crime é ruptura da ordem; a corrupção é desvio do
esperado; a guerra é desorganização extrema.
O bem, por
ser silencioso e contínuo, raramente produz choque imediato. Entretanto, isso
não significa que seja raro — apenas não gera o mesmo impacto emocional.
A exposição
constante a conflitos também favorece a polarização. A psicologia social
observa que grupos tendem a se unir com mais rapidez diante de um inimigo comum
do que em torno de ideais elevados. O conflito mobiliza; a serenidade exige
maturidade.
Na Revista
Espírita, encontram-se análises sobre a influência moral do ambiente e das
ideias circulantes. Os Espíritos ensinam que pensamentos e emoções se propagam,
formando correntes invisíveis que afetam indivíduos e coletividades. Se a
atmosfera mental se impregna de medo e indignação constante, essa vibração
tende a se reforçar.
A mídia,
nesse contexto, não cria o mal; ela o amplifica porque encontra ressonância na
sociedade. É espelho e, ao mesmo tempo, catalisador.
3. Dessensibilização e Desamparo: Efeitos Psicológicos
Especialistas
alertam para dois efeitos da exposição contínua ao conteúdo negativo:
- Dessensibilização: o espectador, habituado a cenas de violência, pode reduzir sua
capacidade de empatia.
- Síndrome do mundo ameaçador: cria-se a percepção de que o planeta é mais perigoso do que
realmente é, gerando ansiedade e isolamento.
Outro
fenômeno identificado é o “desamparo aprendido”: quando a pessoa se sente
impotente diante de problemas globais incessantes, tende à passividade. O
excesso de informação sem possibilidade de ação concreta conduz à exaustão
emocional.
A Doutrina
Espírita ensina que o pensamento é força criadora. Em O Livro dos Espíritos,
afirma-se que os Espíritos se atraem pela afinidade de sentimentos. A mente que
se alimenta apenas de temor e revolta sintoniza com correntes espirituais
perturbadas. Assim, a higiene mental não é fuga da realidade, mas medida de
equilíbrio.
4. Economia da Atenção e Responsabilidade Moral
Vivemos a
era da “economia da atenção”: o tempo e o foco do público tornaram-se bens
valiosos. Plataformas digitais e telejornais competem por minutos de
permanência. O conteúdo que gera maior reação emocional — especialmente
indignação — tende a ser mais compartilhado.
Entretanto,
a Doutrina Espírita recorda que o progresso moral não acompanha automaticamente
o progresso intelectual. Em várias passagens da Revista Espírita,
observa-se a advertência de que a ciência, sem moral, pode servir tanto ao bem
quanto ao desequilíbrio.
A
tecnologia da comunicação é neutra; o uso que dela fazemos é que define seus
efeitos. Se consumimos medo, o mercado oferecerá medo. Se valorizarmos
conteúdos construtivos, a oferta tenderá a se ajustar.
5. O Meio-Termo: Do Instinto à Consciência
Não é
prudente ignorar as dificuldades do mundo. A vigilância é necessária. Contudo,
entre a alienação e a absorção acrítica do negativismo existe o caminho do meio
— postura que alia atenção e serenidade.
A
psicologia contemporânea destaca o papel do córtex pré-frontal na regulação das
emoções, permitindo respostas ponderadas em vez de reações impulsivas. Ouvir a
notícia e perguntar: “Isso é relevante para mim? Posso agir de modo útil?”
é exercício de maturidade.
Sob o
prisma espírita, trata-se da transição da reatividade para a consciência. O
indivíduo deixa de ser mero consumidor de impressões e torna-se agente moral.
Aprende a estar no mundo sem se deixar dominar por ele.
Em um
planeta classificado como mundo de provas e expiações, segundo a escala
apresentada em O Livro dos Espíritos, é natural que as sombras ainda
sejam visíveis. Contudo, o destino da Terra é o progresso. Alimentar
exclusivamente o pessimismo é desconhecer a lei divina de evolução.
Conclusão: O Observador Consciente
O
predomínio do mal nas manchetes não é apenas estratégia comercial; é reflexo de
uma humanidade ainda sensível ao medo. A ciência explica os mecanismos
biológicos e sociais; a Doutrina Espírita esclarece o pano de fundo moral e
espiritual.
O desafio
do homem moderno não é fechar os olhos às dores coletivas, mas educar a própria
sensibilidade. Filtrar informações, buscar fontes equilibradas, valorizar
iniciativas construtivas e cultivar pensamentos elevados são formas de
cooperação com o progresso.
A
verdadeira transformação da mídia começa na transformação do público. Quando o
coração humano se inclinar com mais firmeza para o bem, a tela refletirá essa
nova sintonia.
A educação
do Espírito, portanto, é a resposta mais profunda à cultura do medo. Não para
negar a realidade, mas para iluminá-la.
Referências
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.
- Allan Kardec. O Evangelho Segundo o
Espiritismo, cap. VII.
- Allan Kardec. Revista Espírita (1858–1869).
- Estudos contemporâneos em psicologia
evolutiva, neurociência afetiva e sociologia da comunicação sobre viés de
negatividade, desamparo aprendido e economia da atenção.
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