Introdução
Entre os ensinos morais
do Cristo, as bem-aventuranças ocupam lugar de destaque. No chamado Sermão da
Montanha, Jesus exalta os mansos, os humildes, os misericordiosos e os que têm
fome e sede de justiça, apresentando-os como verdadeiramente felizes. Entretanto,
há uma bem-aventurança proclamada em circunstância diversa, após a
ressurreição, que encerra profundo significado para todos os tempos: “Bem-aventurados os que não viram e creram”.
Essa afirmação, dirigida
ao apóstolo Tomé, ultrapassa o episódio histórico e alcança dimensão
permanente. À luz da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, tal
ensinamento revela a importância da fé raciocinada como força moral
indispensável à perseverança no bem, especialmente em épocas de transição e
crise, como a que vivemos.
Tomé e
o início da era dos testemunhos
O relato evangélico,
registrado no Evangelho de João (Jo 20:24-29), descreve a hesitação de Tomé
diante da notícia da ressurreição. Ele exige provas sensíveis: quer ver e tocar
as marcas do martírio. Atendido pelo Mestre, escuta a advertência afetuosa: “Porque me viste, creste; bem-aventurados os
que não viram e creram”.
Não se tratava apenas de
corrigir uma dúvida individual. Encerrava-se ali o período do aprendizado
direto junto ao Cristo. Iniciava-se a fase dos testemunhos públicos, das
perseguições, das resistências e dos sacrifícios. A fé, dali em diante, não
poderia depender da presença física do Mestre, mas da convicção interior.
Esse momento histórico
simboliza a passagem da fé apoiada na evidência material para a fé fundamentada
na compreensão espiritual.
A fé
segundo a Doutrina Espírita
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec define a fé sólida como aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da
humanidade. Não se trata de crença cega, mas de confiança esclarecida nas
leis divinas.
Já em O Livro dos Espíritos, ao tratar da lei
de progresso (questões 776 e seguintes), os Espíritos ensinam que a humanidade
avança gradualmente, apesar das aparentes recaídas. O mal não é princípio
eterno, mas condição transitória decorrente da imperfeição humana.
Assim, crer antes de ver
não significa aceitar sem exame; significa compreender que o bem é destino
inevitável da criação. A vitória da justiça pode tardar aos nossos olhos, mas
está inscrita nas leis morais que regem o Universo.
Na Revista Espírita, encontram-se numerosos registros de períodos
conturbados — conflitos políticos, crises sociais e choques de ideias — nos
quais os Espíritos superiores reiteram a necessidade de confiança na
Providência e perseverança no dever. O ensinamento é constante: as grandes
transformações não se operam sem resistência.
Tempos
modernos e o desafio da perseverança
Os dados contemporâneos
mostram uma humanidade em transição. Avanços científicos notáveis coexistem com
desigualdades persistentes, crises ambientais e instabilidades políticas.
Relatórios internacionais apontam crescimento de tensões sociais em diversas
regiões, ao mesmo tempo em que se ampliam movimentos globais por direitos
humanos, sustentabilidade e ética pública.
Essa ambivalência pode
gerar desalento. Quando a corrupção ganha destaque nos noticiários, muitos
duvidam da honestidade. Quando a violência ocupa espaço nas estatísticas,
questiona-se a força da compaixão. Quando o imediatismo domina as relações, o
idealismo parece ingenuidade.
É justamente nesse
cenário que a última bem-aventurança assume atualidade impressionante.
Se aguardarmos a
completa instalação do bem para então agir corretamente, talvez jamais
comecemos. A transformação coletiva depende da fidelidade individual aos
princípios morais, ainda que os resultados não sejam imediatos.
Fé e
dignidade moral
A Doutrina Espírita
ensina que o verdadeiro progresso é simultaneamente intelectual e moral. O
conhecimento amplia horizontes, mas somente a elevação ética assegura
equilíbrio e paz.
Sem convicção íntima na
vitória do bem, o indivíduo pode ceder à tentação de “levar vantagem”,
justificando pequenos desvios como mecanismos de adaptação social. Contudo,
cada concessão à própria consciência representa atraso espiritual.
A dignidade, ao
contrário, é patrimônio inalienável. Ela proporciona serenidade interior e
permite que o indivíduo caminhe de cabeça erguida, independente das
circunstâncias externas. Como ensinam os Espíritos, a consciência tranquila é
antecipação da felicidade futura.
Crer antes de ver é,
portanto, preservar a própria integridade, mesmo quando o ambiente parece
hostil aos valores nobres.
A
bem-aventurança da confiança ativa
A bem-aventurança
dirigida aos que “não viram e creram” não exalta a passividade. Ela convoca à
ação perseverante. Trata-se de fé dinâmica, que sustenta o trabalho silencioso,
o esforço diário e a coerência moral.
Grandes realizações
humanas — sociais, científicas ou espirituais — nasceram da confiança prévia na
possibilidade de êxito. O agricultor semeia antes de colher. O educador ensina
antes de observar os frutos. O servidor do bem age antes de receber reconhecimento.
À luz das leis
espirituais, nenhum esforço sincero se perde. O progresso pode ser lento, mas é
inevitável.
Conclusão
A última bem-aventurança
é convite à maturidade espiritual. Ensina que a fé verdadeira não depende de
sinais extraordinários, mas da compreensão das leis divinas e da confiança em
sua justiça.
Em tempos turbulentos,
crer antes de ver significa manter-se fiel ao bem, mesmo quando o mal parece
momentaneamente predominante. Significa agir com honestidade, cultivar a
compaixão e sustentar ideais elevados, ainda que os resultados não sejam
imediatos.
Bem-aventurado, pois,
aquele que confia na vitória do bem antes de testemunhá-la plenamente. Essa
confiança lhe confere força para perseverar, dignidade para resistir às
tentações e serenidade para colaborar, desde já, na construção de um mundo
moralmente melhor.
Referência
- Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Paris: 1857.
- Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris: 1864.
- Allan Kardec (org.). Revista Espírita. 1858–1869.
- A Mensagem do Amor Imortal. Espírito Amélia Rodrigues, psicografia de Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL.
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