Introdução
Desde os primeiros anos da Codificação Espírita, o Espiritismo
estabeleceu um princípio metodológico que o distingue de muitas correntes
espiritualistas: nenhuma informação deve ser aceita apenas pela autoridade do
médium ou do Espírito comunicante. A verdade doutrinária deve ser submetida ao
exame da razão, confrontada com os fatos e confirmada pela concordância
universal dos ensinos dos Espíritos superiores.
Esse princípio, denominado Controle Universal do Ensino dos Espíritos
(CUEE), apresentado na Introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo,
constitui uma das maiores garantias contra o personalismo, o dogmatismo e a
introdução de teorias particulares no corpo doutrinário.
Entre os diversos temas que suscitam debates no campo espiritualista
encontra-se o chamado duplo etérico, conceito amplamente desenvolvido por
diferentes escolas esotéricas. Surge, então, uma questão natural: esse conceito
integra efetivamente a Doutrina Espírita ou representa uma elaboração própria
de determinadas correntes espiritualistas?
A resposta exige análise criteriosa, baseada nas obras fundamentais da
Codificação e na metodologia de investigação adotada pelo Espiritismo.
O método espírita diante de novas revelações
O Espiritismo não rejeita ideias novas simplesmente por serem
diferentes. Ao contrário, estimula o progresso do conhecimento. Contudo,
estabelece critérios rigorosos para que uma informação seja incorporada ao
patrimônio doutrinário.
Segundo o Controle Universal do Ensino dos Espíritos, uma revelação
somente adquire caráter doutrinário quando:
- é
ensinada por numerosos Espíritos sérios;
- manifesta-se
por intermédio de médiuns independentes entre si;
- surge
em diferentes localidades;
- apresenta
concordância espontânea;
- resiste
ao exame racional e harmoniza-se com o conjunto dos princípios já
consolidados.
Qualquer ensinamento isolado permanece como hipótese respeitável, mas
não como princípio da Doutrina Espírita.
Esse método preserva a unidade doutrinária e evita que opiniões
individuais sejam confundidas com ensinos universais dos Espíritos.
A constituição do ser humano segundo a
Codificação Espírita
Nas obras fundamentais, o ser encarnado é apresentado de maneira
relativamente simples e lógica.
Existem três elementos essenciais:
- o
Espírito, princípio inteligente individualizado;
- o
perispírito, envoltório semimaterial que une o Espírito ao corpo;
- o
corpo físico, instrumento de manifestação no mundo material.
Em nenhum momento a Codificação descreve um quarto elemento denominado duplo
etérico situado entre o perispírito e o organismo físico.
Ao contrário, o perispírito é apresentado como o elo natural entre o
princípio inteligente e a matéria orgânica, desempenhando as funções de
transmissão das impressões e de ligação durante a encarnação.
Desse modo, a estrutura frequentemente apresentada por autores
espiritualistas —
Espírito → Perispírito → Duplo Etérico → Corpo Material
— não corresponde ao modelo ensinado pela Doutrina Espírita.
O duplo etérico como hipótese espiritualista
Nas obras atribuídas às diversas escolas espiritualistas, o duplo
etérico é apresentado como uma reprodução energética do corpo físico,
localizada a aproximadamente um centímetro deste, responsável por irradiar a
chamada “aura da saúde” e por atuar como intermediário indispensável entre o
perispírito e a matéria.
Entretanto, essas descrições não encontram confirmação nas obras da
Codificação nem na coleção da Revista Espírita.
Também não existe demonstração de que tenham sido objeto do Controle
Universal do Ensino dos Espíritos.
Sob a ótica metodológica do Espiritismo, permanecem como construções
particulares pertencentes a determinada escola espiritualista.
Isso não significa afirmar categoricamente que sejam falsas; significa
apenas reconhecer que ainda não foram universalmente confirmadas segundo os
critérios doutrinários.
Corpo astral e perispírito: aproximações e
diferenças
Diversas tradições esotéricas utilizam a expressão corpo astral
para designar o envoltório sutil do Espírito.
Nesse aspecto, existe certa aproximação com o conceito espírita de
perispírito.
Todavia, a Doutrina Espírita adotou deliberadamente uma terminologia
própria para evitar ambiguidades e interpretações herdadas do ocultismo e da
teosofia.
Assim, embora algumas características atribuídas ao chamado corpo astral
possam lembrar o perispírito, isso não implica identidade completa entre os
conceitos desenvolvidos pelas diferentes escolas espiritualistas.
Cada sistema filosófico deve ser compreendido dentro de sua própria
estrutura conceitual.
Prana, chakras e éter físico pertencem à
Doutrina Espírita?
Outro aspecto importante refere-se ao emprego de conceitos como:
- prana;
- chakras;
- éter
físico;
- corpo
etérico;
- aura
da saúde.
Esses termos pertencem predominantemente às tradições hinduístas, ao
yoga clássico, à teosofia e ao esoterismo oriental.
Na Codificação Espírita, por sua vez, encontram-se conceitos próprios
como:
- fluido
universal;
- fluido
vital;
- princípio
vital;
- perispírito;
- magnetismo
animal;
- magnetismo
espiritual.
Embora seja possível estabelecer analogias entre diferentes tradições
filosóficas, tais aproximações não autorizam sua incorporação automática ao
corpo doutrinário espírita.
Pelo método espírita, somente o Controle Universal do Ensino dos
Espíritos poderia legitimar semelhante integração.
O perispírito como molde organizador
Outro ponto frequentemente apresentado em obras espiritualistas é a
ideia de que o duplo etérico seria o responsável pela modelagem do corpo fetal
durante o processo de gestação.
Na Doutrina Espírita, entretanto, essa função é atribuída ao próprio
perispírito.
Em A Gênese e em diversos estudos publicados na Revista
Espírita, o perispírito aparece como o molde fluídico sobre o qual se
organiza gradualmente o corpo físico durante o processo reencarnatório.
Não há referência a um quarto envoltório encarregado dessa tarefa.
Auras, clarividência e descrições detalhadas
Algumas obras descrevem diferenças visíveis entre auras de indivíduos
moralmente distintos, afirmando que Espíritos inferiores apresentariam
emanações escuras ou viscosas, enquanto Espíritos elevados irradiariam luzes
róseas ou cristalinas.
O método espírita recomenda prudência diante dessas afirmações.
Descrições excessivamente minuciosas do mundo invisível, sobretudo
quando dependem exclusivamente da percepção de determinados clarividentes,
necessitam ser confirmadas por múltiplas observações independentes antes de
serem aceitas como conhecimento consolidado.
Na ausência dessa universalidade, permanecem no campo das impressões
individuais.
Túmulos milagrosos e energias permanentes
Também merece exame crítico a afirmação segundo a qual os túmulos de
pessoas espiritualmente elevadas conservariam propriedades terapêuticas devido
à permanência do chamado duplo etérico.
A Doutrina Espírita admite a existência de influências fluídicas sobre
pessoas, objetos e ambientes.
Contudo, não informa e nem ensina que sepulturas possuam automaticamente
virtudes curativas permanentes nem atribui tais efeitos à persistência de um
corpo etérico em decomposição.
Muito menos fundamenta essas hipóteses em supostas leis físicas
relacionadas à expansão de gases ou ao esgotamento de um éter material.
Na ausência de confirmação universal, tais ideias permanecem opiniões
particulares.
O desligamento do Espírito na desencarnação
Segundo algumas correntes espiritualistas, o duplo etérico funcionaria
como um "colchão" ou "amortecedor" durante o processo de
desencarnação.
A Doutrina Espírita apresenta explicação diversa.
O desligamento ocorre por meio do afrouxamento gradual dos laços
fluídicos que unem o perispírito ao organismo material, processo cuja duração
varia conforme o grau de apego do Espírito à vida corporal e às circunstâncias
do desencarne.
Não há referência, na Codificação, a uma estrutura intermediária
destinada especificamente a amortecer essa transição.
O valor do exame comparativo
A história do Espiritismo demonstra que o progresso doutrinário não
depende da aceitação precipitada de novidades, mas da fidelidade ao método
investigativo que caracteriza a própria Doutrina.
As obras espiritualistas de diferentes origens podem conter reflexões
valiosas, estimular pesquisas e ampliar horizontes filosóficos.
Entretanto, para que determinada informação seja considerada integrante
da Doutrina Espírita, ela precisa satisfazer os critérios estabelecidos pelo
Controle Universal do Ensino dos Espíritos.
Esse procedimento preserva a coerência do ensino espírita e impede que
sistemas filosóficos distintos sejam confundidos ou fundidos sem o necessário
exame crítico.
Conclusão
O estudo comparativo nos diversos ensinos espiritualistas e a Doutrina
Espírita revela diferenças conceituais importantes, especialmente quanto à
existência do chamado duplo etérico, ao emprego de conceitos como prana,
chakras e éter físico, bem como às explicações sobre a desencarnação, a
formação do corpo humano e a natureza das chamadas auras.
Sob a perspectiva metodológica adotada pelo Espiritismo codificado por
Allan Kardec, essas concepções não podem ser incorporadas ao patrimônio
doutrinário enquanto permanecerem desacompanhadas da confirmação obtida pelo
Controle Universal do Ensino dos Espíritos.
Essa postura não representa rejeição sistemática às ideias novas, mas
expressão de prudência científica, coerência filosófica e fidelidade ao método
que tornou possível a construção da própria Doutrina Espírita.
Ao distinguir entre hipótese, opinião e princípio doutrinário, o
Espiritismo preserva sua identidade, incentiva a pesquisa séria e mantém aberto
o caminho para o progresso do conhecimento espiritual, sempre subordinado à
razão, à observação e à universalidade dos ensinos.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro.
Brasília: FEB.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília:
FEB.
- KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon
Ribeiro. Brasília: FEB.
- KARDEC,
Allan. O Céu e o Inferno. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília:
FEB.
- KARDEC,
Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.
2. Obras Complementares de Allan Kardec
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita (1858–1869).
- KARDEC,
Allan. Obras Póstumas.
- KARDEC,
Allan. O que é o Espiritismo.
3. Obras Complementares Históricas
- WANTUIL,
Zeus; THIESEN, Francisco. Allan Kardec: Pesquisa Biobibliográfica e
Ensaios de Interpretação.
4. Obras Subsidiárias
- MAES,
Hercílio (médium). Elucidações do Além. Pelo Espírito Ramatís.
5. Passagens bíblicas
- João
16:12–13.
- 1
Tessalonicenses 5:21.
- 1 João
4:1.
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