Uma
reflexão sobre o “último ceitil”, o “choro e ranger de dentes” e os
trabalhadores da última hora
Nesta reflexão, procuraremos compreender
algumas expressões do Evangelho que, durante séculos, foram associadas à ideia
de punição e condenação. À luz da Doutrina Espírita, porém, elas podem adquirir
outro significado: o da responsabilidade pessoal, do arrependimento, da
reparação e da possibilidade permanente de progresso.
Introdução
Há expressões do Evangelho que atravessaram os séculos e continuam
provocando perguntas profundas.
Uma delas aparece no ensinamento de Jesus registrado em Mateus:
“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho
com ele [...]”
E, mais adiante:
“Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não
pagares o último ceitil.” (Mateus, 5:25-26.)
O ceitil era uma pequena moeda de reduzido valor. Por isso, a expressão
passou a representar aquilo que deve ser pago integralmente, sem que se deixe
para trás sequer a menor parcela.
Mas estaria Jesus falando simplesmente de uma dívida material?
Seria uma referência a uma punição judicial?
Estaria anunciando uma condenação?
Ou haveria nesse ensinamento uma realidade moral mais profunda?
A questão torna-se ainda mais interessante quando relacionada à ideia,
presente em determinadas interpretações cristãs, de que Jesus teria pago pelos
erros da humanidade, assumindo diante de Deus a condição de uma espécie de
fiador espiritual.
Mas, se cada Espírito é responsável por seus próprios atos, seria
possível transferir para outro a responsabilidade moral por aquilo que fizemos?
A Doutrina Espírita permite examinar essa questão sob outra perspectiva.
A Lei Divina está na consciência. O Espírito é responsável por seu
progresso. O arrependimento modifica sua disposição moral, mas a reparação
continua sendo necessária. E ninguém pode realizar por outro a transformação
que somente este pode realizar em si mesmo.
Nesse contexto, “pagar até o último ceitil” pode deixar de ser uma
ameaça para tornar-se uma imagem da integralidade da responsabilidade diante da
Lei Divina.
PARTE I
O ÚLTIMO
CEITIL E A RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL
1. Uma pequena moeda, uma grande questão
Na linguagem cotidiana, dizer que alguém deve pagar “até o último
centavo” significa que nenhuma parcela da dívida será esquecida.
A expressão utilizada por Jesus possui esse sentido de integralidade.
Entretanto, transportá-la diretamente para uma concepção jurídica moderna de
dívida espiritual pode produzir uma interpretação limitada.
A questão essencial talvez não seja descobrir quanto vale cada “ceitil”
da nossa vida espiritual.
A questão é outra:
Podemos fugir das consequências daquilo que fazemos?
A experiência humana mostra que podemos esconder um erro dos outros,
construir justificativas, transferir responsabilidades e até convencer uma
sociedade inteira de que somos inocentes.
Mas há uma testemunha da qual ninguém consegue fugir completamente: a
própria consciência.
Em O Livro dos Espíritos, ao tratar da Lei Divina, encontramos a
resposta à questão 621:
“Na consciência.”
A consciência não deve ser entendida simplesmente como um tribunal que
condena. É também o lugar íntimo em que o Espírito reconhece progressivamente o
bem e o mal e percebe a distância existente entre aquilo que é e aquilo que
deveria ser.
Podemos enganar outras pessoas.
Não podemos, porém, apagar de nossa própria consciência aquilo que
fizemos.
2. Existe uma responsabilidade que ninguém
pode assumir por nós
Imagine alguém que tenha causado deliberadamente grande sofrimento a
outra pessoa.
Depois de algum tempo, arrepende-se.
Pergunta-se:
— Se eu me arrepender sinceramente, estará tudo resolvido?
A Doutrina Espírita conduz a uma resposta que exige maior reflexão.
O arrependimento é indispensável, mas não representa, por si só, a
reparação do mal.
Em O Céu e o Inferno, ao tratar das penas futuras, a Codificação
apresenta o arrependimento, a expiação e a reparação em relação ao processo de
reabilitação do Espírito.
O arrependimento é o despertar.
A expiação está relacionada às consequências que o Espírito ainda
precisa enfrentar.
A reparação corresponde ao esforço para corrigir, tanto quanto possível,
os efeitos produzidos pelo erro.
Essa distinção é fundamental.
Se uma pessoa quebra deliberadamente um objeto pertencente a outra,
reconhecer o erro não devolve automaticamente o objeto.
Se alguém destrói uma amizade por meio da mentira, pedir perdão não
significa que a confiança seja imediatamente reconstruída.
Se uma pessoa prejudica outra moral ou materialmente, o arrependimento
pode iniciar a mudança, mas não substitui aquilo que ainda puder ser reparado.
Por isso, o arrependimento abre o caminho; a reparação percorre esse
caminho.
3. O que significa ser “fiador” de uma dívida
moral?
Aqui encontramos o ponto central da questão.
Em uma dívida material, um fiador pode assumir juridicamente uma
obrigação. A dívida possui um objeto externo e mensurável. Se outra pessoa paga
o valor devido, a obrigação financeira pode ser considerada quitada.
Mas uma dívida moral possui natureza diferente.
Se alguém pratica uma injustiça e uma terceira pessoa sofre a
consequência em seu lugar, o responsável não se torna moralmente melhor por
isso.
Se alguém pratica uma ofensa e outro sofre a punição, a ofensa não foi
transformada em virtude.
A injustiça apenas produziu uma nova injustiça.
Por isso, a ideia de um terceiro inocente assumindo integralmente a
responsabilidade moral de outro apresenta uma dificuldade quando examinada
racionalmente.
A responsabilidade moral não é simplesmente uma quantia que possa ser
transferida de uma consciência para outra.
É uma condição que precisa ser transformada naquele que praticou o ato.
A Doutrina Espírita apresenta a justiça divina de outra maneira.
O Espírito sofre as consequências de suas próprias imperfeições e
progride mediante o esforço de sua transformação.
Não há, portanto, necessidade de imaginar uma contabilidade celestial
administrada por um credor à espera de que alguém venha pagar uma conta.
Há uma Lei.
E a Lei alcança cada criatura segundo sua condição moral.
4. Jesus não substitui a responsabilidade
humana
A compreensão do papel de Jesus também precisa ser colocada nesse
contexto.
Em O Livro dos Espíritos, questão 625, Jesus é apresentado como o
tipo mais perfeito oferecido por Deus à humanidade para servir de guia e
modelo.
Essa definição é extremamente significativa.
Jesus não é apresentado simplesmente como alguém que retira dos homens a
responsabilidade pelos seus atos.
Ele é o modelo que mostra como o homem pode elevar-se moralmente.
Seu ensinamento conduz à reconciliação, ao perdão, ao amor ao próximo, à
caridade, à humildade e à superação das paixões inferiores.
Sua vida confirmou aquilo que ensinava.
Por isso, o valor de Jesus para a humanidade não está na transferência
da responsabilidade moral, mas no exemplo capaz de orientar a transformação.
Ele não percorre o caminho em nosso lugar.
Ele mostra o caminho.
A diferença é essencial.
5. Justiça sem vingança
Talvez aqui esteja uma das características mais profundas da justiça
divina.
Ela não é vingativa.
A vingança procura fazer sofrer aquele que praticou o mal.
A justiça divina, segundo a Doutrina Espírita, conduz o Espírito à
compreensão das consequências de seus atos e à necessidade de transformação.
O sofrimento, quando ocorre como consequência da imperfeição, não
constitui uma finalidade em si mesmo.
Ele pode despertar a consciência.
Pode mostrar ao Espírito aquilo que antes não compreendia.
Pode levá-lo ao arrependimento.
E o arrependimento pode conduzir à reparação.
É uma justiça que educa.
E justamente porque educa, oferece esperança.
Se a finalidade fosse apenas punir, o sofrimento poderia ser eterno.
Mas a Doutrina Espírita não apresenta a eternidade das penas como
princípio da justiça divina.
O Espírito progride.
Logo, existe sempre a possibilidade de superar a condição moral que
produziu determinado sofrimento.
PARTE II
O CHORO, O
RANGER DE DENTES E OS TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA
6. O “choro e ranger de dentes”
A expressão “choro e ranger de dentes” aparece diversas vezes nos
Evangelhos.
Em uma interpretação literal, pode sugerir condenação definitiva.
Entretanto, quando examinada à luz da Doutrina Espírita, não pode ser
conciliada com a ideia de penas eternas.
O sofrimento moral pode ser intenso.
O remorso pode ser profundo.
O Espírito pode despertar para a realidade de seus próprios atos e
experimentar dolorosamente aquilo que antes não compreendia.
Mas essa condição não precisa ser definitiva.
A justiça divina não fecha para sempre a porta do progresso.
O sofrimento está relacionado ao estado do Espírito e às causas que o
produziram.
Quando o Espírito se modifica, modifica também sua relação com essas
causas.
Por isso, o “choro e ranger de dentes” pode ser compreendido como uma
imagem expressiva do sofrimento moral e da perturbação decorrentes da
consciência do erro, sem que isso implique uma condenação eterna.
7. O passado não pode ser modificado, mas o
Espírito pode modificar-se diante dele
Existe uma diferença que merece ser cuidadosamente observada.
O passado não pode ser modificado.
Não podemos retornar à infância para desfazer uma palavra cruel.
Não podemos voltar a determinada oportunidade para escolher outra
alternativa.
Não podemos apagar da memória de alguém uma injustiça que praticamos.
Mas podemos modificar-nos diante do passado.
Podemos reconhecer o erro.
Podemos pedir perdão.
Podemos reparar, quando possível.
Podemos fazer o bem.
Podemos abandonar o comportamento que produziu o sofrimento.
Podemos transformar uma experiência negativa em instrumento de
aprendizado.
O passado permanece como experiência.
Não precisa permanecer como destino.
Essa talvez seja uma das mais importantes consequências da justiça
divina: o erro não é apagado por uma simples declaração, mas também não
transforma o Espírito em prisioneiro eterno de seu passado.
8. A reparação é diferente da autopunição
Há ainda uma distinção importante.
Reconhecer um erro pode produzir culpa e remorso.
Mas permanecer indefinidamente em uma espécie de autopunição não
significa necessariamente reparar.
A pessoa pode dizer:
— Eu errei e não mereço mais ser feliz.
E permanecer durante anos olhando para a própria culpa.
Isso pode até alimentar o egoísmo, porque mantém o indivíduo concentrado
em si mesmo.
A reparação exige outra atitude:
— O que posso fazer para não repetir?
— A quem posso ajudar?
— O que ainda posso corrigir?
— Como posso transformar minha experiência em benefício para alguém?
A culpa pode despertar.
Mas é a transformação que produz resultado.
Por isso, a justiça divina não pede que o Espírito permaneça eternamente
olhando para a própria falta.
Pede que ele aprenda com ela.
9. Os trabalhadores da última hora
É nesse ponto que a parábola dos trabalhadores da vinha adquire especial
significado.
Em Mateus 20:1-16, trabalhadores são chamados em diferentes momentos do
dia para trabalhar na vinha. Alguns trabalham desde cedo; outros chegam
posteriormente.
Ao final, todos recebem o salário combinado.
Para a lógica puramente humana, a situação parece injusta.
Como pode aquele que trabalhou apenas uma hora receber o mesmo que
aquele que suportou o peso do dia?
A parábola, entretanto, conduz a uma compreensão mais elevada da
justiça.
O trabalhador da última hora não deve ser entendido como aquele que
deliberadamente deixa tudo para depois, confiando em uma recompensa igual à
daquele que trabalhou desde cedo.
A mensagem não é um incentivo à negligência moral.
É uma demonstração de que nunca é tarde para começar a trabalhar no
bem.
10. A última hora não é a hora do oportunismo
Existe uma diferença profunda entre arrependimento verdadeiro e medo das
consequências.
Imagine alguém que passou a vida praticando o mal e, diante da morte,
simplesmente diga:
— Agora tenho medo. Quero que tudo seja apagado.
O medo pode representar o início do arrependimento.
Mas o arrependimento precisa produzir transformação.
Outra pessoa pode despertar moralmente tarde.
Durante grande parte da existência, foi dominada pelo egoísmo.
Então compreende:
— Eu estava errado.
E começa a mudar.
Procura aqueles a quem prejudicou.
Pede desculpas.
Ajuda quando pode.
Torna-se mais paciente.
Abandona ressentimentos.
Passa a servir.
Essa pessoa começou realmente a trabalhar na vinha.
O tempo anterior não desapareceu.
Mas deixou de ser apenas tempo perdido.
Transformou-se em experiência.
11. O trabalhador da última hora não apaga o
passado
Essa distinção é importante para evitar uma interpretação equivocada da
parábola.
O trabalhador da última hora não recebe uma autorização para apagar
retroativamente seus erros.
O passado permanece.
O que muda é o Espírito diante desse passado.
Uma pessoa que tenha desperdiçado muitos anos pode não recuperar
cronologicamente o tempo perdido.
Pode, entretanto, utilizar de modo muito diferente o tempo que ainda
possui.
O progresso espiritual não depende exclusivamente da quantidade de anos
vividos.
Depende também do aproveitamento desses anos.
Uma existência longa pode ser moralmente pouco aproveitada.
Um período menor pode representar uma transformação profunda.
Por isso, não se trata de “apagar o tempo perdido”.
Trata-se de não desperdiçar também o tempo que resta.
12. “Até o último ceitil” não significa uma
dívida com juros
Retornemos, então, à expressão inicial.
Existe uma observação interessante na pergunta que deu origem a esta
reflexão: se Jesus fala em pagar “até o último ceitil”, por que imaginar uma
dívida que cresça indefinidamente por meio de juros, acréscimos ou punições
arbitrárias?
A imagem do último ceitil sugere integralidade, não arbitrariedade.
A justiça não precisa acrescentar indefinidamente aquilo que não
corresponde à responsabilidade.
Por outro lado, também não devemos transformar a expressão em uma
fórmula matemática para determinar exatamente quanto sofrimento corresponde a
cada falta.
A Lei Divina é mais profunda do que uma contabilidade dessa natureza.
O que podemos compreender é o princípio: o erro produz consequências,
e o Espírito precisa superar em si mesmo as causas morais que o levaram ao erro
e, tanto quanto possível, reparar suas consequências.
Por isso, não existe uma “dívida espiritual” que possa simplesmente ser
transferida para outra consciência.
Existe responsabilidade.
E existe o trabalho necessário para transformar essa responsabilidade em
aprendizado.
13. O sofrimento pode ser abreviado
A Doutrina Espírita apresenta a duração do sofrimento em relação ao
estado moral do Espírito e à sua disposição para a melhoria.
Isso significa que o sofrimento não possui uma duração eterna e
imutável.
Entretanto, também não significa que o Espírito possa simplesmente
declarar encerrada sua própria dívida.
A mudança precisa ser verdadeira.
Quando o orgulho é substituído pela humildade, modifica-se uma causa de
sofrimento.
Quando o egoísmo cede lugar à caridade, modifica-se outra.
Quando o ódio é substituído pelo perdão, interrompe-se uma cadeia de
conflitos.
Quando a pessoa que prejudicou procura reparar o mal, começa a
reconstruir aquilo que havia destruído.
A transformação íntima, portanto, não é uma expressão vazia.
É o próprio movimento pelo qual o Espírito deixa de produzir
determinadas causas de sofrimento.
14. A oportunidade está no presente
A questão espiritual não está apenas nos grandes acontecimentos da
existência.
Ela aparece diariamente.
Está na palavra que podemos evitar.
No pedido de desculpas que adiamos.
Na pessoa que precisamos perdoar.
Na ajuda que podemos oferecer.
Na tentação que conseguimos vencer.
Na oportunidade de fazer o bem sem que ninguém saiba.
Talvez seja aí que encontremos nossos pequenos “ceitis”.
Não como moedas espirituais, mas como pequenas responsabilidades morais
que surgem continuamente em nossa existência.
Cada uma representa uma oportunidade de escolha.
E cada escolha pode contribuir para nossa transformação.
15. Justiça e misericórdia não são opostas
À primeira vista, justiça e misericórdia podem parecer conceitos
incompatíveis.
Se cada um deve responder pelos próprios atos, onde estaria a
misericórdia?
A Doutrina Espírita permite compreender que não há contradição.
A misericórdia divina não consiste em abolir a Lei.
Consiste em oferecer ao Espírito as oportunidades necessárias para
progredir.
A reencarnação constitui uma dessas oportunidades.
O arrependimento é outra.
A reparação é outra.
O conhecimento da lei moral é outra.
A convivência com outras criaturas é outra.
A própria existência constitui uma escola permanente.
Deus não precisa suspender a justiça para ser misericordioso.
A própria justiça contém os meios de recuperação.
16. A verdadeira finalidade do ensinamento de
Jesus
Se Jesus não é um “fiador” que assume juridicamente nossas
responsabilidades, qual é, então, a finalidade de sua missão?
A resposta encontra-se no próprio caráter de seu ensinamento.
Jesus ensina a reconciliação.
Ensina o perdão.
Ensina a caridade.
Ensina o amor aos inimigos.
Ensina a humildade.
Ensina o desprendimento.
Ensina o bem.
E, acima de tudo, vive aquilo que ensina.
Por isso, seu exemplo possui uma força que nenhum mecanismo de
transferência de responsabilidade poderia produzir.
Um fiador pode pagar uma dívida material.
Mas um exemplo moral pode ensinar alguém a não produzir novamente a
causa da dívida.
Essa diferença é profunda.
Jesus não retira do ser humano a responsabilidade pela caminhada.
Ele mostra como caminhar.
17. O que significa, afinal, “pagar até o
último ceitil”?
Podemos agora retornar à pergunta inicial.
“Pagar até o último ceitil” não significa necessariamente suportar uma
pena matemática determinada por um tribunal espiritual.
A expressão pode ser compreendida como imagem da integralidade da
responsabilidade diante da Lei.
Nada do que fazemos deixa de produzir consequências.
Mas isso não significa que estejamos condenados a sofrer eternamente.
O Espírito pode arrepender-se.
Pode modificar-se.
Pode reparar.
Pode aprender.
Pode progredir.
Assim, o “último ceitil” não representa o fim da esperança.
Representa a necessidade de concluir o aprendizado.
REFLEXÃO
FINAL
“Até o último ceitil” não precisa ser compreendido como uma ameaça.
Pode ser compreendido como uma afirmação de justiça.
Nada é arbitrariamente acrescentado.
Nada precisa ser eternamente condenado.
Nada, porém, deve ser simplesmente transferido para outra consciência.
O erro produz consequências.
O arrependimento desperta.
A expiação auxilia no aprendizado.
A reparação demonstra a transformação.
E o progresso continua.
A ideia de um fiador que assume nossas responsabilidades pode parecer
confortável, mas, examinada racionalmente, retira do próprio Espírito uma
oportunidade essencial: a de transformar-se por seu próprio esforço.
Isso não significa que estejamos abandonados.
Recebemos auxílio.
Recebemos orientação.
Recebemos exemplos.
Recebemos oportunidades.
Recebemos novas possibilidades de aprendizado.
Mas ninguém pode aprender por nós.
Ninguém pode amar por nós.
Ninguém pode transformar nossas más inclinações em nosso lugar.
Ninguém pode realizar o bem que somente nós podemos realizar.
É justamente aí que a parábola dos trabalhadores da última hora adquire
sua beleza.
Talvez tenhamos perdido parte da manhã.
Talvez tenhamos desperdiçado a tarde.
Talvez tenhamos chegado ao entardecer da existência carregando erros que
gostaríamos de não ter cometido.
Mas a vinha continua diante de nós.
A ferramenta ainda pode ser empunhada.
O trabalho ainda pode começar.
Não podemos recuperar cronologicamente o tempo perdido.
Mas podemos transformar a maneira como utilizamos o tempo que ainda
temos.
E talvez seja essa uma das maiores expressões da misericórdia divina: Deus
não nos livra da responsabilidade de aprender, mas também não nos fecha a porta
do aprendizado.
Pagar “até o último ceitil”, nessa perspectiva, não significa sofrer
indefinidamente.
Significa que a Lei não abandona o Espírito no erro.
Ela oferece as condições para que o erro se transforme em experiência, a
experiência em consciência, a consciência em mudança e a mudança em bem.
No fim, talvez descubramos que o último ceitil não era uma moeda.
Era uma lição.
A lição de que ninguém pode viver por nós, ninguém pode transformar-se
por nós e ninguém pode realizar o bem que somente nós podemos realizar.
Mas também a lição de que ninguém está impedido de começar.
Mesmo na última hora.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — Das Leis Morais, especialmente questões 621 e 625.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XI — Amar o próximo como a si mesmo; Cap. XV — Fora da caridade não há salvação; Cap. XVII — Sede perfeitos; Cap. XX — Os trabalhadores da última hora.
- KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo. Primeira Parte, cap. VII — As penas futuras segundo o Espiritismo; especialmente o Código Penal da Vida Futura.
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. A Gênese. Paris, 1868.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Paris, 1890.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC, Allan (org.). Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, 1858-1869.
4. Passagens bíblicas
- Mateus 5:25-26 — Conciliação com o adversário e o pagamento do último ceitil.
- Mateus 20:1-16 — Parábola dos trabalhadores da vinha.
- Mateus 8:12 — “Choro e ranger de dentes”.
- Mateus 13:42 — “Choro e ranger de dentes”.
- Mateus 22:13 — “Choro e ranger de dentes”.
- Mateus 25:30 — “Choro e ranger de dentes”.
- 1 Pedro 4:8 — O amor e a caridade.
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