Fidelidade Doutrinária, Interpretação e o Risco de Transformar o
Consolador em Fonte de Medo
Introdução
A liberdade de consciência constitui uma das
mais importantes expressões da liberdade humana.
Pensar, analisar, comparar, aceitar ou
rejeitar ideias e formar convicções próprias fazem parte do desenvolvimento do
Espírito. Entretanto, essa liberdade não representa apenas um direito: envolve
também responsabilidade, sobretudo quando nossas palavras podem influenciar a
consciência de outras pessoas.
Essa responsabilidade se torna ainda maior
quando falamos em nome de uma doutrina, de uma filosofia ou de um conjunto de
ideias.
Quem procura uma instituição espírita pode
estar atravessando um período de sofrimento, dúvida, perda ou insegurança. Pode
estar procurando compreender a morte de alguém querido, uma dificuldade
familiar, uma enfermidade, um conflito íntimo ou simplesmente o sentido da
existência.
Nessas circunstâncias, quem fala ao público
possui uma tarefa delicada.
Uma palavra pode esclarecer.
Uma palavra pode consolar.
Mas também pode confundir.
E, quando determinada informação é apresentada
como princípio doutrinário sem que efetivamente o seja, pode-se produzir um
efeito ainda mais grave: substituir o esclarecimento pelo medo.
O problema não é novo.
Já no final do século XIX, o movimento
espírita era chamado a distinguir o ensino dos Espíritos das opiniões,
interpretações e excessos decorrentes da credulidade. A Revista Espírita,
publicada entre 1858 e 1869, constituiu importante espaço de análise dos
fenômenos, das ideias e de suas consequências, tendo entre suas preocupações
evitar tanto a credulidade excessiva quanto o ceticismo sistemático.
Mais de um século depois, a questão continua
atual.
Estamos empregando corretamente a liberdade de
consciência?
E, quando transmitimos o Espiritismo, estamos
realmente esclarecendo ou, sem perceber, apenas trocando os nomes de antigas
estruturas religiosas?
PARTE I — QUANDO OS NOMES MUDAM, MAS A ESTRUTURA PERMANECE
1.
Liberdade de consciência não é liberdade para impor
A Doutrina Espírita ensina que o pensamento e
a consciência são livres.
A questão 833 de O Livro dos Espíritos
pergunta em que consiste a liberdade de consciência, e a resposta a relaciona
diretamente à liberdade de pensar. Nas questões seguintes, encontramos o
reconhecimento de que ninguém possui legitimidade para colocar obstáculos à
liberdade de consciência de outra pessoa.
Isso estabelece um princípio simples: podemos
ensinar, mas não podemos pensar pelo outro.
Podemos apresentar argumentos, mas não podemos
exigir aceitação.
Podemos esclarecer, mas não podemos substituir
a consciência alheia pela nossa.
Essa distinção é particularmente importante
dentro de uma instituição espírita.
O expositor possui liberdade para interpretar,
estudar e apresentar suas conclusões. Entretanto, quando fala em nome da
Doutrina Espírita, assume outra responsabilidade: precisa distinguir aquilo que
pertence aos princípios doutrinários daquilo que representa sua interpretação
pessoal ou determinada tradição posterior.
Essa distinção protege tanto a Doutrina quanto
o ouvinte.
2. O
problema não é apenas a intenção
Muitas vezes, aquele que transmite uma ideia
não pretende causar medo.
Ao contrário.
Deseja ajudar.
Deseja orientar.
Deseja despertar a pessoa para a
responsabilidade moral.
Entretanto, a boa intenção não elimina a
necessidade de conhecimento e discernimento.
Alguém pode dizer:
— “Cuidado! Se continuar agindo assim, você
vai para o umbral.”
Outro poderá advertir:
— “Desse jeito você não vai conseguir
bônus-hora.”
E ainda outro:
— “O Planeta Chupão está chegando; é melhor se
preparar.”
Talvez nenhum deles queira assustar deliberadamente.
Mas precisamos perguntar:
Que efeito essas palavras podem produzir em
alguém que ainda não possui elementos para compreender o contexto dessas
expressões?
Uma pessoa pode não ouvir a advertência como
uma oportunidade de reflexão moral.
Pode ouvir como ameaça.
E aquele que procurava consolo poderá sair da
reunião preocupado com uma espécie de julgamento espiritual iminente.
Assim, uma intenção aparentemente educativa
pode produzir resultado contrário.
3. Quando o
Espiritismo apenas troca os nomes
Existe uma questão ainda mais profunda.
Determinadas práticas e concepções podem
conservar a estrutura mental de antigas tradições religiosas mesmo depois de
receberem terminologia espírita.
Muda-se o nome, mas permanece a ideia.
O inferno pode reaparecer sob outra
denominação.
O santo pode ser substituído pelo Espírito
superior transformado em objeto de devoção.
A oração de intercessão pode reaparecer sob
outras expressões.
A recompensa celeste pode transformar-se em
uma espécie de contabilidade espiritual.
O castigo divino pode ser substituído por uma
interpretação mecânica da lei de causa e efeito.
E o juízo final pode reaparecer sob a imagem
de uma separação planetária.
Nesse caso, não ocorreu necessariamente uma
mudança de compreensão.
O que ocorreu foi uma mudança de
vocabulário.
E essa é uma questão que merece atenção porque
a Doutrina Espírita apresenta uma compreensão diferente da relação do Espírito
com as leis naturais e com o próprio progresso.
Não se trata simplesmente de trocar “inferno”
por “umbral”, “karma” por “causa e efeito” ou “juízo final” por “Planeta
Chupão”.
É necessário compreender o que cada
conceito realmente significa.
4. O
chamado “umbral”
O termo “umbral” tornou-se muito conhecido no
movimento espírita por meio da literatura posterior à Codificação,
particularmente em obras atribuídas ao Espírito André Luiz.
Essas obras podem ser estudadas e podem
oferecer elementos valiosos de reflexão.
Mas é importante preservar uma distinção: uma
obra subsidiária não se transforma automaticamente em obra fundamental da
Codificação.
Isso significa que uma descrição encontrada em
determinada obra posterior não deve ser apresentada como se fosse
necessariamente um princípio estabelecido pela Doutrina Espírita.
Quando se afirma:
“Se você não se corrigir, irá para o umbral”,
a narrativa pode adquirir uma função que
talvez não fosse aquela pretendida originalmente.
Em vez de reflexão sobre as consequências do
desequilíbrio espiritual, transforma-se em ameaça.
E então o pensamento começa a funcionar assim:
“Preciso fazer o bem para não ir para o
umbral.”
Mas será essa a finalidade mais elevada da
educação moral?
5. O
“bônus-hora” e a contabilidade do bem
Algo semelhante pode ocorrer com a expressão
“bônus-hora”, conhecida principalmente pela literatura de André Luiz.
Dentro da obra em que aparece, a expressão
pode ser compreendida dentro de um contexto próprio, como recurso narrativo e
pedagógico.
O problema surge quando ela passa a ser
utilizada como se o bem pudesse ser reduzido a uma espécie de contabilidade
espiritual:
“Faça isso e ganhará bônus-hora.”
Nesse caso, a caridade corre o risco de
assumir uma característica de investimento.
Faço o bem porque receberei alguma coisa em
troca.
Ajudo porque isso produzirá crédito para mim.
Sirvo porque obterei uma vantagem espiritual.
Mas a educação moral não deveria caminhar
justamente na direção contrária?
Quanto mais compreendemos a caridade, menos
ela deveria depender de recompensa.
A pessoa que começa fazendo o bem por
obrigação pode, gradualmente, compreender o valor da ação.
Aquele que inicialmente age pelo dever pode
desenvolver o sentimento.
E aquele que aprende verdadeiramente a amar já
não precisa perguntar:
“Quanto vou receber por isso?”
A ação caridosa passa a encontrar sua própria
finalidade no bem realizado.
6. O
“Planeta Chupão” e o antigo juízo final
Talvez nenhum exemplo seja tão esclarecedor
quanto o chamado “Planeta Chupão”.
A ideia de um astro que se aproximaria da
Terra para retirar determinados Espíritos e separar os bons dos maus guarda
evidente semelhança estrutural com a antiga concepção religiosa do Juízo Final.
Não estamos afirmando que toda pessoa que
menciona essa ideia pretende reproduzir conscientemente uma concepção
religiosa.
Mas é necessário observar a semelhança da
estrutura: há um julgamento, uma separação definitiva e uma destinação
diferente para os indivíduos.
O problema está em apresentar essa concepção
como se constituísse ensinamento da Codificação.
Em A Gênese, no capítulo XVIII, “São
chegados os tempos”, encontramos a ideia de transformação da humanidade e de
renovação moral. O texto descreve uma transição em que as disposições morais
dos Espíritos possuem papel fundamental. A chamada “geração nova” é caracterizada
pela presença de Espíritos predispostos às ideias progressistas e ao movimento
de regeneração.
No item 33, encontra-se uma afirmação
particularmente significativa: a regeneração da humanidade não exigiria a
renovação integral dos Espíritos, mas uma modificação em suas disposições
morais. O melhoramento individual, quando ampliado para grandes massas,
poderia modificar profundamente as ideias e os costumes.
Isso desloca o centro da questão.
Em vez de perguntar:
“Quando chegará o astro que separará os bons
dos maus?”
a pergunta passa a ser:
“O que estamos fazendo para modificar nossas
disposições morais?”
Essa segunda pergunta nos coloca diante de
nossa própria responsabilidade.
7. A regeneração
é, antes de tudo, moral
A própria descrição da “geração nova” em A
Gênese associa a transformação às disposições morais dos Espíritos e à
substituição progressiva de sentimentos como egoísmo, orgulho, inveja e ciúme
por disposições compatíveis com a fraternidade.
Portanto, quando se fala em transformação da
humanidade, não precisamos imaginar necessariamente acontecimentos
extraordinários destinados a provocar medo.
Podemos olhar para aquilo que acontece
diariamente:
uma pessoa que aprende a perdoar;
outra que deixa de alimentar o ódio;
alguém que abandona a intolerância;
outro que aprende a conviver com quem pensa
diferente;
uma família que rompe um ciclo de violência;
uma comunidade que passa a cooperar;
um indivíduo que começa, lentamente, a dominar
suas próprias paixões.
É nesse território que a regeneração pode ser
percebida.
A transformação do mundo começa também pela
transformação das disposições daqueles que o habitam.
PARTE II — ENTRE A FIDELIDADE DOUTRINÁRIA E A EDUCAÇÃO DA CONSCIÊNCIA
8. Obras
subsidiárias não são o problema
É importante deixar isso muito claro.
O problema não está na existência de obras
complementares.
A literatura espírita posterior possui enorme
importância histórica e pode oferecer valiosos elementos para estudo, reflexão
e compreensão.
O problema surge quando deixamos de distinguir
suas funções.
Uma obra subsidiária pode ampliar uma
reflexão.
Pode apresentar uma narrativa.
Pode utilizar uma imagem.
Pode desenvolver uma hipótese.
Pode descrever experiências do mundo
espiritual segundo a perspectiva de determinado Espírito.
Tudo isso pode ser objeto de estudo.
Mas o leitor precisa conservar sua capacidade
de análise.
A pergunta correta não é:
“Acredito ou não acredito?”
Antes disso, devemos perguntar:
“Qual é a natureza dessa informação?”
“Qual é sua fonte?”
“É princípio da Codificação, ensino posterior,
interpretação ou narrativa?”
Essa atitude não é falta de respeito.
É discernimento.
9. O
analfabetismo funcional também pode existir entre pessoas instruídas
Existe ainda uma dificuldade contemporânea que
merece nossa atenção.
Uma pessoa pode possuir formação universitária
e, mesmo assim, apresentar dificuldades para interpretar adequadamente um
texto.
Pode ler, mas não compreender o contexto.
Pode memorizar uma frase sem entender a ideia
que a envolve.
Pode interpretar literalmente uma metáfora.
Pode retirar uma afirmação de seu contexto e
transformá-la em regra geral.
Pode confundir narrativa com princípio.
Pode confundir opinião com ensino.
Esse fenômeno é particularmente perigoso
quando ocorre na transmissão de conhecimentos espirituais.
Porque uma interpretação inadequada pode ser
repetida muitas vezes.
E aquilo que é repetido durante anos pode
acabar adquirindo aparência de princípio.
Mas a repetição não transforma uma
interpretação em fundamento doutrinário.
10. Quando
o medo ocupa o lugar do consolo
Imaginemos alguém chegando a uma reunião pela
primeira vez.
Está sofrendo.
Deseja compreender.
Talvez tenha perdido alguém.
Talvez esteja angustiado com a própria vida.
O expositor inicia a palestra falando sobre o
futuro da humanidade.
E diz:
— “O Planeta Chupão está chegando.”
Depois:
— “Quem não estiver preparado poderá ser
afastado.”
Mais adiante:
— “Cuidado com seus atos, porque você poderá
ir para o umbral.”
E, finalmente:
— “Façam o bem para acumular bônus-hora.”
O expositor talvez esteja convencido de que
ofereceu uma excelente orientação.
Mas aquele ouvinte poderá sair pensando:
“Estou em perigo.”
“Preciso fazer determinadas coisas para
escapar.”
“E se eu não conseguir?”
Onde deveria haver esclarecimento, instalou-se
o medo.
Onde deveria existir esperança racional,
apareceu a ansiedade.
Onde deveria existir liberdade, surgiu
dependência.
Isso é grave.
Não porque o expositor necessariamente tenha
má intenção.
Mas porque a responsabilidade de quem
ensina não termina na intenção; inclui também as consequências previsíveis
daquilo que transmite.
11. O medo
pode modificar o comportamento, mas não necessariamente transforma a
consciência
Podemos fazer alguém deixar de praticar
determinado ato porque teme uma punição.
Podemos também fazer alguém realizar
determinada ação porque espera uma recompensa.
Em ambos os casos, o comportamento pode mudar.
Mas isso não significa necessariamente
transformação moral.
A transformação íntima é mais profunda.
Ela acontece quando começamos a compreender.
Quando reconhecemos nossas imperfeições.
Quando percebemos as consequências de nossas
escolhas.
Quando desenvolvemos sentimentos mais
elevados.
Quando aprendemos a controlar nossas paixões.
Quando passamos a considerar o semelhante.
Quando o bem deixa de ser apenas obrigação e
começa a tornar-se necessidade da própria consciência.
É nesse sentido que a educação das paixões
possui grande importância.
Não precisamos simplesmente destruí-las.
Precisamos educá-las.
A energia que antes alimentava a intolerância
pode ser direcionada para o estudo.
A energia da disputa pode transformar-se em
esforço de superação pessoal.
A paixão de defender uma ideia pode
transformar-se em compromisso com a verdade.
O desejo de reconhecimento pode transformar-se
em serviço.
E o medo pode, gradualmente, ser substituído
pela compreensão.
12. O
perigo da transformação da Doutrina em religião tradicional
A Doutrina Espírita pode ser deturpada não
apenas por aquilo que acrescentamos a ela, mas também pela forma como
reproduzimos comportamentos religiosos tradicionais.
Quando determinados Espíritos são tratados
como santos infalíveis;
quando nomes são invocados como se sua
presença fosse indispensável;
quando se estabelecem práticas como
obrigatórias sem fundamento doutrinário;
quando longas fórmulas substituem a reflexão;
quando a prece é transformada em espécie de
mecanismo automático;
quando se atribui eficácia especial à simples
menção do nome de determinado Espírito;
quando o expositor assume posição de
autoridade moral incontestável;
quando a pessoa é estimulada a obedecer mais
do que a compreender;
podemos estar diante de uma transformação da
prática espírita em algo muito semelhante àquilo que o Espiritismo procurou
justamente superar.
Não é necessário ridicularizar essas práticas.
É necessário examiná-las.
Qual é sua finalidade?
Qual é seu fundamento?
Elas favorecem a autonomia da consciência ou a
dependência?
Estimulam o pensamento ou apenas a repetição?
Produzem compreensão ou medo?
13.
Espíritos superiores não são santos
Outro cuidado importante está na relação com
os Espíritos considerados superiores.
O respeito é natural.
A gratidão também.
A admiração por uma existência dedicada ao bem
pode ser uma fonte legítima de inspiração.
Mas transformar Espíritos superiores em
santos, intermediários indispensáveis ou objetos de culto seria reproduzir uma
estrutura religiosa estranha à compreensão espírita da relação entre os
Espíritos.
O Espírito superior não precisa ser
transformado em objeto de adoração para ser respeitado.
Podemos admirar Bezerra de Menezes sem criar
“São Bezerra”.
Podemos reconhecer a importância histórica de
Allan Kardec sem transformá-lo em santo.
Podemos estudar Emmanuel, André Luiz, Joanna
de Ângelis ou qualquer outro Espírito sem lhes atribuir infalibilidade.
O respeito verdadeiro não exige canonização.
Exige discernimento.
14. Lei de
causa e efeito não é simplesmente lei de talião ou karma
Também é necessário cuidado com as
comparações.
A Doutrina Espírita reconhece a relação entre
nossas escolhas e suas consequências, mas isso não significa simplesmente
reproduzir a antiga Lei de Talião: “olho por olho, dente por dente”.
Tampouco é adequado reduzir a concepção
espírita à ideia popular de karma entendida como uma espécie de mecanismo
automático de punição.
A questão é muito mais complexa.
O Espírito é responsável por seus atos e
progride através das experiências.
A justiça divina não se reduz a vingança.
O sofrimento não deve ser interpretado de
maneira simplista.
E ninguém possui autoridade para olhar para a
dificuldade alheia e decretar:
“Isso está acontecendo porque você fez isso em
outra existência.”
Essa postura pode ser profundamente desumana.
A lei moral deve produzir responsabilidade e
compaixão, não julgamento precipitado.
15. A vida
social exige respeito às diferenças
Esse assunto também se relaciona diretamente à
necessidade da vida social.
Os Espíritos ensinam, em O Livro dos
Espíritos, que a vida social é natural e necessária ao progresso. O
isolamento absoluto é contrário à lei natural, pois o ser humano precisa do
contato com os outros para desenvolver-se e completar suas faculdades.
Isso significa que precisamos aprender a
conviver com diferenças.
Diferenças religiosas.
Políticas.
Culturais.
Artísticas.
Esportivas.
Filosóficas.
E também diferentes interpretações dentro do
próprio movimento espírita.
Não podemos transformar toda divergência em
combate.
Nem toda discordância é uma ameaça.
A maturidade moral está justamente em
conseguir sustentar uma convicção sem transformar aquele que pensa diferente em
inimigo.
Esse princípio também vale para a fidelidade
doutrinária.
Podemos discordar de determinada interpretação
sem atacar a pessoa que a sustenta.
Podemos apontar que uma ideia não está na
Codificação sem ridicularizar quem a aprendeu.
Podemos defender uma compreensão sem
transformar a defesa em paixão.
16. A
paixão pela Doutrina também precisa ser educada
Aqui chegamos a um ponto que se relaciona
diretamente com nossos estudos anteriores.
A paixão não precisa ser simplesmente
eliminada.
Ela pode ser educada.
Alguém apaixonado pelo Espiritismo pode querer
defendê-lo com todas as forças.
Isso é compreensível.
Mas, se essa paixão não for educada, pode
produzir justamente aquilo que pretende combater:
intolerância;
personalismo;
dogmatismo;
agressividade;
recusa ao diálogo;
idolatria de autores;
aceitação automática de tudo o que venha de
determinada fonte.
Nesse caso, a paixão pela verdade pode
tornar-se paixão pela própria opinião.
E há uma diferença enorme entre as duas.
A verdade pode exigir firmeza.
Mas a defesa da verdade não exige violência.
A fidelidade doutrinária pode exigir correção.
Mas não exige humilhação.
O estudo pode exigir convicção.
Mas não exige intolerância.
É nesse processo que a transformação íntima se
manifesta.
17. O
verdadeiro consolo não precisa do medo
A pessoa que procura uma instituição espírita
não precisa de promessas fáceis.
Também não precisa de ameaças espirituais.
Precisa de esclarecimento.
Precisa compreender que a existência não
termina com a morte.
Precisa refletir sobre a responsabilidade
moral.
Precisa compreender que o progresso é gradual.
Precisa saber que ninguém está condenado
eternamente.
Precisa compreender que a vida possui
consequências, mas também possibilidades permanentes de reparação e progresso.
Precisa encontrar razões para continuar.
Isso é consolo.
Não um consolo artificial que diz:
“Nada de ruim acontecerá.”
Mas um consolo racional que afirma:
“A dificuldade não é o fim da caminhada.”
Essa perspectiva é muito diferente do medo.
O medo pergunta:
“Como faço para escapar?”
A compreensão pergunta:
“Como posso melhorar?”
A primeira mantém a criatura voltada para si
mesma.
A segunda começa a abrir espaço para o amor, a
caridade e a vida social.
REFLEXÃO
FINAL
O artigo que deu origem a este estudo foi
escrito em 1991.
Mais de três décadas depois, algumas das
situações ali apontadas ainda podem ser encontradas.
Continuamos ouvindo, em determinados
ambientes:
“Cuidado, senão você vai para o umbral.”
“Desse jeito você não vai ganhar bônus-hora.”
“O Planeta Chupão está chegando.”
“Faça isso porque determinado Espírito está
ajudando.”
“Não faça aquilo porque atrairá consequências
espirituais.”
Talvez algumas dessas expressões sejam
utilizadas de maneira informal, sem qualquer intenção de impor medo.
Mas justamente por isso precisamos refletir.
Que imagem da vida espiritual estamos
oferecendo?
Uma vida orientada pelo medo?
Uma existência organizada em torno de prêmios
e punições?
Ou um processo educativo no qual o Espírito
aprende, gradualmente, a governar a si mesmo?
Não precisamos rejeitar obras subsidiárias.
Não precisamos negar o valor de suas
narrativas.
Não precisamos combater aqueles que delas se
utilizam.
Precisamos apenas aprender a distinguir,
interpretar e transmitir com responsabilidade.
Uma obra posterior pode ser excelente e, ainda
assim, não constituir fundamento da Codificação.
Uma narrativa pode ser pedagógica sem precisar
ser interpretada literalmente.
Uma hipótese pode ser interessante sem
transformar-se em certeza.
Uma opinião pode merecer respeito sem
transformar-se em princípio.
E uma advertência moral pode ser necessária
sem utilizar o medo como instrumento.
Talvez esse seja um dos grandes desafios da
divulgação espírita no presente: não apenas conhecer aquilo que estudamos,
mas saber como transmiti-lo.
Porque uma informação mal interpretada pode
gerar superstição.
Uma interpretação apresentada como certeza
pode gerar dogma.
Uma obra subsidiária transformada em princípio
pode obscurecer a Codificação.
E uma mensagem transmitida pelo medo pode
transformar o consolo em angústia.
A fidelidade doutrinária, portanto, não
consiste em rejeitar tudo aquilo que não está na Codificação.
Também não consiste em aceitar tudo aquilo que
circula no movimento espírita.
Consiste em saber distinguir.
Estudar.
Comparar.
Raciocinar.
Examinar.
E reconhecer os limites do que realmente
sabemos.
Esse cuidado é especialmente importante porque
a Doutrina Espírita não foi apresentada como um sistema destinado a substituir
a liberdade individual por novas formas de dogmatismo.
Ao contrário, sua proposta de estudo convida
ao exercício da razão e da responsabilidade.
Aquele que fala deve respeitar aquele que
ouve.
Aquele que ensina deve continuar estudando.
Aquele que interpreta deve reconhecer que está
interpretando.
Aquele que utiliza uma obra subsidiária deve
saber que ela é subsidiária.
E aquele que deseja despertar a consciência
para o bem precisa lembrar que o medo pode produzir obediência, mas somente
a compreensão pode contribuir para a transformação moral.
Talvez seja esse o ponto essencial.
Não precisamos dizer:
“Faça o bem para ganhar bônus-hora.”
Podemos aprender a dizer:
“Faça o bem porque o bem transforma aquele que
o pratica e beneficia aquele que o recebe.”
Não precisamos dizer:
“Mude porque você irá para o umbral.”
Podemos dizer:
“Observe suas escolhas, porque elas contribuem
para formar aquilo que você está se tornando.”
Não precisamos anunciar um planeta destinado a
separar a humanidade.
Podemos olhar para nós mesmos e perguntar:
“Que humanidade estamos ajudando a construir?”
E talvez seja justamente aí que a antiga
preocupação do artigo de 1991 encontra sua atualidade.
A Doutrina Espírita não precisa ser protegida
por medo.
Não precisa de ameaças para estimular a moral.
Não precisa de santos para oferecer exemplos.
Não precisa de dogmas para sustentar seus
princípios.
Não precisa transformar a consciência em serva
de uma autoridade humana.
Ela pode ser estudada com liberdade.
Examinada com razão.
Vivida com caridade.
E transmitida com serenidade.
Porque, no final, talvez a maior fidelidade
que possamos oferecer não seja repetir tudo aquilo que ouvimos em seu nome.
Seja ter coragem de perguntar:
“Isso realmente pertence à Doutrina?”
E, depois de perguntar, ter humildade para
continuar estudando.
Esse talvez seja um dos sinais de nossa
própria transformação: continuarmos firmes na busca da verdade, mas cada vez
menos apaixonados pela necessidade de ter razão.
REFERÊNCIAS
1. Obras
Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — Das leis morais: Capítulo VII — Lei de Sociedade, questões 766–768; Capítulo X — Lei de Liberdade, questões 833–842; Capítulo XII — Perfeição moral, questões 907–912.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XI — Amar o próximo como a si mesmo; Capítulo XII — Amai os vossos inimigos; Capítulo XV — Fora da caridade não há salvação.
- KARDEC, Allan. A Gênese — os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Capítulo XVIII — “São chegados os tempos”, especialmente “Sinais dos Tempos” e “A Geração Nova”. A obra relaciona a renovação da humanidade à transformação das disposições morais dos Espíritos.
2. Obras
complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Paris, 1859.
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Textos relativos à moral, ao progresso e ao desenvolvimento do Espiritismo.
3. Obras
Complementares Históricas
- KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, 1858–1869. Coleção de estudos e observações sobre fenômenos, ideias, moral, comunicação espiritual e desenvolvimento do Espiritismo.
4. Obras
Subsidiárias
- XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Obra consultada como referência para a expressão “bônus-hora” e para a discussão sobre a necessidade de distinguir literatura subsidiária dos princípios fundamentais da Codificação.
5.
Passagens bíblicas
- Mateus 22:37–40. O amor a Deus e ao próximo.
- Mateus 5:43–48. O amor aos inimigos.
- Mateus 7:12. A regra de ouro.
- João 13:34–35. O novo mandamento.
- Romanos 14:7. “Porque nenhum de nós vive para si.”
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