Introdução
Poucos assuntos despertam tanto a imaginação
quanto os chamados locais assombrados. Casas antigas, ruínas,
cemitérios, estradas desertas e outros lugares cercados de histórias de
aparições, ruídos ou acontecimentos inexplicáveis fazem parte do imaginário
popular de diferentes culturas.
Entretanto, aquilo que a tradição chama de
“assombração” pode reunir fenômenos de naturezas muito diferentes. Um ruído
pode ter uma causa natural; uma sombra pode resultar das condições de
iluminação; um relato pode ser ampliado pela imaginação e pela tradição; e, em
determinadas circunstâncias, pode realmente existir uma manifestação de um ou
mais Espíritos.
A Doutrina Espírita não propõe que se aceite
indistintamente qualquer relato extraordinário. Ao contrário, procura
investigar os fenômenos e compreender suas causas.
Em O Livro dos Médiuns, Segunda Parte,
Capítulo IX, ao tratar dos chamados lugares assombrados, Allan Kardec
examina justamente a possibilidade de certos Espíritos conservarem preferência
ou ligação com determinados lugares. O assunto, porém, ganha maior profundidade
quando relacionado ao pensamento, ao perispírito e aos fluidos, conforme
encontramos em outras obras da Codificação e nos casos estudados na Revista
Espírita.
A questão, portanto, não é simplesmente saber
se uma casa é ou não “assombrada”. É procurar compreender o que pode ocorrer
entre Espíritos, pessoas, pensamentos, lugares e as condições materiais que
permitem determinadas manifestações.
1. O que
são os chamados locais assombrados?
A crença nos lugares assombrados não nasceu
necessariamente de fatos imaginários. Kardec reconhece que manifestações
espontâneas de Espíritos e a persistência de alguns deles em determinados
locais contribuíram para a formação dessa crença.
Isso, entretanto, não significa que existam
lugares destinados aos Espíritos ou que determinada casa possua, por si mesma,
uma propriedade sobrenatural.
A diferença é importante.
Um Espírito pode conservar preferência por
determinado lugar, especialmente quando ainda permanece ligado à matéria, aos
hábitos ou às circunstâncias da existência corporal. Mas o lugar não precisa
ser a causa da manifestação.
Podemos dizer, de maneira mais cuidadosa, que o
lugar pode constituir o cenário de uma relação que ainda permanece entre o
Espírito e determinadas pessoas, lembranças, hábitos ou acontecimentos.
Essa compreensão já modifica profundamente a
ideia popular de uma “casa maldita”.
Não é necessariamente a casa que está
assombrada.
Pode haver um ou mais Espíritos que, por
determinadas circunstâncias, conservam relação com aquele lugar.
2. O apego
a um lugar não significa necessariamente maldade
Um dos equívocos mais comuns consiste em
imaginar que todo Espírito ligado a determinado local seja necessariamente mau.
A Doutrina Espírita não sustenta essa
conclusão.
O grau de adiantamento espiritual influencia o
desprendimento das coisas materiais. Espíritos ainda pouco adiantados podem
conservar gostos, hábitos e interesses relacionados à vida corporal. Alguns
podem, por isso, demonstrar preferência por determinados lugares.
Isso não significa que sejam necessariamente
perversos.
Podem existir Espíritos levianos, sofredores,
perturbados ou ainda muito ligados à matéria. Alguns podem produzir
manifestações desagradáveis; outros podem simplesmente permanecer próximos de
um ambiente ao qual ainda se sentem ligados.
A própria Revista Espírita apresenta
casos que ajudam a compreender essa diversidade.
Em “Um antigo carreteiro”, publicado em
dezembro de 1859, aparece a situação de um Espírito que demonstra preferência
por determinado quarto. O caso mostra que o vínculo com um lugar pode existir
sem que a explicação esteja necessariamente na ideia de uma casa
sobrenaturalmente contaminada.
Já em “História de um danado”,
publicada em fevereiro de 1860, encontramos situação de natureza diferente, na
qual o Espírito permanece relacionado a um lugar associado a uma existência
marcada por grave transgressão. O local, nesse caso, adquire para o próprio
Espírito um significado doloroso.
Esses exemplos mostram que não existe uma
única causa para a permanência de um Espírito em determinado lugar.
3. O lugar
não é necessariamente a causa
Essa talvez seja uma das principais conclusões
que podemos extrair do estudo.
A tradição costuma dizer:
“Aquele lugar é assombrado.”
A investigação espírita conduz a uma pergunta
diferente:
“Que Espírito se manifesta, por que se
manifesta e qual relação possui com esse lugar?”
A diferença não é apenas de linguagem.
Ela desloca a atenção do objeto material para
o ser inteligente.
Uma casa não possui vontade, memória ou
intenção. O Espírito, sim.
Assim, quando existe uma manifestação
espiritual, precisamos procurar compreender a ação do Espírito e as condições
que possibilitam sua manifestação.
O lugar pode favorecer determinadas
circunstâncias, mas não devemos transformá-lo automaticamente em uma espécie de
agente espiritual.
4.
Pensamento, perispírito e fluidos
É neste ponto que outras obras da Codificação
ajudam a ampliar a compreensão apresentada em O Livro dos Médiuns.
Em A Gênese, Kardec explica que os
fluidos espirituais constituem um dos estados do Fluido Cósmico Universal e
servem de veículo ao pensamento. Os Espíritos atuam sobre esses fluidos por
meio do pensamento e da vontade.
O pensamento, portanto, não é apresentado
apenas como uma abstração sem qualquer consequência no mundo espiritual.
O Espírito pensa, deseja e age; o perispírito
participa dessa ação como elemento de ligação entre o Espírito e a matéria; e
os fluidos constituem o meio em que determinadas ações espirituais podem
ocorrer.
Podemos representar, de maneira simplificada,
essa relação:
Espírito → pensamento e vontade → perispírito
→ ação fluídica → manifestação, quando existem condições para isso.
Essa sequência não significa que toda
manifestação em um lugar deva necessariamente ocorrer dessa maneira específica,
nem que qualquer pensamento produza efeitos físicos perceptíveis.
Ela apenas nos ajuda a compreender o mecanismo
geral pelo qual a Doutrina Espírita concebe a ação do Espírito sobre a matéria.
5. O Fluido
Cósmico Universal e o cuidado com as interpretações
O Fluido Cósmico Universal ocupa posição
importante na explicação dos fenômenos espirituais apresentada pela
Codificação.
Kardec ensina que ele constitui a matéria
elementar primitiva e que, em diferentes estados e sob determinadas
modificações, está relacionado tanto aos fenômenos materiais quanto aos
fenômenos espirituais.
Entretanto, é necessário evitar uma
interpretação que a Codificação não autoriza.
Não devemos dizer que uma casa “fica
impregnada de energia negativa”, nem que suas paredes guardam necessariamente a
memória dos acontecimentos ocorridos ali.
Essas expressões pertencem a concepções
posteriores e não devem ser apresentadas como se fossem ensinamentos da
Doutrina Espírita.
Podemos, sim, afirmar que os Espíritos
atuam sobre os fluidos por meio do pensamento e da vontade, e que o
perispírito constitui o instrumento de relação entre o Espírito e a matéria.
Quando determinadas manifestações acontecem em
um lugar, essas noções podem ajudar a compreender como a ação espiritual sobre
a matéria é concebida.
Mas é prudente conservar a diferença entre
aquilo que a Codificação efetivamente ensina e aquilo que apenas podemos
formular como hipótese interpretativa.
6.
Afinidade e preferência por determinados lugares
A palavra afinidade merece atenção.
No estudo das relações entre Espíritos e
encarnados, a afinidade é um elemento importante. Espíritos e pessoas podem
aproximar-se em razão de suas disposições, pensamentos, interesses e
tendências.
No caso dos locais assombrados, porém, devemos
ser cuidadosos para não transformar essa ideia em uma espécie de “afinidade
energética” do imóvel.
A Codificação fala mais precisamente da preferência
ou ligação de determinados Espíritos com certos lugares.
Essa preferência pode estar relacionada a
hábitos, lembranças, interesses, sentimentos ou acontecimentos vividos durante
a existência corporal.
Por isso, talvez seja mais adequado dizer: há
uma relação do Espírito com o lugar, e não que o lugar possua
necessariamente uma “frequência” capaz de atrair determinados Espíritos.
Essa distinção preserva a terminologia
doutrinária e evita introduzir conceitos estranhos à Codificação.
7. Quando a
tradição transforma um fato em lenda
A Revista Espírita oferece material
particularmente interessante para compreender esse fenômeno.
Em março de 1869, ao tratar das chamadas “árvores
mal-assombradas da Ilha Maurícia”, Kardec examina como determinados fatos
podem adquirir proporções muito maiores quando transmitidos pela tradição.
Pode haver um acontecimento real na origem de
uma narrativa. Com o passar do tempo, entretanto, a imaginação acrescenta
detalhes, estabelece relações que não foram comprovadas e transforma um caso
particular em uma regra geral.
Assim pode nascer a ideia de que determinada
árvore, casa, ruína ou região possui uma propriedade especial.
Essa observação continua atual.
Hoje, a tradição oral foi acompanhada por
fotografias, vídeos, redes sociais e conteúdos digitais. Um relato pode
alcançar milhares ou milhões de pessoas antes mesmo que suas circunstâncias
sejam investigadas.
Por isso, quanto maior for a repercussão de um
fenômeno, maior deve ser também o cuidado com sua análise.
A popularidade de um relato não constitui
prova de sua realidade.
8. Ruínas,
cemitérios e a força da imaginação
O imaginário popular frequentemente associa
manifestações espirituais a ruínas, cemitérios, castelos antigos ou lugares
abandonados.
Kardec, entretanto, chama a atenção para a
influência da imaginação e da superstição.
O silêncio, a escuridão, a solidão, os ruídos
desconhecidos e as condições particulares de determinados ambientes podem
favorecer interpretações equivocadas.
Um animal movimentando-se no escuro, o vento
atravessando uma construção, uma estrutura que se acomoda, uma tubulação, uma
janela ou uma simples sombra podem adquirir aparência extraordinária quando
observados sob medo ou expectativa.
Isso não significa negar a possibilidade das
manifestações espirituais.
Significa apenas não atribuir uma causa
espiritual antes de excluir, tanto quanto possível, as causas naturais.
Essa postura é essencial para uma investigação
racional.
9. O
exorcismo e a autoridade moral
Outro aspecto importante aparece quando se
pretende combater manifestações espirituais por meio de fórmulas ou cerimônias.
A Doutrina Espírita não apresenta o exorcismo
como uma fórmula mágica capaz de expulsar Espíritos.
Em O Livro dos Médiuns, Kardec mostra
que a autoridade sobre Espíritos inferiores está relacionada à superioridade
moral daquele que procura combatê-los.
Isso modifica inteiramente a questão.
Não se trata de descobrir uma palavra secreta,
um objeto especial ou uma cerimônia capaz de dominar o Espírito.
A ação moral possui importância muito maior.
A prece, o esclarecimento, o arrependimento, o
perdão e a transformação das disposições íntimas podem modificar as relações
estabelecidas entre encarnados e desencarnados.
Portanto, quando existe realmente uma
manifestação espiritual, a Doutrina Espírita não propõe simplesmente “expulsar
o fantasma”.
Propõe compreender.
E, quando necessário, auxiliar.
10. Nem
toda manifestação é uma obsessão
É igualmente importante não confundir os
conceitos.
Um Espírito pode conservar ligação com
determinado lugar sem exercer obsessão sobre uma pessoa.
A obsessão pressupõe uma influência
persistente e prejudicial de um Espírito sobre outro, podendo apresentar
diferentes graus e características.
Um local onde ocorrem ruídos ou manifestações
espontâneas não deve, portanto, ser automaticamente classificado como cenário
de obsessão.
Por outro lado, se existe perseguição
sistemática, constrangimento ou domínio espiritual sobre determinada pessoa, o
assunto deve ser estudado à luz do capítulo dedicado à obsessão em O Livro
dos Médiuns.
Essa distinção evita que diferentes fenômenos
sejam colocados sob uma mesma explicação.
11. O
pensamento como elemento de ligação
Podemos agora reunir alguns dos elementos
estudados.
O Espírito conserva sua individualidade após a
morte.
Pode manter lembranças, hábitos, interesses e
sentimentos.
Pode, em determinadas condições, conservar
preferência por pessoas ou lugares.
O pensamento e a vontade exercem ação sobre os
fluidos.
O perispírito estabelece a relação do Espírito
com a matéria.
O mundo espiritual e o mundo corporal não são
compartimentos isolados. A interação entre ambos é contínua e pode ocorrer sem
qualquer manifestação perceptível. Um local pode, portanto, estar inserido em
relações entre Espíritos e encarnados sem que jamais tenha apresentado um
fenômeno ostensivo de efeitos físicos. Em determinadas circunstâncias, contudo,
reunidas as condições necessárias, essa interação pode produzir manifestações
perceptíveis.
Nesse contexto, podemos compreender que um
lugar associado durante muito tempo a determinado Espírito possa constituir
cenário de manifestações.
Mas o ponto fundamental permanece: não é o
lugar que possui uma personalidade espiritual. É o Espírito que se relaciona
com o lugar.
Essa diferença é pequena na aparência, mas
grande em suas consequências.
12. O que
realmente significa um “local assombrado”?
Depois desse percurso, talvez seja possível
substituir a expressão popular por uma compreensão mais precisa.
Um “local assombrado” não precisa ser
entendido como um espaço condenado, amaldiçoado ou naturalmente destinado aos
Espíritos.
Pode tratar-se simplesmente de um lugar onde,
em determinadas circunstâncias, um ou mais Espíritos conservam vínculos,
preferências ou interesses e onde podem ocorrer manifestações.
Esses vínculos podem estar associados a
pessoas, acontecimentos, hábitos, sentimentos ou situações particulares.
E podem desaparecer quando cessam as razões
que os mantêm.
Por isso, não devemos imaginar que um Espírito
esteja necessariamente preso a uma casa durante séculos.
A condição espiritual é dinâmica.
O progresso, o esclarecimento, o
arrependimento e a transformação moral podem modificar profundamente a relação
do Espírito com aquilo que anteriormente o prendia à matéria.
13. Uma
reflexão para o nosso tempo
Talvez o maior ensinamento desse estudo não
esteja propriamente nos chamados “fantasmas”.
Ele está na maneira como lidamos com aquilo
que não compreendemos.
Diante de um fenômeno estranho, podemos
escolher entre o medo, a superstição e a investigação.
O medo procura uma explicação imediata.
A superstição aceita uma explicação sem
examiná-la.
A razão procura observar, comparar e
compreender.
A Doutrina Espírita não nos pede que aceitemos
toda história extraordinária, mas também não nos convida a negar previamente
aquilo que ainda não compreendemos.
Ela propõe outra atitude: investigar antes
de concluir.
Essa postura continua necessária em nosso
tempo, quando uma imagem, um vídeo ou um relato podem transformar-se em “prova”
para milhares de pessoas em questão de horas.
O extraordinário exige mais cuidado, não
menos.
REFLEXÃO FINAL
Os chamados locais assombrados pertencem há
muito tempo ao imaginário humano. Entretanto, quando examinados à luz da
Doutrina Espírita, deixam de ser simplesmente lugares misteriosos para se
tornar uma oportunidade de compreender melhor as relações entre o mundo
espiritual e o mundo corporal.
Um Espírito pode conservar vínculos com
pessoas, objetos ou lugares. Pode manter hábitos e preferências. Pode encontrar
condições para manifestar-se. Seus pensamentos e sua vontade possuem ação sobre
os fluidos, e o perispírito participa de sua relação com a matéria.
Mas nada disso autoriza a superstição.
Uma casa não é necessariamente maldita porque
nela ocorreram acontecimentos trágicos. Uma ruína não é naturalmente habitada
por Espíritos. Uma manifestação estranha não é necessariamente espiritual. E um
Espírito ligado a determinado lugar não é necessariamente mau.
Há, portanto, uma diferença fundamental entre crença
e compreensão.
A crença pode dizer:
“Aquele lugar é assombrado.”
A investigação espírita pergunta:
“O que ocorre ali, quais são suas causas e que
relações entre Espíritos e encarnados podem estar envolvidas?”
Talvez essa seja a contribuição mais
importante que podemos retirar do estudo.
O desconhecido não precisa ser transformado em
superstição.
Pode ser transformado em objeto de
investigação.
E, quando realmente encontramos diante de nós
um Espírito em sofrimento, preso ao medo, ao arrependimento, ao apego ou à
própria ignorância, talvez a pergunta mais importante já não seja:
“Como expulsá-lo?”
Mas:
“Como ajudá-lo a compreender e prosseguir?”
REFERÊNCIAS
1. Obras
Fundamentais da Codificação Espírita
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
Parte Segunda, Capítulo IX — “Intervenção dos Espíritos no mundo corporal”;
especialmente a questão 459, sobre a influência dos Espíritos em nossos
pensamentos e ações, e as questões relativas à intervenção dos Espíritos no
mundo corporal.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
Segunda Parte, Capítulo V — “Das manifestações físicas espontâneas”; Capítulo
IX — “Dos lugares assombrados”; Capítulo XXIII — “Da obsessão”.
KARDEC, Allan. A Gênese, os milagres e as
predições segundo o Espiritismo. Capítulo XIV — “Os fluidos”.
2. Obras
Complementares de Allan Kardec
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo.
KARDEC, Allan. Obras Póstumas.
3. Obras
Complementares Históricas
KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de
Estudos Psicológicos. Paris, 1858–1869.
Especialmente:
- Dezembro de 1859 — “Um antigo carreteiro”.
- Fevereiro de 1860 — “História de um danado”.
- Março de 1869 — “As árvores mal-assombradas da Ilha Maurícia”.
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