Introdução
A humanidade jamais conseguiu eliminar
completamente a dor. Entretanto, talvez nunca tenha disposto de tantos recursos
para tentar evitá-la, reduzi-la ou simplesmente distraí-la como na atualidade.
A medicina moderna alcançou progressos
extraordinários no controle da dor física e no tratamento de inúmeras
enfermidades. A psicologia e a psiquiatria ampliaram consideravelmente os
recursos disponíveis para o cuidado da saúde mental. Tecnologias, entretenimento
e redes sociais oferecem possibilidades praticamente inesgotáveis de distração.
Tudo isso representa conquistas que não devem
ser desprezadas.
O problema surge quando o legítimo esforço
para tratar a dor transforma-se em uma tentativa de eliminar toda
experiência dolorosa da existência.
É nesse ponto que a reflexão do filósofo
Byung-Chul Han, em Sociedade paliativa: a dor hoje, encontra uma questão
profundamente humana. O autor identifica no mundo contemporâneo uma espécie de algofobia,
isto é, uma aversão crescente à dor e ao sofrimento. A dor passa a ser
percebida como algo incompatível com uma sociedade orientada pelo conforto,
pelo desempenho, pela satisfação imediata e pela positividade.
A questão merece ser examinada também sob
outra perspectiva.
Se a ciência procura legitimamente aliviar a
dor, o que podemos aprender com ela quando, apesar de todos os recursos
disponíveis, ela continua fazendo parte da existência?
A Doutrina Espírita oferece elementos para
essa reflexão sem transformar o sofrimento em objeto de culto, nem considerar
toda adversidade como punição ou consequência automática de uma existência
anterior.
PARTE I — UMA SOCIEDADE QUE NÃO QUER SOFRER
1. O
direito de não sofrer e a impossibilidade de não sofrer
É natural que o ser humano procure afastar a
dor.
Diante de uma enfermidade, procura o médico.
Diante de uma fratura, busca tratamento.
Diante de uma perturbação emocional, pode
necessitar de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.
Diante da fome, procura alimento.
Diante da solidão, procura companhia.
Nada disso representa fraqueza.
Ao contrário: cuidar de si e procurar auxílio
quando necessário é expressão de responsabilidade.
O problema está em outra direção: imaginar que
uma existência saudável deveria ser necessariamente uma existência sem
frustrações, perdas, contrariedades ou sofrimento.
A realidade demonstra o contrário.
A Organização Mundial da Saúde publicou em
2025 dados indicando que mais de um bilhão de pessoas vivem com algum
transtorno mental, enquanto a maior parte permanece sem atendimento
adequado. O dado mostra que o sofrimento humano não pode ser reduzido a uma
simples questão de falta de força de vontade. Há situações que exigem cuidado
profissional, políticas públicas e redes de proteção.
Também a solidão ganhou dimensão mundial. A
Comissão da OMS sobre Conexão Social destacou, em relatório publicado em 2025,
que isolamento social e solidão são fenômenos disseminados, com consequências
relevantes para a saúde física e mental e para o bem-estar das comunidades.
Portanto, não seria razoável defender uma
espécie de glorificação do sofrimento.
A questão é outra.
Por que, mesmo dispondo de tantos recursos
para cuidar da dor, continuamos tão pouco preparados para lidar com as
inevitáveis contrariedades da existência?
2. A
anestesia não é apenas farmacológica
Quando se fala em anestesia, geralmente
pensamos em medicamentos.
Mas existem outras formas de anestesiar a
consciência.
Há quem procure o consumo.
Outros mergulham continuamente no
entretenimento.
Alguns passam horas nas redes sociais.
Há quem transforme o trabalho em fuga
permanente.
Outros procuram relacionamentos sucessivos
para não permanecerem a sós consigo mesmos.
Também existem pessoas que recorrem à negação:
recusam-se a reconhecer aquilo que as incomoda e preferem construir uma
realidade interior onde nada precise ser enfrentado.
É justamente nesse contexto que a análise de
Byung-Chul Han se torna interessante. Sua crítica não é dirigida à medicina
paliativa, mas àquilo que denomina metaforicamente de “sociedade paliativa”:
uma cultura que procura eliminar a experiência da dor em vez de compreendê-la.
A questão poderia ser resumida assim:
Aliviar a dor é progresso. Não aprender a
lidar com ela pode ser uma forma de imaturidade.
Há uma diferença fundamental entre essas duas
atitudes.
3. A dor
como linguagem da experiência
Nem toda dor possui um significado oculto.
Uma dor de dente pode indicar uma enfermidade
dentária.
Uma dor no peito pode exigir atendimento
médico imediato.
Uma crise emocional pode indicar a necessidade
de ajuda especializada.
Portanto, seria perigoso transformar toda manifestação
dolorosa em uma espécie de mensagem espiritual e deixar de procurar os recursos
da ciência.
A Doutrina Espírita não exige esse abandono da
razão.
Ao contrário, a própria ideia de progresso
apresentada pelo Espiritismo pressupõe o desenvolvimento simultâneo das
faculdades intelectuais e morais.
Assim, diante da dor, a primeira pergunta pode
ser bastante simples:
O que precisa ser cuidado?
Somente depois podemos perguntar:
O que essa experiência está produzindo em mim?
Essa distinção é importante.
Uma pessoa pode tratar adequadamente uma
doença e, ao mesmo tempo, retirar dessa experiência ensinamentos sobre sua
maneira de viver.
Pode combater uma injustiça e,
simultaneamente, aprender a não cultivar ódio.
Pode procurar ajuda para superar uma crise
emocional e, durante esse processo, desenvolver maior compreensão de si mesma.
A dor não precisa ser aceita como destino
imutável para que dela se retire algum aprendizado.
4. Prova
não é sinônimo de castigo
Aqui encontramos uma das contribuições mais
importantes da Doutrina Espírita.
Em O Livro dos Espíritos, a existência
corporal é apresentada como campo de experiências necessário ao desenvolvimento
do Espírito. A encarnação possui, entre outros objetivos, fazê-lo avançar e
participar da obra geral da criação. As vicissitudes da vida corporal
constituem parte desse processo.
Mas isso não significa que toda dificuldade
seja uma punição.
Na questão 258, a Doutrina Espírita explica
que o Espírito pode escolher o gênero de provas antes da encarnação. Logo em
seguida, a questão 259 estabelece uma importante limitação: nem todas as
tribulações da existência foram escolhidas ou previstas em seus detalhes;
muitos acontecimentos decorrem das circunstâncias e das próprias ações
exercidas durante a vida.
Essa distinção impede uma interpretação
simplista.
Não podemos olhar para alguém que sofre e
concluir:
— “Está pagando pelo que fez.”
Isso seria transformar uma hipótese
doutrinária sobre a existência espiritual em julgamento moral sobre uma pessoa
cuja história desconhecemos.
Mais ainda: diante da dor de alguém, essa
atitude poderia substituir a solidariedade pela condenação.
A Doutrina Espírita aponta para outra direção.
Compreender a lei de causa e efeito não nos
autoriza a julgar o sofrimento alheio; ao contrário, deve ampliar nossa
responsabilidade perante ele.
PARTE II — O QUE FAZER COM A DOR?
5. A
experiência dolorosa pode transformar, mas não transforma automaticamente
Existe uma ideia muito difundida segundo a
qual “a dor ensina”.
Há verdade nessa afirmação, mas ela precisa
ser relativizada.
A dor pode ensinar.
Também pode endurecer.
Pode despertar a solidariedade.
Pode provocar revolta.
Pode desenvolver a humildade.
Pode alimentar o ressentimento.
Tudo dependerá, em grande medida, da maneira
como a pessoa reage à experiência e das condições em que ela se encontra.
Por isso, não basta sofrer.
É preciso elaborar a experiência.
É possível atravessar uma grande dificuldade e
sair dela mais sensível.
Mas também é possível atravessá-la carregando
novas feridas morais.
O sofrimento, portanto, não é uma escola
automática.
Ele oferece uma situação.
O aprendizado depende também do uso que
fazemos daquilo que vivemos.
6. A imagem
do mármore e do cinzel
Léon Denis utilizou uma bela imagem para
representar o trabalho da dor sobre a individualidade espiritual: a do escultor
que, mediante golpes sucessivos, retira do mármore aquilo que impede o
aparecimento da forma.
A imagem permanece sugestiva.
Entretanto, talvez seja possível ampliá-la.
O escultor não trabalha destruindo o mármore.
Ele trabalha revelando possibilidades.
Da mesma maneira, uma dificuldade pode retirar
de nós algumas ilusões.
Uma perda pode revelar o valor de uma presença
que antes não percebíamos.
Uma doença pode modificar nossa relação com o
tempo.
Uma frustração pode mostrar que determinada
ambição ocupava espaço excessivo em nossa existência.
Uma experiência de abandono pode fazer-nos
compreender melhor a importância da presença.
Uma grande dificuldade pode despertar uma
capacidade de solidariedade que permanecia adormecida.
Não é a dor que cria automaticamente essas
virtudes.
É o Espírito que pode transformar a
experiência em oportunidade de desenvolvimento.
7. A
resignação não é passividade
Outro ponto merece atenção.
A Doutrina Espírita valoriza a resignação
diante das situações que não podemos modificar, mas resignação não significa
passividade diante daquilo que pode ser transformado.
Se existe uma doença, devemos buscar
tratamento.
Se existe injustiça, devemos procurar
corrigi-la.
Se existe violência, devemos proteger a vítima
e interromper a violência.
Se existe sofrimento psicológico, devemos
buscar ajuda.
Se existe pobreza, devemos trabalhar para
reduzi-la.
Se existe solidão, devemos criar vínculos.
A compreensão espiritual da vida não substitui
a ação humana.
Ao contrário, pode conferir-lhe maior
responsabilidade.
O ensinamento moral de Jesus coloca a caridade
no centro da relação entre as criaturas. O sofrimento do próximo não deve ser
utilizado como argumento para explicar sua condição, mas como oportunidade para
exercermos solidariedade.
A pergunta mais elevada diante de uma pessoa
que sofre talvez não seja:
“Por que ela está passando por isso?”
Mas:
“O que posso fazer por ela?”
8. Jesus
diante da dor humana
O Evangelho apresenta uma característica
marcante na atitude de Jesus: diante do sofrimento, não encontramos apenas
explicações; encontramos aproximação.
Ele acolhe.
Consola.
Ensina.
Perdoa.
Ampara.
E, sobretudo, convida o ser humano à transformação
moral.
No Sermão da Montanha, ao proclamar
bem-aventurados os aflitos, o ensinamento não transforma a aflição em objeto de
desejo. O sentido está relacionado à consolação, à justiça e à transformação
futura daquele que atravessa a prova.
O Evangelho segundo o Espiritismo desenvolve
esse entendimento ao distinguir provas e expiações e ao mostrar que
determinadas dificuldades podem contribuir para o progresso espiritual quando
enfrentadas de maneira proveitosa.
Isso muda significativamente a relação com a
dor.
Não se trata de dizer:
“Sofrer é bom.”
Trata-se de compreender:
“Mesmo quando não posso evitar determinado
sofrimento, posso decidir o que farei moralmente com essa experiência.”
9. A
sociedade que precisa aprender a sofrer — e também a cuidar
Talvez a grande questão contemporânea não seja
escolher entre duas alternativas: sofrer ou não sofrer.
A verdadeira questão é aprender a distinguir:
o sofrimento que pode e deve ser tratado
daquele que precisa ser compreendido;
a dor que deve ser aliviada daquela que pode
trazer uma reflexão;
a resignação necessária daquela passividade
que perpetua o problema;
o cuidado legítimo daquela fuga permanente de
nós mesmos.
A medicina continuará procurando diminuir a
dor.
A psicologia continuará procurando compreender
o sofrimento humano.
A ciência continuará ampliando os recursos
para preservar a vida e a saúde.
Isso é desejável.
Mas nenhuma ciência poderá eliminar da
existência humana todas as perdas, separações, frustrações, envelhecimento,
incertezas e mudanças.
Enquanto formos Espíritos em processo de
desenvolvimento, a vida continuará sendo uma escola de experiências.
E talvez seja justamente por isso que
precisamos aprender não apenas a evitar o sofrimento desnecessário, mas
também a não desperdiçar as experiências difíceis que inevitavelmente
atravessarmos.
CONCLUSÃO — ENTRE A ANESTESIA E O APRENDIZADO
A sociedade contemporânea conquistou recursos
extraordinários para aliviar a dor.
Precisamos utilizá-los.
Não há mérito em sofrer quando existe
possibilidade de tratamento.
Não há virtude em recusar ajuda.
Não há espiritualidade em suportar
silenciosamente aquilo que pode ser cuidado.
Mas existe outro perigo: transformar o
conforto em objetivo absoluto e imaginar que uma vida sem contrariedades seja
uma vida necessariamente melhor.
A Doutrina Espírita apresenta a existência
corporal como etapa do progresso do Espírito e ensina que as experiências da
vida podem contribuir para esse progresso. Ao mesmo tempo, mostra que nem tudo
o que nos acontece foi previamente escolhido e que o livre-arbítrio, as
circunstâncias e as próprias ações humanas participam da construção da
experiência.
Por isso, talvez não seja necessário perguntar
diante de cada sofrimento:
“Por que Deus permitiu isso?”
Podemos começar por perguntas mais úteis:
“O que precisa ser feito?”
“Quem precisa de ajuda?”
“O que essa experiência pode me ensinar?”
“Que sentimento devo transformar?”
“Que bem ainda posso realizar?”
Essa atitude não elimina a dor.
Mas pode impedir que ela seja inútil.
Talvez seja esse o verdadeiro desafio: não
buscar o sofrimento, mas também não permitir que o sofrimento nos torne
incapazes de aprender, amar e servir.
Porque o objetivo da existência não parece ser
chegar ao fim dela sem jamais ter sofrido.
É chegar ao fim de cada etapa um pouco
menos egoísta, um pouco mais consciente e um pouco mais capaz de fazer o bem.
E, se assim for, a verdadeira vitória sobre a
dor não estará em nunca senti-la.
Estará em não permitir que ela nos afaste
daquilo que existe de melhor em nós.
Referências
1. Obras
Fundamentais da Codificação Espírita
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Segunda, Cap. II — “Da encarnação
dos Espíritos”, questões 132 e 133; Cap. VI — “Da vida espírita”, questões 258
a 273.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. V — “Bem-aventurados os
aflitos”; Cap. XI — “Amar o próximo como a si mesmo”; Cap. XV — “Fora da
caridade não há salvação”.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo.
Primeira parte, Cap. VII — “As penas futuras segundo o Espiritismo”.
2. Obras
complementares de Allan Kardec
KARDEC, Allan. A Gênese — Os milagres e as predições segundo o Espiritismo.
Cap. III — “O bem e o mal”; Cap. XVIII — “São chegados os tempos”.
3. Obras
Complementares Históricas
KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris,
1858–1869.
4. Obras
Subsidiárias
DENIS, Léon. O
problema do ser e do destino. 3ª parte, especialmente Cap. XXVI — “A dor”.
5.
Passagens bíblicas
Mateus, 5:4 —
“Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.”
João, 16:33 — “No
mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo.”
Mateus, 25:35-40 — O princípio da solidariedade e do auxílio ao próximo.
6. Fontes
Externas Utilizadas
HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Petrópolis: Vozes, 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health today: latest data. 2025.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. From loneliness to social connection: charting a path to healthier
societies — Report of the WHO Commission on Social Connection. 2025.
MAIA, Francisco Jadson Silva; ALMEIDA, Luzia
Cristina Lopes. “Algofobia e a democracia paliativa atual.” Educação
e Filosofia, v. 38, 2024.
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