Introdução
A palavra escândalo costuma ser associada a algo que causa
indignação, constrangimento ou perturbação. No entanto, quando Jesus afirmou
que “é necessário que venham escândalos”, acrescentou imediatamente: “mas
ai daquele por quem o escândalo venha”.
Há, portanto, uma questão que merece ser examinada com cuidado: Jesus
estaria ensinando que o mal é necessário? Ou estaria mostrando que, enquanto a
humanidade conservar imperfeições morais, o mal continuará produzindo
consequências que poderão contribuir para o aprendizado coletivo?
A explicação oferecida em O Evangelho segundo o Espiritismo é
bastante precisa: o escândalo, no sentido evangélico, não é apenas uma ação
ostensiva contra a moral ou o decoro; é também o resultado efetivo dos vícios e
imperfeições humanas. E o fato de o mal poder servir, em determinadas
circunstâncias, ao progresso não transforma aquele que o pratica em inocente.
Essa distinção é particularmente importante nos dias atuais. Vivemos em
uma sociedade na qual denúncias, protestos, investigações, manifestações
artísticas e descobertas científicas podem provocar forte reação. Ao mesmo
tempo, as redes sociais permitem que a indignação seja rapidamente transformada
em exposição pública, julgamento precipitado, agressão e desinformação.
Assim, talvez seja necessário distinguir o escândalo que revela o mal
daquele que produz o mal.
PARTE I
— O ESCÂNDALO COMO CONSEQUÊNCIA E COMO REVELAÇÃO
1. O sentido da palavra escândalo
No uso cotidiano, escândalo geralmente significa um acontecimento que
provoca grande repercussão. Mas o sentido empregado no Evangelho é mais amplo.
Segundo a explicação apresentada no capítulo VIII de O Evangelho
segundo o Espiritismo, o escândalo pode ser entendido como resultado dos
vícios e das imperfeições humanas, como uma reação do mal de uma pessoa sobre
outra, com ou sem repercussão pública.
Isso modifica profundamente a interpretação da conhecida frase de Jesus.
Não se trata de uma autorização para produzir escândalos.
Ao contrário.
A explicação é explícita: o mal continua sendo mal, ainda que, em
determinadas circunstâncias, suas consequências possam servir de experiência
para outros.
É uma diferença fundamental.
Uma doença pode levar alguém a modificar seus hábitos, mas isso não
significa que a doença seja um bem.
Uma guerra pode fazer uma sociedade compreender o valor da paz, mas isso
não transforma a guerra em virtude.
Uma injustiça pode despertar movimentos de justiça, mas isso não
transforma a injustiça em ato legítimo.
O aprendizado pode nascer da experiência do mal, mas o mal não se
converte em bem simplesmente porque dele resultou alguma consequência útil.
Essa compreensão evita um perigoso equívoco moral.
2. Quando a denúncia provoca escândalo
A história oferece inúmeros exemplos de situações em que revelar uma
realidade dolorosa provocou forte reação.
Em 1937, Pablo Picasso pintou Guernica, como resposta artística à
destruição da cidade espanhola durante a Guerra Civil. A obra tornou-se uma
representação universal dos horrores da guerra. Décadas depois, durante a
ocupação alemã de Paris, um oficial nazista teria perguntado ao artista se havia
sido ele quem fizera aquela obra. A resposta atribuída a Picasso foi: “Não,
vocês fizeram.”
A força da resposta está justamente na inversão da pergunta.
O problema não estava na pintura.
O problema estava na realidade que a pintura denunciava.
A arte apenas tornou visível aquilo que muitos prefeririam não
contemplar.
O mesmo princípio pode ser observado no caso Dreyfus. A condenação de
Alfred Dreyfus por alta traição, baseada em provas posteriormente demonstradas
como falsas, provocou uma crise política e social na França. Émile Zola entrou
publicamente na questão com sua célebre carta aberta, J'accuse...!,
contribuindo para que o caso permanecesse sob exame público.
O que provocava maior perturbação?
A denúncia da injustiça ou a própria injustiça?
A pergunta continua atual.
3. O escândalo diante da verdade
Existe uma característica comum nesses episódios: a denúncia provoca
desconforto porque obriga a consciência a olhar para algo que gostaria de
ignorar.
Isso também ocorre na ciência.
Ideias novas frequentemente encontram resistência porque ameaçam
explicações anteriormente aceitas. Mas aqui é preciso cuidado: o fato de uma
ideia provocar escândalo não prova sua verdade.
Galileu é lembrado como símbolo do conflito entre uma nova interpretação
astronômica e concepções então estabelecidas. Porém, o verdadeiro critério
científico não pode ser a capacidade de uma ideia provocar escândalo, e sim sua
possibilidade de ser examinada, confrontada com observações e submetida à
razão.
O mesmo princípio vale para as transformações sociais.
A abolição da escravatura, a ampliação dos direitos civis e a
participação política das mulheres foram processos que encontraram resistência
em diferentes épocas e sociedades.
O progresso moral, portanto, muitas vezes começa com uma pergunta
incômoda:
“Por que devemos continuar fazendo isso?”
É uma pergunta simples.
Mas pode ser revolucionária.
4. O próprio surgimento do Espiritismo como
exemplo histórico
A história do Espiritismo também registra episódios de forte oposição.
Em 9 de outubro de 1861, aproximadamente trezentos volumes e brochuras
relacionados ao Espiritismo foram queimados publicamente em Barcelona, por
determinação da autoridade eclesiástica local. Entre as obras estavam O
Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e coleções da Revista
Espírita. O episódio foi posteriormente examinado nas páginas da própria Revista
Espírita.
O acontecimento tornou-se conhecido como o Auto de Fé de Barcelona.
Mas há algo particularmente interessante na reação apresentada pela
própria literatura espírita daquele período.
A resposta não deveria ser a vingança.
Não deveria ser o ódio.
Não deveria ser a violência contra os que pensavam de modo diferente.
Em texto publicado na Revista Espírita de 1863, encontra-se uma
orientação muito clara no sentido de não buscar converter à força aqueles que
possuíam outra fé, respeitando a liberdade de consciência e mantendo a
moderação mesmo diante da oposição.
Essa postura é coerente com um princípio moral essencial: uma verdade
não se torna mais verdadeira porque é imposta, nem uma convicção se torna mais
legítima porque silencia a convicção alheia.
PARTE II
— O ESCÂNDALO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
5. O problema mudou de forma
Hoje, a humanidade dispõe de instrumentos de comunicação que nenhuma
geração anterior conheceu.
Uma denúncia pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas.
Uma imagem pode atravessar continentes em segundos.
Uma descoberta científica pode ser conhecida mundialmente quase
imediatamente.
Mas existe um problema.
A mesma tecnologia que permite revelar uma injustiça também permite
fabricar uma.
A mesma rede que dá voz ao oprimido pode ser utilizada para destruir
reputações.
A mesma liberdade de expressão que protege a denúncia pode ser utilizada
para espalhar mentira.
Em relatório publicado pela UNESCO, o índice global de liberdade de
expressão apresentou queda de cerca de 10% entre 2012 e 2024, acompanhado por
aumento da censura, da autocensura, da hostilidade contra jornalistas e de
restrições ao debate público. O relatório também aponta a desinformação
impulsionada por inteligência artificial como um dos desafios contemporâneos à
integridade da informação.
Isso nos coloca diante de uma nova responsabilidade.
Nem todo barulho é denúncia.
Nem toda denúncia é verdade.
Nem toda indignação é justiça.
E nem todo silêncio é prudência.
6. O escândalo produzido pelas próprias
imperfeições humanas
A atualidade também oferece exemplos de problemas que revelam o quanto
ainda precisamos avançar moralmente.
Em 2025, segundo dados do Stockholm International Peace Research
Institute (SIPRI), os gastos militares mundiais chegaram a aproximadamente US$
2,887 trilhões, o maior valor registrado pelo instituto, representando
crescimento real de 2,9% em relação a 2024 e o décimo primeiro ano consecutivo
de aumento.
O número impressiona.
Mas talvez o mais importante seja perguntar:
Que humanidade somos nós quando conseguimos produzir tecnologias
extraordinárias e, ao mesmo tempo, continuamos destinando recursos gigantescos
à preparação para a guerra?
Não se trata de negar a necessidade de defesa ou de ignorar os complexos
problemas de segurança internacional.
Trata-se de uma pergunta moral.
Quanto mais a inteligência humana aumenta, maior deveria ser também sua
responsabilidade.
A ciência fornece instrumentos.
A consciência decide como utilizá-los.
Uma civilização pode dominar a energia nuclear, a inteligência
artificial, a biotecnologia e a exploração espacial e, ainda assim, permanecer
moralmente atrasada se utilizar seus conhecimentos predominantemente para
dominação, destruição ou vantagem egoística.
O verdadeiro progresso não consiste apenas em poder fazer.
Consiste em aprender quando fazer, por que fazer e para que fazer.
7. Escândalo não é sinônimo de progresso
Aqui chegamos a uma distinção essencial.
É tentador chamar de “escândalo positivo” toda atitude que rompe com o
estabelecido.
Mas a expressão precisa ser usada com cautela.
Uma mentira pode romper com o silêncio.
Uma violência pode romper com uma situação anterior.
Uma provocação pode obrigar todos a reagirem.
Nada disso significa progresso.
O progresso moral exige outra coisa.
Exige que a mudança produza mais justiça, mais compreensão, mais
respeito pela dignidade humana e menor sofrimento.
Por isso, talvez seja mais adequado falar em ações que provocam um
saudável abalo da consciência, em vez de simplesmente procurar “provocar
escândalos”.
O objetivo não é causar perturbação.
É despertar reflexão.
8. O ensinamento de Jesus e a responsabilidade
individual
Jesus não apresentou o escândalo como um objetivo a ser perseguido.
O ensinamento registrado em Mateus contém simultaneamente duas
afirmações: haverá escândalos, mas será responsável aquele por quem eles
vierem.
A explicação espírita aprofunda esse pensamento.
O mal pode produzir consequências que levem à compreensão de sua própria
nocividade. Quando os homens se cansam dos resultados de seus vícios, procuram
o remédio no bem. Mas aquele que pratica o mal não fica moralmente absolvido
porque sua ação acabou servindo de experiência para outros.
Essa concepção é de grande atualidade.
Podemos denunciar a corrupção sem sermos corruptos.
Podemos combater a mentira sem mentir.
Podemos defender a justiça sem odiar.
Podemos discordar sem desrespeitar.
Podemos revelar um erro sem destruir a pessoa que o cometeu.
Esse talvez seja um dos maiores desafios da vida moral.
9. O verdadeiro “escândalo positivo”
Se quisermos conservar a expressão, talvez possamos atribuir-lhe um
significado diferente daquele que normalmente recebe.
Um escândalo positivo seria aquele que provoca uma ruptura com a
indiferença, não uma ruptura com a dignidade humana.
É o cientista que apresenta uma descoberta e aceita submetê-la ao exame
dos fatos.
É o jornalista que investiga sem fabricar provas.
É o artista que denuncia uma violência sem transformar o sofrimento em
espetáculo.
É o cidadão que protesta sem destruir aquilo que pertence ao outro.
É o educador que questiona um preconceito sem humilhar quem ainda o
conserva.
É a pessoa que encontra uma injustiça e pergunta:
“O que posso fazer para que ela deixe de existir?”
Nesse sentido, o verdadeiro progresso moral talvez comece não quando
alguém provoca um escândalo, mas quando alguém se recusa a permanecer
indiferente diante do sofrimento alheio.
10. A transformação começa no indivíduo
A Doutrina Espírita apresenta o progresso moral como consequência do
desenvolvimento do Espírito e da superação gradual das imperfeições.
Por isso, é fácil perceber o risco de transformar o “escândalo positivo”
em instrumento de vaidade.
Podemos denunciar a hipocrisia dos outros e continuar alimentando a
nossa.
Podemos exigir justiça e não praticá-la dentro de casa.
Podemos defender a liberdade e não respeitar quem pensa diferente.
Podemos falar em amor ao próximo e alimentar ressentimentos.
A transformação moral começa quando a crítica dirigida ao mundo passa
também pelo exame de nós mesmos.
Talvez essa seja a parte mais difícil.
É muito mais confortável apontar o escândalo que existe fora de nós do
que reconhecer aquele que ainda produzimos dentro de nós.
REFLEXÃO
FINAL
Jesus não ensinou que devemos provocar o mal para que dele resulte algum
bem.
O ensinamento é muito mais profundo.
Enquanto a humanidade permanecer imperfeita, o mal continuará produzindo
consequências. Algumas delas poderão despertar sofrimento, reflexão,
arrependimento e mudança. Mas isso não transforma o mal em bem, nem retira do
indivíduo a responsabilidade pelos próprios atos.
Por isso, talvez devêssemos substituir a pergunta:
“Que escândalo podemos provocar?”
por outra:
“Que realidade injusta precisamos ter coragem de tornar visível?”
E, depois, uma pergunta ainda mais difícil:
“O que estamos fazendo para que ela deixe de existir?”
O progresso moral não necessita de pessoas especializadas em provocar
tumultos.
Necessita de consciências dispostas a não se acostumar com o mal.
Necessita de pessoas capazes de dizer “não” à injustiça sem transformar
o adversário em inimigo.
Necessita de inteligência para distinguir informação de desinformação,
coragem para enfrentar a intolerância e humildade para reconhecer os próprios
erros.
A humanidade talvez não precise de mais escândalos.
Precisa de mais consciência.
E quando a consciência realmente desperta, aquilo que antes era
considerado normal pode tornar-se moralmente intolerável.
Talvez seja esse o verdadeiro sinal de progresso: não fazer barulho
para sermos vistos, mas agir de tal maneira que, pouco a pouco, aquilo que
precisava ser denunciado deixe de existir.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — Leis Morais,
especialmente os princípios relativos à Lei de Progresso e à Lei de
Justiça, Amor e Caridade.
- KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. VIII —
“Bem-aventurados os que têm puro o coração”, itens 11 a 17 — “Escândalos.
Se a vossa mão é motivo de escândalo, cortai-a.”
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC,
Allan. O que é o Espiritismo. Cap. II — Noções elementares de
Espiritismo, especialmente as considerações sobre liberdade de consciência
e exame racional.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Novembro
de 1861 — “Os restos da Idade Média — Auto de fé das obras espíritas em
Barcelona.”
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Dezembro
de 1861 — “Auto de fé em Barcelona.”
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Dezembro
de 1863 — “Elias e João Batista — Refutação”, especialmente as
considerações sobre liberdade de consciência, tolerância e moderação.
4. Passagens bíblicas
- Mateus,
18:6–7 — Jesus e a responsabilidade pelo escândalo.
- Mateus,
5:29–30 — A linguagem simbólica sobre aquilo que causa escândalo.
5. Fontes Externas Utilizadas
- Stockholm
International Peace Research Institute (SIPRI). Trends
in World Military Expenditure, 2025. Dados publicados em abril de
2026.
- UNESCO. World
Trends in Freedom of Expression and Media Development: Global Report
2022/2025 — Journalism: Shaping a World at Peace. Dados sobre
liberdade de expressão, integridade da informação e desinformação
contemporânea.
- Smarthistory.
Estudo sobre Guernica, de Pablo Picasso, incluindo o contexto
histórico da obra e o conhecido episódio envolvendo o oficial alemão.
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