Uma reflexão sobre a natureza, a inteligência
humana e o trabalho de transformação do Espírito
Introdução
Há lugares na Terra em que a natureza parece convidar o ser humano à
contemplação.
A Capadócia, na região central da atual Turquia, é um deles.
Sua paisagem reúne vales, formações rochosas e as conhecidas “chaminés
de fada”, resultantes de uma longa história geológica associada ao vulcanismo e
à erosão. No mesmo cenário encontram-se habitações escavadas na rocha, aldeias
trogloditas, santuários e cidades subterrâneas, entre elas Kaymaklı e
Derinkuyu. O conjunto de Göreme e dos sítios rupestres da Capadócia foi
inscrito pela UNESCO na Lista do Patrimônio Mundial em 1985.
A paisagem revela, assim, o encontro de dois processos distintos.
De um lado, a ação prolongada das forças naturais.
De outro, a inteligência humana observando, adaptando-se, trabalhando e
transformando aquilo que encontrou.
A natureza não construiu as cidades subterrâneas.
O ser humano não criou as formações vulcânicas.
Mas o ser humano soube perceber possibilidades naquilo que a natureza
lhe ofereceu.
Essa constatação nos conduz a uma questão que ultrapassa a geologia e a
arqueologia:
O que fazemos com aquilo que recebemos?
A pergunta pode ser dirigida aos recursos naturais, mas também à própria
existência.
Recebemos um corpo.
Recebemos inteligência.
Recebemos liberdade relativa.
Recebemos relações humanas, oportunidades, dificuldades, conhecimentos
acumulados por gerações e os recursos necessários à experiência corporal.
Segundo a Doutrina Espírita, somos Espíritos em processo de evolução,
utilizando temporariamente um corpo para o desenvolvimento de nossas faculdades
e para as experiências necessárias ao nosso progresso.
A natureza, portanto, não precisa ser imaginada como uma professora que
fala conosco.
Basta observá-la.
E, ao observá-la, podemos encontrar elementos para refletir sobre nossa
própria existência.
A pedra permanece pedra.
A inteligência a transforma em abrigo.
O trabalho transforma a possibilidade em realidade.
E a consciência pode transformar a experiência em aprendizado.
Talvez essa seja a verdadeira aproximação entre a natureza e o Espírito.
PARTE I
— A NATUREZA E O DESENVOLVIMENTO HUMANO
1. Uma paisagem construída pelo tempo
A Capadócia não surgiu de uma só vez.
Sua paisagem atual é resultado de processos geológicos prolongados.
Materiais vulcânicos foram depositados e, posteriormente, modificados pela ação
da erosão, formando vales, cristas e estruturas rochosas de aparência singular.
A UNESCO descreve a região como uma paisagem vulcânica esculpida pela erosão.
O que hoje contemplamos como uma arquitetura natural extraordinária não
foi projetado por uma inteligência humana.
Foi o resultado de leis naturais atuando durante períodos imensamente
longos.
Essa observação é importante.
Frequentemente avaliamos os resultados pela velocidade com que
conseguimos produzi-los.
A natureza nos apresenta outra escala.
Uma formação geológica não precisa de pressa.
Uma árvore não precisa crescer em um dia.
Um rio não precisa atingir imediatamente seu destino.
A transformação acontece pela continuidade dos processos.
A comparação com a transformação moral deve ser feita com cuidado,
porque o Espírito não evolui mecanicamente como uma formação geológica.
Mas há uma semelhança útil: grandes transformações podem resultar da
continuidade de pequenas ações.
O desenvolvimento moral também exige tempo, esforço, experiências,
escolhas, correções e perseverança.
Não nos tornamos melhores simplesmente porque desejamos ser melhores.
É necessário trabalhar sobre nós mesmos.
2. A inteligência que observa
Antes de transformar alguma coisa, o ser humano precisa percebê-la.
Aqueles que utilizaram as formações rochosas da Capadócia encontraram
nas características do ambiente possibilidades de habitação, proteção,
armazenamento e convivência. A própria existência das cidades subterrâneas e
das estruturas escavadas demonstra uma longa história de adaptação humana ao
meio.
Há aqui uma característica importante da inteligência: ela não apenas
recebe a realidade; procura compreendê-la e encontrar maneiras de agir sobre
ela.
A Doutrina Espírita atribui grande importância ao desenvolvimento
intelectual.
Em O Livro dos Espíritos, a ciência é apresentada como
instrumento do adiantamento humano, embora permaneça sujeita aos limites do
conhecimento que o homem ainda possui.
A inteligência, porém, não é sinônimo de moralidade.
Um indivíduo pode saber muito e utilizar mal aquilo que sabe.
Pode descobrir novas possibilidades de cura ou novas formas de
destruição.
Pode utilizar seu conhecimento para servir ou para explorar.
Pode construir uma escola ou aperfeiçoar uma arma.
Por isso, o desenvolvimento intelectual cria possibilidades.
O desenvolvimento moral orienta o uso dessas possibilidades.
3. A inteligência precisa de direção
Imagine duas pessoas diante de uma formação rochosa.
Uma pergunta:
— O que posso retirar daqui?
Outra pergunta:
— O que posso fazer com aquilo que encontro aqui?
As duas possuem inteligência.
Mas a pergunta revela uma diferença de perspectiva.
A primeira pode estar interessada apenas na retirada.
A segunda procura uma utilização.
Naturalmente, utilizar recursos naturais faz parte da existência humana.
A questão não é impedir toda transformação da natureza — algo impossível à
própria vida humana.
A questão está no modo, na necessidade, na finalidade
e nas consequências dessa utilização.
A Lei de Conservação, em O Livro dos Espíritos, estabelece uma
relação significativa entre as necessidades humanas e os meios que a Terra
oferece, chamando atenção para o abuso, o supérfluo e a imprevidência.
Assim, o problema moral não está simplesmente em utilizar.
Está em utilizar sem medida, sem necessidade ou sem consideração pelas
consequências.
A inteligência aumenta nossa capacidade de intervenção.
E, à medida que aumenta nossa capacidade de intervenção, aumenta também
nossa responsabilidade.
4. A natureza não é apenas um depósito de
recursos
É possível observar a natureza apenas pelo critério da utilidade.
A floresta torna-se madeira.
O rio torna-se recurso hídrico.
O solo torna-se área de produção.
O animal torna-se instrumento.
A paisagem torna-se mercadoria.
Quando tudo é reduzido ao valor de utilização imediata, perdemos a
percepção da complexidade daquilo que estamos modificando.
A questão 705 de O Livro dos Espíritos é particularmente
expressiva ao relacionar a insuficiência dos recursos às necessidades
artificiais e à imprevidência humana.
Isso não significa negar a utilização da natureza.
Significa reconhecer que necessidade e abuso não são a mesma coisa.
O ser humano precisa da Terra para viver.
Mas não precisa transformar toda possibilidade em necessidade.
Nem todo desejo constitui uma necessidade.
Nem todo consumo representa progresso.
Nem toda capacidade de exploração deve ser convertida em exploração
efetiva.
A inteligência que aprende a utilizar também precisa aprender a
limitar-se.
5. Quando a pedra se transforma em abrigo
As cidades subterrâneas da Capadócia constituem uma demonstração
extraordinária da capacidade humana de adaptação.
A UNESCO inclui Kaymaklı e Derinkuyu entre os componentes do patrimônio
de Göreme e da Capadócia. O conjunto revela a maneira como comunidades humanas
utilizaram as formações rochosas para construir espaços de habitação e refúgio.
A pedra, que poderia parecer apenas obstáculo, tornou-se abrigo.
O espaço subterrâneo tornou-se ambiente de convivência.
A dificuldade encontrou uma resposta inteligente.
Esse exemplo permite uma analogia interessante com a existência humana.
Nem sempre escolhemos as circunstâncias nas quais nos encontramos.
Nascemos em determinada época.
Em determinada família.
Em determinada sociedade.
Recebemos determinadas características corporais.
Encontramos determinadas oportunidades e dificuldades.
Mas não somos inteiramente determinados por essas circunstâncias.
Existe um espaço de liberdade.
E é justamente nesse espaço que aparece a responsabilidade.
6. Circunstância não é destino
Duas pessoas podem atravessar experiências semelhantes e reagir de
maneiras muito diferentes.
Uma pode transformar a dificuldade em revolta.
Outra pode transformá-la em aprendizado.
Uma pode utilizar a adversidade para justificar a agressividade.
Outra pode descobrir nela a necessidade de desenvolver paciência.
Isso não significa que toda dificuldade seja benéfica ou que todo
sofrimento produza automaticamente crescimento.
Seria uma conclusão injusta diante da realidade humana.
A experiência, por si mesma, não garante aprendizado.
O aprendizado depende também da maneira como o Espírito reage à
experiência.
A circunstância influencia.
A educação influencia.
O ambiente influencia.
A cultura influencia.
As condições materiais influenciam.
Mas a liberdade relativa do Espírito permite escolhas.
E a escolha introduz a dimensão moral.
7. O que fazemos com aquilo que recebemos?
Talvez esta seja a pergunta central do artigo.
A natureza fornece matéria.
A inteligência percebe possibilidades.
O trabalho realiza.
A experiência acumula resultados.
Mas o que fazemos com aquilo que recebemos?
A pergunta pode ser aplicada a quase tudo.
Recebemos inteligência.
Para que a utilizamos?
Recebemos recursos.
Como os empregamos?
Recebemos liberdade.
Como escolhemos?
Recebemos relações humanas.
Como tratamos aqueles que convivem conosco?
Recebemos dificuldades.
Como reagimos?
Recebemos conhecimento.
Transformamo-lo em sabedoria ou apenas em informação?
A vida fornece matéria-prima.
O Espírito participa da construção.
PARTE II
— A CONSTRUÇÃO DO ESPÍRITO
8. O ser humano também está em construção
Existe uma segunda aproximação entre a Capadócia e a existência humana.
A paisagem foi sendo formada.
As estruturas humanas foram sendo construídas.
E o Espírito também se desenvolve gradualmente.
Ninguém nasce moralmente pronto.
A criança aprende.
O jovem experimenta.
O adulto enfrenta responsabilidades.
A experiência modifica percepções.
Os erros podem tornar-se oportunidades de correção.
O conhecimento pode ampliar a compreensão.
O convívio social pode desenvolver sentimentos.
E o progresso prossegue.
A Lei do Progresso, em O Livro dos Espíritos, apresenta a
transformação humana como gradual. A própria resposta à questão 800 destaca que
uma transformação verdadeira se realiza progressivamente e que a correção de um
único defeito já representa um passo no caminho do progresso.
Isso é consolador porque retira da transformação moral a necessidade de
resultados instantâneos.
Mas também é exigente.
Porque ninguém pode transformar-se sem trabalhar.
9. A pedra bruta e o caráter
Uma pedra retirada da montanha pode permanecer em seu estado original.
Pode ser abandonada.
Pode ser destruída.
Ou pode ser trabalhada até adquirir uma nova função.
O caráter humano também pode permanecer submetido às próprias tendências
se o indivíduo simplesmente as justificar.
Quantas vezes dizemos:
— Eu sou assim mesmo.
A frase pode parecer uma descrição.
Mas também pode representar uma desistência.
Se o Espírito está sujeito ao progresso, então suas imperfeições não
precisam ser consideradas uma sentença definitiva.
Podemos observar nossas tendências.
Reconhecer nossos erros.
Modificar hábitos.
Corrigir comportamentos.
Recomeçar.
Não é uma obra de um dia.
É trabalho continuado.
A transformação íntima não consiste em construir artificialmente uma
personalidade perfeita.
Consiste em desenvolver, pela experiência e pelo esforço, aquilo que
ainda permanece insuficientemente desenvolvido e em vencer gradualmente as
imperfeições que retardam nosso progresso.
10. O escultor e a consciência
Diante de um bloco de pedra, alguém pode enxergar apenas uma pedra.
Outro pode perceber uma possibilidade.
A diferença está no olhar.
A transformação moral também começa por uma percepção.
Enquanto não reconhecemos determinado defeito, dificilmente
trabalharemos conscientemente para modificá-lo.
Por isso, observar a si mesmo é importante.
Reconhecer uma imperfeição não significa condenar-se.
Significa identificá-la.
O orgulho pode ser reconhecido.
O egoísmo pode ser reconhecido.
A intolerância pode ser reconhecida.
O ressentimento pode ser reconhecido.
A impaciência pode ser reconhecida.
A partir daí começa o trabalho.
Não se trata de destruir a personalidade.
Trata-se de aperfeiçoá-la.
O escultor não precisa destruir a pedra.
Precisa retirar aquilo que impede a forma que deseja alcançar.
No Espírito, a comparação termina aí, porque o ser humano não é uma
matéria passiva.
Ele pensa.
Escolhe.
Aprende.
Resiste.
Corrige.
E participa conscientemente de sua própria transformação.
11. O templo exterior e o templo interior
A Capadócia também apresenta numerosos santuários escavados na rocha,
testemunhos de uma importante história religiosa e artística.
Isso permite outra reflexão.
O ser humano constrói espaços para expressar sua religiosidade.
Mas de que vale um templo exterior se a experiência religiosa não produz
transformação interior?
Podemos frequentar lugares sagrados e continuar dominados pelo
ressentimento.
Podemos conhecer ensinamentos elevados e continuar tratando mal aqueles
que convivem conosco.
Podemos falar sobre amor ao próximo e conservar indiferença diante do
sofrimento alheio.
A experiência religiosa somente adquire profundidade quando alcança a
conduta.
Jesus resumiu os deveres para com Deus e para com o próximo no amor.
Por isso, o templo interior não é uma construção de pedra.
É aquilo que vamos formando em nossa maneira de pensar, sentir e agir.
12. Quando a inteligência não é acompanhada
pela moral
A própria Capadócia nos permite perceber que a inteligência pode
transformar profundamente o ambiente.
Mas a inteligência também pode produzir consequências destrutivas.
A engenharia constrói hospitais e também aperfeiçoa armas.
A tecnologia aproxima pessoas e também pode facilitar a manipulação.
O conhecimento científico permite compreender a natureza e também pode
ser empregado em sua exploração irresponsável.
Nada disso significa que ciência ou tecnologia sejam más.
Significa que instrumentos não escolhem seus próprios fins.
Quem decide é o ser humano.
Por isso, o desenvolvimento intelectual não pode ser confundido com
desenvolvimento moral.
Podemos saber muito e amar pouco.
Podemos compreender o funcionamento do universo e não compreender o
sofrimento do próximo.
Podemos dominar máquinas e não dominar a própria cólera.
Podemos possuir enorme capacidade de intervenção e pequena capacidade de
autodomínio.
O verdadeiro progresso humano exige que inteligência e moralidade
avancem conjuntamente.
13. Preservar também é transformar
A capacidade humana de transformar o ambiente precisa ser acompanhada da
capacidade de preservar.
A própria UNESCO registra que a erosão continua atuando sobre as
formações naturais da Capadócia e que o patrimônio cultural sofre riscos
associados aos processos naturais, ao turismo excessivo e às pressões de
desenvolvimento.
Existe aí uma lição contemporânea importante.
Aquilo que levou imensos períodos para formar-se pode ser danificado em
tempo muito menor.
A inteligência que constrói precisa aprender a conservar.
O progresso não consiste apenas em ampliar nossa capacidade de fazer.
Consiste também em desenvolver a capacidade de discernir quando
fazer, quanto fazer e quando não fazer.
Essa é uma forma mais madura de compreender a liberdade.
Ser livre não é simplesmente poder agir.
É aprender a utilizar a liberdade com responsabilidade.
14. Progresso não significa fazer sempre mais
Durante muito tempo, o progresso foi associado quase exclusivamente à
capacidade de produzir mais, consumir mais, construir mais e dominar mais.
Mas uma pergunta se impõe:
Mais para quê?
Se produzimos mais e destruímos mais, houve progresso?
Se acumulamos conhecimento e aumentamos a intolerância, avançamos
realmente?
Se ampliamos nossas possibilidades materiais e diminuímos nossa
capacidade de solidariedade, estaremos moralmente mais desenvolvidos?
A Doutrina Espírita oferece um critério importante.
O progresso intelectual é necessário.
Mas o desenvolvimento moral é indispensável.
A civilização pode ampliar os meios.
A moralidade deve orientar os fins.
Por isso, uma sociedade verdadeiramente avançada não será
necessariamente aquela que dominar mais profundamente a matéria.
Será aquela que souber utilizar o conhecimento sem transformar sua
capacidade em instrumento de destruição.
15. O patrimônio que deixamos nos outros
As pessoas que escavaram casas, igrejas e cidades subterrâneas na
Capadócia provavelmente não imaginavam que séculos depois suas obras seriam
contempladas por pessoas de diferentes partes do mundo.
Também nós deixamos marcas.
Nem todas são visíveis.
Uma palavra pode permanecer na memória de alguém durante décadas.
Um exemplo pode influenciar uma criança.
Uma atitude de solidariedade pode ser repetida.
Uma atitude de intolerância também.
Nossa existência ultrapassa aquilo que conseguimos perceber
imediatamente.
Por isso, construir o bem é também trabalhar para o futuro.
Talvez nunca saibamos quantas pessoas serão beneficiadas por uma atitude
correta que praticamos hoje.
16. O patrimônio que não pode ser visitado
Existe um patrimônio que nenhum museu consegue guardar.
É aquilo que deixamos nas pessoas.
Um filho que aprendeu responsabilidade.
Uma pessoa que recebeu afeto.
Um amigo que encontrou apoio.
Um desconhecido que foi tratado com respeito.
Uma comunidade que recebeu colaboração.
Essas realizações não recebem placas comemorativas.
Não aparecem em roteiros turísticos.
Não precisam de monumentos.
Mas podem possuir grande valor.
As construções materiais sofrem a ação do tempo.
As consequências morais de nossas ações pertencem a outra ordem de
realidade.
Na perspectiva espírita, o Espírito prossegue além da existência
corporal.
Por isso, aquilo que desenvolvemos moralmente possui importância que
ultrapassa a duração de uma existência.
17. A criatura diante da criação
É necessário, contudo, evitar uma conclusão exagerada.
O ser humano não é criador das leis naturais.
Não estabeleceu a gravidade.
Não determinou o movimento dos astros.
Não criou as leis que regem a matéria.
Descobre-as progressivamente e aprende a utilizá-las.
A questão 19 de O Livro dos Espíritos é significativa ao
apresentar a ciência como instrumento do adiantamento humano, ao mesmo tempo em
que reconhece os limites do conhecimento.
A inteligência humana é real.
Mas é limitada.
A liberdade existe.
Mas é relativa.
A capacidade de transformar é grande.
Mas não é absoluta.
Reconhecer esses limites não diminui a criatura.
Ao contrário.
Quanto mais compreendemos nossa capacidade, mais percebemos a
responsabilidade que dela decorre.
O ser humano não precisa ocupar o lugar do Criador para participar do
desenvolvimento da criação.
Basta utilizar conscientemente aquilo que recebeu.
18. Da pedra ao Espírito
Talvez possamos agora retornar à imagem inicial.
Primeiro, encontramos a matéria.
Sobre ela atuam as leis naturais.
O tempo produz transformações.
O ser humano observa.
A inteligência identifica possibilidades.
O trabalho realiza.
A cultura acrescenta significado.
E o tempo preserva ou modifica o resultado.
No Espírito, o processo é de outra natureza.
Não somos pedra passivamente transformada.
Somos seres inteligentes.
Vivemos experiências.
Escolhemos.
Erramos.
Aprendemos.
Recomeçamos.
Desenvolvemos nossas faculdades.
E avançamos gradualmente.
A diferença é fundamental: na construção espiritual, somos ao mesmo
tempo o trabalhador e a obra.
Não somos uma obra acabada.
Somos Espíritos em desenvolvimento.
CONCLUSÃO
— O QUE ESTAMOS ESCULPINDO?
A Capadócia apresenta uma paisagem na qual natureza e história humana se
encontram de maneira extraordinária.
A ação geológica produziu as formas.
A erosão as transformou.
A inteligência humana descobriu possibilidades.
O trabalho criou habitações, espaços comunitários, santuários e cidades
subterrâneas.
A cultura acrescentou significado.
E o tempo preservou parte dessa história.
Mas talvez a principal pergunta não esteja nas rochas.
Esteja em nós.
O que estamos fazendo com aquilo que recebemos?
Recebemos inteligência.
Estamos construindo ou destruindo?
Recebemos liberdade.
Estamos escolhendo com responsabilidade?
Recebemos relações humanas.
Estamos construindo vínculos ou utilizando pessoas?
Recebemos os recursos da Terra.
Estamos utilizando-os com equilíbrio?
Recebemos uma existência.
Estamos trabalhando sobre nossas imperfeições ou simplesmente
justificando-as?
Não precisamos esperar uma transformação extraordinária.
A transformação moral começa em ações pequenas.
Uma palavra mais paciente.
Um pedido de desculpas.
Uma reação controlada.
Uma injustiça que decidimos não reproduzir.
Uma atitude de solidariedade.
Uma escolha feita com maior responsabilidade.
A soma dessas pequenas decisões pode modificar profundamente uma
existência.
A natureza não tem pressa.
Os processos geológicos se desenvolvem em escalas que ultrapassam nossa
percepção cotidiana.
A transformação espiritual, porém, exige algo que a pedra não possui: a
participação consciente do próprio Espírito.
Não basta o tempo.
É preciso esforço.
Não basta experiência.
É preciso aprendizado.
Não basta conhecimento.
É preciso discernimento.
Não basta liberdade.
É preciso responsabilidade.
A Capadócia mostra como forças naturais podem produzir, lentamente,
paisagens extraordinárias.
A inteligência humana mostra como essas formas podem ser utilizadas e
transformadas.
A Doutrina Espírita acrescenta uma questão ainda mais profunda: o que
faremos de nós mesmos?
A pedra pode tornar-se abrigo.
O espaço pode tornar-se templo.
O conhecimento pode tornar-se instrumento de progresso.
E o Espírito pode transformar-se pelo trabalho consciente sobre si
mesmo.
Talvez essa seja uma das maiores responsabilidades da existência: receber
a matéria-prima da vida e aprender a transformá-la em algo melhor.
A natureza transforma a paisagem.
O ser humano transforma a matéria.
E o Espírito, ao longo de sua jornada, é chamado a transformar a si
mesmo.
Não somos obras acabadas.
Somos Espíritos em construção.
Pensemos nisso.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Primeira — Das Causas Primárias, especialmente questões 17 a 19; Parte Terceira — Das Leis Morais, Capítulo V — Lei de Conservação, questões 702 a 727; Capítulo VIII — Lei do Progresso, questões 776 a 802.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XI — Amar o próximo como a si mesmo; Capítulo XVII — Sede perfeitos.
- KARDEC, Allan. A Gênese — Os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Capítulo II — Deus; Capítulo III — O bem e o mal; Capítulo XVIII — São chegados os tempos.
2. Obras Complementares de Allan Kardec
- KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Textos relacionados às leis morais, ao progresso e ao desenvolvimento humano.
- KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Coleção de 1858 a 1869, especialmente os estudos relacionados ao progresso, à inteligência, à natureza humana e ao desenvolvimento moral.
3. Passagens bíblicas
- Mateus, 22:37-40 — O amor a Deus e ao próximo como síntese dos deveres morais.
4. Fontes Externas
- UNESCO — World Heritage Centre. Göreme National Park and the Rock Sites of Cappadocia. Informações sobre a formação geológica, erosão, patrimônio cultural, habitações rupestres, santuários e cidades subterrâneas da Capadócia.
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