segunda-feira, 21 de setembro de 2026

A TEORIA DA BELEZA
ANOTAÇÕES, MÉTODO ESPÍRITA E JUSTIÇA HISTÓRICA
- A Era do Espírito -

Como compreender o estudo publicado em Obras Póstumas sem confundir um registro de trabalho com uma formulação doutrinária definitiva — e sem transformar a análise histórica em julgamento precipitado de Allan Kardec?

Introdução

Alguns textos relacionados à trajetória de Allan Kardec despertam debates intensos quando examinados fora de seu contexto histórico e metodológico. Entre eles está o estudo intitulado “Teoria da Beleza”, publicado postumamente em Obras Póstumas, em 1890.

O assunto exige equilíbrio.

De um lado, não seria correto ignorar expressões e concepções presentes no texto que refletem conhecimentos científicos, classificações antropológicas e padrões estéticos próprios do século XIX — alguns deles hoje reconhecidos como equivocados ou incompatíveis com os princípios contemporâneos de igualdade humana.

De outro, também seria metodologicamente inadequado tratar uma anotação de trabalho, publicada depois da desencarnação de Allan Kardec, como se fosse necessariamente um artigo definitivo, aprovado para integrar a Codificação Espírita ou apresentado como conclusão final e irrevogável.

A análise precisa considerar, simultaneamente:

  • o conteúdo efetivo do manuscrito;
  • sua condição de anotação ou estudo em desenvolvimento;
  • o contexto científico e cultural do século XIX;
  • os textos publicados por Allan Kardec na Revista Espírita;
  • os princípios fundamentais da Doutrina Espírita;
  • o método de observação, comparação e análise empregado na Codificação;
  • e a possibilidade de que um pesquisador registre hipóteses provisórias antes de submetê-las a novos exames.

O objetivo, portanto, não é construir uma defesa sentimental de Allan Kardec, tampouco condená-lo por meio de uma leitura isolada. É compreender o processo de elaboração de suas ideias e aplicar ao próprio estudo o método racional que caracteriza o Espiritismo.

PARTE I — A “TEORIA DA BELEZA” E O CONTEXTO DE SUA ELABORAÇÃO

1. O problema proposto pelo estudo

O texto publicado sob o título “Teoria da Beleza” parte de uma questão aparentemente simples:

A beleza é apenas relativa aos costumes e às preferências de cada povo ou existe uma beleza absoluta?

A pergunta foi suscitada pela leitura da obra As Revoluções Inevitáveis no Globo e na Humanidade, de Charles Richard.

Richard procurava combater a ideia de que o ser humano teria sofrido uma degeneração física desde os tempos primitivos. Ao comparar representações antigas e modernas, discutia a evolução das formas humanas, do porte físico e da aparência.

A partir dessa leitura, o estudo de Allan Kardec procura relacionar:

  • a evolução física da Humanidade;
  • o desenvolvimento intelectual e moral;
  • a influência do princípio espiritual sobre o organismo;
  • a expressão exterior das qualidades da alma;
  • e a possibilidade de uma transformação progressiva das formas humanas.

Em sua formulação mais geral, o raciocínio apresentado no texto pode ser resumido em três ideias:

  • A beleza absoluta não deveria depender apenas de convenções humanas.
  • A forma exterior poderia expressar, em alguma medida, as condições do Espírito.
  • O progresso espiritual tenderia a produzir maior harmonia na manifestação corporal e perispiritual.

Essas ideias, tomadas em seu sentido filosófico mais amplo, dialogam com temas presentes na Doutrina Espírita, especialmente a relação entre Espírito, perispírito, corpo e progresso.

O problema surge quando determinadas observações históricas sobre formas físicas e grupos humanos são interpretadas como uma escala universal e rígida de superioridade estética ou espiritual.

É justamente nesse ponto que o texto precisa ser examinado com maior cuidado.

2. O cenário científico do século XIX

Para compreender a origem de certas formulações, é indispensável considerar o ambiente intelectual em que foram produzidas.

Durante o século XIX, a Europa assistia à expansão de diversas teorias que buscavam explicar a relação entre organismo, inteligência, caráter e evolução humana. Entre elas estavam:

  • a frenologia;
  • a fisiognomonia;
  • determinadas interpretações evolucionistas;
  • teorias antropológicas classificatórias;
  • estudos sobre crânios, medidas corporais e supostas diferenças entre povos.

Algumas dessas correntes partiam de observações reais, mas extraíam conclusões excessivas ou generalizações que não resistiram ao desenvolvimento posterior da ciência.

A frenologia, por exemplo, procurava relacionar determinadas regiões do cérebro a faculdades específicas e, em versões mais extremadas, pretendia deduzir o caráter de uma pessoa pela configuração do crânio.

A fisiognomonia, por sua vez, buscava interpretar características morfológicas e expressões faciais como sinais de disposições psicológicas e morais.

Essas abordagens não eram necessariamente idênticas. Algumas observações sobre a influência das emoções na expressão facial possuíam fundamento plausível; o problema estava em converter relações parciais ou circunstanciais em leis gerais e deterministas.

Também circulavam teorias que associavam, indevidamente, características físicas de determinados povos a graus inferiores de inteligência, moralidade ou capacidade de desenvolvimento.

Atualmente, a ciência não sustenta a ideia de que exista uma hierarquia racial de valor humano, inteligência essencial ou potencial moral. A diversidade física da Humanidade não autoriza estabelecer uma escala de superioridade espiritual entre grupos étnicos.

Isso não significa, contudo, que toda investigação realizada no século XIX deva ser descartada sem análise. Significa que seus dados e conclusões precisam ser avaliados de acordo com critérios históricos, científicos e doutrinários.

3. A importância de distinguir o manuscrito da obra definitiva

Um dos pontos centrais deste debate é a natureza de Obras Póstumas.

A obra foi publicada em 1890, vinte e um anos após a desencarnação de Allan Kardec, reunindo textos, anotações, registros e materiais encontrados entre seus papéis.

Ela possui grande valor histórico, pois permite conhecer aspectos de seus estudos, preocupações, projetos e reflexões. Entretanto, não deve ser automaticamente equiparada às cinco obras fundamentais da Codificação, organizadas e publicadas em vida pelo próprio Allan Kardec:

  • O Livro dos Espíritos;
  • O Livro dos Médiuns;
  • O Evangelho segundo o Espiritismo;
  • O Céu e o Inferno;
  • A Gênese.

É necessário distinguir:

  • um texto preparado para publicação;
  • um artigo efetivamente publicado;
  • uma comunicação mediúnica examinada;
  • uma conclusão doutrinária;
  • uma anotação pessoal;
  • um projeto de estudo;
  • uma hipótese ainda em desenvolvimento.

Essa distinção não diminui o valor histórico de uma anotação. Apenas impede que se atribua a ela um grau de autoridade que sua própria natureza documental não comprova.

No caso da “Teoria da Beleza”, é plausível compreender o manuscrito como parte de um processo de investigação, especialmente porque o tema reaparece na Revista Espírita de agosto de 1869, em abordagem mais desenvolvida e acompanhada de instruções espirituais.

Entretanto, é prudente formular essa conclusão com precisão: os documentos permitem identificar uma continuidade temática e um posterior desenvolvimento do assunto, mas não autorizam afirmar, sem ressalvas, todos os detalhes sobre o que Allan Kardec pretendia fazer com o manuscrito ou qual seria exatamente sua versão final planejada.

4. O método espírita não transforma toda anotação em doutrina

A Doutrina Espírita foi organizada por meio de um procedimento que não consistia em aceitar automaticamente toda ideia surgida durante uma investigação.

O método pressupõe:

  • observação dos fatos;
  • formulação de perguntas;
  • comparação de comunicações;
  • exame racional;
  • identificação de concordâncias;
  • análise das consequências;
  • revisão diante de novos elementos.

Assim, uma anotação pessoal pode representar:

  • uma hipótese inicial;
  • uma tentativa de interpretar determinado fenômeno;
  • uma reflexão influenciada por leituras contemporâneas;
  • uma questão a ser submetida aos Espíritos;
  • um estudo incompleto;
  • ou uma ideia que ainda necessitaria de correções.

Não se deve confundir o pensamento provisório do pesquisador com a conclusão resultante de um processo de investigação.

Essa distinção é particularmente importante quando se estudam autores que trabalhavam com temas complexos e em campos do conhecimento ainda em formação.

O próprio Allan Kardec advertiu, na introdução de A Gênese, que determinadas teorias deveriam ser consideradas opiniões pessoais enquanto não fossem confirmadas ou contraditadas. Esse critério demonstra que a honestidade intelectual exige separar o que pertence à Doutrina daquilo que permanece no campo da interpretação ou da hipótese.

PARTE II — A REVISTA ESPÍRITA, A FRENOLOGIA E O APRIMORAMENTO DA ANÁLISE

5. “A Frenologia e a Fisiognomonia”, de julho de 1860

A Revista Espírita de julho de 1860 publicou o artigo “A Frenologia e a Fisiognomonia”, que oferece elementos fundamentais para compreender como Allan Kardec examinava essas teorias.

O texto não apresenta uma aceitação ingênua da frenologia. Ao contrário, estabelece uma distinção entre:

  • a relação existente entre o cérebro e a manifestação das faculdades;
  • e a conclusão materialista de que o cérebro seria a própria causa do pensamento.

O artigo reconhece que o estado do cérebro influencia a manifestação das faculdades intelectuais e morais. Contudo, sustenta que essa influência não prova que o órgão seja a origem do princípio inteligente.

A formulação central pode ser resumida da seguinte maneira:

  • a faculdade é a causa;
  • o estado do cérebro é consequência ou instrumento de manifestação;
  • o cérebro permite a expressão do pensamento no organismo;
  • uma alteração cerebral pode prejudicar a manifestação de uma faculdade sem destruir necessariamente a faculdade em si.

Para tornar a ideia compreensível, o artigo utiliza uma comparação: assim como uma lesão na perna pode impedir alguém de caminhar sem eliminar sua vontade de andar, uma alteração no cérebro pode dificultar a manifestação do pensamento sem significar que o pensamento tenha sido produzido pela matéria.

Essa abordagem é importante porque revela que Allan Kardec não adotava simplesmente o materialismo cerebral de sua época.

Ele procurava reinterpretar determinadas observações fisiológicas a partir da primazia do princípio espiritual.

6. A distinção entre órgão e faculdade

A análise de 1860 apresenta uma consequência doutrinária relevante.

Se o cérebro fosse a causa absoluta do pensamento, o ser humano poderia ser compreendido como uma máquina determinada por sua organização física. Nesse caso, a responsabilidade moral ficaria comprometida, pois os atos seriam explicados apenas pela estrutura orgânica.

A perspectiva espírita propõe outra relação:

  • o Espírito é o ser inteligente;
  • o corpo é o instrumento de sua manifestação na existência encarnada;
  • o cérebro participa da expressão das faculdades;
  • as condições orgânicas podem favorecer ou limitar essa manifestação;
  • mas não constituem, por si mesmas, a origem da inteligência e da moralidade.

Essa concepção não elimina a importância da biologia. O organismo possui influência concreta sobre a experiência humana. Doenças, lesões, limitações neurológicas e condições genéticas podem afetar profundamente a expressão das faculdades.

O ponto doutrinário é outro: a limitação do instrumento não deve ser confundida com a inferioridade essencial do ser inteligente que o utiliza.

Essa distinção será decisiva para a análise da beleza, da deficiência, da aparência e das diferenças físicas entre os seres humanos.

7. A fisiognomonia e a influência das disposições íntimas

No mesmo artigo, Allan Kardec examina a fisiognomonia.

Ele admite que os pensamentos, emoções e hábitos podem influenciar os movimentos musculares e, com o tempo, modificar a expressão facial. O rosto pode revelar, em determinadas circunstâncias, sinais de alegria, tristeza, severidade, bondade, tensão ou serenidade.

Essa observação, porém, não autoriza concluir que seja possível determinar o caráter de alguém apenas pela aparência.

Há uma diferença importante entre afirmar que:

- as experiências e emoções podem influenciar a expressão corporal;

e afirmar que:

- a forma física permite conhecer, de maneira segura e definitiva, o valor moral de uma pessoa.

A primeira proposição pode ser observada em situações concretas. A segunda transforma uma relação parcial em regra absoluta.

O próprio artigo alerta contra induções errôneas que poderiam ser extraídas da fisiognomonia, especialmente quando se tenta relacionar pessoas a determinados animais ou associar traços exteriores a características morais fixas.

Portanto, a abordagem espírita presente nesse estudo não autoriza um julgamento superficial do ser humano pela aparência.

8. “A cabeça de Garibaldi” e a primazia do Espírito

Outro elemento importante é o artigo “A cabeça de Garibaldi”, publicado na Revista Espírita de março de 1861.

O texto parte de uma notícia sobre o exame do crânio de Giuseppe Garibaldi e sobre a suposta correspondência entre sua configuração cerebral e suas faculdades intelectuais e morais.

Allan Kardec aproveita o tema para desenvolver uma reflexão sobre a relação entre cérebro e alma.

O raciocínio apresentado pode ser organizado em alguns pontos:

  • o cérebro é instrumento de manifestação, não fonte absoluta do pensamento;
  • as aptidões do Espírito não surgem necessariamente com o nascimento do corpo;
  • o organismo pode expressar faculdades previamente desenvolvidas;
  • a constituição física deve ser compreendida em relação à individualidade espiritual;
  • a existência corporal não esgota a história do ser inteligente.

Essa abordagem torna difícil sustentar que Allan Kardec defendesse, de forma simples e absoluta, um determinismo biológico segundo o qual o formato do crânio produziria automaticamente o valor intelectual ou moral do indivíduo.

O artigo de 1861 demonstra que ele já trabalhava com uma interpretação espiritualista das relações entre organismo e faculdades.

Isso não significa que todos os conceitos antropológicos empregados por ele naquele período estejam livres das limitações científicas de seu tempo. Significa, porém, que a leitura de suas anotações posteriores deve levar em conta sua posição metodológica anterior e documentada.

9. “Frenologia espiritualista e espírita — Perfectibilidade da raça negra”

Na Revista Espírita de abril de 1862, o artigo “Frenologia espiritualista e espírita — Perfectibilidade da raça negra” trata de uma questão particularmente delicada: a possibilidade de desenvolvimento intelectual e moral das pessoas negras.

O texto enfrenta teorias que consideravam determinados grupos humanos naturalmente incapazes de progresso.

O tema deve ser lido criticamente, pois contém expressões e classificações próprias do século XIX, algumas das quais refletem limitações históricas e conceitos atualmente rejeitados.

Ao mesmo tempo, o artigo apresenta uma linha argumentativa que merece ser considerada: a condição física de uma encarnação não define o potencial evolutivo do Espírito.

A perspectiva da reencarnação impede que características corporais atuais sejam transformadas em sentença definitiva sobre a capacidade de progresso de um ser.

Nesse sentido, o estudo contribui para uma compreensão fundamental:

  • o Espírito é perfectível;
  • nenhuma condição corporal transitória encerra seu futuro;
  • a encarnação não estabelece uma hierarquia espiritual permanente entre povos;
  • as diferenças físicas não justificam a negação da fraternidade;
  • a educação e as oportunidades sociais influenciam o desenvolvimento das faculdades humanas.

É necessário, contudo, não suavizar artificialmente as limitações de linguagem presentes no texto. Fazer justiça histórica não significa negar o que foi escrito. Significa reconhecer, ao mesmo tempo, os elementos problemáticos e os princípios que apontam para uma compreensão mais ampla da perfectibilidade humana.

10. A “Teoria da Beleza” na Revista Espírita de agosto de 1869

O tema reaparece na Revista Espírita de agosto de 1869, em texto intitulado também “Teoria da Beleza”.

Essa publicação é especialmente importante porque apresenta uma abordagem mais desenvolvida sobre a natureza da beleza.

O texto distingue:

  • a beleza relativa, dependente de gostos, costumes e padrões culturais;
  • e a beleza absoluta, relacionada à harmonia universal.

A beleza absoluta é apresentada em conexão com a perfeição divina, enquanto as formas existentes na criação seriam manifestações parciais e relativas dessa harmonia.

O estudo também desloca a análise da aparência física isolada para a relação entre:

  • inteligência;
  • bondade;
  • expressão moral;
  • perispírito;
  • harmonia;
  • e desenvolvimento espiritual.

Um dos pontos mais significativos é a observação de que pessoas de aparência física considerada bela podem produzir impressão desagradável, enquanto indivíduos com aparência pouco convencional podem transmitir bondade, equilíbrio e simpatia.

Essa constatação enfraquece qualquer tentativa de identificar automaticamente beleza exterior com superioridade moral.

A beleza física, nessa perspectiva, não desaparece como realidade relativa, mas deixa de ser considerada medida segura do valor espiritual.

11. O que muda entre a anotação e a abordagem posterior?

A comparação entre os materiais permite identificar diferenças de ênfase.

Na anotação publicada em Obras Póstumas

O foco parece concentrar-se mais em:

  • evolução das formas físicas;
  • relação entre aparência e desenvolvimento;
  • influência de teorias antropológicas do século XIX;
  • comparação entre tipos humanos;
  • possibilidade de uma transformação progressiva da morfologia.

Na abordagem da Revista Espírita

O foco desloca-se mais claramente para:

  • relatividade dos padrões de beleza;
  • harmonia como fundamento do belo;
  • influência das qualidades morais;
  • distinção entre aparência e valor espiritual;
  • papel do perispírito;
  • impossibilidade de reduzir a beleza a um padrão étnico fixo.

Essa diferença permite compreender que o tema foi objeto de desenvolvimento e aprofundamento.

Entretanto, a formulação mais responsável não é afirmar categoricamente que os Espíritos “apagaram completamente” todas as imperfeições do manuscrito, nem que se pode reconstruir com absoluta certeza cada etapa da intenção editorial de Allan Kardec.

O que se pode afirmar com segurança é que a Revista Espírita oferece material posterior e mais elaborado, que deve ser considerado na interpretação da anotação publicada em Obras Póstumas.

12. A beleza segundo os princípios fundamentais do Espiritismo

O estudo da beleza deve ser confrontado com princípios mais amplos da Doutrina Espírita.

Igualdade quanto à origem espiritual

A Doutrina Espírita ensina que todos os Espíritos têm a mesma origem e são destinados ao progresso.

As diferenças observadas entre os seres humanos não estabelecem superioridade essencial de uma raça sobre outra.

Pluralidade das existências

O Espírito pode reencarnar em diferentes condições, povos, culturas e organismos.

Por isso, não seria coerente transformar a aparência física de uma encarnação em sinal definitivo de valor espiritual.

Lei de Progresso

O progresso é desenvolvimento gradual das faculdades intelectuais e morais.

Ele não pode ser reduzido à adoção de determinado formato corporal, cor de pele, estrutura facial ou padrão estético.

Primazia do Espírito

O corpo é instrumento de manifestação do ser inteligente.

Suas condições influenciam a experiência encarnada, mas não esgotam a identidade do Espírito nem determinam seu potencial evolutivo.

Justiça e responsabilidade

A avaliação espiritual relaciona-se às intenções, aos atos, ao esforço e ao desenvolvimento moral — não à aparência física.

Caridade e fraternidade

A fraternidade universal é incompatível com a classificação de pessoas como espiritualmente inferiores por sua origem étnica ou por seus traços corporais.

13. O perigo de duas atitudes igualmente inadequadas

A análise desse assunto pode cair em dois extremos.

O primeiro extremo: a defesa cega

Consiste em afirmar que tudo o que foi escrito por Allan Kardec está necessariamente correto, mesmo quando se trata de:

·         anotação pessoal;

·         hipótese científica;

·         opinião histórica;

·         interpretação provisória;

·         conceito posteriormente superado.

Essa postura não corresponde ao método espírita, que exige exame, comparação e disposição para reconhecer equívocos.

O segundo extremo: a condenação simplista

Consiste em retirar uma passagem de seu contexto, ignorar outros textos do mesmo autor e concluir que todo o trabalho de Allan Kardec estaria invalidado por uma anotação ou por expressões condicionadas pelos conhecimentos de sua época.

Essa atitude também é metodologicamente frágil.

Ela desconsidera:

·         a diferença entre manuscrito e obra definitiva;

·         a evolução de um estudo;

·         o contexto histórico;

·         a existência de textos que apresentam posição mais complexa;

·         a distinção entre opinião pessoal e princípio doutrinário;

·         e a necessidade de examinar o conjunto da obra.

A atitude racional não é blindar nem destruir. É estudar.

14. Como aplicar o método espírita a esse debate?

Uma análise equilibrada pode seguir alguns passos:

  • Identificar a natureza do documento: é anotação, artigo, comunicação, comentário ou obra fundamental?
  • Verificar a data: quando foi escrito e quando foi publicado?
  • Conhecer o contexto: quais teorias científicas circulavam naquele período?
  • Examinar o texto integral: evitar conclusões baseadas em fragmentos isolados.
  • Comparar com outras publicações: especialmente textos anteriores e posteriores sobre o mesmo assunto.
  • Confrontar com a Codificação: verificar se a interpretação é compatível com seus princípios fundamentais.
  • Separar observação de conclusão: reconhecer quando um dado foi transformado em hipótese.
  • Distinguir princípio espiritual de classificação histórica: não confundir evolução moral com padrão étnico.
  • Admitir limites: reconhecer aquilo que os documentos comprovam e aquilo que permanece interpretativo.
  • Evitar julgamentos de intenção: não atribuir malícia, preconceito deliberado ou intenção oculta sem evidência suficiente.

Esse procedimento não elimina as dificuldades do tema, mas impede que elas sejam tratadas de maneira superficial.

REFLEXÃO FINAL

A chamada “Teoria da Beleza” exige uma leitura cuidadosa porque reúne três elementos diferentes:

  • o pensamento científico do século XIX;
  • as reflexões pessoais de Allan Kardec;
  • e o desenvolvimento de uma abordagem espiritualista sobre a beleza, a forma e o progresso.

Ignorar o contexto histórico pode conduzir ao anacronismo. Ignorar as limitações presentes em determinados trechos pode conduzir à defesa cega. Transformar uma anotação em dogma também é inadequado; descartá-la sem investigar sua relação com outros textos, igualmente.

A compreensão mais justa nasce do confronto entre documentos, princípios e método.

A Revista Espírita demonstra que Allan Kardec examinava temas científicos de seu tempo, identificava elementos aproveitáveis, rejeitava conclusões materialistas e procurava reinterpretar os fenômenos à luz da existência do Espírito, da reencarnação e do progresso.

Seus estudos sobre frenologia, fisiognomonia, cérebro e beleza revelam um pesquisador interessado em compreender como o ser espiritual se manifesta por meio do organismo. Ao mesmo tempo, os textos também carregam marcas do ambiente intelectual em que foram produzidos, o que recomenda análise crítica e não veneração automática.

A verdadeira fidelidade à Doutrina Espírita não consiste em transformar toda anotação histórica em verdade definitiva. Também não consiste em julgar o passado sem examinar seus documentos e circunstâncias.

Consiste em observar, comparar, raciocinar e reconhecer o grau de autoridade de cada fonte.

Nesse sentido, fazer justiça a Allan Kardec é respeitar sua condição de educador e investigador, sem lhe atribuir uma infalibilidade que ele próprio não reivindicou. É compreender que a Doutrina Espírita pertence aos Espíritos que a revelaram, enquanto o trabalho humano de organização, análise e divulgação deve permanecer submetido à razão, à coerência e ao progresso do conhecimento.

Quanto à beleza, talvez a conclusão mais segura seja esta:a aparência pode expressar aspectos da vida, mas não define a grandeza do Espírito. A beleza mais elevada não se mede pela forma corporal de um povo ou de um indivíduo, mas pela harmonia entre inteligência, sentimento, caráter e desenvolvimento moral.

Referências

1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita

  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris: Didier, 1857; 2ª edição, 1860. Questões 54, 76–95, 132–133, 217, 361–366, 776–802 e 803–806.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Paris: Didier, 1861.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris: Didier, 1864.
  • KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo. Paris: Didier, 1865.
  • KARDEC, Allan. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Paris: Didier, 1868. Introdução e critérios relativos às teorias e opiniões pessoais.

2. Obras complementares de Allan Kardec

  • KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Paris: 1859.
  • KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Paris: 1890. Texto “Teoria da Beleza”.

3. Fontes Externas Utilizadas

  • KARDEC, Allan. “A Frenologia e a Fisiognomonia.” Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, julho de 1860.
  • KARDEC, Allan. “A cabeça de Garibaldi.” Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, março de 1861.
  • KARDEC, Allan. “Frenologia espiritualista e espírita — Perfectibilidade da raça negra.” Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, abril de 1862.
  • KARDEC, Allan. “Teoria da Beleza.” Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, agosto de 1869.
  • RICHARD, Charles. As Revoluções Inevitáveis no Globo e na Humanidade. Obra mencionada como fonte de inspiração para o estudo “Teoria da Beleza”.
  • WANTUIL, Zêus. Nota explicativa sobre “Teoria da Beleza”, publicada em edições comentadas de Obras Póstumas.

 

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