Introdução
Entre as obras espíritas publicadas no século XX, a série atribuída ao
Espírito André Luiz, psicografada por Francisco Cândido Xavier, ocupa lugar de
destaque pela riqueza de relatos sobre a vida espiritual, a desencarnação, a
mediunidade, a reencarnação, as relações familiares e os processos de
aprendizado e transformação do Espírito.
O primeiro livro da série, Nosso Lar, foi publicado em 1944 pela
Federação Espírita Brasileira. O catálogo da própria FEB identifica André Luiz
como Espírito e Francisco Cândido Xavier como médium, registrando a obra e sua
edição original daquele ano.
A série apresenta, em forma narrativa, situações e experiências que
podem ser relacionadas a diversos princípios encontrados anteriormente na
Codificação Espírita e na Revista Espírita. O texto-base deste estudo
destaca, entre outros temas, a vida no mundo espiritual, a missão dos
Espíritos, a desencarnação, a evolução da consciência, a obsessão, a
reencarnação, a mediunidade, a lei de causa e efeito e a continuidade da vida.
Entretanto, uma comparação cuidadosa exige distinguir duas coisas:
- os
princípios gerais estabelecidos pela Doutrina Espírita,
resultantes do conjunto de comunicações estudadas, comparadas e analisadas
por Allan Kardec;
- os
relatos e ensinamentos apresentados posteriormente por meio da psicografia
de Francisco Cândido Xavier, que pertencem a uma produção mediúnica
posterior e devem ser examinados segundo os mesmos critérios de prudência,
racionalidade e coerência.
Essa distinção não diminui o valor literário, moral ou instrutivo das
obras de André Luiz. Ao contrário, ajuda a situá-las adequadamente.
A Doutrina Espírita não se fundamenta na autoridade isolada de um
Espírito, de um médium ou de um autor. Em A Gênese, ao tratar das
características da revelação espírita, encontramos a ideia de que a Doutrina
não deveria ser obra de um único Espírito nem de um único médium, mas resultar
de trabalhos coletivos sujeitos ao controle recíproco.
Assim, comparar André Luiz com a Codificação não significa simplesmente
procurar concordâncias para confirmar previamente tudo o que foi narrado.
Significa investigar em que medida determinados relatos posteriores
encontram correspondência nos princípios espíritas, em que pontos oferecem
exemplificação ou desenvolvimento narrativo e onde é necessário manter
prudência por se tratar de informações particulares.
PARTE I
— O QUE APROXIMA ANDRÉ LUIZ DA DOUTRINA ESPÍRITA
1. Dois planos de investigação diferentes
A Codificação Espírita apresenta uma estrutura fundamentalmente
doutrinária, filosófica e investigativa.
O Livro dos Espíritos estabelece princípios gerais sobre Deus, o
Espírito, a matéria, a encarnação, a desencarnação, as leis morais, a vida
futura e o progresso.
O Livro dos Médiuns examina os fenômenos mediúnicos, suas
variedades, condições de manifestação e cuidados necessários.
O Evangelho segundo o Espiritismo desenvolve as consequências
morais dos princípios espíritas.
O Céu e o Inferno examina a justiça divina e apresenta
numerosos relatos de Espíritos em diferentes condições após a morte.
A Gênese trata de questões relacionadas à criação, aos
milagres, às predições e à gênese espiritual.
A Revista Espírita, por sua vez, registra experiências,
comunicações, debates, observações e estudos realizados ao longo dos anos de
atividade de Allan Kardec.
Já os livros de André Luiz possuem outra característica. São
predominantemente narrativos. Apresentam personagens, acontecimentos,
ambientes, diálogos, experiências individuais e coletivas.
Essa diferença de natureza é fundamental.
A Codificação estabelece princípios e métodos de investigação; as obras
de André Luiz apresentam relatos e experiências particulares.
Por isso, a relação entre elas deve ser estudada sem confundir os
respectivos níveis de autoridade.
2. A vida espiritual
Um dos pontos de maior aproximação está na ideia fundamental de que a
existência não termina com a morte do corpo físico.
A Doutrina Espírita apresenta a imortalidade da alma como um dos seus
princípios essenciais. O Céu e o Inferno reúne numerosas comunicações
nas quais Espíritos descrevem condições diversas após a desencarnação,
mostrando que a situação espiritual não é idêntica para todos.
A condição do Espírito relaciona-se ao seu estado moral, aos seus
pensamentos, às suas escolhas e ao grau de progresso alcançado.
André Luiz desenvolve essa temática de maneira muito mais descritiva.
Em Nosso Lar, por exemplo, encontramos uma narrativa sobre uma
organização espiritual composta por setores de trabalho, assistência, estudo e
administração. A própria catalogação da FEB descreve a obra como um relato das
condições da vida além-túmulo e registra temas como desencarnação, lei de causa
e efeito, atividades espirituais e diferentes regiões do mundo invisível.
Essa descrição pode ser lida como uma representação narrativa de uma
determinada realidade espiritual, mas não deve ser automaticamente
convertida em uma descrição universal do mundo espiritual.
A Codificação ensina a existência do mundo dos Espíritos, sua relação
com o mundo corporal e a diversidade das condições espirituais. Isso não
significa que tenha estabelecido uma geografia espiritual detalhada nos moldes
apresentados posteriormente por determinadas obras mediúnicas.
Portanto:
- a imortalidade
do Espírito é princípio doutrinário;
- a existência
de diferentes condições espirituais encontra amplo respaldo na
Codificação;
- a descrição
específica de uma colônia, de seus ministérios, instituições ou regiões
pertence ao relato particular de André Luiz.
A distinção é importante para evitar que uma narrativa específica seja
transformada em dogma.
3. Desencarnação e continuidade da existência
Outro ponto expressivo de aproximação aparece no tratamento da
desencarnação.
Na Codificação e na Revista Espírita, encontramos comunicações de
Espíritos felizes, sofredores, arrependidos, endurecidos ou ainda ligados às
preocupações materiais. Essas experiências demonstram que a morte corporal não
produz automaticamente a mesma condição espiritual para todos.
André Luiz amplia essa temática por meio de relatos sobre o processo de
desencarnação e sobre o auxílio prestado por equipes espirituais.
Em Obreiros da Vida Eterna, por exemplo, são narradas
experiências relacionadas ao desligamento do Espírito, às dificuldades
encontradas por alguns desencarnantes e à atuação de trabalhadores espirituais.
A aproximação conceitual é evidente: a morte do corpo não significa o
fim da existência do Espírito.
Mas novamente há uma diferença de nível.
A Doutrina Espírita apresenta o princípio geral e oferece diversos
exemplos mediúnicos. André Luiz apresenta episódios particulares, com
circunstâncias, personagens e procedimentos específicos.
Por isso, o leitor espírita pode encontrar nesses relatos elementos
úteis para reflexão sem necessariamente transformá-los em descrição obrigatória
de todos os processos de desencarnação.
4. Mediunidade e intercâmbio espiritual
A mediunidade constitui outro campo importante de comparação.
O Livro dos Médiuns investiga as manifestações mediúnicas, seus
mecanismos, variedades e condições de segurança. A preocupação central é
compreender o fenômeno, reconhecer suas possibilidades e evitar enganos,
mistificações e interpretações precipitadas.
André Luiz retoma o tema em diferentes obras.
Nos Domínios da Mediunidade descreve reuniões mediúnicas, processos de
comunicação e relações entre encarnados e desencarnados.
Mecanismos da Mediunidade procura aprofundar a descrição dos processos
envolvidos nas manifestações mediúnicas, utilizando linguagem associada aos
conhecimentos científicos de seu tempo.
Essas obras podem funcionar como ilustrações narrativas de fenômenos
que a Codificação já havia estudado, mas a semelhança temática não
significa que todos os detalhes apresentados posteriormente estejam
automaticamente incorporados ao corpo doutrinário.
Essa cautela é especialmente importante quando são empregados termos
científicos ou fisiológicos.
Uma explicação apresentada em linguagem científica não se transforma,
por esse simples fato, em conhecimento científico comprovado. Da mesma maneira,
uma descrição espiritual não se transforma automaticamente em princípio
doutrinário.
O método espírita recomenda examinar cada informação segundo sua
natureza e seu grau de sustentação.
5. Obsessão e auxílio espiritual
A obsessão é outro tema no qual encontramos significativa
correspondência.
O Livro dos Médiuns trata da
obsessão, da fascinação e da subjugação, examinando suas características, seus
diferentes graus e os cuidados necessários diante desses fenômenos. A questão
da possessão
também foi objeto de investigação na Revista
Espírita, especialmente nos estudos publicados em dezembro de 1863
e janeiro de 1864, a partir do caso da senhorita Júlia. Posteriormente, o tema
foi retomado e desenvolvido em A
Gênese, capítulo XIV, no contexto das influências espirituais e dos
fenômenos de possessão. Assim, a possessão não constitui uma concepção
introduzida apenas em obras posteriores à Codificação, mas uma questão que já
havia sido observada e analisada por Allan Kardec durante o próprio período de
elaboração da Doutrina Espírita.
A Revista Espírita também apresenta diversos casos relacionados a
influências espirituais, permitindo observar diferentes situações e suas
consequências.
André Luiz desenvolve narrativas sobre processos obsessivos em Libertação,
apresentando grupos de Espíritos envolvidos em situações de sofrimento e
perturbação e descrevendo atividades de auxílio espiritual.
A aproximação é útil porque permite visualizar, por meio de histórias,
aspectos que na Codificação aparecem frequentemente em forma de análise,
diálogo ou estudo de caso.
Entretanto, expressões e estruturas organizacionais específicas
encontradas na literatura posterior devem permanecer identificadas como
elementos dessa literatura, e não como conceitos necessariamente estabelecidos
pela Codificação.
PARTE II
— REENCARNAÇÃO, PROGRESSO E OS LIMITES DA COMPARAÇÃO
6. A lei de progresso e as experiências
reencarnatórias
A lei de progresso ocupa posição central na Doutrina Espírita.
O Livro dos Espíritos apresenta o progresso intelectual e moral
como necessidade do desenvolvimento do Espírito. A pluralidade das existências
permite compreender como experiências sucessivas participam desse processo.
A Gênese também relaciona a diversidade humana e o
progresso à ideia de que os Espíritos não são criados com graus diferentes de
perfeição, mas desenvolvem-se progressivamente.
André Luiz apresenta numerosas histórias envolvendo reencarnações,
compromissos familiares, experiências educativas, consequências de escolhas
anteriores e oportunidades de reparação.
Entre a Terra e o Céu e Sexo e Destino, por exemplo,
exploram relações familiares complexas e consequências de comportamentos
desenvolvidos em diferentes experiências.
Essas narrativas tornam mais concreta a ideia de progresso por meio de
experiências sucessivas.
Entretanto, convém evitar uma interpretação determinista.
A Doutrina Espírita não apresenta a reencarnação como um mecanismo
automático no qual cada acontecimento da existência atual possa ser explicado
de maneira simples por uma ação anterior.
Há liberdade, responsabilidade, circunstâncias coletivas, influência do
meio, escolhas presentes e possibilidades de transformação.
Por isso, expressões como “tudo o que acontece foi previamente
determinado” não podem ser deduzidas simplesmente da existência da lei de
causa e efeito.
7. Causa e efeito: princípio geral e
narrativas particulares
A relação entre ações e consequências aparece repetidamente tanto na
Codificação quanto na obra de André Luiz.
Na Doutrina Espírita, a lei de causa e efeito está relacionada à
responsabilidade moral e ao progresso do Espírito. O indivíduo responde pelas
próprias escolhas e aprende com as consequências de seus atos.
André Luiz apresenta essa ideia por meio de situações concretas.
Em Ação e Reação, personagens enfrentam consequências
relacionadas a escolhas anteriores e são conduzidos a experiências de
aprendizado e reparação.
A narrativa permite visualizar uma ideia essencial: a consequência
não deve ser entendida apenas como punição, mas também como oportunidade
educativa e de reajuste.
Esse entendimento encontra correspondência no princípio espírita de
progresso.
Contudo, não se deve transformar cada episódio narrado por André Luiz em
uma fórmula geral para explicar todos os sofrimentos humanos.
Uma doença, uma dificuldade familiar, uma perda ou uma limitação não
pode ser automaticamente interpretada como consequência de determinado ato
praticado em existência anterior.
A Doutrina Espírita oferece princípios gerais, mas nem sempre fornece a
explicação individual de cada acontecimento.
Essa prudência é especialmente importante diante do sofrimento alheio.
8. Evolução da consciência
Em No Mundo Maior, André Luiz aborda questões relacionadas ao
pensamento, à consciência, ao comportamento e ao desenvolvimento moral.
Em Evolução em Dois Mundos, a narrativa procura estabelecer
relações entre processos ligados à evolução do organismo e o desenvolvimento
espiritual.
Esses conteúdos dialogam com a ideia espírita de progresso.
Entretanto, expressões como “evolução biológica e espiritual em
paralelo” devem ser compreendidas como uma formulação própria da obra e não
como uma conclusão científica ou doutrinária estabelecida pela Codificação.
A Doutrina Espírita sustenta o progresso do Espírito, mas não autoriza
simplesmente a substituir teorias científicas por descrições mediúnicas.
Da mesma forma, a ciência contemporânea pode investigar a evolução
biológica, o cérebro, a consciência e o comportamento sem que suas conclusões
constituam confirmação ou refutação automática das concepções espíritas.
São campos de investigação que podem dialogar, mas não devem ser
artificialmente confundidos.
9. A família e os vínculos entre Espíritos
A vida familiar ocupa espaço relevante tanto na Codificação quanto nas
obras de André Luiz.
O Livro dos Espíritos aborda a lei de sociedade, os vínculos
familiares, os deveres recíprocos e a importância das relações humanas para o
progresso.
André Luiz apresenta esses princípios em histórias nas quais os vínculos
afetivos assumem continuidade para além da existência corporal.
Esse aspecto pode contribuir para uma compreensão mais ampla da família.
A perspectiva espírita permite entendê-la não apenas como estrutura
biológica ou social, mas também como espaço de convivência, aprendizado,
responsabilidade e exercício do amor.
Ao mesmo tempo, os relatos não devem ser utilizados para justificar
interpretações fatalistas sobre os relacionamentos.
Nem todo conflito familiar precisa ser explicado como resultado de uma
suposta dívida anterior. A convivência atual possui valor próprio e oferece
oportunidades presentes de aprendizado e transformação.
10. O que significa dizer que André Luiz
“complementa” a Codificação?
Essa é talvez a questão central deste estudo.
É comum afirmar que André Luiz “complementa” ou “amplia” a Doutrina
Espírita. A expressão pode ser utilizada, desde que seu significado seja
cuidadosamente delimitado.
Se “complementar” significar oferecer narrativas, exemplos e
descrições posteriores que ajudam o leitor a visualizar determinados princípios,
a afirmação é razoável.
Se, porém, significar que as obras de André Luiz passaram a ocupar o
mesmo nível de autoridade doutrinária das obras fundamentais da Codificação, a
conclusão exigiria uma demonstração muito mais ampla.
A própria estrutura da revelação espírita recomenda prudência.
Em A Gênese, ao explicar a autoridade da Doutrina, é destacada a
necessidade de uma construção coletiva, envolvendo comunicações provenientes de
diferentes Espíritos, médiuns e circunstâncias, sujeitas ao controle recíproco.
Esse princípio possui uma consequência importante: a concordância de
uma única comunicação ou de uma única série de livros com a Codificação não
basta, por si só, para transformar seus conteúdos particulares em princípios
doutrinários.
É possível, portanto, estabelecer três níveis de leitura:
1.
Princípios doutrinários
São aqueles sustentados pelo conjunto
fundamental da Doutrina Espírita, como:
·
existência de Deus;
·
imortalidade do Espírito;
·
pluralidade das existências;
·
progresso dos Espíritos;
·
responsabilidade moral;
·
lei de causa e efeito;
·
comunicação entre encarnados e desencarnados;
·
necessidade do desenvolvimento moral.
2.
Desenvolvimentos e interpretações
São explicações posteriores que procuram
aprofundar ou relacionar princípios já conhecidos.
Devem ser examinadas à luz da Codificação, da
razão e da experiência.
3. Relatos
particulares
São descrições de acontecimentos, ambientes,
personagens e procedimentos apresentados por determinado Espírito através de
determinado médium.
Podem possuir grande valor instrutivo, mas não
devem ser generalizados sem fundamento suficiente.
Essa classificação permite apreciar André Luiz
sem transformar sua obra em uma segunda Codificação.
11. Convergência não significa comprovação
A comparação entre duas fontes pode revelar três situações principais.
Primeira: determinado ensinamento de
André Luiz coincide claramente com princípio já estabelecido pela Doutrina
Espírita.
Nesse caso, existe convergência.
Segunda: a obra apresenta uma
descrição mais detalhada de algo apenas genericamente abordado na Codificação.
Nesse caso, podemos falar em desenvolvimento
narrativo ou aprofundamento interpretativo.
Terceira: a obra apresenta uma
informação que não encontra correspondente suficiente nas fontes fundamentais.
Nesse caso, a posição mais coerente com o
método espírita é manter a informação no campo da hipótese, do relato
particular ou da investigação posterior.
Não é necessário aceitá-la imediatamente nem rejeitá-la de maneira
automática.
O procedimento adequado é investigar.
Essa postura preserva simultaneamente duas virtudes importantes: respeito
à experiência mediúnica e liberdade de exame.
12. O valor pedagógico das obras de André Luiz
Feitas essas ressalvas, é possível reconhecer o expressivo valor
pedagógico da série.
A FEB descreve Os Mensageiros, por exemplo, como uma obra que
apresenta experiências relacionadas à vida espiritual, ao trabalho dos médiuns
e às consequências da prática ou da negligência dos ensinamentos na vida
íntima.
Esse caráter narrativo pode facilitar a compreensão de temas que, na
Codificação, aparecem em linguagem mais conceitual.
A diferença pode ser comparada assim:
|
Codificação Espírita |
Obras de André Luiz |
|
Estabelece
princípios gerais |
Apresentam
experiências particulares |
|
Investiga
e sistematiza |
Narram e
exemplificam |
|
Prioriza
a análise |
Prioriza
a descrição |
|
Busca
princípios de validade geral |
Mostra
situações concretas |
|
Desenvolve
fundamentos doutrinários |
Explora
consequências e experiências |
|
Utiliza
perguntas, respostas, análise e comparação |
Utiliza
personagens, diálogos e narrativas |
Uma forma não precisa substituir a outra.
A narrativa pode despertar interesse e facilitar a compreensão; a
Codificação fornece os instrumentos para avaliar o significado doutrinário do
que é narrado.
13. Uma leitura espírita responsável de André
Luiz
Talvez a melhor maneira de estudar André Luiz seja evitar dois extremos.
De um lado, seria inadequado rejeitar previamente toda produção
mediúnica posterior à Codificação, como se nada pudesse contribuir para o
estudo do Espiritismo.
De outro, também seria inadequado considerar verdadeira, doutrinária e
universalmente válida toda informação apresentada em uma obra psicografada.
Entre esses extremos existe o caminho da investigação.
Podemos perguntar diante de cada afirmação:
- O
princípio encontra correspondência na Codificação?
- Há
apoio na Revista Espírita?
- Trata-se
de um princípio geral ou de um relato particular?
- A
informação é apresentada como experiência de determinado Espírito?
- Existe
concordância com outros ensinamentos independentes?
- A
afirmação é racionalmente coerente?
- Está
de acordo com os princípios fundamentais?
- Há
evidência suficiente para generalizá-la?
- Estamos
diante de conhecimento estabelecido, interpretação ou hipótese?
Esse procedimento é especialmente importante porque a própria Doutrina
Espírita não recomenda a aceitação cega das comunicações espirituais.
O método exige observação, comparação, análise e prudência.
REFLEXÃO
FINAL
A obra de André Luiz pode ser lida como uma importante produção
mediúnica posterior à Codificação, rica em narrativas sobre a vida espiritual,
a desencarnação, a mediunidade, a reencarnação, as relações familiares, o
sofrimento e o progresso do Espírito.
Muitos de seus temas encontram correspondência nos princípios
apresentados em O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O
Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno, A Gênese
e na Revista Espírita. A própria produção editorial da FEB registra Nosso
Lar, Os Mensageiros e outras obras de André Luiz como psicografadas
por Francisco Cândido Xavier, demonstrando a extensão dessa produção mediúnica.
Entretanto, a melhor homenagem ao método espírita talvez seja justamente
não transformar admiração em autoridade.
A Codificação oferece princípios, critérios e método. As obras
posteriores podem acrescentar relatos, experiências e perspectivas que merecem
estudo.
Quando existe concordância, podemos reconhecê-la.
Quando existe aprofundamento, podemos investigá-lo.
Quando existe uma informação nova, podemos examiná-la.
E quando não existem elementos suficientes para uma conclusão, podemos
simplesmente admitir que ainda não sabemos.
Essa atitude não diminui o Espiritismo. Pelo contrário, preserva uma de
suas características mais valiosas: a união entre fé e razão, permitindo que
a convicção se desenvolva sem abandonar a liberdade de pensamento e o espírito
de investigação.
Assim, talvez seja mais adequado compreender a relação entre a
Codificação Espírita e a série André Luiz não como uma simples relação de
substituição ou de acréscimo doutrinário, mas como uma oportunidade de estudo.
A Codificação fornece a base.
André Luiz oferece narrativas e experiências posteriores.
Ao leitor espírita cabe comparar, analisar, distinguir e refletir.
Desse modo, a literatura mediúnica pode ser apreciada em toda a sua
riqueza sem que se confundam princípio doutrinário, relato espiritual,
interpretação, hipótese e opinião.
Essa distinção é, ao mesmo tempo, uma forma de respeito à Doutrina
Espírita e uma expressão de confiança na capacidade humana de investigar.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. 1857.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns. 1861.
- KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1864.
- KARDEC,
Allan. O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo.
1865.
- KARDEC,
Allan. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo.
1868.
2. Obras Complementares Históricas
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris,
1858–1869.
3. Obras Subsidiárias
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. Nosso Lar.
Rio de Janeiro: FEB, 1944. (Febnet Sistemas)
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. Os
Mensageiros. Rio de Janeiro: FEB, 1944. (Febnet Sistemas)
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. Missionários
da Luz. 1945.
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. Obreiros da
Vida Eterna. Rio de Janeiro: FEB, 1946.
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. No Mundo
Maior. 1947.
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. Libertação.
1949.
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. Entre a
Terra e o Céu. 1954.
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. Nos
Domínios da Mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 1955.
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. Ação e
Reação. 1957.
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. Evolução em
Dois Mundos. 1958.
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. Mecanismos
da Mediunidade. 1960.
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. Sexo e
Destino. 1963.
- ANDRÉ
LUIZ (Espírito), psicografado por Francisco Cândido Xavier. E a Vida
Continua.... 1968.
4. Fontes Externas Utilizadas
- FEDERAÇÃO
ESPÍRITA BRASILEIRA. Biblioteca digital e catálogo bibliográfico das obras
de André Luiz psicografadas por Francisco Cândido Xavier.
- A
Gênese, capítulo I, sobre as características da revelação espírita e o
controle universal do ensino dos Espíritos. (Allan Kardec)
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