Uma frase
popular, uma questão psicológica e uma reflexão espírita sobre solitude,
convivência, solidariedade e progresso
Há frases que circulam pelas redes sociais porque parecem traduzir, em
poucas palavras, algo que muitas pessoas sentem.
Uma delas afirma, aproximadamente, que algumas pessoas evitam socializar
não porque sejam antissociais, mas porque preferem afastar-se de dramas,
comportamentos considerados inautênticos e relações desgastantes — e que esse
afastamento faria bem à saúde.
A ideia contém uma parte compreensível: nem toda convivência é
saudável e nem todo afastamento é prejudicial.
Entretanto, atribuir essa conclusão genericamente à Psicologia exige
cautela. A Psicologia e as ciências da saúde distinguem conceitos que
frequentemente são confundidos, como solitude, solidão e isolamento social.
Além disso, as evidências contemporâneas apontam que relações sociais de
qualidade e apoio social estão associados ao bem-estar e à saúde, enquanto a
solidão e o isolamento social podem estar relacionados a diversos prejuízos
físicos e psicológicos.
Portanto, a questão não parece ser simplesmente:
“É melhor estar sozinho ou estar acompanhado?”
Talvez seja necessário perguntar algo mais profundo:
Que tipo de convivência contribui para nosso equilíbrio, nosso
aprendizado e nosso progresso?
E, a partir daí, surge outra pergunta ainda mais importante:
Se a vida social é uma condição natural da existência humana, o que
aprendemos por meio das relações com os outros?
A Doutrina Espírita oferece elementos particularmente interessantes para
essa reflexão.
PARTE I
— ENTRE O AFASTAMENTO E A CONVIVÊNCIA
1. A frase parece razoável, mas precisa ser
examinada
A frase que motivou esta reflexão apresenta uma ideia sedutora: talvez
determinadas pessoas não evitem a convivência por dificuldade de
relacionamento, mas simplesmente porque perceberam que determinadas relações
lhes fazem mal.
Isso pode acontecer.
Há situações em que o afastamento é prudente e necessário:
- de
ambientes abusivos;
- de
relações destrutivas;
- de
conflitos permanentes;
- de
comportamentos que estimulam vícios ou desequilíbrios;
- de
situações nas quais não existem respeito e reciprocidade.
Afastar-se de determinada situação pode ser uma manifestação de
discernimento, e não de egoísmo.
O problema aparece quando uma conclusão particular é transformada em
regra geral:
“Se eu me sinto melhor sozinho, então estar sozinho é necessariamente
melhor para mim.”
Essa passagem não é logicamente obrigatória.
Uma pessoa pode sentir alívio ao afastar-se de determinada convivência
e, ainda assim, precisar desenvolver novas formas de relacionamento.
Por isso, o critério não deveria ser apenas o conforto.
Nem toda sensação de conforto representa necessariamente progresso,
assim como nem todo desconforto representa necessariamente um mal.
Às vezes, o afastamento proporciona o repouso necessário para
reorganizar pensamentos e emoções.
Em outras circunstâncias, porém, o afastamento pode tornar-se uma
maneira de evitar experiências que poderiam contribuir para nosso
desenvolvimento.
A diferença está na finalidade, na medida e nas consequências.
2. Solidão, solitude e isolamento não são a
mesma coisa
É importante distinguir conceitos.
Solitude
É a experiência de estar sozinho por escolha,
podendo representar:
·
descanso;
·
reflexão;
·
leitura;
·
estudo;
·
oração ou meditação;
·
criatividade;
·
autoconhecimento;
·
reorganização da própria vida.
A solitude pode ser saudável porque estar
sozinho não significa necessariamente sentir-se abandonado.
Solidão
É uma experiência subjetiva de desconexão.
Uma pessoa pode estar cercada de gente e
sentir-se profundamente sozinha.
Outra pode passar algum tempo sozinha e
sentir-se tranquila, integrada e emocionalmente amparada.
A diferença está menos na quantidade de
pessoas ao redor e mais na qualidade da experiência de conexão.
Isolamento
social
É diferente.
Trata-se da redução objetiva das relações,
contatos ou redes de apoio.
O CDC distingue justamente isolamento social de solidão: o primeiro se
refere à ausência ou escassez de relações e contatos, enquanto a segunda
corresponde à percepção subjetiva de desconexão. O órgão norte-americano também
reúne evidências associando isolamento e solidão a riscos para a saúde física e
mental.
Assim:
estar sozinho não é necessariamente estar solitário;
estar acompanhado não é necessariamente estar conectado;
e afastar-se de determinadas pessoas não significa necessariamente
afastar-se da vida social.
Essa distinção é fundamental.
3. A Psicologia não precisa ser colocada
contra a vida social
A frase popular também pode criar uma falsa oposição: ou a pessoa
preserva sua saúde afastando-se dos outros, ou convive com os outros e
prejudica seu equilíbrio.
A realidade é mais complexa.
As evidências contemporâneas sobre conexão social apontam justamente
para a importância de relações que ofereçam pertencimento, apoio, cuidado e
qualidade. O CDC afirma que conexões sociais positivas estão associadas a
benefícios para a saúde física e mental e podem contribuir para uma vida mais
longa e saudável.
Isso não significa que qualquer relacionamento seja benéfico.
O que importa é a qualidade da relação.
Uma convivência baseada em:
- respeito;
- reciprocidade;
- confiança;
- cooperação;
- liberdade;
- cuidado;
é muito diferente de uma convivência baseada em:
- manipulação;
- violência;
- humilhação;
- dependência;
- competição
permanente;
- exploração.
Portanto, não precisamos escolher entre isolamento e convivência
indiscriminada.
Existe um terceiro caminho: aprender a conviver melhor.
4. Nem toda convivência é saudável
Reconhecer a importância da vida social não significa defender qualquer
tipo de relacionamento.
Uma pessoa pode precisar estabelecer limites.
Pode precisar dizer “não”.
Pode precisar afastar-se temporariamente.
Pode precisar romper determinada relação.
Pode precisar passar algum tempo consigo mesma.
Isso também pode fazer parte do processo de amadurecimento.
A Doutrina Espírita não deve ser utilizada para justificar submissão a
situações abusivas em nome de uma suposta obrigação de “amar o próximo”.
Amar não significa permitir que alguém pratique continuamente o mal
contra nós.
A caridade inclui benevolência, indulgência e perdão, mas também
pressupõe discernimento.
Perdoar não significa necessariamente permanecer no mesmo ambiente.
Compreender alguém não significa concordar com seus atos.
Auxiliar não significa assumir responsabilidade por aquilo que pertence
ao outro.
Estabelecer limites pode ser uma forma de preservar as condições
necessárias para continuar fazendo o bem.
5. O conforto pode ser um critério
insuficiente
Existe, entretanto, uma questão mais profunda.
Se procurarmos sempre aquilo que nos proporciona maior conforto,
poderemos transformar o conforto em finalidade da existência.
E isso merece reflexão.
Aprender exige esforço.
Trabalhar exige esforço.
Conviver exige esforço.
Ouvir opiniões diferentes exige esforço.
Reconhecer nossos próprios erros exige esforço.
Perdoar exige esforço.
Ajudar alguém exige esforço.
Educar nossos sentimentos exige esforço.
Nem todo esforço produz sofrimento, evidentemente. Mas o desenvolvimento
de novas capacidades normalmente exige sair, em alguma medida, daquilo que já
dominamos.
Por isso, a pergunta espírita não precisa ser:
“Isso me deixa confortável?”
Pode ser:
“Isso me ajuda a compreender, aprender, servir e progredir?”
Essa mudança de perspectiva é significativa.
PARTE II
— A VIDA SOCIAL COMO EXPERIÊNCIA DE PROGRESSO
6. O que diz a Doutrina Espírita?
Aqui encontramos uma das passagens mais diretas da Codificação Espírita.
Em O Livro dos Espíritos, a questão 766 pergunta:
“A vida social está na natureza?”
A resposta é afirmativa: Deus fez o homem para viver em sociedade e lhe
deu as faculdades necessárias à vida de relação.
A questão seguinte aprofunda:
“É contrário à lei da natureza o insulamento absoluto?”
A resposta é igualmente direta: sim, pois todos devem concorrer para o
progresso, auxiliando-se mutuamente.
E a questão 768 apresenta a razão:
“O homem tem que progredir. Insulado, não lhe é isso possível, por não
dispor de todas as faculdades; é-lhe necessário o contato com os outros
homens.”
A conclusão é particularmente expressiva:
“Homem nenhum possui faculdades completas.”
É por meio da união social que essas faculdades se completam
reciprocamente.
Portanto, para a Doutrina Espírita, a vida social não aparece
simplesmente como uma convenção humana.
Ela possui uma função no processo de desenvolvimento do Espírito.
Isso muda significativamente a pergunta inicial.
Não se trata apenas de saber se socializar faz bem ou mal à saúde.
É necessário compreender que a convivência constitui também um campo
de experiências, aprendizagem e desenvolvimento moral.
7. O insulamento absoluto e a diferença entre
afastar-se e isolar-se
A Codificação, entretanto, é cuidadosa ao tratar do isolamento.
O problema indicado é o insulamento absoluto.
A própria questão 769 explica que o insulamento buscado como satisfação
egoísta não pode ser considerado um ideal, pois uma vida na qual a pessoa se
torna inútil aos demais contraria a finalidade da vida social.
Na questão 770, Kardec pergunta sobre aqueles que vivem em absoluta
reclusão para fugir do contato pernicioso do mundo.
A resposta chama atenção para o egoísmo envolvido quando a reclusão é
utilizada simplesmente para evitar qualquer obrigação perante os outros.
Isso não significa que todo recolhimento seja egoísmo.
Há uma diferença fundamental entre:
recolher-se para reorganizar-se
e
isolar-se para não precisar relacionar-se.
O primeiro pode ser necessário.
O segundo pode transformar-se em fuga.
Assim, não devemos confundir:
- solitude
com insulamento;
- silêncio
com abandono;
- introspecção
com egoísmo;
- prudência
com indiferença;
- limites
com rejeição da vida social.
8. A convivência como campo de aprendizado
Se ninguém possui todas as faculdades desenvolvidas, como poderemos
desenvolvê-las?
Em grande parte, justamente através da vida de relação.
É na convivência que aparecem oportunidades para:
- exercer
a paciência;
- aprender
a ouvir;
- desenvolver
a tolerância;
- praticar
a cooperação;
- reconhecer
nossas limitações;
- auxiliar
quem necessita;
- aceitar
ajuda quando precisamos;
- corrigir
comportamentos;
- aprender
com experiências diferentes das nossas;
- desenvolver
responsabilidade;
- compreender
perspectivas distintas.
O outro funciona, muitas vezes, como um espelho.
Não porque tudo aquilo que vemos nele exista necessariamente em nós, mas
porque a convivência revela nossas próprias reações.
Aquilo que alguém faz pode despertar:
- irritação;
- orgulho;
- medo;
- ciúme;
- compaixão;
- solidariedade;
- compreensão;
- desejo
de ajudar.
Cada reação pode tornar-se oportunidade de autoconhecimento.
Por isso, a vida social não é apenas o lugar onde encontramos os outros.
É também um dos lugares onde encontramos a nós mesmos.
9. Autenticidade: ser espontâneo ou educar-se?
A frase que motivou este estudo também fala de pessoas que se afastariam
porque não suportam comportamentos “não autênticos”.
Existe aí outra questão interessante.
Autenticidade é importante.
Não devemos viver permanentemente representando aquilo que não somos.
Mas existe uma diferença entre:
reconhecer quem somos hoje
e
considerar que devemos permanecer para sempre
como somos.
Se uma pessoa diz:
“Eu sou assim mesmo.”
isso pode representar autoconhecimento.
Mas também pode ser uma maneira de justificar a recusa em mudar.
A Doutrina Espírita trabalha justamente com a ideia de progresso.
Se somos Espíritos em desenvolvimento, aquilo que somos hoje não precisa
representar aquilo que seremos amanhã.
Portanto, autenticidade não deveria significar imobilidade.
Podemos ser sinceros quanto às nossas limitações e, ao mesmo tempo,
trabalhar para superá-las.
Reconhecer uma imperfeição é autoconhecimento; acomodar-se nela não é
necessariamente progresso.
10. Da vida social à solidariedade
É aqui que a reflexão pode avançar ainda mais.
A questão 132 de O Livro dos Espíritos, ao tratar do objetivo da
encarnação, afirma que o Espírito deve concorrer para a obra geral e, ao
fazê-lo, ele próprio se adianta.
A conclusão é extremamente significativa:
“Deste modo, por uma admirável lei da Providência, tudo se encadeia,
tudo é solidário na natureza.”
Essa ideia permite perceber que a solidariedade não aparece na Doutrina
Espírita como simples recomendação moral acrescentada à existência.
Ela está relacionada à própria estrutura do progresso.
O Espírito progride enquanto participa da obra geral.
Assim, podemos visualizar uma sequência:
vida social → relações → experiências → desenvolvimento das faculdades →
cooperação → solidariedade → caridade → progresso.
Não se trata de dizer que cada etapa aconteça de maneira mecânica ou
automática.
Trata-se de perceber um encadeamento de princípios.
11. Do mais simples ao mais elevado: tudo se
encadeia
A questão 540 amplia ainda mais essa perspectiva ao mostrar que os seres
participam, em diferentes níveis, do trabalho geral da criação.
A imagem apresentada por Kardec é a de uma grande cadeia de cooperação,
na qual mesmo os seres mais simples concorrem para a harmonia geral, enquanto
os Espíritos mais elevados também desempenham funções.
A ideia fundamental é esta: ninguém existe completamente separado do
conjunto.
Cada ser participa, em alguma medida, da marcha geral.
Isso não elimina a individualidade.
Pelo contrário.
O Espírito é individual e responsável por suas escolhas, mas seu
desenvolvimento ocorre dentro de uma realidade na qual os seres se relacionam e
se influenciam.
É por isso que podemos dizer: O Espírito é individual, mas não é
isolado.
Seu progresso é pessoal, porque ninguém pode progredir por ele.
Mas é também relacional, porque muitas das faculdades que precisa
desenvolver encontram na relação com os outros o campo de exercício necessário.
12. A posição de cada Espírito: alguém acima e
alguém abaixo
A questão 888-a, pela manifestação de São Vicente de Paulo, oferece uma
síntese particularmente expressiva dessa dinâmica.
O Espírito, qualquer que seja seu grau de adiantamento, esteja encarnado
ou na erraticidade, está sempre colocado:
- entre
um superior, que o guia e aperfeiçoa;
- e um
inferior, perante o qual tem deveres a cumprir.
Essa imagem possui grande força didática.
Ela mostra que ninguém ocupa eternamente apenas a posição de quem
aprende.
E ninguém ocupa eternamente apenas a posição de quem ensina.
Em determinados momentos: recebemos.
Em outros: oferecemos.
Em alguns: somos orientados.
Em outros: orientamos.
Às vezes precisamos de ajuda.
Às vezes somos nós que podemos ajudar.
Essa reciprocidade ajuda a compreender por que a vida social possui
finalidade tão profunda.
Ela não existe apenas para satisfazer necessidades materiais ou
afetivas.
Ela também proporciona oportunidades permanentes de: aprender,
ensinar, servir e cooperar.
13. A caridade como expressão consciente da
solidariedade
É nesse ponto que a questão 886 ganha importância especial.
Perguntado sobre o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a
entendia Jesus, o ensino apresentado por Kardec responde:
- benevolência
para com todos;
- indulgência
para com as imperfeições dos outros;
- perdão
das ofensas.
E acrescenta que a caridade não se restringe à esmola: ela abrange todas
as relações que mantemos com nossos semelhantes, sejam eles inferiores,
iguais ou superiores.
Isso é muito importante para nossa reflexão.
Se a caridade abrange todas as relações, então ela não pode ser reduzida
a um ato ocasional de assistência.
Caridade pode estar:
- na
maneira como falamos;
- na
maneira como ouvimos;
- na
maneira como corrigimos;
- na
maneira como discordamos;
- na
maneira como tratamos quem depende de nós;
- na
maneira como tratamos quem nos serve;
- na
maneira como tratamos quem não pode nos oferecer nenhuma vantagem.
A caridade transforma a própria convivência.
14. “Fora da caridade não há salvação”
Nesse contexto, a conhecida expressão “Fora da caridade não há
salvação” pode ser compreendida de maneira mais ampla.
Ela não precisa ser interpretada como uma espécie de senha religiosa
para obter uma recompensa futura.
Pode ser entendida como consequência lógica da própria concepção
espírita de progresso.
Se:
·
precisamos uns dos outros;
·
ninguém possui todas as faculdades
desenvolvidas;
·
a vida social proporciona oportunidades de
aprendizado;
·
o progresso exige o desenvolvimento moral;
·
a caridade abrange nossas relações com os
semelhantes;
então a caridade não é um elemento periférico
do progresso.
Ela é uma de suas expressões fundamentais.
Nesse sentido, “salvação” pode ser compreendida como libertação
progressiva da ignorância, do egoísmo e das imperfeições que dificultam nossa
felicidade e nosso desenvolvimento.
A questão 918 reforça essa compreensão ao associar o verdadeiro
progresso à prática da lei de justiça, amor e caridade na vida cotidiana. O
progresso espiritual não é apresentado simplesmente como aquisição intelectual,
mas como transformação que se manifesta nos atos.
15. O que acontece quando escolhemos nos
afastar?
Aqui aparece uma questão relacionada ao livre-arbítrio.
Podemos escolher.
Podemos aproximar-nos.
Podemos afastar-nos.
Podemos cooperar.
Podemos recusar auxílio.
Podemos utilizar nossas capacidades em benefício coletivo.
Podemos utilizá-las apenas em benefício próprio.
A liberdade permite escolhas diferentes.
Mas liberdade não significa ausência de consequências.
Se alguém voluntariamente se coloca à margem das relações humanas,
reduz, por sua própria escolha, as oportunidades de:
- aprender
com os outros;
- auxiliar;
- receber
auxílio;
- exercitar
a tolerância;
- desenvolver
a cooperação;
- experimentar
a solidariedade.
Isso não significa que essa pessoa ficará abandonada por Deus ou privada
de todo auxílio espiritual.
Significa algo mais simples: ao reduzir deliberadamente suas
relações, ela também reduz os campos de experiência através dos quais
determinadas capacidades poderiam ser desenvolvidas.
A consequência não é uma punição arbitrária.
É consequência natural da escolha.
16. A lei de Deus está na consciência
Essa ideia pode ser relacionada à questão 621 de O Livro dos
Espíritos:
“Onde está escrita a lei de Deus?”
A resposta é:
“Na consciência.”
A questão seguinte acrescenta que o ser humano havia esquecido e
desprezado essa lei, motivo pelo qual ela precisou ser lembrada.
Isso oferece outra chave para compreender o processo de progresso.
O Espírito possui liberdade para escolher, mas traz em si uma referência
moral.
Pode afastar-se temporariamente do caminho.
Pode ignorar a consciência.
Pode agir contra aquilo que já compreende ser correto.
Mas o afastamento não transforma o erro em acerto.
A liberdade permite o desvio.
A lei permanece.
E as consequências acompanham a escolha.
17. Quando o desvio produz suas próprias
consequências
A questão 1009 oferece talvez uma das passagens mais fortes para
compreender essa relação.
Na comunicação atribuída a Paulo, Apóstolo, o “castigo” é apresentado
como consequência natural decorrente do falso impulso, e não como uma
vingança divina.
A finalidade indicada é a reabilitação.
O sofrimento aparece como um possível “aguilhão” que leva a alma a
voltar-se sobre si mesma e retornar ao caminho da salvação.
Isso é coerente com a ideia de progresso.
Podemos retardá-lo.
Podemos escolher caminhos mais longos.
Podemos insistir em comportamentos que nos prejudicam.
Mas isso não significa que tenhamos eliminado a finalidade do
desenvolvimento.
Assim, podemos formular o princípio desta maneira:
O livre-arbítrio permite retardar o progresso, mas não transforma o
desvio em finalidade permanente da existência.
A própria experiência das consequências pode levar o Espírito a
reconsiderar suas escolhas.
O objetivo não é a vingança.
É a reabilitação.
18. A vida social como mecanismo natural de
progresso
Podemos agora reunir as ideias apresentadas.
A Codificação Espírita estabelece que:
1. A vida social está na natureza.
2. O insulamento absoluto contraria a finalidade da vida de relação.
3. O ser humano precisa do contato com os outros porque ninguém possui
todas as faculdades completas.
4. A união social permite que as capacidades se complementem.
5. O Espírito progride enquanto concorre para a obra geral.
6. Tudo se encadeia e é solidário na natureza.
7. A caridade abrange todas as relações com os semelhantes.
8. O progresso moral manifesta-se na prática da justiça, do amor e da
caridade.
9. O afastamento do caminho do bem produz consequências naturais.
10. Essas consequências podem favorecer a reabilitação e o retorno ao
caminho do progresso.
A partir desse conjunto, podemos compreender melhor a relação entre vida
social e desenvolvimento espiritual.
Não somos seres que vivem juntos apenas porque isso facilita nossa
sobrevivência.
Vivemos em relação porque a própria experiência de relação oferece
oportunidades de desenvolvimento.
19. O que a convivência revela sobre nós?
Talvez seja essa uma das perguntas mais interessantes.
Quando alguém nos contraria, o que surge em nós?
Quando alguém nos critica, como reagimos?
Quando alguém precisa de ajuda, qual é nossa disposição?
Quando alguém recebe aquilo que desejávamos, sentimos alegria ou inveja?
Quando alguém erra conosco, buscamos compreender ou simplesmente
condenamos?
Quando temos autoridade, como tratamos aqueles que dependem de nós?
Quando precisamos de ajuda, sabemos aceitá-la?
Essas experiências podem revelar aspectos de nós mesmos que
permaneceriam ocultos se vivêssemos completamente isolados.
Por isso, a convivência pode funcionar como uma espécie de laboratório
moral.
Não porque devamos transformar as pessoas em instrumentos para nosso
desenvolvimento, mas porque as relações naturalmente colocam em movimento
nossas capacidades, sentimentos, escolhas e responsabilidades.
20. Afinal, como escolher?
A reflexão não precisa terminar com uma defesa da socialização
permanente.
Nem todo mundo precisa ter muitos amigos.
Nem todo mundo precisa participar de grupos numerosos.
Nem toda conversa precisa ser mantida.
Nem toda relação precisa continuar.
Nem todo ambiente merece nossa presença.
E períodos de solitude podem ser extremamente importantes.
A questão é outra.
Antes de escolher o afastamento, talvez seja útil perguntar:
Este afastamento me ajuda a:
- recuperar
o equilíbrio?
- compreender
melhor uma situação?
- estabelecer
limites saudáveis?
- refletir
sobre minhas próprias atitudes?
- preparar-me
para relacionar-me melhor?
Se sim, pode ser uma forma legítima de cuidado.
Mas também podemos perguntar:
Este afastamento está servindo para:
- evitar
qualquer responsabilidade?
- fugir
de toda diferença?
- não
ouvir críticas?
- preservar
indefinidamente nossos hábitos?
- não
precisar ajudar ninguém?
- não
precisar receber ajuda?
- justificar
o egoísmo?
- evitar
experiências que poderiam contribuir para nosso amadurecimento?
Nesse caso, talvez seja necessário olhar novamente para a escolha.
O problema não está necessariamente em estar sozinho.
O problema pode estar na razão pela qual escolhemos ficar sozinhos.
REFLEXÃO
FINAL
A frase popular que deu origem a esta reflexão talvez contenha uma
pequena verdade: existem convivências que nos fazem mal, e saber estabelecer
limites pode ser uma expressão de equilíbrio.
Mas essa verdade não é suficiente para concluir que afastar-se da vida
social seja, por si mesmo, saudável ou favorável ao progresso.
A Psicologia contemporânea distingue solitude, solidão e isolamento
social, e as evidências disponíveis destacam a importância das conexões sociais
de qualidade para a saúde e o bem-estar.
A Doutrina Espírita acrescenta outra dimensão.
Para ela, a vida social é natural porque o Espírito precisa da
relação com os outros para desenvolver suas faculdades e progredir.
A questão 768 é particularmente clara: ninguém possui todas as
faculdades completas; por isso, o contato com os outros é necessário.
A questão 132 mostra que, ao concorrer para a obra geral, o Espírito
também se adianta.
A questão 888-a lembra que cada Espírito está sempre entre alguém que o
orienta e alguém perante quem possui deveres.
A questão 886 mostra que a caridade abrange todas as relações com nossos
semelhantes.
E a questão 918 relaciona o verdadeiro progresso à prática da justiça,
do amor e da caridade.
Podemos, então, compreender uma sequência:
A vida social cria relações.
As relações proporcionam experiências.
As experiências desenvolvem faculdades.
O desenvolvimento favorece a cooperação.
A cooperação desperta a solidariedade.
A solidariedade encontra na caridade sua expressão consciente.
E a caridade participa do progresso moral.
Por isso, talvez seja possível compreender de maneira mais profunda a
expressão:
“Fora da caridade não há salvação.”
Não como uma ameaça ou uma exigência religiosa arbitrária, mas como uma
síntese de uma lei de desenvolvimento.
O Espírito é livre para escolher.
Pode afastar-se.
Pode retardar seu aprendizado.
Pode insistir em comportamentos que dificultam seu próprio
desenvolvimento.
Mas as escolhas produzem consequências.
E, conforme a questão 1009, essas consequências não têm por finalidade
uma condenação eterna: podem constituir experiências que favoreçam a
reabilitação e o retorno ao caminho do progresso.
Assim, podemos retardar o progresso, mas não transformá-lo em algo
desnecessário.
Podemos afastar-nos temporariamente da convivência, mas não deixar de
pertencer à realidade de relações que constitui a própria existência.
Podemos escolher a solitude, mas não precisamos transformá-la em
isolamento.
Podemos estabelecer limites sem abandonar a solidariedade.
Podemos preservar nossa individualidade sem negar nossa responsabilidade
perante os outros.
Talvez o equilíbrio esteja justamente aí:
não viver para fugir das pessoas, nem viver
dependente delas;
não buscar qualquer convivência, mas aprender
a conviver melhor;
não evitar todo desconforto, mas discernir
quais experiências realmente nos fazem crescer;
não confundir autenticidade com imobilidade;
e não transformar o conforto pessoal em medida
absoluta do progresso.
A vida social, vista dessa maneira, deixa de ser apenas um espaço onde
encontramos pessoas.
Ela se torna também uma escola de reciprocidade.
Nela aprendemos a receber e a oferecer, a ensinar e a aprender, a
corrigir e a ser corrigidos, a perdoar e a pedir perdão, a cuidar e a aceitar
cuidados.
E talvez seja justamente por isso que ninguém progride completamente
sozinho.
O Espírito é individual, mas não é isolado.
Seu progresso é pessoal, porque ninguém pode progredir por ele.
Mas é também relacional, porque grande parte das faculdades que precisa
desenvolver encontra na convivência, na solidariedade e na caridade o campo
natural de exercício.
Referências
- O
Livro dos Espíritos, Allan Kardec — questões 132, 540,
614–621, 766–770, 886, 888-a, 918 e 1009.
- O
Livro dos Espíritos, Parte terceira — Das leis morais,
especialmente os capítulos sobre a Lei de Sociedade e a Lei de Justiça,
Amor e Caridade.
- Centers
for Disease Control and Prevention (CDC) — Health Effects of
Social Isolation and Loneliness; Social Connection. (CDC)
- American
Psychological Association (APA) — informações e pesquisas recentes sobre
solidão e conexão social. (APA)
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