Introdução
O ser humano chega à existência trazendo consigo muito mais do que
aquilo que pode ser explicado apenas pelas experiências da vida atual.
Há crianças que revelam, desde cedo, aptidões que parecem não ter sido
aprendidas na existência presente. Há pessoas que demonstram facilidade incomum
para determinadas atividades, enquanto outras manifestam disposições morais ou
intelectuais que parecem preceder a educação que receberam.
Ao mesmo tempo, todos trazemos necessidades naturais, reações
espontâneas e mecanismos relacionados à conservação da vida. Sentimos fome,
sede, medo diante de certos perigos e buscamos espontaneamente aquilo que
favorece nossa conservação. Nem tudo o que fazemos resulta, portanto, de uma
reflexão consciente.
Mas onde termina o instinto e começa a inteligência?
Uma reação espontânea é necessariamente instintiva?
Uma aptidão que se manifesta precocemente pode ser uma aquisição
anterior do Espírito?
E quando uma ideia surge em nossa mente sem que saibamos claramente de
onde veio, devemos atribuí-la exclusivamente à nossa própria atividade mental
ou admitir também a possibilidade de uma influência espiritual?
Essas perguntas aproximam temas diferentes, mas relacionados: instinto,
inteligência, ideias inatas, influência espiritual, livre-arbítrio, consciência
moral e progresso do Espírito.
A Doutrina Espírita oferece elementos para examiná-los sem reduzir uns
aos outros. O Livro dos Espíritos apresenta a inteligência como
faculdade relacionada ao pensamento, à vontade, à consciência da existência e à
possibilidade de estabelecer relações com o mundo exterior. Também distingue
inteligência e instinto, embora reconheça que ambos podem manifestar-se
conjuntamente.
Em A Gênese, Allan Kardec mostra que instinto e inteligência não
constituem simplesmente duas etapas sucessivas em que uma desaparece para dar
lugar à outra. Há situações em que os dois se manifestam simultaneamente no
mesmo ato.
Essa compreensão permite olhar a evolução do Espírito de maneira menos
simplista.
O progresso não consiste em destruir o que existe anteriormente, mas em
ampliar progressivamente a capacidade de compreender, escolher e utilizar as
próprias faculdades. O instinto pode continuar exercendo sua função natural,
enquanto a inteligência, a vontade e o livre-arbítrio ampliam o campo da ação
consciente.
Nesse processo, a consciência moral ganha importância cada vez maior.
PARTE I
— ENTRE O INSTINTO, A INTELIGÊNCIA E AS AQUISIÇÕES DO ESPÍRITO
1. O instinto: uma faculdade natural
Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta se a inteligência
é atributo do princípio vital. A resposta distingue claramente vida orgânica e
inteligência, mostrando que a inteligência constitui uma faculdade própria de
determinados seres e está relacionada ao pensamento, à vontade, à consciência
da existência e à capacidade de estabelecer relações com o mundo exterior.
Nas questões seguintes, Kardec examina especificamente a relação entre
inteligência e instinto.
O instinto é apresentado como uma espécie de inteligência que não passa
pelo raciocínio. Ele conduz os seres em determinadas circunstâncias,
especialmente no atendimento de necessidades naturais. A questão 74 esclarece
ainda que não é possível estabelecer uma separação absoluta entre instinto e
inteligência, embora seja possível distinguir os atos predominantemente
decorrentes de um ou de outra.
Em A Gênese, Kardec aprofunda essa análise.
O instinto é descrito como uma força que solicita os seres orgânicos a
atos espontâneos e involuntários tendo em vista sua conservação. Nos atos
instintivos, não há reflexão, combinação ou premeditação.
A inteligência, por outro lado, manifesta-se por atos voluntários,
refletidos, premeditados e combinados de acordo com as circunstâncias.
Essa distinção é importante porque nos permite compreender que espontaneidade
e inteligência não são necessariamente conceitos incompatíveis em todas as
situações da vida, mas que o ato instintivo, propriamente considerado, não
resulta de deliberação racional.
O instinto não precisa elaborar uma teoria sobre a conservação da vida
para cumprir sua função.
Ele atua espontaneamente.
2. Instinto e inteligência não são etapas que
simplesmente se substituem
Uma interpretação simplificada poderia representar a evolução da
seguinte maneira:
instinto → inteligência → desaparecimento do
instinto.
A Codificação não sustenta essa sequência rígida.
Na questão 75 de O Livro dos Espíritos, os Espíritos esclarecem
que o instinto existe sempre e que, nos seres dotados de consciência e
percepção, ele se alia à inteligência, isto é, à vontade e à liberdade.
A Gênese apresenta um exemplo bastante esclarecedor.
Ao caminhar, o ser humano movimenta espontaneamente as pernas sem
precisar pensar em cada movimento. Mas, quando deseja acelerar ou diminuir o
passo, desviar-se de um obstáculo ou modificar deliberadamente a direção,
intervém o cálculo, a combinação e a vontade.
No mesmo ato podem coexistir, portanto, elementos instintivos e
inteligentes.
O desenvolvimento da inteligência não significa necessariamente a
eliminação do instinto.
O que se amplia é a capacidade de compreender, dirigir e escolher
determinadas ações.
Assim, não é adequado imaginar o progresso espiritual como uma sucessão
mecânica de faculdades que se substituem.
O progresso amplia a participação consciente do Espírito em sua própria
maneira de agir.
3. O instinto não deve ser confundido com todo
impulso espontâneo
Essa distinção é especialmente importante quando analisamos o
comportamento humano.
É comum utilizarmos a palavra “instinto” para designar qualquer reação
rápida ou qualquer impressão que surge sem reflexão.
“Meu instinto me disse para não confiar naquela pessoa.”
“Meu instinto me mandou fugir.”
“Meu instinto me disse que aquilo daria errado.”
Essas expressões podem ter utilidade na linguagem cotidiana, mas não
significam necessariamente que estamos diante do instinto em seu sentido
doutrinário.
Uma reação rápida pode resultar de experiências anteriores, associações
mentais, hábitos, emoções, receios, desejos ou conhecimentos que não estejam
momentaneamente presentes na consciência.
Também pode ocorrer uma percepção equivocada.
Por isso, a espontaneidade de uma reação não basta para classificá-la
como instinto.
A Doutrina Espírita recomenda justamente que distingamos as faculdades
em vez de atribuir automaticamente uma mesma origem a fenômenos diferentes.
Isso é particularmente importante quando a palavra “instinto” é
utilizada para conferir autoridade a uma impressão pessoal.
Sentir algo intensamente não significa, por si só, que esse sentimento
tenha origem no instinto.
4. O instinto, a consciência e o chamado
instinto moral
A relação entre instinto e moralidade exige ainda maior cuidado.
O instinto orgânico está relacionado à conservação do ser e da espécie.
Ele não depende de uma deliberação moral.
Entretanto, na Revista Espírita de fevereiro de 1862, ao publicar
uma comunicação de Lázaro intitulada “Sobre os instintos”, Allan Kardec
acrescenta uma observação importante.
Kardec admite distinguir o instinto animal, relacionado à
conservação, do chamado instinto moral, entendido como uma propensão
inata para o bem ou para o mal, relacionada ao maior ou menor adiantamento do
Espírito.
Essa observação também corrige uma conclusão apresentada na comunicação.
Lázaro havia afirmado que aqueles que fossem bons e devotados apenas
instintivamente seriam moralmente inferiores por estarem sujeitos a uma espécie
de dominação cega. Kardec não concorda com essa conclusão.
Para ele, quando alguém já alcançou determinado grau de progresso, pode
fazer o bem de maneira espontânea, naturalmente, sem necessidade de longa
deliberação. Nesse caso, a bondade espontânea revela justamente uma conquista
moral realizada.
Essa observação é muito importante.
Ela impede que associemos automaticamente instinto a inferioridade
moral.
O problema moral não está na espontaneidade em si.
O que importa é a natureza da tendência e o grau de desenvolvimento
do Espírito que a manifesta.
Assim, podemos distinguir:
- o
instinto ligado à conservação orgânica;
- as
tendências e predisposições relacionadas à individualidade do Espírito;
- e a
disposição moral já incorporada ao caráter, que pode fazer o bem tornar-se
espontâneo.
A evolução moral pode chegar a um ponto em que aquilo que antes exigia
esforço deliberado passe a fazer parte natural da maneira de agir do Espírito.
5. As ideias inatas: aquilo que o Espírito
traz de suas experiências anteriores
Se o instinto não deve ser confundido com inteligência, tampouco deve
ser confundido com ideias inatas.
As questões 218 a 221 de O Livro dos Espíritos tratam de
conhecimentos e aptidões que parecem surgir sem aprendizado correspondente na
existência atual.
A questão 218 esclarece que o Espírito conserva uma vaga lembrança das
percepções e dos conhecimentos adquiridos em existências anteriores. Esses
conhecimentos não desaparecem, embora durante a encarnação permaneçam
parcialmente esquecidos. A intuição que deles subsiste pode auxiliar o
progresso.
A questão 219 relaciona determinadas faculdades extraordinárias ou
precoces ao progresso anteriormente realizado pela alma.
A questão 220 mostra ainda que uma faculdade pode permanecer adormecida
durante determinada existência e reaparecer posteriormente.
Temos, portanto, uma diferença importante: o instinto é uma faculdade
de manifestação espontânea; as ideias inatas estão relacionadas a conhecimentos
e aquisições anteriores do Espírito, dos quais pode permanecer uma intuição ou
vaga lembrança.
Não são conceitos equivalentes.
Uma criança que demonstra facilidade excepcional para música, matemática
ou determinada atividade não precisa estar manifestando “instinto”. Dentro da
perspectiva apresentada pela Doutrina Espírita, essa aptidão pode estar
relacionada a uma aquisição anterior do Espírito.
Isso também ajuda a compreender por que pessoas submetidas a
circunstâncias semelhantes podem apresentar aptidões e tendências muito
diferentes.
A existência atual não começa tudo do zero.
6. O passado não determina mecanicamente o
presente
Reconhecer a existência de aquisições anteriores não significa admitir
um destino previamente determinado.
O Espírito traz consigo experiências e aquisições, mas encontra, em cada
existência, novas circunstâncias, relações, provas, oportunidades e
possibilidades de escolha.
A questão 845 de O Livro dos Espíritos é particularmente
esclarecedora ao tratar das predisposições instintivas.
Elas podem impelir o indivíduo a determinados atos, mas não constituem
um arrastamento irresistível quando existe vontade de resistir.
Há, portanto, uma diferença fundamental entre tendência e
determinação.
Uma tendência pode exercer influência.
Uma predisposição pode tornar determinado comportamento mais fácil ou
mais difícil.
Uma experiência anterior pode favorecer determinada aptidão.
Mas a existência de uma tendência não elimina, por si mesma, a
possibilidade de trabalhar sobre ela.
O passado participa da formação das condições presentes, mas não
substitui o exercício da liberdade.
É justamente nesse espaço entre a tendência e a decisão que se
desenvolve a responsabilidade moral.
PARTE II
— INFLUÊNCIA ESPIRITUAL, LIBERDADE E TRANSFORMAÇÃO MORAL
7. Não pensamos em completo isolamento
Se o Espírito traz experiências anteriores e vive submetido às
circunstâncias da existência corporal, surge outra questão: será que todo
pensamento que surge em nossa mente é produzido exclusivamente por nós mesmos?
A Doutrina Espírita responde que não.
A questão 459 de O Livro dos Espíritos afirma que os Espíritos
exercem sobre nossos pensamentos e ações uma influência maior do que imaginamos
e que frequentemente são eles que nos dirigem.
As questões seguintes esclarecem que podemos ter pensamentos próprios e
pensamentos sugeridos.
Isso introduz uma dimensão importante na compreensão da vida mental.
Não estamos espiritualmente isolados.
Entretanto, reconhecer a influência espiritual não significa transformar
toda ideia repentina em uma mensagem recebida do mundo espiritual.
A própria Codificação recomenda prudência.
Existem pensamentos que pertencem ao próprio indivíduo e outros que
podem ser sugeridos. E nem sempre é possível, nem necessariamente útil,
determinar com precisão a origem de cada pensamento.
A questão 463 acrescenta ainda um dado significativo: o primeiro impulso
pode ser bom ou mau, conforme a natureza do Espírito.
Portanto: primeiro impulso não é sinônimo de instinto, e impulso
espontâneo também não é sinônimo de inspiração espiritual.
8. Influência espiritual não significa
ausência de liberdade
Se outros Espíritos podem influenciar nossos pensamentos e atos, onde
fica o livre-arbítrio?
A questão 843 é direta: tendo o homem liberdade de pensar, possui também
liberdade de agir. Sem livre-arbítrio, seria uma máquina.
A questão 845 complementa esse princípio ao mostrar que as
predisposições podem impelir, mas não constituem um arrastamento irresistível
quando existe vontade de resistir.
Temos, então, três elementos que precisam ser distinguidos:
influência não é imposição;
tendência não é determinação;
possibilidade não é escolha.
Uma sugestão pode ser recebida.
Uma tendência pode existir.
Uma paixão pode exercer pressão.
Uma ideia pode surgir espontaneamente.
Mas entre a possibilidade e a ação existe a faculdade de escolher.
É nesse espaço que se encontra a responsabilidade moral.
Por isso, a influência espiritual não elimina automaticamente a
responsabilidade daquele que a recebe.
9. Inspiração: discernimento sem credulidade
O Livro dos Médiuns, no item 182, trata dos médiuns inspirados e
observa que a inspiração se caracteriza pela recepção, pelo pensamento, de
ideias estranhas às concepções preconcebidas do indivíduo.
O texto chama atenção para uma dificuldade importante: quanto menos
perceptível é a intervenção espiritual, mais difícil pode ser distinguir o
pensamento próprio daquele que foi sugerido.
Essa observação recomenda equilíbrio.
Há dois extremos que devemos evitar:
“Toda ideia espontânea é minha.”
e
“Toda ideia espontânea veio de um Espírito.”
Nenhum dos dois princípios pode ser adotado como regra geral.
A própria experiência humana mostra que nossa atividade mental é
complexa. A Doutrina Espírita acrescenta a essa complexidade a possibilidade da
influência espiritual.
Mas essa possibilidade não deve servir para substituir o raciocínio.
Ao contrário.
Quanto maior a possibilidade de influência, maior deve ser nossa
capacidade de análise.
Uma ideia deve ser examinada por seu conteúdo, por suas consequências e
por sua concordância com o bem e com a razão, e não simplesmente aceita por
causa da suposta origem espiritual.
Discernimento é mais seguro do que credulidade.
10. O Espírito protetor não substitui a
consciência
A Doutrina Espírita também apresenta os Espíritos protetores como
auxiliares do nosso progresso.
A questão 491 define sua missão como semelhante à de um pai em relação
aos filhos: guiar, aconselhar, consolar e levantar o ânimo diante das
dificuldades.
Essa proteção, entretanto, não significa condução mecânica da
existência.
O Espírito protetor orienta, mas não substitui nossa escolha.
A inspiração pode sugerir, mas não transforma a sugestão em decisão.
A influência espiritual pode existir, mas a maneira como reagimos a ela
continua relacionada ao exercício de nossa liberdade.
Isso preserva duas realidades que não precisam ser colocadas em
oposição: não estamos espiritualmente isolados, mas também não somos
marionetes.
A assistência espiritual pode favorecer nosso progresso justamente
porque respeita a liberdade necessária para que o progresso seja realmente
nosso.
11. A vida social como campo de
desenvolvimento
O Espírito não evolui moralmente em completo isolamento.
A vida social coloca diante de nós pessoas diferentes, necessidades
diferentes, opiniões diferentes e situações que desafiam nossas tendências e
nossos conhecimentos.
A questão 877 de O Livro dos Espíritos ensina que a vida social
outorga direitos e impõe deveres recíprocos.
Isso possui profundo significado moral.
É na convivência que somos chamados a exercitar paciência, tolerância,
cooperação, respeito, responsabilidade, solidariedade e justiça.
O outro também pode funcionar como um espelho.
Na convivência, descobrimos aspectos de nós mesmos que talvez
permanecessem ocultos se vivêssemos isolados.
A pessoa que nos contraria pode revelar nossa intolerância.
Aquele que depende de nós pode revelar nosso egoísmo ou nossa disposição
para servir.
Aquele que pensa de maneira diferente pode testar nossa capacidade de
respeitar a liberdade de consciência.
Aquele que erra pode nos colocar diante da nossa própria necessidade de
indulgência.
A vida social, portanto, não é apenas cenário da existência.
É também campo de aprendizado moral.
12. Da convivência à transformação moral
A vida social, entretanto, não produz automaticamente evolução moral.
Podemos conviver durante muitos anos e permanecer egoístas.
Podemos acumular conhecimento e continuar intolerantes.
Podemos receber boas inspirações e não segui-las.
Podemos reconhecer nossas tendências e continuar alimentando-as.
O desenvolvimento espiritual depende, portanto, da maneira como
utilizamos aquilo que recebemos.
O instinto oferece determinadas respostas naturais.
A inteligência amplia a capacidade de compreender.
As experiências acumuladas ampliam o conhecimento.
As ideias inatas podem revelar aquisições anteriores.
A influência espiritual pode acrescentar sugestões ao campo mental.
A convivência coloca tudo isso diante de situações concretas.
Mas a escolha permanece nossa.
Por isso, a transformação moral não pode ser reduzida à aquisição de
conhecimentos.
Conhecer o bem não significa necessariamente praticá-lo.
Reconhecer uma tendência não significa necessariamente dominá-la.
Receber uma boa inspiração não significa necessariamente segui-la.
O progresso exige esforço consciente.
E, à medida que o Espírito progride, aquilo que antes precisava ser
deliberadamente escolhido pode tornar-se uma disposição espontânea de fazer o
bem.
Nesse sentido, o progresso moral não significa apenas lutar contra más
tendências.
Significa também incorporar o bem ao próprio modo de ser, até que
a prática do bem se torne cada vez mais natural.
13. Caridade: a expressão moral do
desenvolvimento
É nesse ponto que a questão 886 de O Livro dos Espíritos oferece
uma síntese moral de grande alcance.
Ao responder sobre o verdadeiro sentido da caridade ensinada por Jesus,
os Espíritos apresentam três dimensões inseparáveis:
benevolência para com todos;
indulgência para com as imperfeições dos
outros;
perdão das ofensas.
A resposta amplia ainda a caridade para as relações humanas e chama
atenção para a necessidade de evitar a humilhação daqueles que se encontram em
situação desfavorável.
A caridade, portanto, não deve ser entendida apenas como uma ação
ocasional de auxílio material.
Ela expressa uma maneira de nos relacionarmos com nossos semelhantes.
Quanto mais compreendemos nossas próprias imperfeições, mais condições
temos de compreender as imperfeições alheias.
Quanto mais aprendemos a governar nossas tendências, menos necessidade
sentimos de dominar os outros.
Quanto mais reconhecemos nossa própria necessidade de auxílio, menos
propensos ficamos a humilhar quem necessita de ajuda.
A evolução espiritual começa, assim, a adquirir expressão concreta na
vida cotidiana.
O conhecimento deixa de ser apenas informação.
A compreensão transforma-se em atitude.
A consciência moral começa a orientar a liberdade.
E a caridade passa a representar uma expressão natural do progresso
alcançado.
14. De onde partimos e para onde caminhamos
Podemos agora reunir os elementos examinados.
Não começamos pela consciência moral plenamente desenvolvida.
Temos necessidades naturais.
Possuímos instinto.
Desenvolvemos inteligência.
Adquirimos experiências.
Trazemos, segundo a Doutrina Espírita, conhecimentos e aquisições
anteriores que podem manifestar-se como ideias inatas.
Vivemos em sociedade.
Recebemos influências.
Exercemos o livre-arbítrio.
Erramos.
Aprendemos.
Recomeçamos.
E, gradualmente, somos chamados a transformar nossas escolhas.
Não há necessidade de imaginar uma sequência rígida em que uma faculdade
desaparece para que outra apareça.
O instinto permanece.
A inteligência se desenvolve.
A experiência se amplia.
A liberdade ganha maior alcance.
As tendências podem ser educadas.
A consciência moral se torna mais exigente.
E o Espírito aprende a utilizar suas próprias faculdades com crescente
responsabilidade.
Nesse processo, a transformação moral não consiste em destruir a
natureza, mas em educar a maneira de agir diante dela.
O instinto pode continuar cumprindo sua função natural.
A inteligência pode examiná-lo.
A vontade pode orientar a ação.
O livre-arbítrio pode escolher.
A consciência moral pode orientar a escolha segundo o bem que o Espírito
já consegue compreender.
E aquilo que antes exigia esforço pode, com o progresso, tornar-se uma
disposição espontânea.
É nesse sentido que podemos compreender a evolução moral: não como a
eliminação das faculdades anteriores, mas como sua integração progressiva sob a
direção de uma consciência cada vez mais esclarecida.
REFLEXÃO
FINAL
Talvez uma das maiores dificuldades do ser humano esteja justamente em
distinguir aquilo que sente daquilo que pensa, aquilo que pensa daquilo que
deseja e aquilo que deseja daquilo que deve fazer.
Nem todo impulso é instinto.
Nem toda reação espontânea é uma orientação segura.
Nem toda intuição é conhecimento.
Nem toda ideia espontânea é inspiração.
Nem toda tendência é destino.
E nenhuma influência elimina, por si mesma, a responsabilidade de
escolher.
A Doutrina Espírita apresenta o Espírito como ser em desenvolvimento,
trazendo consigo experiências anteriores, adquirindo novos conhecimentos,
convivendo com outros seres e aprendendo gradualmente a utilizar a liberdade
que possui.
Nesse caminho, o instinto não precisa ser visto como inimigo da
inteligência.
Ele possui função natural.
A inteligência amplia a capacidade de compreender.
As ideias inatas lembram que não começamos tudo do zero.
A influência espiritual mostra que também não vivemos completamente
isolados.
A vida social nos coloca diante daqueles com quem precisamos aprender.
O livre-arbítrio nos devolve a responsabilidade pela escolha.
E a caridade transforma o conhecimento adquirido em comportamento
perante os outros.
Há, portanto, uma diferença importante entre ter uma tendência e
deixar-se dominar por ela; receber uma influência e aceitá-la; perceber o bem e
praticá-lo.
O progresso do Espírito acontece justamente nesse trabalho de
transformação.
Talvez essa seja uma das grandes lições do processo evolutivo: não
basta saber de onde vêm nossas tendências; é preciso aprender o que fazemos com
elas.
O Espírito progride quando transforma experiência em compreensão,
compreensão em escolha e escolha em responsabilidade.
E, quando a responsabilidade começa a ser iluminada pelo amor ao
próximo, o conhecimento deixa de ser apenas patrimônio intelectual e passa a
participar efetivamente da transformação moral.
Assim, a consciência moral não representa simplesmente o abandono do
instinto.
Representa uma conquista maior: a capacidade crescente de utilizar a
liberdade para escolher o bem, até que o bem se torne cada vez mais natural ao
próprio Espírito.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Parte primeira, capítulo IV — “Do
princípio vital”, questões 71 a 75 — “Inteligência e instinto”.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Parte segunda, capítulo IV — “Da
pluralidade das existências”, questões 218 a 221 — “Ideias inatas”.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Parte segunda, capítulo IX — “Da
intervenção dos Espíritos no mundo corporal”, questões 459 a 463 —
“Influência oculta dos Espíritos sobre os nossos pensamentos e as nossas
ações”.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Parte segunda, capítulo IX — “Da
intervenção dos Espíritos no mundo corporal”, questão 491 — “Anjos
guardiães, Espíritos protetores, familiares ou simpáticos”.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Parte terceira, capítulo X — “Da lei
de liberdade”, questões 843 e 845.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Parte terceira, capítulo VII — “Da
lei de sociedade”, questão 877.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Parte terceira, capítulo XI — “Da lei
de justiça, de amor e de caridade”, questão 886.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns. Segunda parte, capítulo XV — “Dos
médiuns escreventes ou psicógrafos”, item 182 — “Médiuns inspirados”.
- KARDEC,
Allan. A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo.
Capítulo III — “O bem e o mal”, itens 11 a 19 — “O instinto e a
inteligência”.
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC,
Allan. O Que é o Espiritismo. Paris.
- KARDEC,
Allan. Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas. Paris.
3. Revista Espírita — Jornal de Estudos
Psicológicos
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Fevereiro
de 1862. “Sobre os instintos”. Comunicação de Lázaro e observação de Allan
Kardec.
4. Passagens bíblicas
- Mateus,
22:39 — “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
- Lucas,
6:31 — princípio da reciprocidade nas relações humanas.
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