terça-feira, 29 de setembro de 2026

FLUIDO CÓSMICO UNIVERSAL
E A COMUNICAÇÃO DOS ESPÍRITOS
- A Era do Espírito -

Uma pergunta aparentemente simples, mas que conduz a uma questão fundamental da Doutrina Espírita

Pergunta de um leitor:

“Se não houvesse o Fluido Cósmico Universal, o Espírito ficaria impossibilitado de se comunicar?”

A pergunta é interessante porque nos leva diretamente a alguns dos princípios fundamentais apresentados por Allan Kardec sobre as relações entre Espírito, matéria e fluidos.

A resposta, à luz das obras da Codificação Espírita e da Revista Espírita, é sim, quando nos referimos à comunicação dos Espíritos pelo pensamento e às manifestações em que intervêm os fluidos. E essa conclusão não depende apenas de uma dedução: há, na própria Codificação, uma afirmação bastante direta sobre o assunto.

1. O Fluido Universal e a comunicação entre os Espíritos

Em O Livro dos Espíritos, a questão 282 pergunta:

“Como se comunicam entre si os Espíritos?”

A resposta é especialmente significativa: os Espíritos se veem e se compreendem, e o Fluido Universal estabelece entre eles constante comunicação, sendo o veículo da transmissão de seus pensamentos. Kardec acrescenta a comparação com o ar, que para nós é o veículo do som, e apresenta a ideia de um “telégrafo universal” que permite aos Espíritos corresponderem-se de um mundo a outro.

Temos, portanto, uma resposta direta à pergunta do leitor: segundo a Codificação, o Fluido Universal participa essencialmente da comunicação do pensamento entre os Espíritos.

Isso merece atenção porque mostra que o Fluido Universal não deve ser entendido apenas como um recurso utilizado em fenômenos mediúnicos destinados aos encarnados. Seu papel é muito mais amplo.

Ele participa das próprias relações entre os seres espirituais.

2. O Fluido Universal como elemento intermediário

Essa compreensão se harmoniza com a questão 27 de O Livro dos Espíritos.

Ao tratar dos elementos gerais do Universo, os Espíritos apresentam Deus, Espírito e matéria como princípios fundamentais e explicam que ao elemento material deve-se acrescentar o Fluido Universal, que desempenha o papel de intermediário entre o Espírito e a matéria propriamente dita.

O mesmo ensinamento esclarece que esse fluido é suscetível de inúmeras combinações e, sob a ação do Espírito, produz uma infinidade de efeitos e formas que conhecemos apenas em pequena parte.

Há aqui uma distinção importante:

  • o espírito é o princípio inteligente;
  • a matéria constitui o elemento material;
  • o Fluido Universal situa-se entre ambos e serve de elemento intermediário;
  • sob a ação do Espírito, o Fluido Universal pode assumir diferentes estados e combinações.

Por isso, não seria adequado considerar o Fluido Universal como sendo o próprio pensamento ou a própria inteligência.

Ele é o veículo ou intermediário pelo qual determinados efeitos do pensamento podem se transmitir e se manifestar.

3. O pensamento e o fluido

A Revista Espírita desenvolve essa questão com maior profundidade.

Em março de 1866, no estudo intitulado “Introdução ao estudo dos fluidos espirituais”, Kardec observa que os fluidos espirituais desempenham papel importante em todos os fenômenos espíritas e que seu estudo exige observação, análise e coordenação dos fatos, não uma aceitação meramente sistemática.

Pouco depois, em maio de 1866, ao tratar das propriedades do fluido perispiritual, Kardec explica que esse fluido não é o pensamento do Espírito, mas o agente e o intermediário desse pensamento. Ele utiliza uma comparação bastante esclarecedora: assim como o som parece confundir-se com o ar que o transmite, o pensamento pode parecer inseparável do fluido que lhe serve de veículo.

Isso nos permite estabelecer uma distinção fundamental: o pensamento pertence ao Espírito; o fluido é o meio pelo qual determinados efeitos desse pensamento podem ser transmitidos ou manifestados.

4. E o perispírito?

O papel do perispírito torna-se especialmente importante quando passamos da comunicação entre Espíritos para as manifestações que envolvem o mundo material.

Em O Livro dos Médiuns, no capítulo dedicado à teoria das manifestações físicas, o Fluido Universal é apresentado como o agente principal das manifestações. O texto explica também que, condensado, ele constitui o perispírito, o envoltório semimaterial do Espírito.

O mesmo capítulo apresenta uma explicação muito concreta: para produzir o movimento de um corpo sólido, o Espírito combina uma parte do Fluido Universal com o fluido que o médium emite. E, devido à sua natureza etérea, o Espírito não pode atuar diretamente sobre a matéria grosseira sem um intermediário; o perispírito desempenha justamente esse papel de ligação.

Assim, nas manifestações de efeitos físicos, podemos observar uma cadeia de relações:

Espírito → vontade/pensamento → fluidos → perispírito → manifestação.

Isso não significa que todo tipo de comunicação espiritual obedeça exatamente ao mesmo mecanismo. A própria Codificação distingue diferentes modalidades de manifestação.

5. Fluido Universal e fluido vital não são a mesma coisa

O fluido vital tem sua fonte no Fluido Cósmico Universal. Podemos, portanto, compreendê-lo como uma modificação desse elemento primordial que, conservando sua natureza fundamental, adquire propriedades e funções específicas relacionadas à vida orgânica. Assim, não se trata de um elemento independente do Fluido Universal, mas de uma de suas modalidades ou modificações, cuja função específica não deve ser confundida com as demais manifestações desse princípio.

Em O Livro dos Espíritos, questão 65, os Espíritos esclarecem que o princípio vital tem sua fonte no Fluido Universal. Ele constitui o elemento que dá atividade aos seres orgânicos e, juntamente com o Espírito e a matéria, participa das condições necessárias à vida.

Na questão 70, Kardec explica que os seres orgânicos possuem uma quantidade de fluido vital que varia conforme suas necessidades e que, com a morte, o princípio vital retorna à massa de onde saiu. Isso reforça a ideia de que o fluido relacionado à vida orgânica não constitui um princípio independente, mas uma manifestação particular do elemento universal.

Podemos, portanto, compreender a relação da seguinte maneira:

  • Fluido Cósmico Universal: elemento primordial, de onde se originam as diversas modificações da matéria e dos fluidos e que, entre outras funções, atua como intermediário entre o Espírito e a matéria e como veículo da transmissão do pensamento entre os Espíritos;
  • fluido vital: modalidade ou modificação do Fluido Universal relacionada especificamente à vida orgânica, adquirindo propriedades e funções próprias dessa condição;
  • fluido perispiritual: fluido associado ao perispírito, por meio do qual o Espírito estabelece determinadas relações com a matéria e manifesta os efeitos de seu pensamento.

Assim, não estamos diante de elementos absolutamente independentes, mas de diferentes manifestações e modificações relacionadas a um mesmo princípio elementar. A diferença está principalmente nas condições em que esse princípio se apresenta e nas funções que desempenha.

Essa distinção também nos ajuda a evitar a utilização genérica da palavra “energia” para designar fenômenos diferentes. Na linguagem da Codificação, é mais preciso identificar a natureza e a função atribuída a cada elemento, sem perder de vista sua relação de origem com o Fluido Cósmico Universal.

6. E nas comunicações mediúnicas?

Nas manifestações mediúnicas, a questão dos fluidos torna-se ainda mais evidente.

A Revista Espírita de dezembro de 1864 registra uma comunicação na qual se explica que, para determinadas evocações, é necessário estabelecer uma comunicação fluídica adequada. O texto observa que os fluidos devem ser similares e que, sem essa similitude, não há comunicação possível naquele contexto.

Isso ajuda a compreender por que a comunicação mediúnica não deve ser reduzida simplesmente à transmissão mecânica de palavras.

Existe uma relação entre:

  • o Espírito comunicante;
  • seu pensamento;
  • seu perispírito;
  • o médium;
  • o ambiente fluídico;
  • e as condições de afinidade necessárias à manifestação.

A própria experiência espírita registrada por Kardec mostra que as condições fluídicas podem facilitar ou dificultar a comunicação.

7. Então, sem o Fluido Universal o Espírito poderia se comunicar?

Aqui retornamos diretamente à pergunta inicial.

Se considerarmos a comunicação entre os próprios Espíritos, a resposta da questão 282 é bastante clara: o Fluido Universal estabelece a comunicação entre eles e é o veículo da transmissão de seus pensamentos.

Se considerarmos as manifestações do Espírito sobre a matéria, a questão 27 e, de modo ainda mais específico, O Livro dos Médiuns, mostram igualmente a importância fundamental do Fluido Universal como intermediário e agente das manifestações.

Portanto, podemos dizer que: sem o Fluido Universal, conforme a estrutura apresentada pela Codificação, não haveria o meio fluídico pelo qual o pensamento dos Espíritos se transmite nem o intermediário necessário a diversas manifestações do Espírito sobre a matéria.

Isso, contudo, não significa que o Fluido Universal seja inteligente ou que seja a origem da inteligência.

O próprio O Livro dos Médiuns esclarece que, embora o Fluido Universal seja princípio elementar de todas as coisas, ele não é a fonte da inteligência: “esse fluido apenas anima a matéria”.

8. O que podemos deduzir?

Há ainda uma consequência interessante.

Na questão 36 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta se existe o vácuo absoluto no espaço universal. A resposta é negativa: aquilo que nos parece vazio está ocupado por matéria que escapa aos nossos sentidos e aos nossos instrumentos.

Isso nos ajuda a compreender por que não devemos imaginar o Universo espiritual como um espaço vazio no qual os Espíritos simplesmente existem isolados.

A própria Codificação apresenta um Universo preenchido por diferentes estados e combinações da matéria e dos fluidos, muitos dos quais estão além dos nossos sentidos e dos nossos instrumentos de observação.

Podemos, portanto, deduzir, sem transformar essa dedução em uma afirmação literal da Codificação, que o Fluido Universal possui uma importância muito mais abrangente do que aquela que normalmente lhe atribuímos quando pensamos apenas nas manifestações mediúnicas.

Ele integra a própria estrutura das relações entre o Espírito, a matéria e os diferentes fenômenos da existência.

REFLEXÃO FINAL

A pergunta do leitor aparentemente simples conduz, na realidade, a uma das ideias mais abrangentes da Doutrina Espírita.

O espírito é o princípio inteligente (O Livro dos Espíritos, questão 23). Como Espírito individualizado, é o ser que habita o Universo, além do mundo material (O Livro dos Espíritos, questão 76). Sendo assim, o Fluido Universal não é inteligência nem pensamento: é o elemento intermediário e o veículo fluídico por meio do qual se estabelecem diferentes relações e se produzem diversas manifestações.

E a Codificação é bastante explícita ao afirmar que o Fluido Universal estabelece a comunicação entre os Espíritos e transmite seus pensamentos.

Assim, a pergunta pode ser respondida afirmativamente, desde que façamos a necessária distinção: não é o Fluido Universal que pensa, deseja ou se comunica; é o Espírito. Mas, segundo a Codificação, é pelo Fluido Universal que o pensamento encontra o veículo para sua transmissão e manifestação.

Talvez seja justamente por isso que o estudo dos fluidos mereça a mesma cautela recomendada por Kardec para todos os demais temas espíritas: conhecer o que foi estabelecido, distinguir o que foi observado daquilo que foi deduzido e reconhecer honestamente aquilo que ainda não compreendemos.

Onde termina o conhecimento, começa o espaço legítimo para a investigação — não para a certeza antecipada.

Referências utilizadas

  • O Livro dos Espíritos, questões 27, 36, 65, 70 e 282. A questão 282 é particularmente central para o tema, pois trata diretamente da comunicação entre os Espíritos. (Nepe Brasil Search)
  • O Livro dos Médiuns, Segunda Parte, capítulo IV — Teoria das manifestações físicas, especialmente itens 74 e 75, sobre o Fluido Universal, o perispírito e a combinação de fluidos nas manifestações. (Bíblia do Caminho)
  • Revista Espírita, outubro de 1864 — Transmissão do pensamento. (Bíblia do Caminho)
  • Revista Espírita, dezembro de 1864 — comunicação sobre as condições fluídicas das evocações. (Febnet)
  • Revista Espírita, março de 1866 — Introdução ao estudo dos fluidos espirituais. (Nepe Brasil Search)
  • Revista Espírita, maio de 1866 — Deus está em toda parte, sobre o fluido perispiritual como agente e intermediário do pensamento. (Nepe Brasil Search)

 

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