Uma reflexão espírita sobre a continuidade da
vida, a perturbação espiritual, os vínculos afetivos e o progresso além da
existência corporal
Introdução
A morte do corpo físico costuma ser acompanhada por dúvidas, receios e
interpretações diversas. O que acontece com a consciência? A individualidade
desaparece? O Espírito reconhece imediatamente sua nova condição? Mantém as
afeições, os conhecimentos e as tendências que possuía durante a vida? Existe
sofrimento após a morte? É possível auxiliar aqueles que partiram?
A Doutrina Espírita, ao tratar dessas questões, não se limita a formular
hipóteses abstratas. Conforme a proposta apresentada em O Que é o
Espiritismo, especialmente no capítulo III — “Solução de alguns problemas
pela Doutrina Espírita” —, o estudo da situação do ser humano depois da morte
fundamenta-se na observação de manifestações e comunicações atribuídas aos
Espíritos, consideradas em diferentes condições morais, intelectuais e
circunstanciais.
Isso não significa transformar toda comunicação espiritual em verdade
automática. O próprio método espírita exige análise, comparação, prudência e
coerência com os princípios fundamentais. Entretanto, também não se deve
desconsiderar, sem exame, o conjunto de observações que pretende esclarecer a
continuidade da existência para além do corpo.
A perspectiva espírita modifica profundamente a compreensão da morte.
Ela deixa de ser entendida como aniquilamento absoluto e passa a ser
considerada uma transformação de estado: o corpo encerra suas funções
orgânicas, enquanto o princípio inteligente, individualizado como Espírito e
revestido pelo perispírito, prossegue sua trajetória evolutiva.
PARTE I
— A TRANSIÇÃO E O RECONHECIMENTO DA VIDA ESPIRITUAL
1. A morte não destrói o ser essencial
Segundo a compreensão espírita, o ser humano não é constituído apenas
pelo corpo físico. O corpo é o instrumento utilizado pelo Espírito durante a
encarnação, enquanto o perispírito atua como elemento intermediário entre o
princípio inteligente e a organização material.
Assim, a morte corresponde à cessação da vida orgânica e à separação
entre o corpo e o seu envoltório perispiritual. Não representa, portanto, a
destruição da individualidade.
A questão fundamental não é saber se o ser continua existindo, mas
compreender em que condições ocorre essa continuidade.
A separação entre o Espírito e o corpo não se processa necessariamente
de maneira instantânea. Os laços que os unem podem desfazer-se com maior ou
menor lentidão, dependendo de diversos fatores, entre os quais se destacam:
- as
condições físicas e circunstanciais da morte;
- o grau
de identificação do indivíduo com a vida material;
- seus
hábitos, pensamentos e interesses;
- sua
preparação moral e compreensão da vida futura;
- a
natureza dos vínculos que ainda conserva com a existência corporal.
A morte física, portanto, não deve ser confundida com uma passagem
uniforme, idêntica para todos.
2. A perturbação espiritual após a morte
O primeiro estado do Espírito depois da morte é frequentemente descrito
como de confusão ou perturbação. A comparação utilizada em O Que é o
Espiritismo é bastante expressiva: seria semelhante ao despertar de uma
pessoa que saiu de um sono profundo e necessita de algum tempo para compreender
onde está e o que aconteceu.
No início, o Espírito pode não reconhecer imediatamente sua situação. A
lucidez, a memória e a compreensão de sua nova condição retornam gradualmente,
à medida que se desfaz a influência da matéria e se dissipa a espécie de
neblina que obscurece seus pensamentos.
A duração desse estado varia consideravelmente. Pode restringir-se a
algumas horas ou prolongar-se por dias, meses e, em determinados casos, até
mesmo por períodos mais extensos.
A Doutrina Espírita relaciona essa duração, sobretudo, à condição moral
do indivíduo. Aqueles que durante a vida cultivaram pensamentos elevados,
desenvolveram a consciência e compreenderam a continuidade da existência
encontram maiores condições de reconhecer sua situação. Já os que viveram
exclusivamente voltados aos interesses materiais podem experimentar maior
dificuldade de adaptação.
Isso não deve ser interpretado como uma punição arbitrária, mas como
consequência natural da própria estrutura psicológica e espiritual construída
durante a existência corporal.
3. A influência dos hábitos e da consciência
A passagem para a vida espiritual não transforma automaticamente o
indivíduo em alguém diferente daquele que era.
O Espírito conserva, em linhas gerais, suas tendências, seus
conhecimentos, seus sentimentos e o nível de desenvolvimento alcançado. A morte
não elimina instantaneamente o orgulho, o egoísmo, a ambição, os apegos ou os
conflitos íntimos.
Por essa razão, a condição moral cultivada durante a vida exerce
influência significativa sobre o despertar espiritual.
Para o indivíduo de consciência tranquila, a transição pode
assemelhar-se a um despertar pacífico. Para aquele que reconhece em si mesmo
graves conflitos morais, a tomada de consciência pode provocar ansiedade,
angústia e sofrimento.
A questão não está em uma sentença exterior aplicada mecanicamente, mas
no encontro do Espírito consigo mesmo.
A consciência, que muitas vezes pode ser abafada pelas distrações da
vida material, torna-se progressivamente mais lúcida quando o indivíduo já não
dispõe dos mesmos recursos para fugir de sua realidade interior.
4. A sensação de libertação do corpo
Embora a transição possa ser acompanhada de perturbação, também são
descritas sensações de alívio e bem-estar.
O Espírito que sofreu dores físicas durante a enfermidade pode
experimentar grande alívio ao deixar o corpo. A libertação das limitações
orgânicas pode ser comparada à sensação de alguém que se vê livre de um fardo
pesado ou de correntes que restringiam seus movimentos.
Essa percepção não significa que todos os Espíritos vivenciem a morte da
mesma forma. As circunstâncias são variáveis. A morte natural, a morte
violenta, o suicídio, os acidentes e outras situações podem produzir
experiências distintas, especialmente quando consideradas em conjunto com o
estado moral do indivíduo.
A observação espírita, nesse ponto, não autoriza generalizações
simplistas. A morte pode ser tranquila para uns, confusa para outros e
profundamente perturbadora em determinadas circunstâncias.
5. Novas percepções além dos órgãos corporais
Depois da separação do corpo, o Espírito conserva faculdades
perceptivas, mas já não depende dos órgãos físicos da mesma maneira.
Ele pode ver e ouvir, porém suas percepções não estão limitadas à
capacidade dos sentidos corporais. Passa a experimentar sensações que, para o
encarnado, são difíceis de compreender, porque a experiência terrestre está
condicionada ao cérebro e aos órgãos materiais.
Isso não significa que o Espírito adquira instantaneamente conhecimento
absoluto ou percepção ilimitada. Suas faculdades continuam relacionadas ao seu
grau de desenvolvimento.
A condição espiritual amplia possibilidades, mas não elimina
automaticamente as limitações morais e intelectuais.
6. A individualidade permanece depois da morte
Uma das consequências mais importantes da continuidade da vida é a
preservação da individualidade.
Se, após a morte, a alma se dissolvesse em uma espécie de consciência
universal e perdesse toda identidade própria, a existência individual deixaria
de possuir significado real. Não haveria distinção entre o sábio e o ignorante,
o justo e o criminoso, o amoroso e o egoísta.
Nesse caso, as consequências morais dos atos perderiam sua razão de ser,
pois todas as experiências individuais acabariam anuladas em um todo
indiferenciado.
A Doutrina Espírita, ao contrário, considera que cada Espírito conserva
pensamento, vontade, sentimentos, lembranças e características próprias. As
manifestações espíritas, quando submetidas a exame criterioso, apresentam
diferenças de linguagem, conhecimento, caráter e disposição moral, indicando
que não se trata de uma massa homogênea de consciência.
O perispírito também participa dessa individualização. Ele constitui o
envoltório fluídico que acompanha o Espírito e contribui para sua condição de
ser distinto.
A morte modifica o estado de manifestação, mas não elimina a pessoa
espiritual.
7. O equívoco da dissolução da alma no todo
universal
Algumas concepções admitem a existência de um princípio inteligente
universal do qual cada indivíduo receberia uma parcela durante o nascimento,
devolvendo-a posteriormente à massa comum após a morte.
Embora essa ideia procure afastar o materialismo absoluto, ela não
preserva efetivamente a individualidade. Se a consciência pessoal desaparece no
todo, o resultado prático se aproxima do nada, pois deixam de existir sujeitos
capazes de recordar, aprender, amar, reparar e progredir.
A continuidade da vida, para possuir consequências morais, exige a
permanência do ser individual.
A existência espiritual não consiste em uma fusão que anula a
personalidade, mas em uma condição na qual os Espíritos continuam sendo
individualidades, relacionando-se uns com os outros e avançando em diferentes
graus de desenvolvimento.
8. A influência do gênero de morte
O gênero de morte pode interferir no processo de desligamento e na
compreensão da nova realidade.
Na morte natural, especialmente quando precedida por enfermidade
prolongada, o desprendimento pode começar antes mesmo da cessação completa das
funções orgânicas. Em determinadas situações, a separação ocorre de modo
relativamente tranquilo.
Nas mortes violentas, por outro lado, o Espírito pode ser surpreendido
pela brusca interrupção da existência corporal. Como continua pensando, vendo e
ouvindo, pode não compreender imediatamente que está desencarnado.
Em certos casos, chega a acreditar que continua vivo fisicamente.
Observa o próprio corpo, aproxima-se de familiares e amigos, tenta comunicar-se
e se surpreende por não ser percebido.
Essa ilusão pode persistir até que o desprendimento se complete e o
Espírito reconheça sua nova condição.
Entretanto, não se deve concluir que toda morte violenta produza
necessariamente a mesma experiência. A condição moral, o grau de compreensão e
os hábitos do indivíduo continuam sendo fatores importantes.
9. A erraticidade não é abandono
Após a morte, o Espírito não se perde na imensidade do Universo. Entra
no estado denominado erraticidade, expressão utilizada para designar a condição
dos Espíritos não encarnados durante os intervalos entre existências corporais.
A erraticidade não representa, por si só, inferioridade moral. Nela se
encontram Espíritos de diferentes graus evolutivos, com exceção dos Espíritos
puros, que não necessitam mais passar por encarnações expiatórias ou
provacionais.
O Espírito pode permanecer próximo de lugares, pessoas e ambientes com
os quais possui afinidade. Pode também deslocar-se para regiões ou planos
compatíveis com sua condição e suas necessidades.
A vida espiritual não é um vazio sem relações. Ela envolve convivência,
aprendizado, trabalho, assistência e preparação para novas experiências.
PARTE II
— AFETOS, PROGRESSO, RESPONSABILIDADE E AUXÍLIO ESPIRITUAL
10. A conservação dos vínculos afetivos
A morte não destrói necessariamente os laços construídos pelo amor.
O Espírito conserva as afeições morais que correspondem à sua natureza
mais profunda. O carinho, a amizade, a gratidão e os sentimentos sinceros podem
continuar existindo além da separação física.
Por isso, segundo os ensinamentos espíritas, os Espíritos sentem
satisfação ao reencontrar familiares e amigos que os precederam na vida
espiritual. Também se alegram quando percebem que são lembrados com carinho e
respeito.
Isso não significa que todos os vínculos terrestres permaneçam
inalterados. Relações baseadas exclusivamente na posse, no interesse, no ciúme
ou na dependência material podem perder sua força quando desaparecem as
circunstâncias que as sustentavam.
O amor genuíno permanece; os apegos puramente materiais tendem a perder
significado.
11. O reencontro com familiares e amigos
O mundo espiritual é apresentado como ambiente de reencontros. O
Espírito pode reencontrar não apenas aqueles que conheceu na existência
imediatamente anterior, mas também companheiros de experiências precedentes.
Essa perspectiva amplia a compreensão da família. Os vínculos
espirituais não se limitam à consanguinidade ou à duração de uma única
encarnação.
Alguns Espíritos mais afeiçoados podem receber e auxiliar aquele que
desencarna, contribuindo para que se liberte gradualmente das impressões
terrestres.
Entretanto, o reencontro não deve ser compreendido como mecanismo
automático e indiferente à condição moral. Os Espíritos aproximam-se segundo
suas afinidades, seus compromissos e suas possibilidades de auxílio.
A vida futura não elimina a responsabilidade individual, mas oferece
novas oportunidades de amparo e aprendizado.
12. A situação das crianças que desencarnam
A morte de uma criança costuma despertar profunda perplexidade. Como
compreender que alguém que viveu poucos dias ou anos possa receber uma
destinação espiritual definitiva, como se tivesse tido tempo suficiente para
construir sua condição moral?
A Doutrina Espírita considera que o Espírito não começa a existir no
momento do nascimento. A encarnação representa uma etapa de sua trajetória
anterior e posterior.
O corpo infantil possui órgãos ainda em desenvolvimento, o que limita a
manifestação plena das faculdades do Espírito durante a vida corporal. Depois
da desencarnação, porém, o Espírito recupera as faculdades que possuía antes da
encarnação, de acordo com seu grau evolutivo.
Assim, uma criança desencarnada pode ser, espiritualmente, um ser muito
mais experiente do que sua breve existência terrestre permitiria supor.
Essa compreensão também se relaciona ao princípio da pluralidade das
existências, que oferece uma interpretação racional para as diferenças de
condições entre indivíduos que, aparentemente, tiveram oportunidades muito
desiguais.
13. A morte não concede conhecimento
instantâneo
A entrada no mundo espiritual não transforma automaticamente o ignorante
em sábio.
A diferença entre o Espírito de uma pessoa instruída e o de alguém sem
desenvolvimento intelectual ou moral pode continuar existindo depois da morte,
assim como existia durante a encarnação.
O desencarne retira o Espírito das limitações corporais, mas não lhe
oferece, por si só, conhecimentos que não procurou adquirir.
A vida espiritual amplia o campo de observação e proporciona novas
oportunidades de aprendizado, porém o progresso depende do esforço, da vontade
e da disposição para compreender e melhorar.
A morte não é uma formatura automática. É uma mudança de ambiente e de
condição, não a conclusão definitiva do processo evolutivo.
14. O progresso continua depois da morte
O progresso espiritual pode ocorrer tanto durante a encarnação quanto
nos intervalos entre as existências corporais.
Alguns Espíritos avançam rapidamente; outros permanecem estacionários
por determinado período, conservando interesses, hábitos e tendências que
possuíam na Terra.
A vontade exerce papel essencial nesse processo. O Espírito que deseja
melhorar encontra oportunidades de instrução, reflexão, trabalho e reparação.
Aquele que se mantém preso às antigas paixões pode retardar seu
desenvolvimento.
Entretanto, o aprendizado espiritual não substitui a experiência
corporal. Muitas conquistas precisam ser colocadas em prática no contato com as
dificuldades, os relacionamentos e as responsabilidades da vida material.
Por isso, a encarnação não deve ser vista apenas como sofrimento ou
expiação. Ela também é campo de aplicação, exercício e comprovação das
aquisições realizadas.
15. A justiça divina não fixa irrevogavelmente
a sorte de ninguém
A ideia de uma destinação eterna e imutável imediatamente após a morte
não se harmoniza com a justiça e a bondade divinas apresentadas pela Doutrina
Espírita.
Os indivíduos desencarnam em idades diferentes, com níveis variados de
esclarecimento e em condições morais muito distintas. Muitos não tiveram
oportunidades suficientes de aprender, reparar erros ou desenvolver plenamente
suas capacidades.
Se a sorte espiritual fosse fixada definitivamente no momento da morte,
haveria situações incompatíveis com a justiça divina: crianças que mal
começaram a viver, pessoas privadas de instrução e indivíduos que poderiam
transformar-se caso tivessem mais tempo.
A continuidade das existências oferece a possibilidade de progresso,
reparação e novas experiências.
A justiça divina não se confunde com condenação irreversível. Ela se
manifesta por meio de consequências educativas e oportunidades proporcionais às
necessidades de cada Espírito.
16. A lei de causa e efeito e as consequências
morais
A Doutrina Espírita apresenta os sofrimentos espirituais não como penas
arbitrárias impostas por uma autoridade exterior, mas como consequências
relacionadas às imperfeições, escolhas e atitudes do próprio Espírito.
O indivíduo que cultivou o ódio pode permanecer preso às consequências
desse sentimento. Aquele que viveu dominado pela avareza pode continuar ligado
aos bens que acumulou. Quem se deixou conduzir por paixões materiais pode
sofrer ao perceber que já não dispõe dos meios físicos para satisfazê-las.
Em determinadas situações, a própria falta se converte em fonte de
sofrimento.
Isso não significa que toda narrativa particular deva ser aceita sem
exame ou que seja possível determinar, de maneira simplista, a causa espiritual
de qualquer sofrimento. A compreensão das consequências morais exige prudência,
respeito e análise individual.
O princípio geral, porém, é claro: ninguém se liberta interiormente
apenas pela mudança de ambiente. É necessário transformar as disposições que
produzem desequilíbrio.
17. O sofrimento espiritual não é uniforme
Não existe, segundo essa perspectiva, uma condição única e padronizada
para todos os Espíritos.
Os sofrimentos variam conforme:
- a
natureza das faltas cometidas;
- o grau
de consciência alcançado;
- a
intensidade do arrependimento;
- o
apego às paixões materiais;
- a
disposição para reparar o mal;
- a
compreensão das próprias responsabilidades.
Da mesma forma, os gozos espirituais apresentam diferentes graus. A
felicidade não é um estado passivo, monótono ou exclusivamente contemplativo.
O Espírito encontra satisfação no conhecimento, no amor, na ausência de
paixões inferiores e, principalmente, na possibilidade de ser útil.
18. A vida espiritual é atividade e serviço
Se os Espíritos passassem a eternidade ocupados apenas consigo mesmos, a
vida espiritual se reduziria a uma forma de egoísmo permanente.
A Doutrina Espírita descreve, ao contrário, uma realidade dinâmica, na
qual os Espíritos recebem ocupações e missões proporcionais ao seu grau de
adiantamento.
Os mais desenvolvidos trabalham pelo progresso dos demais, colaboram na
harmonia universal e encontram felicidade no serviço.
Essa concepção oferece uma consequência moral importante para a
existência terrestre: ninguém deve imaginar que a evolução consiste em buscar
uma felicidade isolada, distante das necessidades dos outros.
O progresso individual está relacionado à contribuição que cada ser
oferece ao conjunto.
A vida futura não representa uma aposentadoria da responsabilidade. É
continuidade do aprendizado e ampliação das possibilidades de servir.
19. A prece como expressão de solidariedade
A prece pode ser útil aos Espíritos sofredores, não como fórmula mágica
ou imposição exterior, mas como manifestação sincera de interesse, compaixão e
desejo de auxílio.
Quando alguém ora por um Espírito em sofrimento, transmite uma forma de
apoio moral. O Espírito pode sentir-se lembrado, amparado e estimulado ao
arrependimento e à transformação.
Entretanto, a prece não substitui a vontade daquele que recebe o
auxílio. Ela pode favorecer, encorajar e aliviar, mas o progresso depende
também da cooperação do próprio Espírito.
Essa compreensão evita tanto o ceticismo absoluto quanto o automatismo
religioso. A prece possui valor quando associada à sinceridade, à caridade e à
disposição íntima de beneficiar.
20. O que a compreensão da morte modifica em
nossa vida?
Estudar a vida depois da morte não deveria alimentar curiosidade vazia
nem estimular a busca indiscriminada por comunicações espirituais.
Seu principal valor está nas consequências que produz sobre a existência
presente.
Se a individualidade continua, nossas escolhas possuem continuidade.
Se os afetos sinceros permanecem, devemos cultivar relações baseadas no
respeito e no amor.
Se o conhecimento não surge automaticamente após a morte, precisamos
aproveitar a encarnação para estudar e aprender.
Se as imperfeições continuam conosco, não basta mudar de ambiente: é
necessário promover transformação íntima.
Se o progresso prossegue além do túmulo, não existe razão para o
desespero, mas também não há justificativa para a acomodação.
A compreensão espírita da morte não convida à negligência da vida
corporal. Ao contrário, atribui-lhe maior responsabilidade, pois cada
pensamento, sentimento e atitude participa da construção do ser que
continuaremos sendo.
21. A contribuição dos estudos contemporâneos
e a prudência necessária
Atualmente, pesquisas sobre experiências de quase-morte, consciência,
memória, estados alterados de percepção e processos relacionados ao fim da vida
despertam interesse em diferentes áreas científicas.
Esses estudos podem contribuir para ampliar o conhecimento sobre a
experiência humana diante da morte, mas não devem ser apresentados
automaticamente como comprovação definitiva de todos os princípios espíritas.
É necessário distinguir:
- relatos
subjetivos e sua interpretação;
- hipóteses
científicas ainda em investigação;
- evidências
experimentais reproduzíveis;
- interpretações
filosóficas;
- princípios
estabelecidos pela Doutrina Espírita;
- conclusões
que permanecem abertas ao exame.
O Espiritismo valoriza a observação e a razão. Por isso, não precisa
transformar toda descoberta contemporânea em confirmação doutrinária, nem
rejeitar previamente fenômenos que mereçam investigação.
A atitude coerente é estudar com interesse, comparar informações,
reconhecer limites e evitar conclusões precipitadas.
REFLEXÃO
FINAL
A morte do corpo não representa o fim do ser inteligente. Segundo a
Doutrina Espírita, o Espírito conserva sua individualidade, suas aquisições,
seus afetos e suas tendências, prosseguindo em uma realidade na qual o
desenvolvimento moral e intelectual continua sendo necessário.
A passagem pode envolver perturbação, alívio, reconhecimento gradual ou
sofrimento, conforme as circunstâncias da morte e, sobretudo, a condição
construída durante a existência corporal.
A vida espiritual não transforma automaticamente o indivíduo, não
elimina suas imperfeições nem lhe concede conhecimentos que não buscou
adquirir. Ela oferece, porém, novas condições para compreender, reparar,
aprender e progredir.
Essa visão também modifica a maneira de encarar os que partiram. A
separação física não significa necessariamente ruptura dos vínculos afetivos. O
amor sincero pode continuar sendo fonte de reencontro, amparo e esperança.
Ao mesmo tempo, a compreensão da vida futura não deve servir para
alimentar o medo, a passividade ou a fuga das responsabilidades presentes. Se
continuaremos sendo, depois da morte, aquilo que estamos construindo agora,
então cada dia representa uma oportunidade de melhorar.
A verdadeira preparação para a morte não consiste em decorar descrições
do mundo espiritual, mas em desenvolver consciência, conhecimento,
solidariedade e caridade.
A morte pode interromper a existência corporal, mas não interrompe o
processo de evolução. O ser prossegue, levando consigo não os bens materiais
acumulados, mas aquilo que efetivamente incorporou à própria individualidade.
Referências
1. Obras Fundamentais da Codificação Espírita
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Livro Segundo, capítulos I, VI, VII e X;
questões 155, 155-a, 165, 197 a 199-a, 558 e seguintes, 664 e 851 e
seguintes.
- KARDEC,
Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Introdução e capítulo XV — “Fora
da caridade não há salvação”.
- KARDEC,
Allan. O Livro dos Médiuns. Segunda parte, capítulo XXXII — “Vocabulário
Espírita”.
2. Obras complementares de Allan Kardec
- KARDEC,
Allan. O Que é o Espiritismo. Capítulo III — “Solução de alguns problemas
pela Doutrina Espírita”, especialmente “O Homem depois da morte”, a partir
do item 144.
- KARDEC,
Allan. Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas. Vocabulário
Espírita — verbete “Erraticidade”.
3. Obras Complementares Históricas
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, setembro
de 1859. “Morte de um espírita”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, outubro
de 1860. “O despertar do Espírito”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, maio de
1862. “Exéquias do Sr. Sanson”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, novembro
de 1860. “Relação afetuosa dos Espíritos”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, maio de
1862. “Relações amigas entre vivos e mortos”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, janeiro
de 1858. “Mamãe, aqui estou!”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, dezembro
de 1859. “Efeitos da prece sobre os Espíritos sofredores”.
Referências
da Revista Espírita relacionadas às consequências morais e ao progresso
espiritual (Para os estudiosos da Doutrina Espírita)
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, março de
1858. “O assassino Lemaire”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, junho de
1858. “O suicida da Samaritana”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, dezembro
de 1858. “Sensações dos Espíritos”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, junho de
1859. “O pai Crépin (César)”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, fevereiro
de 1860. “Estelle Régnier (ou Riquier)”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, agosto de
1860. “O suicida da rua Quincampoix”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, outubro
de 1860. “O castigo”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, dezembro
de 1860. “Entrada de um culpado no mundo dos Espíritos”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, dezembro
de 1860. “Castigo do egoísta”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, fevereiro
de 1861. “Suicídio de um ateu”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, setembro
de 1861. “A pena de talião”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, março de
1858. “A rainha de Oude”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, maio de
1858. “O Espírito e os herdeiros”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, julho de
1858. “O tambor da Béresina”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, dezembro
de 1859. “Um antigo carreteiro”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, outubro
de 1860. “Progresso dos Espíritos”.
- KARDEC,
Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Paris, abril de
1861. “Progresso de um Espírito perverso”.
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